Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

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terça-feira, 22 de outubro de 2013

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The issues with the payments from Macau are solved... I did yesterday a donation to another campaign here in gofundme.com with a Macau visa card with no problems. Just follow the instructions, input the card and security numbers...and the amount...email, and that's it...You will receive then an email to confirm the donation...and it's done!
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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Enfermeiros em apuros?


 
A MEMÓRIA de Macau é curta, mas só para algumas coisas.

Lembram-se daquela senhora que para ganhar votos e ter visibilidade na campanha eleitoral se lembrou de atacar directamente os profissionais da Saúde de origem portuguesa, dizendo que a sua contratação colocava em perigo a vida dos pacientes chineses?
Pois agora essa senhora é deputada! Ou que raio isso quererá significar em Macau, visto que foi eleita por uma lista da qual nada se espera, a não ser dizer que «sim» a tudo o que o Governo e Pequim ordenarem. A nova deputada na primeira oportunidade, e quando confrontada pela sua famosa afirmação de pré-campanha, que certamente lhe rendeu mais umas centenas de votos e que a ajudou na eleição para o poleiro no Hemiciclo, apressou-se a desmentir tudo o que havia dito. Como boa artista política que é, ou deve ser porque a experiência ainda é quase nula, deu o dito por não dito. Começa bem! Afinal não é isso que os políticos fazem? Na campanha prometem uma coisa e quando chegam ao almejado lugar logo se esquecem. A verdade é que as afirmações ficaram gravadas e ninguém as pode apagar, por muito que a sua autora se desdobre em explicações.
Wong Kit Cheng diz-se mal interpretada e explicou – aqui cito o Jornal Tribuna de Macau para não ser também eu mal interpretado – «concordo com a medida da contratação. Mas tem de haver um bom mecanismo de importação e de saída, e depois podemos decidir se é preciso contratar profissionais estrangeiros ou não». Uma ideia muito aquém das declarações de Julho à Imprensa chinesa, durante a época de pré-campanha: «A contratação de enfermeiros em Portugal é uma medida inadequada devido a barreiras culturais. (…) Servir os doentes é a principal função dos enfermeiros e a comunicação é muito importante e, para assegurar a qualidade desta comunicação, os enfermeiros necessitam de conhecimentos em Chinês, tanto orais como escritos (…); a maioria dos residentes só fala Chinês, pelo que há uma barreira linguística durante o serviço[dos enfermeiros portugueses] que é intransponível (…); a enfermagem passa por não só cuidar da saúde dos doentes mas também por dar apoio psicológico e verbal aos mesmos, duvido que os enfermeiros portugueses consigam oferecer bons serviços em Macau. (…) A contratação de enfermeiros portugueses poderá colocar em risco a vida dos cidadãos». Depois de ser eleita para o assente quentinho do Plenário dos Lagos Nam Van mudou o discurso.
Já aquando das afirmações eleitoralistas de Wong Kit Cheng manifestei preocupação, não sendo o único a protestar e a fazer entender que a «madame» deveria ser chamada à razão sobre o assunto dos enfermeiros. Aliás, a associação dos enfermeiros portugueses, assim como os próprios Serviços de Saúde, veio a público repudiar o que a então «normal» cidadã havia aludido. A minha consternação não era tanto pelo teor, que roçava o xenófobo, mas pelo facto de virem de uma pessoa que ocupa uma posição de destaque na comunidade local. Não nos esqueçamos que Wong Kit Cheng, antes de ser deputada, é vice-presidente da Associação Geral das Mulheres de Macau (www.macauwomen.org.mo), a associação mais poderosa em termos sociais e das mais influentes na vida social e política do território, visto dela fazerem parte todas as esposas e outros membros femininos das famílias dos detentores dos mais altos cargos políticos da RAEM. Assim como a maior parte dos membros femininos dos maiores grupos empresariais alinhados com Pequim, que controlam a economia de Macau. Tina Ho, a sua presidente, antiga deputada e uma das empresárias mais influentes, é um bom exemplo, assim como a vice-presidente do Conselho Executivo, a actual directora dos Serviços de Turismo, Helena de Senna Fernandes, que tanto apregoa a favor dos laços portugueses, mas depois deixa cair projectos ligados a essa mesma Lusofonia, como o caso do restaurante da Casa de Portugal – só para citar um, porque existem outros.
É chegado o momento da comunidade lusa ficar em alerta, porque os sinais começam as ser cada mais. Esperemos que as afirmações da senhora deputada sejam isso mesmo: apenas afirmações.

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After 5 days of the donation campaign we reached almost 1000, thank you to all the ones who support this project!

Cinco dias da campanha de donativos e estamos quase com 1000, obrigado a todos os que apoiam esta iniciativa!
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Joao Gomes has sent you a message

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Joao says...
Our plan is to set sail in January to visit all the Portuguese speaking countries and territories (including Macau - where we live, Goa, Daman, Diu and Malacca).
Everything is being supported by our own funds since no private or Government help was granted.
If you want to help, just join us in this adventure and share our dream of a better world.
500 years ago the Portuguese sailors discovered the routes to Asia, opening a new era in the sea travelling. Today we plan to celebrate that and to help promote the Portuguese culture and the friendship between all nations.
You can see our details and information about the voyage in our blog www.sailingdee.com, just choose the language on top of the page.
Can also follow us in our Facebook page
www.facebook.com/sailingdee


--Portugus--


O nosso plano partir em Janeiro para visitar todos os pases e territrios lusfonos (inclundo Macau - onde vivemos, Goa, Damo, iu e Malaca).
Todo o projecto est a ser suportado pelos nossos prprios meios visto que no houve qualquer apoio privado ou governamental.
Se quiserem ajudar, juntem-se a ns nesta aventura e partilhem do nosso sonho de um mundo melhor.
H 500 anos os Descobridores Portugueses encontraram a rota para a sia e deram incio a uma nova era nas viagens martimas. Hoje planeamos celebrar isso e ajudar a promover a cultura Lusfona e a amizade entre todos os povos.
Podem ver mais informaes sobre ns e o nosso projecto no nosso blogue www.sailingdee.com, escolham a lngua preferida no topo da pgina.
Podem tambm seguir-nos na nossa pgina do Facebook
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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O «rigor» da Macao Water

A MACAO Water, à semelhança de todos os outros fornecedores de serviços públicos, actua com a postura do «quero, posso e mando», deixando o utente completamente dependente das suas vontades e sem qualquer forma de recorrer das decisões tomadas.

