Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Onde anda o Português?

TERÁ passado quase despercebido para a maioria das pessoas, mas, como já vem sendo tradição há vários anos, realiza-se na última noite do ano uma corrida de São Silvestre. O fim de ano de 2009 não fugiu à regra, o que, só por si, não seria motivo suficiente para ser aqui referido. Acontece que, como foi possível ver nas imagens televisivas e fotográficas difundidas nos dias seguintes, a língua oficial, o Português, foi completamente esquecido no evento.
Não seria de admirar, nem motivo para nos insurgirmos, caso tal actividade fosse organizada por uma qualquer instituição privada. Infelizmente, a lei de Macau já não contempla a obrigatoriedade do uso das duas línguas oficiais por todas as instituições do território. Tal dá origem a que tudo quanto é empresa privada ignore em absoluto, e sem qualquer escrúpulo, o uso do Português. Com total desrespeito, tal acontece, muitas vezes, em detrimento da língua inglesa, a coberto da desculpa de que esta é a língua de comunicação entre as várias comunidades em Macau, e acabando por repudiar as centenas de anos de história do território. E, como já estamos habituados, ninguém se mexe para resolver o problema. Gostaria de saber o que aconteceria em Hong Kong, se o Governo negligenciasse o inglês!
Neste caso, sendo uma actividade organizada pelo Instituto do Desporto, tutela do Governo, deveria ter havido mais cuidado com a inclusão da língua portuguesa. Que mais não fosse, porque havia atletas de língua lusa! Ou porque sendo «organizado» pelo Governo, ou seja, com dinheiros públicos, deveria ser aplicada a regra da obrigatoriedade das duas línguas oficiais, que constam na Lei Básica.
É já uma tradição dos primeiros dez anos da RAEM o constante atropelo da língua portuguesa. Mesmo em acontecimentos oficiais, tem sido esquecida inúmeras vezes. Aqui vamos, de vez em quando, dando voz a estes incidentes. Nem sempre se obtêm os resultados pretendidos, no entanto, cabe à comunidade defender os seus próprios interesses. Se tal não fizermos, estes apelos e gritos de indignação caem em saco-roto.

Estranho caso do BNU

Mais que uma vez já aqui escrevemos sobre o tratamento que as diversas instituições de Macau dão aos seus utentes e clientes. Lembram-se ainda, certamente, do caso que aqui referi sobre uma promoção do Banco Nacional Ultramarino/American Express, na qual se oferecia, a preço promocional, um computador portátil. A início só havia versões em chinês! Depois de muita troca de correspondência com um cliente, finalmente apareceram as versões em inglês! Entregues em Macau na sede do banco!
Agora volto ao BNU, que nos brinda com mais uma promoção do género: viagens turísticas, sendo o parceiro a Visa International. Acontece que, desta vez, o cliente ainda não se deu ao trabalho de contactar a Caixa Geral de Depósitos em Portugal acerca do assunto.
A resposta do BNU foi peremptória: «(…) O BNU não tem interferência directa nas promoções em causa, que são negociadas pela Visa International com Agências de Viagem e, posteriormente, colocadas à disposição dos bancos emissores de cartões de crédito. Nem o conteúdo, nem o “layout” do material publicitário podem ser alterados».
No entanto, – perante a evidência da referência do banco, que leva os clientes a consultar a promoção, estar em Português («Os pacotes que a Visa lhe oferece em colaboração com agências de viagem são irresistíveis. Para informações detalhadas clique aqui, por favor»), – um email da instituição diz que, pelo facto de «(…) na frase através da qual se pode aceder aos pacotes em causa não ser referida a necessidade de contactar as agências de viagem para informações pormenorizadas, teremos este aspecto em consideração em futuras promoções».
O caso dos computadores foi resolvido, mesmo não tendo o BNU «interferência directa nas promoções», logo que Lisboa tomou conhecimento do assunto. Já neste caso, sacodem a água do capote, atirando as responsabilidades para a VISA International.
Sendo o BNU um banco detido pelo Governo português e sendo o Português uma das línguas oficiais de Macau, não seria pedir muito que, pelo menos, interferissem um pouco naquilo que oferecem aos clientes. Afinal, somos todos iguais, ou não? Se os vossos parceiros não vos oferecem garantias de tratamento igual com todos os vossos clientes, será mais aconselhável que eles deixem de o ser, caso o banco não queira assumir a responsabilidade de ter de tratar da informação, de modo que todos os seus clientes sejam tratados de forma correcta.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Sapatos tradicionais

Para quem diz que em Portugal não se faz nada positivo gostaria de deixar apenas este recorte que encontrei na internet.
As críticas que se podem fazer ao país são-no, muitas vezes, com razão de ser, especialmente no tocante às políticas seguidas e formas de enfrentar desafios (como as crises económicas).
No entanto, como se sabe, o povo português é trabalhador e só não faz mais porque os dirigentes ou lhes cortam as pernas com impostos e regulamentos ou então, muito ao estilo de ocidental, oferecem subsídios para inactividade. O resultado é o que se sabe. Pessoas a não quererem trabalhar porque acabam por lucrar mais do que se estiverem o dia todo com as mãos ocupadas.
Vejam, como com uma arte das mais tradicionais do país, a de sapateiro, se pode fazer muito. Infelizmente não há quem queira seguir o mesmo e o Governo não incentiva estas actividades.
Vejam a notícia neste link do Café Portugal….

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

29 de Novembro de 2009

Aqui fica, para quem esteve presente, e também para quem não esteve, um slideshow (que ainda não está pronto) com fotografias do nosso Casamento, no passado dia 29 de Novembro. Espero que gostem...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Mau gosto em todo lado

