Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...
sábado, 26 de junho de 2010
Civismo: há muito por fazer!
UM colega escrevia um destes dias sobre um episódio que se tinha registado com ele e que envolvia um agente policial no exercício das suas funções. No caso tratava-se de fazer aquilo que melhor, aparentemente, sabem fazer: passar multas! Descrevia esse colega que estava a retirar o seu veículo motorizado de duas rodas do local de estacionamento (aparentemente ilegalmente estacionado) e que o agente o barrou até que conseguisse acabar de preencher as coimas que estava a passar a todos os veículos na mesma situação, sem ter qualquer outra opção para sair do local.Na verdade, e sem que se queira desculpar o indesculpável, o veículo estava mal estacionado e merecia ser autuado por isso. No entanto, estando o seu condutor a retirá-lo do local, haveria necessidade do agente o manter no local (chegando mesmo a pedir-lhe que o voltasse a estacionar no mesmo espaço) até que terminasse a tarefa de preencher todos os recibos correspondentes às multas dos veículos transgressores?
A polícia tem todo o direito, e mesmo obrigação, de fazer cumprir a lei. No entanto, e como todos sabemos, a mesma lei é flexível, assim como deveria ser a atitude dos agentes. Felizmente que a maioria dos agentes da autoridade opta por uma postura mais relaxada, deixando seguir (apenas com uma reprimenda ou «ralhete») quem se apressa a retirar os veículos em transgressão. Isto vê-se diariamente nas ruas do território, ficando bem esta postura pedagógica aos agentes da autoridade. Há, no entanto, alguns que parece não compreenderem que a autoridade tem mais de educativo do que punitivo, optando por exercerem o poder que lhes está atribuído como se de semideuses se tratasse, esquecendo-se que ninguém consegue respeito recorrendo a atitudes de força.
Essa postura arrogante e prepotente de alguns agentes, que acaba por denegrir a imagem de toda a corporação, é a que fica na memória das pessoas e especialmente de quem nos visita e presencia cenas tristes como uma que vejo com alguma frequência. Na zona onde resido, assim como em muitas outras da cidade, é usual ver agentes fazerem a identificação de pessoas no meio da rua. Já várias vezes me detive com o simples propósito de os ver a trabalhar, porque considero este «modus operandi» muito«sui generis». Regra geral são grupos de três polícias fardados, conversando animadamente enquanto não encontram alguém a quem lhes «apeteça» pedir a identificação. Digo «apetecer» porque, confesso, não consigo descortinar o critério usado para, aleatoriamente, pedir aos transeuntes que se identifiquem. A verdade é que das vezes que me detive para os ver trabalhar, nunca tive a oportunidade de os ver a identificar qualquer ocidental ou qualquer outra pessoa que aparentasse ser chinês. Sistematicamente mandam parar, muitas vezes com uma arrogância de meter medo até mesmo a quem apenas os vê actuar, cidadãos do sudeste asiático.
Creio não ser por discriminação que o façam, mas não deixo de me interrogar sobre a razão porque não mandam parar outras etnias? Nunca o fizeram comigo, nem com alguém que conheço; contudo, a forma como actuam causa má impressão e deixa uma imagem de discriminação junto das pessoas, especialmente junto dos turistas que muitas vezes assistem a estas cenas.
Compreendo que se devem fazer acções de identificação nas ruas, pois são parte importante do combate à ilegalidade no território, mas fazer estas acções em plena zona de circulação de turistas ou em zonas de grandes aglomeração de pessoas deveria ser evitado, porque causa muito mau aspecto. Ou, a ter de ser feito, que o seja a todos quantos passam pelo local e educadamente.