Não me querendo debruçar sobre o completo desrespeito pela língua portuguesa, quer nas suas instalações, quer na página da Internet, onde a língua de Camões é tratada «abaixo de cão», quero apenas referir vários casos que se têm registado na minha zona, inclusivamente comigo. Aliás, é do meu caso que agora escrevo, dado que as várias tentativas de contactar a empresa se mostraram completamente inúteis no passado.
Da Macao Water recebi a última conta, para o endereço de residência, no dia 18 de Novembro de 2012. Desde aí mais nenhuma factura me chegou às mãos, facto pelo qual diversas vezes informei a empresa, que diz ser minha responsabilidade, visto que eles – claro – enviam a correspondência a tempo e horas a todos os clientes. Se a «carta» não chega ao destino, a culpa é do destinatário!!! De quem mais poderia ser!?
Pergunto: Não prevê a Lei que antes de se decidir pelo corte ou outra medida sancionatória se esgotem todas as formas de contacto com a pessoa visada? Ou será que basta assumir que a «carta» chegou a «Garcia» para que seja considerada entregue, logo, um dado adquirido?
Tanto quanto me lembro, a Macao Water, aquando da assinatura do contrato de abastecimento de água, pediu-me o endereço, o número de telefone fixo e de telemóvel e, inclusivamente, o endereço electrónico. Acredito que assim o façam com todos os novos clientes. Garanto que pelo correio nada chegou e todos os dias chegam lá a casa várias cartas e panfletos publicitários. Tão pouco fui contactado por telefone, telemóvel ou mesmo por correio electrónico. Assim como também não recebi nada na minha Caixa Postal, um endereço que também já disponibilizei à Macao Water, mas que esta se recusa a utilizar. De referir que todas as outras contas que recebo chegam, a tempo e horas, à Caixa Postal.
Regra geral não tenho problemas com as contas, uma vez que no dia em que recebo o salário as saldo via Internet, através do «website» do BNU, sendo a da Macao Water uma das contas mensais de uma lista que também inclui a CEM, a CTM, a 3Three e outras semelhantes. Uma lista de números de contas que guardo, religiosamente, junto do computador de casa e na agenda do telemóvel, já para evitar esquecimentos. No entanto, muito assiduamente, a Macao Water recusa o pagamento via BNU. A tal facto, visto não ser culpa minha, pouco ligo, tentando novamente no dia seguinte e, se a situação se mantém, espero que me seja enviado qualquer aviso. Como nunca acontece, repito o pagamento no mês seguinte.
No entanto, em Setembro, assim como no mês anterior em que estive ausente de Macau, não foi possível efectuar o pagamento, após ter recebido o salário na conta do BNU. O que considerei estranho, porque nunca tinha acontecido dois meses seguidos. Passados alguns dias, já eu me tinha esquecido do sucedido – não tinha recebido qualquer aviso da Macao Water, nem qualquer contacto via telefone ou através de qualquer outro meio, – dei com um papel da Macao Water na minha caixa do correio. Intrigado, pensei que fosse a dita factura que nunca tinha chegado. Para minha surpresa, era uma nota a informar que a água havia sido cortada. Nem sequer era um aviso de que iriam cortar em determinada data, apenas que a mesma já estava cortada! Chegado a casa fui verificar se tinha água que, para minha surpresa, correu da torneira! Perante o facto, e com a carta a «moer-me» a cabeça, desci ao rés-do-chão para verificar o contador, deparando então com uma braçadeira de plástico a bloquear a torneira do contador da minha residência. No entanto, quem ali a colocou – tal não era a pressa – não teve a preocupação de fechar o abastecimento, nem sequer deixá-la selada, como já vi em outras ocasiões.
Perante o sucedido, e como não conseguia realizar qualquer pagamento à Macao Water, via online ou pelos Correios, decidi contactar a empresa. Fui então informado de que o abastecimento de água havia sido cancelado e que tinha de me dirigir às suas instalações, na Ilha Verde, para regularizar a situação.
Tentei, sem aval, pedir explicações acerca do sucedido e do facto de não ter recebido qualquer tipo de aviso, mas de nada serviu. Assim como de nada serviu dizer que a braçadeira de plástico apenas evitava que eu conseguisse fechar a água, não de a abrir! E que não havia selo no contador... Um diálogo de surdos como é normal nas empresas de fornecimento de serviços públicos adjudicados.
Não ponho em causa o corte no abastecimento, mas sim a falta de comunicação da empresa, que tem todos os meios para contactar o cliente. E também lamento que o cliente seja sempre tido como culpado. Neste caso, o zelo da Macao Water foi tanto que nem sequer verificaram se a água estava realmente fechada antes de colocarem a braçadeira e nem afixaram qualquer aviso no contador! Ou se o colaram, como afirmam ter feito, o mesmo desapareceu, pois qualquer pessoa pode ter acesso à caixa dos contadores do meu prédio. A mesma encontra-se no exterior e a Macao Water não a mantém fechada à chave.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Maltratado

DEVE ter notado que deixei de trazer a estas páginas assuntos relacionados com a CTM e o seu péssimo serviço. Tal, involuntariamente, deveu-se ao reconhecimento de que nada iria mudar apesar de, no início e quando ainda havia alguém de língua portuguesa preocupado na estrutura da empresa, muitas promessas terem sido feitas.

A verdade é que o serviço da CTM continua tão mal que só as concorrentes conseguem fazer pior! Mas, qualidade, ou a total ausência dela, à parte, a verdade é que na CTM pouco ou nada há a salientar pela positiva.

A minha última experiência nas instalações da companhia deveu-se ao processo que, paulatinamente, tenho vindo a desenvolver, tendo em vista a total desvinculação dos seus serviços. Dado ainda não haver outra opção para a Internet e para o telefone fixo (apesar de já ter sido adjudicada, infelizmente ainda temos de «gramar» com serviços de baixa qualidade e somos obrigados a pagar dos preços mais altos do mundo). Tudo, claro, com a conivência do nosso Governo e da direcção que regula as telecomunicações.

Como se sabe, a CTM já não tem como accionista qualquer empresa portuguesa. A Portugal Telecom vendeu a sua participação há já algum tempo, ficando assim de fora dos destinos da empresa. No entanto, o facto de não ter qualquer accionista luso não a isenta da obrigação do uso das duas línguas oficiais de Macau. Mas neste aspecto – reconheço – se há alguém a apontar o dedo, esse alguém é mesmo o Governo que não incluiu nas normas constantes no contrato de concessão tal obrigatoriedade. Afinal, que se pode pedir de uma firma privada quando é o próprio Governo o primeiro a «estar nas favas» para o cumprimento do acordado na Lei Básica e para a promoção do Português como uma das línguas oficiais e pilar do segundo sistema? Já para não falar no completo desinteresse pela cultura lusófona fora daquilo que tem sido feito e que parece mal deixar cair. Penso que para bem entendedor meias-palavras devem bastar, mas este assunto será alvo de outro artigo em breve.

Mas voltando à CTM e à experiência recente que me fez interromper o jejum de críticas ao rol de erros, falhas e falta de consideração pelos clientes:

A ida à loja da empresa deveu-se ao processo de encerramento de uma das contas de telemóvel que ainda tinha na dita operadora. E, como estou de saída de Macau, pedi para que as contas fossem saldadas no momento, ao invés de ter de esperar que fosse enviada a conta – a última suponho – para a morada de casa para posterior pagamento. Receando falhar esse pagamento e como sou cumpridor das minhas obrigações, achei por bem pagar tudo ali na hora: o montante em falta e a respectiva penalização pela quebra de contrato. Depois de todos os formulários preenchidos num dos balcões de atendimento personalizado, o funcionário, pouco satisfeito com o facto de eu estar a cancelar a conta, mandou-me dirigir ao balcão dos pagamentos. Assim fiz e quando ali cheguei a funcionária de serviço (que não verá aqui o nome retratado, mas que bem merecia!...) parecia estar a fazer um grande «frete». Olhou para os dois recibos que tinha comigo e, à «fina força», queria apenas receber o montante relativo ao saldo da conta, gritando, literalmente, que a «outra» conta, relativa à quebra de contrato, tinha de ser paga posteriormente, quando me fosse enviado o recibo.

Tentei, por diversas vezes e tentando não me alterar, apesar de me apetecer meter a mão pelo vidro adentro e apertar-lhe o «gargalo», explicar-lhe que se a CTM não recebesse o montante neste dia, possivelmente, não o iria receber, porque eu estaria de saída do território. Sinceramente, penso que quando falamos para o sistema automático do «hotline» temos mais interacção do que aquela que estava a ter com a dita funcionária.