Desta feita falo de algo que vi muito longe de Macau mas que, sinceramente, poderia ser visto em qualquer esquina da RAEM.
"ESTIVE fora de Macau quase um mês e deu para me aperceber que o que muitas vezes criticamos não é exclusivo do local onde vivemos. Há em mim uma faceta que detesta, de todas as formas, qualquer tipo de danificação de bens públicos, fazendo de mim, à partida, um acérrimo defensor da não proliferação da arte do «grafitti». Gosto de arte, aprecio pintura de rua (sendo ela mesmo algumas vezes de «grafitti»), mas deve ter bom gosto e ser apelativa para os meus olhos. Quando se trata apenas de meia-dúzia de riscos ou efémeras declarações de amor, não considero isso arte, mas apenas uma falta de respeito para com a propriedade que é de todos.
Em Macau há uma franja da sociedade, e cada vez maior, que se dedica a este tipo de manifestação artística (como lhe chamam). Os exemplos espalhados pela cidade são mais que muitos e todos eles de muito mau gosto. Raras são as excepções em que se pode dizer que o trabalho final é apelativo.
As autoridades têm feito o que podem para tentar evitar que estes artistas danifiquem o que é propriedade pública. As campanhas têm sido sucessivas e estão previstas mesmo coimas para quem seja apanhado a transgredir os regulamentos. No entanto, a fiscalização que é feita é insuficiente. Sabendo-se que na sua maioria estes trabalhos são feitos pela calada da noite, a fiscalização que é feita diariamente torna-se infrutífera. Mesmo as patrulhas da polícia, que circulam de carro toda a noite, acabam por ser pouco produtivas porque, na sua maioria, os locais por onde passam não são os mesmos onde estes artistas dão azo à sua inspiração.
Diria que os autocarros, como já muitos de nós reparámos, há muito que são «laboratórios de treino» para estas pessoas. Usam as costas dos assentos para escrever e desenhar, como se de um caderno de papel cavalinho se tratasse. Daí, penso eu, passam para os taludes das obras e depois para as fachadas de edifícios históricos.
Apesar de nos queixarmos, este problema, no entanto, não é exclusivo de Macau. Todas as grandes cidades, especialmente europeias e americanas, vivem com este suplício há muitos anos. Trago-vos o exemplo de Paris, onde escrevi este artigo e onde os autocarros, metro e paredes de tudo quanto é edifício no centro da cidade, e até mesmo os caixotes do lixo, são «atacados» por estes artistas da noite.
À semelhança de Macau, também em Paris parece ser pouca a sensibilidade dos turistas e dos cidadãos, em geral, para preservar o património histórico. Em todas as visitas que fiz, tive a oportunidade de ver registos de quem por lá tinha passado antes de mim. Vi inscrições e desenhos dos quatro cantos do mundo. Para exemplificar, deixo-vos duas fotografias de um exemplo na língua portuguesa e outro numa língua asiática, deixados na escadaria de acesso à cúpula na Basílica do Sagrado Coração de Montmarte. As próprias autoridades francesas, assim como os próprios residentes de Paris com quem tive oportunidade de trocar impressões, mostram-se indignados com este comportamento, mas dizem-se sem capacidade para o resolver.
É tudo uma questão de educação, diziam-nos. E é verdade. Isto não passa senão de um problema de educação, ou melhor, como me disse uma senhora parisiense já idosa, de falta de educação, porque para expressões artísticas, mesmo no caso de «grafitti», em Paris há instalações disponíveis para quem se queira expressar dessa forma.
Com efeito, eu próprio tive oportunidade de visitar um desses locais (onde não me foi permitido fotografar, devido às preocupações com os direitos de autor das obras em elaboração) e fiquei a saber que todos são livres de ali entrar, registar-se e dar asas à sua imaginação da forma que entenderem. Sem qualquer restrição ou linha mestra imposta pelas instituições estatais. O local, apesar de ser apoiado pelo Governo (pela Câmara Municipal de Paris) era cedido por um privado, ao abrigo da lei do mecenato. Algo que, em Macau, muitos empresários estariam interessados em fazer, se de tal tirassem proveitos fiscais.
As cidades não são assim tão diferentes umas das outras. Seja na Europa ou na Ásia, as preocupações são as mesmas e os anseios da população também. É tudo uma questão de educação."
Para ler n'O Clarim de hoje juntamente com muito mais...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Faltas na fronteira

Será possível que a Polícia de Segurança Pública de Macau não tome em consideração os milhares de pessoas que cruzam a fronteira das Portas do Cerco diariamente e que não lêem chinês?
Desde que foi aberta a nova secção do posto fronteiriço que estão nas paredes, em todo o percurso entre o controlo automático dos Bilhetes de Identidade e as escadas rolantes de saída para o lado da China, uns papéis com indicações de direcção No entanto, como se pode constatar na fotografia, apenas estão em chinês.
Lembramos os responsáveis das autoridades na fronteira, mais uma vez, que existem duas línguas oficiais em Macau que devem ser utilizadas em todas as comunicações oficiais. E, que mais não seja, devem respeitar o facto de uma grande fatia da população de Macau não saber ler os caracteres chineses, apesar de falarem a língua!
A situação pode ser vista por diversas vezes no referido percurso. E, nas novas fronteiras automáticas acontece que somente aparece a língua chinesa e inglesa, sendo a segunda língua oficial negligenciada. O que não acontecia nas fronteiras automáticas instaladas anteriormente.
Esperamos, para o respeito de todos na RAEM, que a situação seja revista a bom tempo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo

Já passou muito tempo desde que fiz o meu último post no blog. Tenho andado arredado destas lides devido a afazeres pessoais. Quem me conhece sabe do que estou a falar e, para que fiquem a saber melhor, basta consultarem a página no Facebook, pois lá está a “reportagem” fotográfica detalhada de todos os movimentos nestes últimos dias.
Desde o dia 23 de Novembro em Macau, e no mundo, aconteceu muita coisa. No campo pessoal, posso dizer que tem sido o mês mais feliz da minha vida. Tive amigos juntos durante dias, tive os meus pais de visita ao local que adoptei como minha casa, estive de visita ao local onde nasci e passei os melhores dias com a pessoa mais importante da minha vida. Agora? Agora é tempo de voltar ao trabalho e ao dia-a-dia do escritório.
Dentro em breve estaremos a entrar num novo ano, o de 2010, o fecho da primeira década deste século.
Transcrevo agora, porque o não fiz até agora, os meus textos publicados n’O Clarim. Não o faço na íntegra porque seria muito maçudo. Deixo-vos apenas um excerto e o link para a página do jornal para que possam ler a sua totalidade.
Até breve… Depois vos falarei das mudanças que vi encontrar em Macau depois de um mês fora.