Um outro caso que presenciei e me deixou perplexo passou-se na Rua do Campo, na paragem do autocarro junto ao edifício da Função Pública. Estavam no local cerca de meia dúzia de pessoas, entre elas duas senhoras de nacionalidade filipina. Eu estava à espera do autocarro e, desde que ali me encontrava, tinha reparado num agente encostado à parede, junto da loja de roupa nas imediações, a falar ao telefone animadamente e a fumar. Durante o tempo de espera pelo autocarro para o meu destino (cerca de 15 minutos devido ao trânsito), muitas pessoas chegaram e partiram. No entanto, o agente apenas decidiu vir pedir a identificação quando essas duas pessoas chegaram e, quando o fez, foi de forma pouco educada e em tom bastante autoritário, de tal forma que as restantes pessoas ali presentes ficaram estupefactas perante tal cena em que as duas senhoras se sentiram completamente embaraçadas. Quando estas se identificaram como residentes permanentes, nem um pedido de desculpa do agente, que entregou os documentos de identificação, virou costas e voltou ao seu «posto de espera» junto do estabelecimento de venda roupa!
Não sei se se trata de uma nova técnica de actuação das autoridades. Mas, se assim é, é caso para dizer que têm mesmo muito a melhorar, pois educação, cortesia e postura são algumas das características que devem estar sempre presentes nos agentes da autoridade que trabalham na rua. A desculpa de que não existem agentes em Macau e que os que são formados o são com muitas limitações não pode servir de desculpa, porque a segurança e bem-estar da população devem vir sempre em primeiro lugar.
Apesar de tudo, e como acredito na boa vontade das autoridades, julgo que estes sejam apenas maus exemplos e não representam a totalidade das Forças de Segurança. Importa, porém, referir que são aspectos a ter em conta, para melhorar, porque basta apenas uma nódoa para o pano ficar sujo.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
City of Nightmares para locais
O CITY of Dreams está a revelar uma face pouco atraente aos residentes de Macau que não falam chinês, adoptando uma postura discriminatória.Recentemente, esta empresa promoveu uma «feira de emprego», com o intuito de recrutar trabalhadores locais para os mais diversos departamentos. Afinal, as restrições à importação de mão-de-obra parecem estar a criar problemas de recrutamento a algumas empresas.
Como resultado desta campanha, muitas foram as pessoas de Macau que ali se deslocaram. No entanto, apesar de terem BIR, muitas deram de caras com um tratamento discriminatório e pouco simpático por não falarem chinês.
Sem qualquer pré-inscrição, os interessados apenas tinham de se dirigir ao hotel Grand Hyatt e assistir à sessão de recrutamento.
Depois de ouvir algumas críticas à forma como foram tratados alguns residentes permanentes e não permanente, decidi ver por mim mesmo. Meti-me ao caminho e apresentei-me. A primeira pergunta que me colocaram foi se tinha BIR, ao que respondi afirmativamente, para surpresa – estampada na cara – de quem me questionou. Terá sido, porventura, a primeira vez que viu um português residente permanente de Macau?
De seguida, fui encaminhado, juntamente com outros candidatos, na maioria chineses, para o Salão de Teatro, onde tivemos direito a uns petiscos e bebidas antes da sessão de apresentação. Logo depois desta sessão, fomos encaminhados para a entrevista onde, comprovando aquilo que me tinha sido relatado diversas vezes, me foi dito (sem qualquer pudor nem rodeios) que não contratavam ninguém local que não soubesse chinês!
Sem nunca lhes revelar que a minha presença ali nada tinha a ver com procura de emprego, perguntei a que tipo de vaga poderia eu concorrer, tendo em conta a minha experiência profissional, académica e domínio de línguas, incluindo uma das oficiais, etc. Foi-me respondido que, não dominando chinês, os residentes de Macau poucos trabalhos poderão desempenhar no City of Dreams. Quanto muito, podem, independentemente das qualificações, concorrer a uma vaga de empregado de mesa! Perante isto perguntei como me tratariam, caso me candidatasse a um lugar superior, mas apresentando a minha candidatura como não residente? Responderam que na minha área teriam algumas vagas, especialmente para alguém com experiência na Função Pública do território, conhecimento do funcionamento da máquina administrativa e no campo da Comunicação Social! – Mesmo não sabendo chinês?, perguntei para que não houvesse dúvidas, ao que me foi confirmado que aos não residentes não lhes é pedido que saibam chinês, porque a língua de comunicação dentro da empresa é o idioma inglês!