Depois de muito insistir e de a ouvir vociferar em Chinês do outro lado do vidro, como se o estrangeiro depois de mais de uma década em Macau não percebesse a língua, lá se decidiu a receber o dinheiro. Algo que afirmava, a pés juntos no início, que não poderia ser feito. Pergunto: o que terá mudado ao fim de cinco minutos de gritos e insultos? Será que, entretanto, a CTM alterou os regulamentos internos e passou a aceitar aquilo que a funcionária insistia ser uma irregularidade? Má vontade, pura e simples! Falta de educação e arrogância de quem não sabe fazer mais nada do que aquilo que um par de horas de treino lhe ensinaram a fazer. A ignorância nesta terra anda sempre de mão dada com a arrogância e falta de educação, infelizmente!

Bem sei que a senhora está a seguir ordens e que os seus superiores devem estar muito contentes porque cumpre o que lhe dizem e não levanta ondas com ideias novas. Mas será esse o serviço que queremos de uma concessionária de serviço público que recebe milhões do Governo (indirectamente dos nossos impostos)? Fica muito mal à CTM, mas já estamos habituados, não é?

Nota final: se a CTM realmente quiser apurar o que aqui escrevo, estou na disponibilidade de facultar uma cópia do recibo da conta onde consta o nome da dita funcionária e o local e hora onde aconteceu, visto que deve ter ficado gravado no circuito interno e será fácil comprovar.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Cheias revelam problemas

DURANTE o tempo que estive de férias parece que Macau foi afectado, mais uma vez, por chuvas intensas que voltaram a causar estragos avultados em diversas zonas da cidade. Desta vez, supostamente, foi a Taipa mais afectada, assim como Coloane, nomeadamente as estradas e os terrenos onde decidiram construir a habitação social de Seac Pai Van.

Muitos já dizem que o erro, desde o início, foi mesmo a sua localização! Ao se ter decidido destruir a antiga pedreira, deitando abaixo grande parte da montanha para se erigir habitação social, o Governo voltou a meter o pé na argola. Primeiro, porque a sua localização nunca foi aceite pela maioria da população, particularmente pela população alvo da dita habitação. Segundo, porque todas as evidências apontam para que tenha sido um projecto feito e preparado à medida do agrado dos fortes lobbies da construção civil do território. Ninguém irá corroborar esta afirmação, mas não será muito difícil perceber que terá sido uma decisão tomada à revelia de todas as evidências. Ou será que o Governo pensa que pode estar certo sozinho e nunca erra nas decisões que toma? Acredito que assim possa pensar, se olharmos a muitas das decisões tomadas, mas há-de chegar o momento em que terá de parar e dar ouvidos às queixas.
Como não estou, de forma alguma, ligado à habitação social, económica ou de qualquer outra forma a ser privilegiado, ou prejudicado, pelo citado empreendimento, sinto-me na liberdade de continuar a insistir que a melhor solução teria sido, sem quaisquer dúvidas, a opção de recuperar prédios devolutos e, ao mesmo tempo, reabilitar zonas da cidade para se criar os necessários apartamentos. Ao que parece, e a ver pelas taxas de ocupação, a necessidade da habitação agora concluída não será assim tão premente visto que ninguém, ou quase ninguém, se quer para ali mudar, mesmo com todos os incentivos e toda a propaganda feita por quem decide.
As chuvas fortes de Agosto vieram colocar a descoberto, ao que os acontecimentos indicam, que tudo foi feito em cima do joelho. Apesar de virem dizer que se deveu a alterações morfológicas e outras que tais, a verdade é que as águas não têm para onde ir! Fica a pergunta: então quando se fazem ou planeiam projectos desta envergadura (de salientar que não é só a habitação social, mas sim todo um «bairro» habitacional que também inclui área residencial de luxo) não é normal haver estudos de impacto ambiental, de segurança altimétrica, sistemas de drenagem e de impermeabilidade de solos, etc.? Ou será que foi mesmo tudo feito em cima do joelho, para agradar aos patos-bravos da terra e à sua sede de lucro rápido?
A opção da recuperação de prédios devolutos teria tido um impacto positivo muito maior, revitalizando artérias menos nobres da cidade e oferecendo a possibilidade às pessoas que necessitam de habitação social de não terem de sair do perímetro onde vivem.
Como se sabe a maioria dessas pessoas são da zona Norte, exactamente uma das áreas com maior número de prédios devolutos e em risco de ruína, ou a precisarem de obras de recuperação. Era aqui que o Governo deveria ter investido os milhões que enterraram em Seac Pai Van. Possivelmente teria até gasto mais se optasse pela recuperação, mas o resultado seria, na minha opinião, muito mais positivo. Além de não obrigar a grandes alterações nos hábitos das pessoas necessitadas, também contribuiria para melhorar o ambiente de diversos locais do território.
Compreendo, no entanto, que este tipo de intervenção não agrade muito aos homens das construções porque as margens de lucro, versus o trabalho que tem de ser feito, é muito menor. Além de que envolve muito mais controlo de custos e escolha de materiais de melhor qualidade, enquanto que na construção de raiz vale de tudo um pouco. Aliás, basta ver para a qualidade da construção social e as condições que apresentam escassos meses após terem sido concluídas, sem que ainda tenham sido utilizadas...
As chuvas de Agosto apenas serviram para colocar a nu um problema que é do conhecimento de todos. As obras feitas sem grandes estudos, sérios, preliminares, apenas servem para agradar a alguns e não para resolver os problemas sociais. O resultado está à vista de todos: em vez de resolverem um problema que afecta Macau acabaram por meter a descoberto outro bem pior.

sábado, 7 de setembro de 2013

Quando é realmente importante



ESTAMOS de volta às bancas e é Setembro, mês de eleições em Macau para a Assembleia Legislativa, um período onde ouvimos de tudo. Das promessas mais disparatadas às afirmações mais polémicas que, depois das canas dos foguetes recolhidas no final da festa, acabam por cair no esquecimento, voltando a vida ao normal e ao normal andamento desta cidade que se diz internacional. No entanto, de certa forma, tudo o que envolve as eleições e as suas polémicas vai servindo para nos desviar a atenção do que é realmente importante e que o Governo não quer que as pessoas critiquem ou analisem.