No dia 27 de Novembro publicava n’O Clarim um artigo sobre o Festival de Gastronomia, ou melhor “food festival” visto que o português nem sequer fazia parte das línguas usadas! “Não seria um caso de maior importância, se o mesmo não fosse suportado pelo Governo e pago, se não na totalidade, pelo menos em grande parte, por dinheiros públicos.
Porventura para condizer com a quase inexistência de presença de restaurantes de comida portuguesa, o único que se pode, a muito custo, apelidar de comida portuguesa que está presente é o Restaurante Carlos, além do Café OuMun, esse sim genuinamente português, mas que tem como «prato forte» a pastelaria e padaria, apesar de servir refeições diariamente.
Na imprensa, a organização dizia, pela voz do deputado e presidente da Associação dos Empresários do Sector da Restauração – responsável pela organização do evento, Chan Chak Mo, que «este é o único evento do género em Macau que se apresenta como uma boa oportunidade para os restaurantes locais promoverem a sua cozinha junto dos turistas e residentes». E dizia ainda que a culinária portuguesa estava presente com sete restaurantes do território, que se associaram ao evento para dar a conhecer e provar algumas das iguarias lusas, como o pão com chouriço, enchidos e vinhos.
Já no dia 4 de Dezembro escrevi sobre o que há muito tempo se pedia. Igualdade de tratamento entre Macau e Hong Kong. “FOI anunciado recentemente que os residentes de Macau, desde o início de Dezembro, não teriam de preencher a declaração de entrada em Hong Kong. Algo que era reivindicado há vários anos e que, do meu ponto de vista e à luz da reciprocidade, era discriminatório e deixava os residentes da RAEM prejudicados em relação aos seus vizinhos da antiga colónia britânica.
Entretanto, uma notícia veio agora a público informando que a data exacta é o próximo dia 10, depois de Hong Kong ter aprovado um novo diploma de combate à imigração ilegal. Ao ler-se o que foi publicado, fica-se com a impressão de que o facto de nós não entrarmos em Hong Kong apenas com o bilhete de identidade se deve ao facto de o nosso documento de identificação não ser avançado tecnologicamente até há bem pouco tempo!
Na edição de 18 de Dezembro, por dificuldades de comunicação, não me foi possível enviar o habitual artigo para publicação. No entanto, ainda fui a tempo de enviar o de Natal. Publicado no dia 23 de Dezembro, falava do que se passou durante o ano e do meu desejo para prenda de Natal e para 2010. “É tradição pedirem-se prendas de Natal e eu creio que este ano muitos dos residentes de Macau devem estar a sonhar com o desejo de encontrar no sapatinho mais surpresas agradáveis do que no Natal de 2008.
Se olharmos para trás, vemos um ano cheio de tragédias e de preocupações. A nível mundial foi aquilo que todos sabemos: crise económica, crise do imobiliário, «crash» das bolsas, conflitos bélicos e a gripe A H1N1. Isto só para mencionar algumas das aflições que inquietaram o mundo. A nível local, tivemos também os nossos problemas. A crise económica afectou Macau da pior forma, deixando milhares sem emprego, devido à paragem das obras no COTAI. As grandes empresas (refiro-me nomeadamente aos casinos) deixaram de contratar, afectando sobremaneira a mão-de-obra local. Quanto à gripe A H1N1, também nos afectou e continua a afectar, com novos casos diários e mortes registadas. A juntar a tudo isto, temos o facto da China, numa tentativa compreensível de proteger a sua economia na região do Delta do Rio das Pérolas, ter voltado a restringir a atribuição de vistos individuais a quem nos queria visitar. E de um momento para o outro decidiu acabar com os vistos que permitiam aos residentes do continente visitar Macau e Hong Kong de uma só vez. Com esta medida, acabou por tirar grande parte dos apostares da RAEM, fazendo as estatísticas caírem a pique logo nos primeiros meses do ano. No entanto, como sempre acontece e sem ninguém perceber muito bem como, o sector do Jogo começou a recuperar e a dar sinais de liderança no processo de saída da crise económica, acabando o ano com mais umas marcas nunca antes registadas. O que, em ano de crise, faz com que todos pensemos que esta passou ao lado do sector mais forte da economia de Macau.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

CAR for SALE... good conditions...

Para os residentes de Macau. For Macau residents
Um anúncio de um amigo. A friends announcement
Carro para venda em muito bom estado e primeiro dono. Car for sale, pristine conditions, first owner.

TOYOTA ECHO 1.3 5 Doors M/T
車牌號碼Matrícula Registration: MJ-27-XX
顏色Cor Color: AZUL METALIZADO Blue

價錢Preço Price: 港幣四萬八千元HKD48,000
電話Telefone Telephone: 甄先生 6682 1816 (Mario)


Um cheirinho do meu artigo

Na última edição de Novembro d’ O Clarim não queria deixar passar a oportunidade de vos falar do maior evento gastronómico de Macau. Termina no próximo dia 29 e penso já ser tarde para reparos este ano. No entanto, tenho esperança de que no próximo ano alguns erros possam ser redimidos.
Na imprensa a organização dizia, pela voz do deputado e presidente da Associação dos Empresários do Sector da Restauração - responsável pela organização do evento, Chan Chak Mo, que “este é o único evento do género em Macau que se apresenta como uma boa oportunidade para os restaurantes locais promoverem a sua cozinha junto dos turistas e residentes”. Afirmando ainda que a culinária portuguesa estava presente com sete restaurantes do território, que se associaram ao evento para dar a conhecer e provar algumas das iguarias lusas, como o pão com chouriço, enchidos e vinhos.
Sinceramente, apesar de lá ter ido duas vezes, nada vi além do que referi anteriormente.
Vi sim vários restaurantes locais apelidados de comida portuguesa e que já aqui várias vezes critiquei e apelei para que autoridades portuguesas fizessem algo em relação ao assunto porque, na minha opinião, é um atentado ao bom nome do nosso país, costumes e cultura gastronómica. Porque, servir comida que nada tem a ver com a tradição de Portugal e chamar-lhe “comida portuguesa” só pode ser um insulto à nossa inteligência e à nossa identidade como povo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ideias formosinas