Empresa tem obrigações sociais
O City of Dreams, como empresa privada, pode fazer o que bem entender e contratar quem bem desejar. No entanto, há obrigações sociais a que a empresa deve obedecer. A contratação de locais, não discriminando com base na etnia, religião e língua, é um desses princípios. Sendo uma empresa a operar em Macau e onde um empresário local assume uma posição de liderança, deveria fazer mais para promover, proteger e fazer cumprir o que está previsto na Lei Básica. Aqui o City of Dreams, Lawrence Ho e seus associados deixam muito a desejar.
Macau não são só chineses. Macau é feito de uma mescla heterogénea de etnias, crenças e línguas, sendo que duas são oficiais e uma terceira é tida como de comunicação aceite por todos. A não aceitação de candidaturas por pessoas que não dominem chinês, para posições onde este não é obrigatoriamente necessário, é uma discriminação e deve ser repudiada por todos, por muito que os responsáveis tentem disfarçar dizendo que a situação não é assim tão linear.
Compreende-se que, para certas posições, seja necessário falar chinês, mas para outras, visto trabalhar-se num ambiente internacional, o domínio do chinês de nada adianta porque a língua de comunicação será sempre o inglês, tal como me foi dito por funcionários da empresa. Mas mesmo que argumentem que é necessário o domínio do cantonense, como justificam que tal não o seja para quem é recrutado no exterior? Não será esse requisito uma forma de discriminação dos residentes de Macau que não falam este idioma?
Em Macau, de acordo com a Lei Básica, somos todos iguais, falando ou não as línguas oficiais do território. Nenhum tipo de discriminação pode ser feito quando se concorre a um local de trabalho, baseada na questão da língua, religião ou etnia. A não ser que a referida posição exija, sem margens para dúvidas, que seja necessário o recurso à língua em questão.
Até quando vai o Governo deixar estas injustiças serem praticadas contra os residentes? Para o constatar basta requerer a lista dos trabalhadores contratados e ver quantos não falam cantonense…
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Autoridades apresentam trabalho
O SER humano é, por natureza, inconformado e sempre pronto e predisposto a fazer críticas sobre tudo o que o rodeia. Dou aqui a mão à palmatória porque, nestas mesmas páginas, na maioria das vezes, escrevo mais sobre injustiças ou dou voz a críticas. Pontos de vista que apenas são guiados pelo meu critério e a minha opinião como cidadão livre e preocupado com o que me rodeia. Não significa que esteja sempre certo, nem que seja a visão da maioria da população É apenas a minha e, consoante critérios que nem sempre são os mais lineares, dou-lhes a devida ampliação junto dos leitores, esperando sempre que tenham alguma receptividade junto de quem é visado.Quem nos lê deve lembrar-se de que, recentemente, falei da falta de iluminação na Fortaleza do Monte. Pois, desta vez, ao contrário do que geralmente aqui acontece (mas confesso que isto me dá muito mais prazer), quero elogiar o trabalho das autoridades e de quem se responsabiliza pelo local. Aproveito para confirmar que o problema fora já resolvido. Cinco dias depois de ter sido publicado o artigo sobre o assunto, a iluminação foi reposta. Digamos que foi rápida e pronta a acção dos responsáveis pela Fortaleza. Agora apresenta-se mais segura e muito mais atraente à noite. Quem por ali der umas voltas no fim do dia, agradece e mostra-se satisfeito com o facto de haver iluminação em todo o perímetro do monumento. Aqui deixo, pois, os parabéns a quem leu o artigo e decidiu actuar para rectificar a situação. Os moradores, os demais cidadãos e os turistas agradecem, certamente, o dito melhoramento.
Continua, no entanto, a sentir-se necessidade de mais policiamento no local, especialmente à noite. A certas horas, quem por ali circula sente-se inseguro, tendo em conta situações de assalto ou até de assédio, que por vezes acontecem. Não tenho conhecimento de nenhum caso grave, mas, se o local não for vigiado, por exemplo com a passagem de hora a hora de um agente da autoridade no perímetro, temo que algo possa vir a acontecer a alguém mais incauto.