Nos últimos tempos temo-nos esquecido, completamente, dos problemas relacionados com a salubridade pública. A qualidade do ar, da água e da comida que ingerimos. Ninguém se lembra de tentar saber como as obras do metro irão afectar o nosso dia-a-dia e o que está a ser feito para minorar os seus efeitos. Poucos de nós ainda nos lembramos que há bem pouco tempo foi vendido óleo do esgoto na China e que, possivelmente, muito terá vindo para Macau. Ou que paira no ar a esquizofrénica possibilidade de um novo surto de H5N1, desta vez, segundo afiança o «lobby» da farmacêutica, pior do que o anterior e com características de pandemia!
Por outro lado, todos sabemos que alguns candidatos à AL não querem enfermeiros portugueses e que outros querem enfermeiros portugueses. Há para todos os gostos! E sabemos que todos prometem mundos e fundos e que depois nada fazem porque na Assembleia Legislativa, com a actual forma organizativa do Governo, nada ou quase nada se decide. Alguém se lembra de uma proposta de Lei do Governo que não tenha sido aprovada ou de um deputado que tenha visto uma proposta sua aprovada?
Tudo o que vai ao hemiciclo, com a actual constituição de deputados nomeados, eleitos indirectamente e directamente, tem a sua aprovação garantida visto que mesmo que os deputados eleitos directamente se unam e votem contra, nunca serão em número suficiente para bloquear a passagem de uma Lei.
O número total de deputados este ano aumentou para 33, os eleitos directamente passaram a ser 14, os indirectos 12, sendo que os nomeados continuam a ser os sete desde o início da RAEM. No entanto, sendo os eleitos indirectos defensores de interesses intrinsecamente ligados ao Governo, muito dificilmente iriam juntar forças com um hipotético voto massivo dos eleitos directamente contra uma qualquer proposta de Lei mais polémica. Tanto para mais que nos próprios eleitos directamente existem muitos que são, ostensivamente, alinhados com as políticas pró-Pequim.
Tudo o que se ouve e vê em torno das eleições é um autêntico atentado à inteligência dos residentes de Macau. Desde a publicidade/propaganda da Comissão eleitoral que nem sequer respeita as duas línguas oficiais em pé de igualdade, remetendo o Português para segundo nível, apenas com legendas da versão em Chinês (e se o telespectador for invisual?), aos tempos de antena que obrigam o canal português da televisão a passar sem qualquer legendagem ou versão na língua de Camões. É Macau no seu melhor e a tempo inteiro!
Depois do período de férias gostaria de ter regressado e ver a comunidade e o Governo mais preocupados com outras questões. Nomeadamente as questões sociais como a falta de apoios aos mais carenciados e a falta de habitação social condigna. Não aquela que engoliu milhões de patacas e que ninguém quer porque a construíram em Seac Pai Van sem perguntar se a sua localização seria a melhor.
Macau, com tantos prédios devolutos nas zonas antigas, teria tido melhores opções se tivesse optado por renovar esses edifícios, transformando-os em habitações condignas para os mais necessitados, como vem sendo feito em cidades internacionais como Londres, Nova Iorque ou mesmo em Singapura. Mas, claro, como se sabe, remodelar prédios não dá tanto lucro aos construtores civis como a sua construção de raiz...
E os problemas do acesso aos cuidados de saúde e as listas e filas de espera no hospital público que obrigam pessoas necessitadas a terem de optar por serviços particulares se quiserem ser tratados em tempo útil? O hospital da Taipa teima em não aparecer enquanto que o de Macau continua em obras indefinidamente. O número de médicos aumenta mas o problema mantém-se. A falta de qualidade dos clínicos vindos do continente (tirando algumas excepções) não consegue ser colmatada com o aumento do número de efectivos. E o mesmo se aplica aos enfermeiros, mesmo que alguns candidatos eleitorais se tenham insurgido contra a vinda de enfermeiros portugueses. Já agora, alguém me sabe dizer quando foi que chegou o último enfermeiro vindo de Portugal?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Rescaldo antes das férias

VAMOS também entrar de férias, como grande parte da Comunidade Portuguesa de Macau, e aproveitar estes dias de nada fazer para sair do território e encontrar locais mais aprazíveis, de preferência com praia, pouca gente, família e um ar mais limpo e seco! No entanto, antes de irmos, quero deixar-vos com alguns apontamentos do que me tem vindo a apoquentar nos últimos dias. Apesar de estarmos naquela estação a que a Comunicação Social decidiu chamar «silly season», por não haver muito em termos de notícias sérias, aqui em Macau temos tido sorte porque em breve temos eleições, pelo que o Verão tem sido preenchido com peripécias pré-eleitorais. Tem havido de tudo, desde acusações de campanha antes do tempo, a candidatos a oferecerem pacotes de comida com fotografias suas, mas alegando que são dados por associações a que pertencem e que nada têm a ver com campanha. Outros, menos perspicazes, mandam colocar cartazes e painéis publicitários com as suas caras e referências ao bom trabalho que têm feito. Vale de tudo! Mas existem também os que, por falta de meios financeiros, ou falta de jeito para mais algo, enveredam pela crítica e acusação sem grande cabimento, mas populista, sem dúvida. Uma candidata decidiu, sem grande espanto da minha parte, atacar os profissionais da Saúde de origem portuguesa. Ao que se viu parece ter-se saído mal, visto que os enfermeiros portugueses foram rapidamente apoiados pelo Governo. Mas, sendo ela membro de uma associação de peso em Macau, suspeito que haverá mais por detrás das suas afirmações, do que apenas populismo eleitoral. Há muito que desconfio de certos movimentos que vão surgindo de tempos a tempos, mesmo que o Governo venha logo a seguir meter «água na fervura». A verdade é que existe, desde alguns anos, um crescente mal-estar e uma cada vez maior falta de apoio à divulgação daquilo que tem origem portuguesa e os exemplos são cada vez mais e mais visíveis, apesar de secretamente ainda querer acreditar que estou errado, porque a Macau que conheci não é esta que deixo. Outros candidatos decidem apontar armas aos seus concorrentes mais directos e fazem manifestações à porta dos locais onde vivem, como que marcando a posição oposta, apenas não se apercebendo do ridículo da situação. Mas, sendo Macau tão evoluído a nível de consciência democrática, não fico muito admirado se tais manobras derem frutos nas urnas. Mas nem só de peripécias pré-eleitorais se tem vivido nestes últimos dias. O trânsito e os serviços que dele deveriam cuidar, como durante todo o ano, têm estado debaixo de fogo. Sinceramente não consigo ver nenhuma solução airosa para a DSAT. Os erros e enganos têm sido tantos que a única solução deve ser mesmo fechar portas, arrumar a casa, e surgir com outro nome e outras pessoas na liderança. Desde os incontáveis acidentes na Ponte da Amizade e na Ponte Sai Van (não são conhecidas as médias, mas pelo número de avisos que recebo no telemóvel, mais de uma dúzia por dia!), aos problemas com os autocarros de transportes públicos, tudo tem exaltado os ânimos da população. Recentemente escrevi nestas páginas sobre o «Macau Pass», fortemente subsidiado pelo Governo, mas que também pode ser utilizado livremente pelos turistas. Macau deve ser o único local no mundo que tem subsídios de transportes iguais para os residentes e para quem nos visita. Um estado socialista dos transportes onde todos somos iguais!!! Sem esquecermos o facto de que os turistas não pagam impostos, claro, enquanto que a nós, mesmo violando a Lei Básica, nos levam quase um salário por ano. Da DSAT ficou-se também a saber que o problema do trânsito de Macau tem que ser resolvido através dum elaborado sistema que passa por envolver todos os meios de transporte, a que chamam «duplo eixo, dupla via» ou algo parecido, mas que ninguém parece perceber. Nem mesmo eles, desconfio. Entre muitas medidas, preparam-se para investir milhões em equipamentos para convencer as pessoas a andarem mais a pé na cidade. Das duas uma, ou ainda não perceberam que em Macau transpiramos o ano inteiro e que andar a pé é mesmo só de ar condicionado para ar condicionado, ou quem tem criado estas medidas vive fora de Macau e nunca aqui andou a pé nem faz quaisquer planos de o fazer no futuro. Eu percorro cerca de um quilómetro (da Fortaleza do Monte até à Calçada do Tronco Velho) todos os dias e acabo sempre todo transpirado na maior parte do ano. Quem vive em Macau e gosta de andar a pé estaria contente com tais medidas, mas temos de encarar a realidade. Macau é um local quente, húmido e pouco dado a actividades ao ar livre para quem não gosta de andar malcheiroso. Portanto, para a maioria das pessoas que tem de trabalhar diariamente, a hipótese de andar debaixo de calor é muito pouco apelativa. Mas os senhores da DSAT, perante as críticas, parecem fazer ouvidos moucos para esta e todas as outras questões. Esperemos que depois das férias venham com ideias mais apropriadas para Macau…

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Vamos mudar o Património


 vontade de dizer que só mesmo em Macau é que se lembrariam de elaborar uma lei de salvaguarda do património que prevê a deslocação de locais ou estruturas de importância histórica!!!