NÃO quero que me interpretem mal sobre o tema que vou abordar no texto de hoje, mas como estamos habituados a tanta decisão sem qualquer senso em Macau, porque não mais uma?
Há um problema que algumas associações de defesa de direito dos animais tentam combater de diversas formas e que tem a ver com o aumento contínuo do número de cães abandonados nas ruas de Macau. Número esse que, sempre que a Economia abana, tende a aumentar ainda mais.
Do mesmo modo, quando os bolsos têm mais dinheiro, aumenta o número de cachorros comprados pelas famílias com posses em Macau. As que não têm assim tantas possibilidades compram-nos do outro lado da fronteira, sem que as autoridades policiais pareçam preocupar-se com isso, pois basta dar mais 100 reminbis para que passem o dito para este outro lado da fronteira!
As razões de abandono aqui apontadas são, frequentemente, resultantes da falta de espaço, de tempo e de paciência. E eu acrescentaria mais uma: a falta de carácter (para não dizer outra coisa menos apropriada) de quem assim procede. O que me veio à mente seria bem pior!
Pois bem! Aqui ao lado, em Taiwan, um jovem empresário teve a brilhante ideia de criar um conceito novo de hotel canino. Difere dos muitos que vão aparecendo aqui e além, por oferecer espaço, actividades e um serviço completo aos seus hóspedes. Além de oferecer a possibilidade, a quem não tem casa com condições para ter um animal, de deixar ali o seu cão e ir visitá-lo sempre que quiser. As condições que oferecem não são umas pequenas gaiolas onde colocam os pobres animais quando os seus donos ainda têm o civismo suficiente para os manter em casa e pagar por um local onde possam ser acolhidos durante as férias.
Este hotel, segundo uma notícia veiculada pela imprensa internacional, cobra por dia cerca de 100 patacas, excluindo comida, mas oferece piscina, jardins, animadores e quartos privados para cada cachorro, no caso de não estarem bem em sociedade!
Pode parecer que dão mais atenção aos cães do que às pessoas, mas a verdade é que, quando assumimos o compromisso de ter um cão, se devem ponderar muito bem todas as condições exigidas pelo animal, nomeadamente, as condições financeiras que permitam ao seu dono sempre que, por qualquer razão, tenha de ausentar-se de Macau, deixar o cachorro alojado em local condigno.
Pessoalmente já tive cães e sei que surge uma grande dificuldade quando se pretende ir de férias, por não haver locais em Macau onde se possa deixar o animal (ou animais) nas condições mínimas exigidas. Pois deixar um animal, que se tem como sendo parte da família, num local com pouco mais de um metro quadrado, onde não pode correr ou andar livremente, não me parece que seja o mais indicado.
Por essas razões e pelo facto das casas em Macau não estarem minimamente preparadas para animais de estimação, decidi não ter mais cão em casa.
Quando me lembrei de referir este exemplo de Taiwan, fi-lo com o propósito de lembrar que, por estranho que pareça, este projecto poder ser aplicado em Macau sem grandes obstáculos. Como há inúmeros edifícios industriais abandonados, ou em ruínas, estes poderiam, sem muito investimento, ser transformados neste tipo de hotéis. Muitos deles poderiam ser mesmo usados pelo Governo para albergar condignamente os animais das pessoas que não os querem, ou não os podem ter em casa.
À semelhança deste caso de Taiwan, poderia também ser oferecido o serviço de hospedagem vitalícia (um pouco à semelhança de creche ou lar de idosos), onde quem não tem, ou não quer ter, um animal em casa pudesse ir e visitar o seu animal, sendo responsável pela sua alimentação e estadia. Em Taiwan, aliás, comparam este serviço ao de babysitter a tempo inteiro. Porém para animais é mais barato!
Numa época em que todos reclamamos quanto ao preço das casas e pela falta de habitação social do Governo, esta sugestão poderá cair mal em algumas mentes mais conservadoras. Porém, visto que os animais são como parte da família, seria sensato recorrer a edifícios devolutos para oferecer mais um serviço útil e assim contribuir para, de uma vez por todas, acabar com os cães vadios nas ruas de Macau, dando-lhes um local devidamente apropriado. Ao mesmo tempo, desse modo dar-se-ia também, a quem não tem condições em casa para ter um animal de estimação, a possibilidade de ter um, assumindo a respectiva responsabilidade de cuidar dele.
Claro que tudo isto funciona em Taiwan! Em Macau tenho as minhas sinceras dúvidas que as pessoas continuassem a honrar o compromisso de cuidar e pagar para o seu animal de estimação! Com efeito, se têm a falta de carácter de os abandonar, quando já não lhes convém tê-los em casa, que fariam se estivessem num estabelecimento deste tipo?!
São precisas leis que protejam os animais e a população! Mas, acima de tudo, é preciso que, seguidamente, essas leis sejam realmente postas em prática com o rigor que se impõe.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Food Festival uma vergonha em Macau

Ontem desloquei-me ao Nono Festival da Gastronomia de Macau, ou melhor, 9th Macau Food Festival, visto já nem existir a denominação em português no local do evento. Porventura para condizer com a, quase, inexistência de presença de restaurantes de comida portuguesa. O único que se pode, a muito custo, apelidar de comida portuguesa que estava presente era o Restaurante Carlos, além do café OuMun, esse sim genuinamente português mas que tem como "prato forte" a pastelaria e padaria, apesar de servir refeições também.
A organização, a cargo da associação que agrega proprietários de restaurantes de Macau e outras do sector, mas que conta com um volumoso apoio do
Governo, seja a nível monetário (ascende a vários milhões o investimento feito) que seja a nível logístico com o apoio da Direcção dos Serviços de Turismo na sua promoção além de outros organismos governamentais. Aliás, este evento é, a par do Grande Prémio de Macau, um dos maiores do cartaz anual da RAEM.
O desprezo é tal que não se vislumbrava uma única palavra em português nos cupões ou nos cartazes no recinto. O inglês que se ía vendo era, muitas das vezes, usado pelos restaurantes convidados da Malásia.
No local de compra dos cupões, quando tentámos falar inglês (porque o português estaria fora de questão) olharam para nós como se estivéssemos a cometer o maior dos crimes. Quanto perguntamos algo, acerca do uso dos cupões, começaram a comentar em chinês (pensando que não iríamos perceber certamente) que vínhamos para ali falar inglês como se eles tivessem obrigação de nos entender!
Não a têm , claro está, alias depois falou-se em chinês e até pedido de desculpas houve. No entanto, existem duas línguas oficiais em Macau e o Governo, visto que ali enfiou milhões de patacas de todos nós, tem mais que os obrigar a usar os dois idiomas. Quanto ao inglês, devem-no utilizar porque este evento é turístico e grande parte dos turistas que nos visitam usam a língua inglesa como meio de comunicação, na falta do português ou do chinês.
É apenas uma questão de bom senso para uma cidade que se diz INTERNACIONAL.
Quanto ao português, é do Governo a obrigação, e da associação que organiza o evento com o dinheiro do Governo, fazer o seu uso adequado.
Não será, certamente, pedir muito.
Basta olhar para o evento da Lusofonia, onde o chinês e o português são usados em pé de igualdade, mesmo sendo um evento virado para as comunidades de lingua portuguesa.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um cheirinho do meu artigo

Esta sexta-feira n’ O Clarim vai sair um texto que, apesar de abordar um tema importante e premente, versa mais o lado humorístico do problema dos animais abandonados em Macau. Apresenta-se uma solução vinda de Taiwan recentemente e que em Macau poderia, sem grandes problemas, vir a ser aquilo a que popularmente apelidamos “matar dois coelhos (pobres diabos!) de uma cajadada só!”...
A ler na sexta-feira, depois deste cheirinho. “(...)Existem inúmeros edifícios industriais abandonados, ou em ruínas, que podem sem muitos investimentos, serem transformados neste tipo de hotéis. Muitos deles poderiam ser mesmo usados pelo governo para albergar condignamente os animais das pessoas que não os querem, ou não os podem ter em casa.
À semelhança deste caso de Taiwan, poderia também ser oferecido o serviço de hospedagem vitalícia (um pouco à semelhança de creche ou lar de idosos) onde quem não tem, ou não quer ter, um animal em casa pudesse ir e visitar o seu animal, sendo responsável pela sua alimentação e estadia. Em Taiwan, aliás, comparam este serviço ao de babysitter a tempo inteiro, mas para animais e mais barato! (…)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Malásia diz-se dona de Alá