Obras ilegais vão abaixo
Outro caso, mas agora de construções ilegais num prédio também na mesma zona da Fortaleza do Monte, mais concretamente num edifício que tem fachada na Calçada do Monte e na Rua do Sol, e que aqui também abordei há tempos ilustrando-o com várias fotografias da evolução da construção, tenho também o gosto de referir que têm sido tomadas algumas medidas para resolver o problema. Apesar de, aparentemente, se assemelhar mais difícil de resolver, porque se trata de construções fixas, parte delas foram desmanteladas dias após o assunto ter sido abordado e, recentemente, verifiquei que as restantes estruturas foram já alvo de notificação por parte da DSOPT, com editais afixados nas duas línguas oficiais nos acessos ao edifício em questão. Espera-se que os visados resolvam rectificar a situação e repor a segurança no edifício. Os vizinhos, sem dúvida, mostrar-se-ão satisfeitos e gratos pelo facto de estarem agora a viver num local mais seguro.
Acontece, porém, que os editais afixados na portaria principal do prédio em questão – não sei se contra a lei – foram retirados. Não se sabe por quem, mas quero pensar que as autoridades terão outras formas de fazer cumprir a lei na sua totalidade.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Será Sun Yat-sen mais importante?
NUMA terra que lentamente vai perdendo as suas raízes e características que a fizeram especial durante séculos, irrita-me a passividade com que se olha para o delapidar do património que é de todos nós. Principalmente porque estamos numa época em que se valoriza, cada vez mais, nas sociedades mais desenvolvidas, o que é antigo e de boa qualidade. Por cá, parece que andamos em sentido oposto e apenas se olha para o que é novo, «kitsch» e desprovido de qualquer valor histórico, civilizacional ou cultural.Os exemplos aparecem nas páginas dos jornais diariamente, mas as autoridades, ou quem por inerência de funções devia ter alguma sensibilidade para situações relacionadas com casos deste género, parecem assobiar para o lado e fechar os olhos cada vez que «cai por terra» um pouco da história comum do território.
Macau é feito de uma mescla de influências, que variam entre o oriental e o ocidental, com grandes marcas do que é chinês, do que é português ou de características portuguesas. É isto, em grande parte, que traz ao território um bom número de turistas sedentos de vestígios históricos da sã convivência milenar entre o Oriente e Ocidente.
É do conhecimento de todos que a grande maioria dos turistas que nos visitam (99%) pouco se importa com o património e pouco mais querem do que mesas de bacará e máquinas de papa-níqueis. No entanto, e como prefiro inclinar-me para a lenga-lenga dos responsáveis do Turismo de Macau, os outros (o tal 1% restante) vêm com vontade de ver algo diferente, algo que só a RAEM pode oferecer – como diz o chavão «Num mundo de diferenças, a diferença é Macau!».
Recentemente a população ficou estupefacta, pela positiva desta vez, com a acertada decisão do Instituto Cultural de salvar a pretensa farmácia que serviu de refúgio ao fundador da China moderna! Pelo que foi dado a conhecer, o presidente do IC foi célere depois de alertado, mesmo não havendo quaisquer certezas de que tal edifício seja mesmo o das secretas reuniões de Sun Yat-sen para conspirar contra o regime imperial Qing. Apesar das dúvidas, fica o aplauso para a decisão de suspender os trabalhos e proceder a melhores averiguações para tentar salvar, que mais não seja, um edifício que data de finais de 1800, portanto, com mais de cem anos de existência. Só o próprio facto da sua «antiguidade» já faz com que mereça ser restaurado e apreciado pela população e por quem nos visita, com ou sem Sun Yat-sen!