Pelo que tenho lido ainda não consegui entender muito bem o que querem dizer com tal enormidade. O deputado Cheang Chi Keong, presidente da 3ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, diz que «por exemplo, um imóvel classificado que está num local pode estorvar o desenvolvimento. Trata-se de um imóvel com valor. Por isso é que foi aditada uma norma que prevê o deslocamento para outro local» (!?) Enquanto que o director do Instituto Cultural, Guilherme Ung Vai Meng, é mais cauteloso e afirma que «quando um monumento estiver em risco pode ser transportado para outro local. Mas o nosso conselho principal é que não se deve mexer no património». Valha-nos alguém com algum senso na cabeça porque os que fazem as leis já provaram não o ter.
Na prática, caso esta – repito – enormidade ande para a frente, está aberta a porta para se mudar tudo em Macau e se construir um parque de atracções ao estilo de Shenzhen. Visto ser possível mudar tudo de lugar, em prol do desenvolvimento, e sendo todos os locais onde se situam os edifícios históricos de grande importância em termos de desenvolvimento do território, podem mudar as Ruínas de São Paulo para um parque temático a criar no espaço ainda livre do COTAI. Afinal, na colina onde actualmente estão pode muito bem nascer mais um prédio de luxo e mais um ou dois casinos. E depois – já agora – mudem também o edifício da Santa Casa da Misericórdia porque, aos preços das rendas no Largo do Senado, fazem falta mais umas lojas de perfumes e ourivesarias. Isto claro, se não se lembrarem de remover o Largo do Senado, com Calçada à Portuguesa e tudo, para esse novo parque temático.
Aliás, bem vistas as coisas, a criação de um parque temático para ali meter todo o património classificado até teria as suas vantagens. Por um lado iria libertar espaços na zona antiga da cidade que, como sabemos, carece de locais onde se possa construir. Por outro lado, seria mais fácil para os turistas visitarem tudo ao mesmo tempo; bastava organizar um comboio turístico e faziam o percurso em cinco minutos (ainda ficavam com tempo, à saída, para comprarem os biscoitos de amêndoa antes de seguirem para os casinos).
Mas se vai ser possível mudar os edifícios históricos, caso o desenvolvimento do território a isso obrigue, por que não mudar o Templo de Á-Má, a Casa do Mandarim e todos os outros locais para uma zona que não atrapalhe o desenvolvimento. Para a Ilha da Montanha, por exemplo.
É pena que Macau, com tanto dinheiro e com tantos cérebros, apenas surja com ideias que não lembra a ninguém. Mesmo a posição de Guilherme Ung Vai Meng, que sendo mais cauteloso diz que apenas apoiam no caso da «coisa» de valor histórico estar em perigo, não deixa de ser caricata e descabida. Em qualquer parte do mundo com uns dedos de bom senso a solução seria modificar a situação para que o património deixasse de estar em perigo; não seria mudar o património para evitar a situação.
Há exemplos em todo o mundo: as pirâmides no Egipto foram alvo e continuam a ser alvo, quase anualmente, de trabalhos de manutenção para as proteger da erosão. A Torre Eiffel é reparada frequentemente para que a corrosão da estrutura não afecte a totalidade do monumento – está localizado em terreno instável, o que faz com que sofra mais em termos de danos estruturais. No entanto, Paris nunca pensou em mudar a torre de sítio. Assim como os Jerónimos em Portugal, que devido à sua proximidade com o rio e o mar sofre com os altos níveis de salinidade, sem que Lisboa pensasse em mudar o mosteiro para o interior. Ou, ainda, a Grande Muralha, já que se gosta tanto de olhar para o «continente», que tem problemas de erosão e de instabilidade em milhares de locais, mas que nunca foi sequer equacionada a sua mudança de local.
Entristece-me que, só em Macau, se pense assim. É uma pena que numa terra onde abundam verbas (para já...) não haja capacidade para fomentar uma massa criativa e pensadora que tenha ideias que realmente possam ser aplicadas e tragam valor acrescentado. Que consigam sentar-se a uma mesa e delinear uma estratégia de longo prazo, em vez de medidas avulsas que nada fazem e que apenas contribuem para sejamos chacota a nível internacional e para que continuem a olhar para Macau como um depositário de casinos onde hordas de chineses vêm esbanjar milhões ganhos por meios menos lícitos.
Mas prestem atenção aos próximos tempos, porque esta medida incluída na nova lei pode estar a preparar caminho para removerem as Portas do Cerco, devido às obras do Metro Ligeiro… Nada se confirma mas, como se costuma dizer, não há fumo sem fogo! Espero estar enganado, mas se se confirmarem os meus receios, é pena!

sábado, 3 de agosto de 2013

Macau Pass para turistas?

DURANTE estas últimas semanas da legislatura muito se tem falado dos transportes públicos, com os deputados a interpelarem a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego sobre todos os assuntos que tem sob a sua alçada, com grande incidência no trânsito caótico, na completa falta de regulação do licenciamento de autocarros de turismo e, o assunto mais focado, os transportes públicos e as suas concessões.