NOS meus anos de vida li e ouvi muito disparate relacionado com religiões e tive oportunidade de presenciar muitos abusos, feitos a coberto das crenças de cada um. No entanto, recentemente, deparei com um, vindo da Malásia, que não passa pela cabeça de ninguém.
Não pretendo fazer juízos de valor acerca de cristãos, muçulmanos, budistas, ou de qualquer outra religião, mas, como sempre me ensinaram, num país livre e democrático a minha liberdade acaba quando começa a interferir com a liberdade do meu semelhante.
Vou passar a explicar, resumidamente, o que vinha na imprensa internacional acerca da decisão do Governo malaio e que pode ser facilmente consultado na internet. Trata-se de uma polémica que envolve um lote de Bíblias importado da Indonésia e escrito em bahasa indonésio para os cristãos malaios. O dito lote foi confiscado porque nele aparece escrito a palavra Alá! E, como refere a Lei da Malásia, a palavra Alá não pode ser usada por cidadãos não-muçulmanos! Aliás, uma prerrogativa da Lei, que muitos vêm como uma cedência do Governo de Kuala Lumpur às fortes forças islâmicas do país, em oposição aos direitos de liberdade religiosa consagrados na Constituição da Malásia. Algo que, aos olhos de muitos observadores, é muito preocupante e abre muitos precedentes.
Os órgãos governamentais baseiam o acto de banir o lote de Bíblias no facto da palavra Alá ser de origem arábica, portanto islâmica, e que o seu uso por não-islâmicos irá ser visto pela comunidade islâmica como um insulto! Por seu lado, as autoridades católicas na Malásia vêem o acto como algo ofensivo e ridículo, tendo já avançado com uma queixa-crime em tribunal contra a decisão governamental.
A Federação Cristã da Malásia diz que a palavra Alá tem sido usada ao longo dos séculos para se referirem a «Deus», tanto no bahasa malaio, como Indonésio (que são bastante semelhantes), pelo que não conseguem compreender a razão da decisão actual.
O bispo Ng Moon Hing chegou mesmo a afirmar que, caso o acesso às Bíblias na língua que escolhem não seja garantido, será posto em causa o direito garantido na Constituição, que dá aos católicos malaios liberdade religiosa.
Esta polémica tem minado a imagem de liberdade religiosa que se acreditava existir neste país asiático maioritariamente muçulmano. A Malásia sempre fez questão de salientar que, apesar do islamismo ser a religião mais praticada no país, as outras religiões (que representam mais de 30% da população) são também praticadas livremente.

Alguma semelhança

Esta polémica à volta de quem pode, ou não pode, usar determinados termos traz-me à lembrança alguns casos que se passam em Macau, onde não poucas vezes nos vimos obrigados a medir as palavras que escrevemos, para que não firamos o orgulho da China.
Nunca me irei esquecer que, depois da passagem de soberania, muitos dos termos e nomes utilizados, nomeadamente para identificar edifícios históricos, foram completamente mudados! Isto já para não falar na limpeza de sinais físicos, que foi feita logo aos primeiros dias de RAEM.
Não quero citar mais exemplos para nos apercebermos disso; basta apenas, em relação aos edifícios mais conhecidos, ver fotos do antes e depois de 20 de Dezembro.
Penso que se tratou de exageros que não se voltam a repetir e que agora já não vale a pena tentar corrigir, porque, como se diz popularmente, «seria pior a emenda que o soneto»!
Isto para não falar nas sensibilidades que se mostram feridas, quando nos referimos à China como um Estado totalitário e autoritário!
São diferenças culturais que é necessário aprender a digerir e a interpretar, para que «não se perca a face».
Afinal, andamos há mais de cinco séculos a fazê-lo pela Ásia!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Choro na língua materna

Vinha estampado na imprensa recentemente que os bebés choram no tom da sua língua materna. O estudo de uma universidade europeia diz que os recém-nascidos têm um tom de choro similar ao tom da voz que ouvem enquanto estão no útero.
Sem saber qual a finalidade ou utilidade do estudo, pergunto-me que será dos bebes que ouvem diversas línguas enquanto andam na barriga da mãe?
Aqui por Macau, por exemplo, onde casais multiculturais falam múltiplas línguas (falo por mim que em casa falamos três quatro línguas), os rebentos devem ter os tons todos misturados!
O mesmo estudo adianta que a língua materna pode ter um efeito decisivo no desenvolvimento do feto no útero.
Será que devido à miríade de línguas em Macau os nossos filhos fiquem todos confundidos?
Estudos para tudo e mais alguma coisa!
Vejam o artigo completo aqui...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um cheirinho do meu artigo

Na próxima sexta-feira vai ser possível ler n’O Clarim um artigo sobre as autoridades da Malásia que parecem ser donos da palavra. “Os órgãos governamentais baseiam o acto de banir o lote de Bíblias pelo facto da palavra Alá ser de origem arábica, portanto islâmica, e que o seu uso por não-islâmicos irá ser visto pela comunidade islâmica como um insulto! Por seu lado, as autoridades católicas na Malásia vêm o acto como algo ofensivo e ridículo, tendo já avançado com uma queixa-crime em tribunal contra a decisão governamental.
A Federação Cristã da Malásia diz que a palavra Alá tem sido usada ao longo dos séculos para se referirem a “Deus” tanto no bahasa Malaio como Indonésio (que são bastante semelhantes), pelo que não conseguem compreender a razão da decisão actual.

Alexandre Ho foi arquivado!