Pena me faz que não seja seguido este princípio em todos os casos referentes ao património que diariamente é delapidado. Se decidiram optar por salvar este prédio (que estava destinado a dar lugar à construção de apartamentos), porque não fazer o mesmo com os edifícios nas traseiras das Ruínas de São Paulo? Confesso que não compreendo o uso de dois pesos e duas medidas. A única diferença entre eles é que um representa a história da China e o outro apenas representa o lado ocidental de Macau. Não quero pensar sequer que tal seja a razão de tão «científica» decisão. Porque, se assim fosse, estariam então os princípios orientadores da sociedade local em muito maus lençóis…
A verdade é que o edifício da Rua das Estalagens fica de pé até novos estudos serem feitos e os edifícios dos funcionários públicos, na Rua D. Belchior Carneiro, apesar de serem exemplares únicos daquele tipo de arquitectura em Macau (e mesmo na Ásia), estão com o destino traçado para darem lugar a um parque de estacionamento.
Estejam atentos às notícias mais recentes e antevejam o que irá acontecer nos próximos dias! É de pasmar, mas é mesmo verdade. Aqui deitamos por terra prédios históricos que não se vêem em mais lugar nenhum do continente asiático, para dar lugar a espaço destinado a veículos motorizados! Mesmo que digam e mostrem que é em nome da preservação do património. O facto de existirem vestígios da antiga muralha, ou de supostas cerâmicas Qing, será razão suficiente para demolir exemplares completos de um estilo arquitectónico que não existe em nenhum outro local de Macau?
É isto que me leva a dizer que na RAEM andamos em sentido oposto ao do resto do mundo, pelo menos no que a conservação do património diz respeito!
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Serviços muito lentos
IMAGINEM que têm uma qualquer maleita e que precisam de ser vistos por um especialista. Agora imaginem também que vos dizem que só para finais de Setembro terão consulta de especialidade! Perante tal resposta, o que logo nos vem à mente é que até lá o paciente vai morrer!Quase parece uma anedota! No entanto, esta é a realidade para muitas pessoas que usam os serviços do hospital do Governo. Relato apenas um caso em que fui interveniente directo.
Num fim-de-semana, decidi ir às urgências (optei pelo fim-de-semana porque não queria estar a faltar às minhas obrigações profissionais), para que me fosse receitado medicamento para um problema de artrite reumática que me afecta há muitos anos e que, nos últimos tempos, tem vindo a piorar (daí a razão de precisar de medicação).
Após a consulta, pedi ao médico que me fizesse a marcação de uma consulta de especialidade, para que fossem feitos exames mais concretos ao problema. Para minha surpresa, o clínico avisou-me logo que, no Centro Hospitalar Conde de São Januário só teria consulta para finais de Setembro, isto é, quatro meses depois! No entanto, teve o bom senso de me explicar que, caso eu concordasse, poderia ter uma consulta mais rápida no hospital privado (penso que ao abrigo de qualquer protocolo que o Governo tem com esta instituição). Tendo acedido à sua sugestão, aguardei que me informassem da data da consulta no Kiang Wu e o processo seguiu com toda a normalidade. Fui consultado naquele hospital privado quatro dias depois!
Perante isto, logo surge em mim a interrogação: porque tem o hospital do Governo de recorrer a serviços privados para dar resposta às necessidades dos seus utentes? Não seria mais sensato optar por reforçar o seu quadro de clínicos e aumentar as instalações, em vez de dar mais dinheiro ao sector privado? Fica mal aos olhos da opinião pública ver entregar milhões a uma instituição particular, sem que para tal haja uma explicação aceitável. E, – pior ainda! – esta instituição nem sequer satisfaz as obrigações no que diz respeito às línguas oficiais, pois dado que a língua portuguesa é inexistente, o recurso ao inglês é a solução, apesar deste ser quase impossível de perceber!
Ao ser, quase, «obrigado» pelo Governo a ir ao hospital privado, não terei o direito de escolher qual hospital privado quero? Se o serviço fosse prestado nas instalações do hospital governamental, não haveria lugar a escolha, mas se nos enviam para o sector privado, deveríamos ter, pelo menos, o direito de escolha do local onde queremos ser observados.
