Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

domingo, 23 de outubro de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Boicote-se

PARA mim é já um hábito dar sangue em Macau, pelo menos uma a duas vezes por ano. E, cada vez que tal acontece, aproveito para ver o estado da língua portuguesa no Centro de Transfusões de Sangue e nos documentos que me são entregues para preenchimento ou leitura. Na outra língua, que também é oficial, costumo brincar quando se dirigem em Cantonense para mim. Felizmente – talvez porque as minhas doações são feitas nas recolhas organizadas no meu local de trabalho – há sempre um funcionário do Centro de Transfusões de Sangue que fala Português. No entanto, os formulários continuam, invariavelmente, a ser apresentados apenas em Chinês e Inglês. Em todos eles tenho deixado uma nota, pedindo a versão em Português. De salientar que, da última vez, já havia alguns feitos de acordo com o princípio das duas línguas oficiais. De louvar e algo que merece também ser aqui referido.

Recentemente foi noticiado que tinha sido organizada uma gala de homenagem aos dadores. Fiquei triste em saber, numa coluna publicada no jornal Hoje Macau e assinada por um leitor, que na cerimónia só foi usada a língua chinesa, o Cantonense.

É com pesar que manifesto o meu total desacordo com esta medida do Centro de Transfusões de Sangue. Sendo uma instituição governamental, devia fazer uso das línguas oficiais em todas as suas actividades. Se no meu caso pessoal reconheço que fazem um esforço, tendo sempre um funcionário que domina a língua portuguesa nas recolhas feitas no meu local de trabalho, porque razão, numa cerimónia com a visibilidade da gala que organizaram, isso não se passou?

Será que têm vergonha da segunda língua oficial da RAEM? Se assim for, algo vai mal e os altos dirigentes devem intervir para repor a igualdade de tratamento das línguas oficiais nos serviços públicos. Um lembrete de algo que está previsto na Lei Básica, para os mais esquecidos!

Acho que, se estivesse estado presente na dita cerimónia, me tinha levantado e abandonado o local, assim que informassem acerca do não uso da língua portuguesa.

Não seria a primeira vez que abandonaria um evento organizado por uma entidade pública, por se recusarem a usar as duas línguas oficiais. Abandonando e deixando claro o motivo por que o faria. Aliás, considero que todos os que falam Português e gostam da língua como sendo oficial nesta terra, o deveriam fazer em sua defesa, porque, se não formos nós a defendê-la, ninguém o fará.

Penso até que, se os profissionais da Comunicação Social de língua portuguesa – um dos pilares essenciais para a manter viva no Oriente – adoptassem essa postura cada vez que se deparam com um evento organizado por entidades governamentais sem versão em Português, as mentalidades mudariam rapidamente e a situação alterar-se-ia.

Um boicote frontal e total por parte da Comunicação Social Portuguesa – visto que o representante de Portugal nesta terra nada parece fazer – ajudaria a abrir os olhos e a mudar a postura de alguns serviços, que ainda olham para a língua oficial portuguesa como um fardo herdado da Lei Básica. Fardo ou não, se está na lei, é para ser honrado. As leis são para isso mesmo, para serem cumpridas, quer se goste, quer não. E, pelo que sabemos, os sinais vindos de Pequim vão no sentido de um cada vez maior uso da língua lusa, se bem que os interesses por detrás desse uso sejam mais económicos do que de outra natureza.

Continuamos, infelizmente, com brandos costumes e a baixar a cabeça a tudo o que nos afronta.

Uma no cravo outra na ferradura

Este assunto vem em contra-senso com a semana que agora começou. A Festa da Lusofonia e a Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa assume um papel importante no reconhecimento, por parte da China e das autoridades chinesas, da importância do Português e da cultura de cariz lusófono em Macau. Tem interesses económicos na sua génese, defendem uns. Não importa; o que é importante é que serve para preservar a língua e a cultura.

Se existe um tão grande empenho por parte de Pequim, em algumas ocasiões, por que continuam alguns sectores em Macau a minar esse relacionamento?

Todos sabemos, apesar de não ser a posição oficial, que Pequim defende o uso do Português, devido à necessidade que tem da língua nas suas relações com os mercados onde ela se fala. Não será apenas uma questão herdada da história, como muito se apregoa. Mas, se a Pequim convém a língua de Camões por interesses económicos, porque não há-de o mundo lusófono tirar partido disso e fazer-se impor, em Macau e na China, através da inversão desses mesmos interesses?

A defesa da língua e a não-aceitação de actos que podem fazer com que o seu uso diminua será o primeiro passo, que deve ser dado por todos quantos dominam o idioma e a cultura que durante os próximos dez dias é revivida em vários locais de Macau. E, como dizia anteriormente, se não formos nós a fazê-lo, ninguém o fará por nós. Cabe-nos, no dia-a-dia no território, defender a língua que falamos e fazer com que seja respeitada, como ficou acordado entre a China e Portugal, antes de 1999.

NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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