Que raio de vida esta. Vem agora a público que o Ministério Público arquivou o processo de alegada (que já afirmavam ser confirmada!) corrupção do ex-presidente do Conselho de Consumidores. Lembramos que Alexandre Ho cometeu suicídio recentemente, em Zhuhai, deixando uma carta onde alegava não conseguir aguentar a pressão de ser acusado de corrupção e de não ter oportunidade de se defender. O caso foi conhecido há mais de um ano e há mais de oito meses que não tinha qualquer avanço, sendo durante esse tempo o nome de Alexandre Ho arrastado na praça pública. Em consequência disso foi afastado do cargo que ocupava no CC e era olhado com desconfiança por muitos dos seus pares. Tudo, sem que nada tenha sido provado e que agora se vem a saber (pelo arquivamento) não ter sido provado haver fundamento. O arquivamento vai fazer com que nunca se saiba a verdade das acusações.Agora, pergunta-se, quem será responsabilizado pela morte de uma pessoa inocente (visto que, até prova em contrário, assume-se a inocência da pessoa acusada…)Relembra-se que o alegado caso de corrupção envolvia, de acordo com os dados conhecidos, verbas que ascendiam às 10mil Patacas!
(Imagem da capa do PF noticiando a morte de Alexandre Ho a 19 de Agosto deste ano.)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O mundo lusófono e a infância

ESTE mês que agora começa, o de Novembro, é, por tradição, o de maior cartaz turístico em Macau. Este ano, apenas por força do Grande Prémio, visto que o Festival da Lusofonia foi, uma vez mais, antecipado para Outubro. Resta-nos, que mais não seja, o Festival Internacional de Música, – o encerramento é já amanhã, – que todos os anos lá nos vai trazendo alguma coisa do que se faz em Portugal. Desta vez, aliás, trouxe-nos algo do que se fez, «numa de saudosismo»!
Não se percebe muito bem porque é que no ano em que se comemora o décimo aniversário da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), a festa que assinala a mais-valia de Macau não tenha tido, no mínimo, o mesmo destaque do ano passado. Muitas vozes se levantaram contra esse facto, mas as explicações oficiais foram poucas. Passadas poucas semanas, porém, já ninguém se lembra e a vida continua, como se nada tivesse acontecido e dizendo cada um com os seus botões: «para o ano há mais»!
A verdade é que se nota uma grande disparidade entre o que se diz e o que se faz. Se, por um lado, temos altas figuras da hierarquia, quer de Macau quer de Pequim, a dizer que as relações entre a Grande China e os países da Lusofonia devem passar, obrigatoriamente e com todo o sentido, por Macau, – aliás, para isso até foi criado um fórum que muito tem contribuído para tal, – por outro, esquecem-se de incluir os eventos lusófonos, quando se comemoram os dez anos da RAEM.
Quando nos referimos à lusofonia, às relações com a China e ao papel de Macau, temos também de olhar para o outro lado do problema. O que se faz nos países lusófonos para promover a imagem de Macau como plataforma ideal para este convívio? Ou o que se faz em Portugal, por exemplo, para dignificar e dar a conhecer as relações centenárias com a China e o significado de Macau nas mesmas?
É uma questão antiga que, certamente, não terá apenas uma resposta nem nunca será satisfatoriamente esclarecida. Vamos, como sempre, vivendo de compromissos e posições dúbias, que nenhum dos lados assume oficialmente, mas que ambos praticam como mais lhes convém. Macau é isto mesmo: um compromisso assumido há quase meio século e que promete perdurar por muitos mais anos.
Nós, os lusófonos, queixamo-nos, porque parece estar no nosso sangue tal fazer, ou assim pensam os nossos comparsas asiáticos. Por muito ou pouco que se faça, há sempre críticas a quem faz e ao que se apresenta. Aliás, temos um dito muito conhecido na língua portuguesa que diz, mais ou menos assim: «não se pode agradar a gregos e troianos». Assim sendo, não será necessário entrar em muitos mais detalhes neste campo.
Nós, que decidimos viver em Macau, há muito que aceitamos estas situações como normais e olhamos para cada caso como sendo um percalço do percurso de crescimento da RAEM, como já nos habituámos a ouvir de muitas pessoas de boca oficial.
Ao completar dez anos, a RAEM entra na idade da «estupidez», como é conhecido popularmente o período «teenager» em Portugal. Um período onde todas as traquinices e diabrites são perdoadas, porque não se é ainda adulto, mas também já não se é propriamente uma criança.
Vamos esperar até à maioridade da região para ver em que tipo de adulto se irá transformar. Afinal, iremos vê-la com mais anos de maioridade, do que como criança ou adolescente. Será conveniente lembrar que a RAEM vai andar por aqui até aos cinquenta anos.
Acabámos um ciclo de criança que teve os seus momentos altos e baixos. Vamos agora entrar no período de adolescência, em que serão postos à prova os conhecimentos e experiência adquiridas nos primeiros anos de vida. Um momento, pois, de real preparação e definição do carácter adulto de qualquer entidade. Ora, neste caso, tratando-se de uma entidade e não de uma pessoa, está em causa a forma como a mesma se irá relacionar com os cidadãos que nela vivem.
Preocupamo-nos, principalmente, com o que será da lusofonia em Macau, em todas as suas vertentes.
Julgo que, como se viu nos primeiros anos de vida da RAEM, será da capital que virão sempre os maiores incentivos à preservação e fomento desses laços que a língua portuguesa aqui deixou. Penso também que tal interesse se irá manter, enquanto se mantiverem os interesses económicos da China nos países de língua portuguesa e na União Europeia.
Quando tal terminar, se antes não tiver sido fomentado qualquer outro tipo de dependência, podemos muito bem esquecer o que nos mantém em Macau. Até lá, muito trabalho há a fazer de ambos os lados pelas partes interessadas. Os nossos Governos têm de mostrar muito mais trabalho de casa e, antes de mais, têm de manifestar genuinamente estarem empenhados em alimentar esta relação centenária e privilegiada com a China.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Duarte deixa Macau a suspirar por mais