A imagem do hospital privado Kiang Wu não é das melhores, pois são conhecidos casos de tratamento discriminatório de utentes do mesmo. Sabendo-se disso, e não tendo o hospital público capacidade para dar resposta aos seus utentes, deveria permitir que estes pudessem escolher livremente onde querem ser tratados, em vez de os condicionar, logo à partida, e sem qualquer alternativa, o hospital que lhe propõem.
É certo que a escolha entre um serviço de baixa qualidade e um serviço tardio não se apresenta muito fácil de fazer. Mas essa é, no fundo, a escolha que nos é colocada. Caso optemos por outra solução, sai-nos do bolso, porque o Governo apenas subsidia as consultas no hospital da sua escolha.
Nota mais positiva
Para que não digam que ando sempre a criticar os serviços do hospital público, quero dizer que o atendimento nas urgências, nesta consulta que tive num sábado à tarde, foi rápido (pouco mais de uma hora entre o registo e o ser atendido) e o médico que me atendeu mostrou ser bastante competente. Apesar de não falar português, expressava-se correctamente em inglês, não tendo havido qualquer tipo de atrito ou dificuldade de comunicação durante a consulta.
Embora se notem ainda certas atitudes de indelicadeza por parte do pessoal que faz o atendimento e a triagem (pois parecem estar ali a fazer um favor aos pacientes, como se ali fôssemos por divertimento!), quero realçar que melhorou bastante, especialmente no que toca ao tempo de espera dos doentes. As condições do local de espera, porém (temperatura e circulação de ar), eram desajustadas, deixando muito a desejar e a mostrar bem que precisam urgentemente de ser revistas.
Devo dizer, e faço-o com grande satisfação, que fiquei bem impressionado com o tratamento que tive nesta experiência das urgências do hospital público.
domingo, 23 de maio de 2010
Storm surge...
Afinal o termo “storm surge” tem tradução para português… O que aqui temos dito, por inúmeras vezes, mas que os SMG parecem ignorar, deve mesmo estar certo.
As marés de tempestade, termo que o presidente dos Comités dos Tufões, Olavao Rasquinho, utilizou várias vezes em entrevista à TDM
As marés de tempestade, termo que o presidente dos Comités dos Tufões, Olavao Rasquinho, utilizou várias vezes em entrevista à TDM
veja a entrevista aqui na TDM
sábado, 22 de maio de 2010
Fortaleza do Monte às escuras
UM dos maiores ícones do património de Macau, a Fortaleza do Monte, merece ser preservada e mantida em perfeitas condições. Mas quem por ali passeia ao fim do dia sabe que tal anseio está bem longe da realidade. As paredes e as peças de artilharia no exterior estão cheias de exemplos de falta de civismo de quem nos visita. Aliás, também o próprio piso nos mostra bem que há muita gente que não foi educada convenientemente no que diz respeito ao comportamento em sociedade.É uma vergonha ver o estado a que chegou o seu exterior. Quanto ao interior, nem me quero pronunciar, já que, visto de fora, suscita pouca vontade e interesse em ver o que está lá dentro. E se o que vemos ao chegar não nos agrada, imaginem o que pensam os que se decidem a entrar!
A verdade é que, por fora, a imagem que nos é dada do exterior não é muito convidativa. Parece que existem duas fortalezas. Uma, virada para as Ruínas de São Paulo, bem iluminadas, com bancos e bem tratada; outra, dos outros dois lados, voltada para a zona do hospital Kiang Wu, às escuras, sem bancos e sem caixotes de lixo. Um local que à noite se torna inseguro e pouco aconselhável a quem por ali queira dar umas voltas com tranquilidade.
Torna-se difícil entender tal modo de actuar por parte do Governo. A rede de iluminação está instalada em toda a periferia da estrutura, mas, inexplicavelmente, apenas no percurso que vai da entrada (que fica nas traseiras, na Estrada dos Artilheiros) até à zona de jardim que dá acesso às Ruínas de São Paulo, está ligada durante a noite. Todo o restante percurso que circunda a Fortaleza permanece desligado, deixando na escuridão e, consequentemente, com falta de segurança, toda aquela zona para quem por ali queira passear.