Desde a entrada em funcionamento da terceira operadora de transportes públicos os serviços nunca mais se endireitaram. Quem se lembra do concurso em si deve recordar-se do caricato episódio do atraso, de alguns minutos, na entrega dos documentos por uma das empresas concorrentes. Um episódio que há-de ficar para sempre nos anais da história de Macau como o concurso que nunca o foi. É que a empresa, neste caso a TCM, de acordo com os regulamentos, deveria ter sido expulsa. No entanto, e porque valores mais altos se devem ter levantado por detrás de portas fechadas, lá conseguiram arranjar forma para que a mesma empresa fosse admitida, partilhando uma das concessões com a Reolian, a nova operadora a entrar no mercado, que ficou, desde aí, «marcada».
Então eram para ser apenas duas licenças mas, à semelhança do que aconteceu com as licenças de jogo, houve o milagre da multiplicação, passando a três operadoras e outras tantas licenças. No jogo, segundo tinha sido anunciado, eram para ser três, hoje já lhes perdi a conta...
Como diz a sabedoria popular, o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Tarde já não parece que vá ser, só nos resta a certeza de que nunca se irá endireitar.
Desde então que os problemas se têm vindo a agravar com as críticas da população a serem cada vez maiores e com a DSAT a ter cada vez menos argumentos para explicar tantos problemas e tanta falta de comprimento do estipulado nos contratos.
Tem havido problemas com a segurança, certamente que se recordam dos acidentes; tem havido problemas com a manutenção, com diversos autocarros que deveriam ter sido abatidos a voltar a serem chamados à circulação, porque os novos comprados na China não aguentaram mais do que um ano de actividade; e tem havido problemas com as emissões de poluentes, visto que apenas se exigia o sistema EURO IV, quando aqui ao lado na China o mínimo é já o EURO V e em Hong Kong o EURO VI.
Bastava olhar para Hong Kong e copiar. É que ali não se aceitam outras marcas que não sejam europeias, americanas ou japonesas para os autocarros de passageiros.
Mas, na minha opinião, o maior problema de todos, não menosprezando todos os referidos claro (!), é o Macau Pass.
Recuando ao ano 2001, ano em que o Macau Pass foi lançado, substituindo o antigo passe da Transmac e da TCM, foi anunciado como o «Octopus» de Macau, tendo o Governo de imediato tomado a dianteira na sua promoção. Algo que, aos meus olhos, já na altura, me pareceu estranho, visto que o Governo nada ter a ver com o dito Macau Pass. O mesmo é detido por uma empresa privada controlada pela família, se não estou em erro, Ma Man Kei! O que por si só explica muita coisa…
A verdade é que o Macau Pass, na sua ideia original apoiada pelo Governo até seria algo de muito positivo, visto que facilitaria o apoio governamental ao subsídio dos transportes para os residentes de Macau, havendo mesmo cartões especiais para estudantes, pessoas da terceira idade e outros residentes. Ainda me lembro que quando adquiri o meu cartão tive de preencher um formulário com todas as minhas informações e número do bilhete de identidade, na loja da Rua Formosa.
Para surpresa minha, e porque recentemente tive de ir comprar um novo cartão por ter perdido o que tinha adquirido logo no início do programa, tal obrigatoriedade de identificação já não é necessária. Aliás, agora pode-se mesmo adquirir o cartão em qualquer loja de conveniência pelo preço de 130 patacas, sendo que trinta patacas são para pagar o próprio pedaço de plástico e o restante é crédito.
Até aqui não haveria problema nenhum, não fosse o facto de agora ser possível a todos os turistas também terem acesso aos transportes públicos subsidiados pelo Governo tal e qual um residente de Macau que pague os seus impostos e aqui trabalhe e viva!
Há mesmo quem aponte o dedo a esta lacuna como a grande responsável pelo facto dos autocarros andarem sempre a abarrotar, visto que os turistas, sabendo que podem andar pagando uma tarifa muito mais reduzida, aproveitam esta oferta do Governo de Macau, deslocando-se para todo o lado nos autocarros públicos, dificultando a movimentação dos residentes que contam com este meio de transporte para ir trabalhar.
Claro que para a empresa que detém o Macau Pass, tanto lhe faz que sejam turistas ou residentes a usar o cartão. Quantos mais venderem, e mais forem usados, mais ganham do Governo!
Cabe ao Governo, e neste caso à DSAT, exigir números oficiais e criar um mecanismo de identificação dos utilizadores do cartão Macau Pass, para que os subsídios acabem por ser canalizados para quem tem o direito de os utilizar.
Quando vamos a Hong Kong e usamos o «Octopus» não temos direito a qualquer subsídio do Governo da RAEHK!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Governo nada faz (nas obras ilegais privadas)

TEMOS ouvido falar nos últimos dias dos problemas no «Flower City» e na insatisfação dos seus moradores, devido a alegadas alterações estruturais feitas pelo «Park’n Shop» para instalar o seu supermercado, andando, há vários meses, as partes a atirar a culpa para o lado e a «sacudir a água do capote» sem que nada se resolva. Recentemente, o Governo veio a público dizer que iria realizar um estudo (mais um!) e que depois das conclusões a empresa responsável pelo supermercado teria dois meses para repor a legalidade e fazer as reparações necessárias. Entretanto, até lá, os moradores continuam à espera e a viver em condições perigosas, segundo dizem. Pouco satisfeitos por terem de esperar pelo estudo e mais dois meses para a sua implementação.

Estou a falar sem ter conhecimento de toda a situação e sem saber quais as condições no interior dos apartamentos do prédio em questão. No entanto, os moradores asseguram que até infiltrações apareceram depois das ditas obras que alteraram partes da estrutura do prédio.
Isto, pelo que se sabe, é usual em Macau e não me parece que o Governo faça alguma coisa para resolver o assunto. Esperem, pois, pelo relatório e estudo para ver as recomendações! O conselho que dou aos moradores é fazerem as reparações necessárias para assegurarem a segurança e integridade das habitações, pois se estiverem à espera do Governo, esperem sentados! Depois, avancem para tribunal, acusando também o próprio Governo.
Numa escala mais pequena o mesmo acontece no meu prédio, onde o terraço está cheio de construções ilegais (ainda há duas semanas vi ser carregada uma caleira para o terraço que nem sequer cabia nas escadas) e têm aparecido infiltrações nas paredes do edifício, danificando tudo quanto encontra pelo caminho. O dito terraço já foi inspeccionado várias vezes, mas quem ali vai diz nada de ilegal se passar. O prédio, de acordo com o registo predial, tem cinco pisos, mas se lá forem ver o terraço, contarão seis...
Num dos quartos do meu apartamento já perdi a conta das vezes que reparei a parede e o tecto para tentar mantê-los em condições aceitáveis. Já fiz queixa ao Instituto de Habitação, às Obras Públicas, etc. De nada valeu! Não quero dizer que nada fizeram, porque pelo menos deram-se ao trabalho de se deslocar para avaliar a situação, no entanto, nada fizeram para que o problema fosse resolvido.
Da última vez que ali se deslocaram os técnicos fizeram medições de humidade, integridade das paredes, etc., tendo concluído que grande parte do problema vinha de uma fissura entre os dois prédios por onde entrava água e se infiltrava para as paredes dos apartamentos. Quando lhes perguntei pela solução, encolheram os ombros, até hoje!
A solução que muitos têm encontrado no prédio é a de venderem enquanto os preços estão altos. Solução que não me agrada, visto que se vender (se bem que vale quase cinco vezes mais do que o preço que estou a pagar ao banco) nada poderei comprar da mesma qualidade e na mesma zona. É que eu, ao contrário de muitos dos outros proprietários, comprei para viver, não como investimento ou para arrendamento.
Mas o prédio onde vivo não é exemplo único. Olhando da minha varanda para o outro lado da rua vejo um prédio que tem, pelo menos, um andar ilegal. E é tão evidente o seu peso que entre o rés-do-chão e o primeiro andar (todos os andares têm uma face saliente em relação ao piso térreo) foram obrigados a colocar uma estrutura de ferro, tipo umas escoras (!) para evitar que se incline mais para a frente tal não é o peso que tem nos pisos superiores. Não se vê? Só quem não quer é que não vê o problema. A razão de assim continuar prende-se com o facto de ali não viver qualquer proprietário, todos os apartamentos, pelo que consegui apurar, ou estão devolutos ou são arrendados. E, sendo arrendados, quem paga a renda nada pode fazer se o proprietário não tomar a iniciativa, pelo que a situação se arrasta sem que ninguém ponha termo à ilegalidade. Infelizmente, esta é a realidade de Macau.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

É um orgulho

SÃO seis décadas e meia cheias de histórias, altos e baixos, que ficarão – para sempre – na memória colectiva de Macau. O jornal onde lêem estas linhas é um ponto incontornável na história da Imprensa e da própria história de Macau, tendo estado presente em acontecimentos em que nenhum outro, ainda no activo em língua portuguesa, tenha estado. Desde o famoso incidente do 1,2,3 à Guerra do Pacífico ou à Segunda Grande Guerra, O CLARIM passou por todos e informou sempre com isenção e imparcialidade.