POUCAS pessoas em Macau tiveram conhecimento, mas passou pelo território, entre 16 e 26 deste mês, um dos fadistas mais conhecidos da nova geração em Portugal. Duarte, prémio Amália revelação de 2005/2006, esteve na região em visita privada e aproveitou para fazer uma pré-apresentação do seu novo álbum, que será lançado em meados de Novembro, no Museu do Fado em Lisboa.
Com a sua voz inconfundível, Duarte acedeu a quatro actuações, uma na Casa Garden, sede da Fundação Oriente; uma no restaurante Miramar, em Coloane; e duas no restaurante O Santos. Todas as actuações, num ambiente descontraído e com Duarte a cantar e a tocar viola, foram acompanhadas pelo exímio guitarra portuguesa, Samuel Cabral. Guitarrista que já tocou com todos os grandes nomes do Fado e um dos melhores especialistas da guitarra portuguesa da actualidade. Um apelativo extra das actuações de Duarte em Macau foi ver e ouvir Samuel Cabral dedilhar as cordas da guitarra portuguesa, extraindo os acordes mais incríveis nos concertos.
Duarte, por sua vez, recebeu várias ovações do público em pé, nos locais onde actuou. Apesar de não ser muito frequente ouvir fado em Macau, quem agora teve tal oportunidade mostrou saber como comportar-se no ambiente típico de uma casa de fados. Excepção feita a uma das actuações, em que um dos presentes, depois de várias advertências, teve de ser convidado a abandonar o local por estar a perturbar a actuação dos artistas e o bom ambiente no interior do recinto. Foi, porém, uma excepção, que não voltou a repetir-se.
Apesar dos vários contactos feitos para conseguir organizar mais actuações deste fadista em Macau, as portas mantiveram-se todas fechadas. Mesmo instituições que deviam ser sensíveis para mostrar o que se faz em Portugal, consideraram de pouca importância o facto de estar no território uma das vozes mais representativas da nova vaga de fadistas portugueses. Aliás, esta seria até uma boa oportunidade para, com pouco investimento, organizar um evento cultural que a comunidade local apreciaria. Prova disso foram as várias actuações feitas, que mereceram os maiores elogios por parte de quem esteve presente. Um dos comentários mais ouvidos foi o de que era incompreensível estarem estes artistas em Macau e não ter sido organizado nada pelas entidades oficiais, fossem elas da cultura do Governo ou da parte do Consulado Geral de Portugal.
Pessoalmente, tendo marcado presença em todas as actuações, não me lembro de ter visto ninguém em representação do Governo, nem mesmo o cônsul geral de Portugal em Macau ou alguém do Consulado Geral.
Falo disto porque, a pedido do fadista e do seu agente, por sermos amigos de longa data, me tinha sido solicitado fazer contactos com possíveis locais interessados em que eles actuassem. Dos que tive possibilidade de contactar, – não vale a pena estar aqui a enumerá-los, – as respostas foram todas negativas ou, com muita falta de respeito, nem sequer responderam. Os que responderam positivamente foram os locais onde o fadista actuou e que, – diga-se, – mostraram toda a disponibilidade para mais actuações e um possível regresso em breve.
Muitas vezes nos queixamos em Macau pelo facto de não haver muitas oportunidades para desfrutar de momentos vivos da cultura portuguesa, especialmente no que diz respeito às novas tendências. Acontece, porém, surgirem ocasiões como esta, em que elas nos «batem à porta», mas as portas se mantêm fechadas. O próprio Governo, que através dos seus departamentos de cultura se diz apostado em não deixar morrer a cultura de cariz português que torna Macau um local diferente, pouco ou nada faz. Aliás, alguns digníssimos representantes do Instituto Cultural (IC) cruzaram-se com os ditos fadistas num casino de Macau e nem se dignaram a apresentar cumprimentos!
Duarte deixou Macau bastante bem impressionado pela forma como foi recebido, sem qualquer tipo de ressentimento e deixou a porta aberta para um possível regresso, caso as entidades oficiais de Macau assim o entendam.
Eu diria mais: se querem trazer a Macau grupos que representem Portugal e que nos tragam o que de melhor lá se faz actualmente, acho que deveriam aproveitar oportunidades como esta, em vez de andarem a gastar milhares a trazer grupos e artistas que passaram à história há dezenas de anos e que apenas nos trazem cultura datada e sem nada de novo.
O que se quer em Macau, a nível de cultura de cariz português, é o que se vai fazendo de novo, porque de saudosismo, por cá, já estamos todos bem servidos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O que aí vem na próxima «quadratura»

NOS últimos anos habituámo-nos a ouvir grandes disparates na política de Macau, mas, como sempre, à boa maneira desta terra, olha-se para o lado e nada se diz, ficando tudo bem como dantes.
Depois de ler algumas declarações na imprensa, feitas por um dos novos deputados, apetece-me dizer que vamos ter um mandato da Assembleia Legislativa bastante emocionante e «colorido»! A avaliar pelas recentes opiniões dessa cara nova, podemos esperar de tudo nestes próximos quatro anos. Afinal, pode ser que, a partir de agora, a desculpa mais usada em meios institucionais (é tudo uma questão cultural) passe a ser usada «oficialmente» e seja regulamentada.
Mak Soi Kun, que tomou posse na passada sexta-feira e que é uma das surpresas das eleições deste ano, diz ter como bandeira do seu mandato a «qualidade de vida e defesa das Pequenas e Médias Empresas». Numa recente entrevista publicada na imprensa de língua portuguesa, afirmou que olha para os jantares oferecidos, como sendo uma «forma de mostrar respeito» pelos eleitores!
O deputado eleito pela lista Guangdong-Macau e que veio substituir Fong Chi Keong, diz-se defensor do cidadão comum, mas, por outro lado, não deixa de defender os interesses dos empresários. Algo que, em minha modesta opinião, pode, pelo menos, trazer algumas incompatibilidades! A não ser que, na opinião deste senhor, segundo o qual deve ser a população a decidir acerca das reformas políticas, sejamos todos empresários!
Quando um legislador defende que oferecer jantares aos eleitores é uma questão sem importância e que apenas serve para mostrar respeito só pode estar na política com intenções de «brincar» com todos nós e, mais grave, brincar com as instituições governamentais.
A sombra de Fong Chi Keong, ao afirmar que não vê nada de errado nos jantares que ofereceu, e que tal é tradição em Macau, apenas mostra que desrespeita o primado da Lei da RAEM. A lei eleitoral é clara nesse aspecto, pelo que desculpá-lo por ser uma questão cultural (algo que nunca percebi muito bem e que pode ser muito ambíguo) ou por apenas ser uma forma de dizer «obrigado», é algo que não deve ter lugar e que merece ser punido.

Lusofonia

Este fim-de-semana realiza-se a décima segunda edição do certame que assinala o lado lusófono de Macau. Agora chamado de Festival da Lusofonia voltou ao formato inicial de dois dias e meio com três noites de espectáculos e um orçamento muito mais reduzido.
Nos últimos dias tenho visto várias pessoas a apontar o dedo ao Instituo para os Assuntos Cívicos e Municipais pela falta de verba; se olharmos, porém, para os anos anteriores, a verba aplicada tem aumentado de ano para ano. Apenas em 2008 foi substancialmente mais elevada porque houve a participação do Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Tal ajuda este ano não existiu, sendo o IACM obrigado a fazer ginástica financeira para conseguir, na medida do possível, manter algum do nível que mostrou no certame do ano passado.
Todos sabemos que sempre que os eventos melhoram quando existem fundos suficientes para se fazer um bom trabalho, no ano seguinte torna-se difícil explicar a razão pela qual se apresenta um programa mais fraco. No entanto, tem que se ter em conta que a entidade responsável, assim como a pessoa que trabalha horas a fio para que estes dois dias e meio de festa possam existir, estão constringidos por rigores orçamentais.
Cabe ao Governo, talvez à secretaria que tutela o Turismo ou a Cultura, tomar pulso desta iniciativa e desbloquear a verbas necessárias para organizar um certame à altura do que se fez no ano passado. Afinal, há tantas verbas do Orçamento do Governo que acabam por não ser utilizadas!
Para este ano resta-me dizer que, com pouco mais de um milhão de patacas, muito se faz e muito se oferece, quando comparado com os muitos milhões que havia no ano passado!
Divirtam-se, pois! Um feliz Festival da Lusofonia 2009.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Um cheirinho do meu artigo

Na edição da próxima sexta-feira vão ler um texto que fala dos disparates de um novo deputado.
A sombra de Fong Chi Keong ao afirmar que não vê nada de errado nos jantares que ofereceu, e que tal é tradição em Macau, apenas mostra que desrespeita o primado da Lei da RAEM. A Lei eleitoral é clara nesse aspecto, pelo que desculpá-lo por ser uma questão cultural (algo que nunca percebi muito bem e que pode ser muito ambíguo) ou por apenas ser uma forma de dizer “obrigado” é algo que não deve ter lugar e que merece ser punido.
E que aborda também a Lusofonia, o festival que hoje começa e que todos criticam.
Este fim-de-semana realiza-se a décima segunda edição do certame que assinala o lado lusófono de Macau. Agora chamado de Festival da Lusofonia voltou ao formato inicial de dois dias e meio com três noites de espectáculos e um orçamento muito mais reduzido.
Nos últimos dias tenho visto várias pessoas a apontar o dedo ao Instituo para os Assuntos Cívicos e Municipais pela falta de verba mas, se olharmos para os anos anteriores, a verba aplicada tem aumentado de ano para ano. Apenas em 2008 foi substancialmente mais elevada porque houve a participação do Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Tal ajuda este ano não existiu, sendo o IACM obrigado a fazer ginástica financeira para conseguir, na medida do possível, manter algum do nível que mostrou no certame do ano passado.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Barracas de gente rica

As barracas da Ilha Verde acabaram, segundo anunciou o Governo com toda a pompa na semana passada. Este legado, que a todos envergonhava e que se arrastou por dezenas de anos, chegou finalmente ao fim. Para que não esqueçamos a triste história, está patente no Armazém do Boi uma exposição fotográfica que mostra a sua evolução ao longo dos anos.
Todo o processo de demolição esteve envolto em polémica, seja porque os ocupantes reclamavam mais indemnizações do Governo, fosse porque o Governo era acusado de não ouvir as partes interessadas e de recorrer à força excessiva para efectuar as demolições e os necessários desalojamentos.
O episódio final, que envolvia a última família que se recusava a abandonar a barraca, teve o fim que todos adivinhavam. As máquinas do Governo avançaram e demoliram o que ali existia.
Agora que tudo veio abaixo, fala-se da história da família que ali vivia e que se recusava a sair porque, consideravam, deveriam receber mais do Governo.
A verdade é que, segundo os documentos oficiais, que são públicos, a dita família a viver numa barraca (segundo diziam) tinha comprado, em 1994 e em 1995 duas habitações económicas, tendo posteriormente vendido uma delas. No entanto, o registo de propriedade desta nunca mudou de nome, o que é o mesmo que dizer que a família era proprietária de duas habitações sociais subsidiadas pelos impostos de todos nós e ainda reclamavam a atribuição de mais uma casa em troca da barraca na Ilha Verde.
Não critico que as pessoas tentem lutar por uma vida melhor, mas quando para tal não olham a meios, a verdade tem de ser dita. Esta família, sendo proprietária de habitação subsidiada pelo Governo, não tem direito a outra. A Lei é clara nesse aspecto. Aliás, a família, ao ter adquirido duas casas, estava já a violar os regulamentos de atribuição de casa subsidiada pelo Governo. O regulamento diz claramente que para os residentes se candidatarem não podem ser proprietários de qualquer fracção habitacional em Macau e devem ter condição económica que justifique a atribuição da ajuda do Governo.
O facto de a família ser proprietária de, pelo menos, uma habitação em Macau, faz com que não tenha direito a outra das mesmas condições. Pelo que a remoção da barraca na Ilha Verde dará, quanto muito, lugar a uma pequena indemnização pelo facto do Governo os ter expropriado, no caso de haver documentos que comprovem a sua titularidade sobre o terreno onde a barraca se encontra. Caso contrário, não têm direito a nada.
Aliás, olhando para os dados que são conhecidos, a referida família, tendo a certa altura duas casas, não me parece que seja propriamente uma família necessitada de habitação social! Além do mais, vendeu, ao que se sabe, uma das habitações sociais que tinha adquirido entre 1994 e 1995 o que, só por si, deveria ser factor suficiente para nunca mais ser elegível para atribuição de habitação subsidiada pelo Governo.
Reclamam que são uma família numerosa (penso que seis elementos) e que a segunda habitação (de cerca de 40 metros quadrados) não é suficiente. Por isso reclamam que lhes seja atribuída uma de três quartos e até fixam o preço máximo em 300 mil patacas! No entanto, esquecem-se que já tiveram direito a duas fracções anteriormente, enquanto que, pela Lei, deveriam apenas ter recebido um apartamento.
A questão aqui prende-se com o facto de se saber, ao certo, se esta família precisa, ou não, de casa do Governo. O facto de já lhes ter sido dada a oportunidade de adquirirem duas fracções a preço subsidiado, e o facto de terem vendido uma delas, leva a pensar que não deverá haver grande dificuldade económica no seio da família para que adquiram casa como a maioria das pessoas de Macau, caso não estejam satisfeitos com o que o Governo lhes deu.
Sei de casos de famílias que pagaram bem mais do que esta para ter uma casa de 40 metros quadrados. E quando digo bem mais, refiro-me a quatro e cinco vezes mais!
Esta situação tem sido explorada pela comunicação social e alimentada pelas diversas movimentações da família, no intuito de conseguirem o que querem; porém, desta vez e de acordo com a Lei, o Governo tem sido inflexível. Aliás, assim deveria agir em todos os incidentes deste e de outro tipo.
Por outro lado, há muitas famílias que se encontram em situação muito pior do que esta e que continuam à espera que lhes seja atribuída uma habitação social ou subsidiada, para que possam levar uma vida digna.
Enquanto o Governo continuar a perder tempo com casos destes, não será possível ao Instituto de Habitação debruçar-se sobre os casos que realmente precisam de ajuda e, como todos sabemos, apesar de toda a riqueza existente em Macau, esses casos abundam a cada esquina.
Só não os vê quem não quer ou quem não tem sensibilidade para ver a miséria que nos rodeia.
Apetece dizer, eu quero uma casa do Governo com três quartos também!

NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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