É com honra que colaboro a tempo parcial com este marco da história de Macau e com orgulho que guardo memórias de pessoas que por aqui passaram e que já nos deixaram, infelizmente. Lembro-me, invariavelmente, do Josué da Silva, um comunista convicto que trabalhava para um jornal católico!... Ou do tão conhecido e acarinhado professor Silveira Machado, que nos deixou mas que fez questão de legar uma vasta colecção de textos e manuscritos sobre a história e vivência de Macau. Muitos outros houve e haverá para continuar esta longa história do jornal católico que, certamente por mim e por outros, serão sempre lembrados e farão parte da história da Comunicação Social recente deste pequeno pedaço de terra tão distinto de tudo o resto que o rodeia.
É muito graças a’O CLARIM que a fé cristã vai tendo uma voz neste território, uma terra cada vez mais obcecada pela ostentação e valores materiais e que se vai esquecendo dos valores da fraternidade e de ajuda ao próximo.
Em alturas de despedidas, não quero deixar de lembrar o padre Albino, seu director desde os anos 80 do século passado, que agora deixa Macau devido a problemas de saúde. Senhor padre, espero que nos possamos vir a encontrar muitas vezes no futuro; ainda tem muito para dar a quem o conhece. Aproveite este descanso agora para escrever e deixar as suas memórias para as gerações vindouras, pois se não o fizer perde-se um valoroso espólio de vivências que – acredito – conhecendo-o, como conheço, não quererá que aconteça.
Padre Albino, sei que deixa Macau com um nó na garganta. Quem não o faria, depois de uma vida dedicada a esta terra e a ajudar quem nela mais necessita!? Não o censuro por isso e tento compreender a sua mágoa. Apenas me resta dizer que estarei sempre disponível para as suas conversas, seja sobre o que for. E foram muitas ao longo destes anos.
Dos 65 anos d’O CLARIM, e da sua respeitável idade, fica-me um rancor para com alguns poderes instituídos. Continuo sem perceber como é que os debates feitos na televisão do território, paga pelos nossos impostos, um canal que deve ser plural e aberto a todos os pontos de vista, continuam a ignorar O CLARIM, não chamando um seu representante para fazer parte do painel que semanalmente opina sobre o que acontece na região. Que mais não fosse pela sua maioridade, O CLARIM merece estar ali representado. Simplesmente não existe desculpa para tal!
Macau tem as suas peculiaridades e formas de actuar, no entanto, O CLARIM sempre foi capaz, ao longo das décadas, de fazer frente a esses ímpetos que tinham como intenção calar a sua voz. Os exemplos ao longo dos anos foram muitos e mesmo recentemente todos presenciamos algo desse género. No entanto, o jornal continua e irá continuar por muitos mais anos, assim o esperamos porque é necessário à pluralidade das vozes e pontos de vista no território.
São dez anos da minha colaboração nestas seis décadas e meia d’O CLARIM, um marco importante na minha colaboração que me deixa orgulho e que espero possa perpetuar por mais uma década.
A todos quantos nos lêem, apraz me dizer que é com prazer que escrevemos e que semanalmente levamos até si o nosso trabalho. Esperamos que, da mesma forma que nos dá prazer, seja do vosso agrado. E, caso não seja, que manifestem as vossas opiniões para que possamos evoluir e ir ao encontro daquilo que o nosso leitor realmente quer.
Muito obrigado!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O que fazer sem dinheiro?

SÃO sinais contraditórios, ou é apenas minha imaginação, quando ouvimos o Governo dizer que quer promover o uso do Português e dá milhões a associações, muitas delas lideradas por influentes pessoas na sociedade local e ligadas de uma forma, ou de outra, à promoção das lusofonias, e depois fecha escolas que ensinam nas duas línguas oficiais, sem dar grandes satisfações, desde a criação da Região Administrativa Especial.

Como foi feito público, recentemente o Governo decidiu fechar o Jardim de Infância Luso-Chinês, Peónia, um dos dois últimos ainda sob a alçada do Governo. No entanto, poucos dos leitores se devem lembrar que, desde 2003, mandaram encerrar os infantários luso-chineses, Narciso e Sir Robert Ho Tung, Lótus e Tamagni Barbosa. Isto pouca ou nenhuma cobertura recebeu da Comunicação Social do território. Sem que nenhum novo tenha aberto em nome do ensino público gratuito e sob a alçada do Governo.

Quando se fala na gritante falta de vagas no ensino dos mais novos, parece ser um contra-senso mandar encerrar instalações do Governo, quando este mesmo tem obrigação de providenciar lugares para os residentes matricularem os seus filhos em idade de frequentarem os primeiros anos de escola. Quem queira escolher ter os filhos no ensino luso-chinês acaba por não ter opções no público, sendo obrigado a optar pelo ensino privado, com ou sem apoios do Governo. Sendo, literalmente, obrigado pelo Governo a dar dinheiro a privados, quando o mesmo Governo tem obrigação de garantir ensino gratuito e universal aos seus residentes.

Certamente que esta coincidência de acasos é mais falta de coordenação do que concertação, para que o ensino passe todo para mãos de privados. Mas, para quem olha de fora sem ter acesso a muitos pormenores, a sensação que fica é que o Governo nada faz para promover o uso e ensino das línguas oficiais. Apenas se limita a entregar milhões a diversas escolas privadas e associações que foram criadas para o efeito. Isto apesar de andar constantemente a apregoar que há uma sincera aposta no desenvolvimento da divulgação do Português no seio da sociedade local, visto ser também língua oficial.

Não seria obrigação do Governo garantir, pelos seus próprios meios, o ensino gratuito e universal aos residentes nas duas línguas oficiais em todos os anos lectivos e de forma a que houvesse diversas opções e sem que os residentes se vissem obrigados a ter de optar pelo ensino privado, ou semi-privado, subsidiado pelos dinheiros públicos?

A solução de pagar às escolas privadas para fazer o trabalho que devia ser do Governo pode funcionar por agora, porque ainda há dinheiro. No entanto, já se pensou quando o dinheiro acabar? Qual será a formula então para garantir o ensino nas línguas oficiais de forma gratuita aos residentes? Não me parece que quando não houver dinheiro que as escolas privadas estejam interessadas em assegurar esse serviço!

Em Macau estamos a atravessar uma época de desafogo financeiro mas, como em todos os ciclos económicos que os especialistas de Economia têm vindo a explicar, há altos e baixos. Os anos dourados de Macau e da abundância, certamente, não irão durar para sempre. Aliás, convém não ter memória curta e olhar para o inicio do século, aquando do nascimento da RAEM. Nessa altura estávamos a atravessar uma crise que se foi agudizando até meados de 2005. Apenas a partir daqui o ciclo se inverteu e deu origem a esta pujança que agora estamos a viver.

Governar com dinheiro é fácil, o que define os bons governantes é a resposta que conseguem dar em tempos de falta de recursos. Quando em época de «vacas gordas» não conseguem fazer uma política educativa que se consiga sustentar, nem quero imaginar o que se irá passar quando as torneiras dos cofres estiverem secas e houver falta de recursos...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Presidente e consultor

 mesmo em Macau é que não nos admiramos que haja pessoas que se apresentam como presidentes de associações de protecção ambiental e que, ao mesmo tempo, são proprietárias de empresas de consultoria na mesma área de actividade e de interesses.

O caso de Ho Wai Tim, que todos conhecemos como «acérrimo» defensor das causas ambientais de Macau, desde mangais a garças, é disso um fiel espelho. É que o senhor, além de apologista de tudo quanto é verde e de cariz ambiental, parece que também dá pareceres a empresas envolvidas em projectos que necessitam de estudos de impacto ambiental, alguns deles polémicos. Assim como também se envolve em casos polémicos que nada têm a ver com ambiente, como foi o caso da iniciativa que apelava à demolição do Clube Militar.
O caso que veio a público no campo ambiental é o famoso empreendimento que envolve a Casamata Portuguesa, ali à entrada da Vila de Coloane. 
Segundo o estudo do «ambientalista» – encomendado pelo dono da obra, – afinal o impacto não é assim tão grande e até apontou, numa das últimas edições do programa de rádio «Fórum Macau», o dedo a empreendimentos do Governo (como o túnel de Ká-Hó) de atentarem mais contra o ambiente do que a obra do seu «cliente». Pudera! Os cifrões nesta terra contam muito e fazem-nos mudar de opinião rapidamente.
Quando foi confrontado com a incompatibilidade da presidência da Associação Ecológica de Macau e a propriedade de várias empresas de consultoria ligadas ao ramo da protecção ambiental e, mais em concreto, relativamente ao caso da obra em Coloane, Ho Wai Tim foi rápido a «sacudir a água do capote», dizendo que não fala de assuntos pessoais, muito menos de assuntos que envolvem as suas empresas. Deve ser um pouco difícil de explicar, não é?
Os seus pares na defesa da ecologia não estão pelos ajustes e não se coíbem de tecer largas críticas ao facto de ser ele o responsável pelas empresas que realizaram os estudos de impacto ambiental do caso em questão. Indo mesmo mais longe e tecendo críticas à absurda proposta que fez para contrabalançar a perda de património que a obra pode vir a representar. Segundo afirmações suas, no dito fórum da Rádio Macau, o projecto à entrada em Coloane, de acordo com o seu estudo de impacto ambiental, podem vir a causar danos na colina mas, no entanto, garante que os empresários responsáveis pelo investimento se comprometem a construir jardins suspensos – tal Babilónia em Macau, digo eu, – para compensar a perda do ambiente natural.
Ah, pois... acaba-se com aquilo que a natureza levou milhares de anos a construir para nos enfiarem com uns vasos e canteiros suspensos, vá-se lá saber com quê e para quê!? Uma solução Babilónica à Macau, é o que me apetece dizer, visto que, para o «especialista/presidente/consultor», até irá aumentar a percentagem da cobertura verde em Coloane.
Mas de nada nos surpreende, visto que tal é feito amiúde nesta terra. Veja-se o que se fez no COTAI, onde antes era água e habitat de tantas espécies animais. Aterrou-se tudo, fizeram-se grandes obras babilónicas, criaram-se jardins interiores e até canais com gôndolas. Metro por metro, possivelmente até temos agora mais área verde mas, com tanto artificialismo, será que é mesmo igual? Será que temos de nos contentar com «natureza» artificial, quando ainda temos alguma natural que deve ser preservada a todo o custo?
Ou será que o dinheiro em Macau vai continuar a falar mais alto e a ditar as regras de todo o jogo, sem que a restante população seja tida ou achada?
Devemos olhar um pouco para fora, e com as devidas distâncias, tirar alguns ensinamentos das manifestações que vão ocorrendo um pouco por todo o mundo. Em Macau vivemos uma época de abastança, em contraponto à economia mundial, mas tal não deve servir de desculpa para que deixemos os senhores do dinheiro fazer tudo o que querem.
Macau precisa de uma sociedade crítica e participativa. Que venha para a rua, que faça barulho e que exija que os seus direitos e qualidade de vida sejam mantidos. Vir para a rua pedir demissões ou mais apartamentos pode ser um passo, mas não pode ficar por aí. É preciso ter consciência que a qualidade de vida passa, e tem sempre de passar, por haver natureza e locais onde as nossas crianças possam respirar ar puro.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O que conta é a independência

VAMOS hoje falar de um tema para o qual nunca dei muito do meu tempo, mas que deve merecer toda a nossa atenção como cidadãos de pleno direito. Vamos falar de eleições, da não candidatura do meu amigo Carlos Morais José e de toda a celeuma à volta da sua afirmação, antes de se ver obrigado a desistir, de não abandonar o cargo de director do jornal de que também é proprietário. Como o próprio disse, em resposta às críticas vindas da Associação de Imprensa Portuguesa e Inglesa – que o próprio também ajudou a criar, – seria um absurdo deixar de ser director se é proprietário. No entanto, para que a lista que o acolhera como número três não fosse prejudicada, achou por bem recuar e sair da corrida. Sabe-se agora que para o seu lugar entrou o arquitecto Rui Leão, um digno substituto, diga-se!

Concordando-se, ou não, com a posição de Carlos Morais José tomada inicialmente, a verdade é que tinha toda a razão naquilo que dizia. De que serviria suspender a posição de director, se continuaria a ser proprietário?
Pessoalmente e tendo como linha de orientação o Código Deontológico que deve reger os jornalistas, Carlos Morais José deveria suspender as funções de director. No entanto, para tal teria também de passar a administração do jornal para uma pessoa independente. Caso não fizesse as duas mudanças, não fazia sentido deixar de ser director do jornal, como é óbvio!
Mais: conhecendo-se o meio jornalístico de Macau, de que valia deixar de ser director e administrador do jornal? As influências são mais do que conhecidas, assim como os interesses que cada um dos órgãos defende.
Mais importante do que suspender a função de director, seria saber quantos jornalistas de Macau recebem avenças de publicidade e de outros trabalhos que vão contra o Código Deontológico. Quantos dão voz a campanhas na rádio e na televisão e continuam a ostentar a carteira de jornalista. Isto é algo que sempre se fez, mesmo tendo sido várias vezes exposto ao Sindicato dos Jornalistas em Portugal. É algo que apenas mudará com a consciência das pessoas. Vai de cada um entregar, ou suspender, a carteira profissional sempre que tenha de fazer uma tarefa que vá contra o Código Deontológico.
Num meio como o de Macau pedir a Carlos Morais José que suspenda as funções de director do jornal, apenas porque se candidata às eleições legislativas, é algo que não faz muito sentido, principalmente quando há exemplos de outros candidatos com posições mais influentes que a dele – e com poder de fazer mais danos sociais que um simples jornal – e que nada lhes é apontado.
É verdade que, como jornalista, a sua consciência deveria apontar para a suspensão das funções, mas sendo Macau o meio que é e tendo em atenção as especificidades do território, penso que não se justifica que Carlos Morais José tivesse de optar por essa via. Como se costuma dizer, não será por aí que «o gato irá às filhoses». Sendo uma pessoa ponderada e que segue as regras, optou por desistir para não prejudicar a «sua» lista, para muita pena minha.
Aliás, ao optar por permanecer como director e dono do jornal, apenas o iria expor mais ainda ao escrutínio da opinião pública, pelo que, em certos aspectos, até poderia prejudicar a candidatura. Quanto às acusações, ou insinuações que foram feitas de que podia usar o jornal como meio de promover a candidatura em detrimento de outras, não acredito que tal viesse a fazer. Conhecendo a pessoa há muitos anos não penso que colocasse em causa a independência do jornal e da sua pessoa só por causa da candidatura ao hemiciclo dos Lagos Nan Van. Carlos Morais José é maior do que isso e sabe muito bem em que águas se move. Razão pela qual deve ter desistido.
Quando os seus pares lhe pediram, em carta pública, que deixasse as funções de director foi o mesmo que pedirem a Melinda Chan que largue, momentaneamente, as posições que possui nas empresas do marido, ou que Pereira Coutinho deixe de ser presidente da ATFPM, ou que Angela Leong deixe os seus cargos no império de Stanley Ho.
Tudo o que se pede a todos os candidatos é que sejam íntegros e que respeitem as leis do jogo eleitoral. Quanto ao director do Hoje Macau, tiro-lhe o chapéu por ter tido coragem e rectidão de voltar atrás com a candidatura. No entanto, fico desapontado, pois acredito que saberia manter a independência e que obrigaria o jornal e os seus jornalistas a manterem o rigoroso respeito da deontologia da profissão durante todo o processo eleitoral.
Quem ficou a perder fomos todos nós!

NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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