De salientar ainda que não existe segurança, nem mesmo policiamento do local, para já não falar de vídeo-vigilância, o que pode dar azo às mais variadas e indesejáveis situações. Felizmente, ainda não aconteceu nada de grave, apesar de haver relatos de pessoas (especialmente do sexo feminino) que são assediadas nessas zonas mais recônditas e sem iluminação.
Não havendo seguranças nem agentes da autoridade no local, até a apresentação de queixas provoca algum receio, pois quem, eventualmente, tenha visto qualquer coisa de anormal na zona, não quer intrometer-se em assuntos que não lhe dizem respeito, optando por fingir que nada viu. E as vítimas, muitas vezes, para evitarem o vexame público, preferem normalmente não dizer nada.
Como resido na zona há já alguns anos, ali me desloco diariamente com o meu cão, tendo já assistido a cenas menos propícias, especialmente de exibicionismo e mesmo outros actos bem mais condenáveis e que não deveriam ser presenciados naquele local.
Tal como eu, muitos outros residentes ali se dirigem, sendo o local bastante frequentado, principalmente à noite, por famílias e pessoas idosas.
Durante o dia, devido à afluência de turistas àquele local, os residentes evitam por ali andar, porque a confusão é muita e a falta de civismo de quem nos visita é cada vez menor. Mas à noite, e sem outras opções nas redondezas, nós que ali vivemos aproveitamos para desfrutar do local o mais possível.
A falta de policiamento poderia ser resolvida colocando uma caixinha da polícia em cada extremo da estrutura, obrigando assim o agente a ter de ali passar, pelo menos para «picar o ponto». Não sendo um policiamento constante, serviria como elemento dissuasor para quem ali se desloca com segundas intenções. Para nós, residentes, serviria de consolo saber que, de tempos a tempos, cruzaríamos com um agente da autoridade. Não seria pedir muito, penso eu. Os agentes têm uma dessas caixinhas de metal na calçada à entrada da Fortaleza, bastaria deslocá-la para a zona mais distante.
Um episódio triste
No final de uma volta completa à fortaleza com o meu animal de estimação deparei, logo após a esquina onde está o canhão apontado para o lado do Grande Lisboa, com um casalinho de chineses do continente a inscreverem o seu nome na parede do monumento para a posteridade! Não estive com meias medidas e chamei-os à atenção. De nada valeu porque, apesar de terem parado quando lhes disse que era errado o que estavam a fazer, assim que virei costas a caminho de casa, voltaram à tarefa para acabar a sua «obra-prima». Ainda tentei encontrar um agente da autoridade para o alertar, mas, como é usual na zona àquela hora, não consegui ver nenhum. Não me restou senão continuar o meu caminho e escrever este apontamento, com a esperança de que as autoridades e o Governo se decidam, por um lado, a ligar a iluminação em toda a extensão exterior da Fortaleza e, por outro, a colocarem policiamento ou segurança 24 horas, para que o património seja preservado e as pessoas se sintam em segurança.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Até à vista, TAP!
ATÉ apetece dizer: finalmente, a Transportadora Área Portuguesa (TAP) saiu de Macau! Porque será que ninguém se manifesta surprendido com tal decisão?A posição da TAP, que juntamente com o Banco Nacional Ultramarino detinham a «holding SEAP», que por sua vez detinha 0,1 por cento do capital da Air Macau, foi sempre de que não era uma instituição de caridade e que não compactuava com investimentos que só davam prejuízo.
Como se sabe, a Air Macau nunca deu lucro. Por muitas manobras que fizessem na apresentação de resultados, o saldo era, ano após ano, negativo. Chegando mesmo, salvo erro no ano passado ou há dois anos, a ultrapassar o valor do capital social, o que em termos financeiros não me parece ser muito bom sinal. Isto, mesmo para mim, que nem percebo nada de Economia!
Agora fica a companhia nas mãos do Governo e da Air China e de outros pequenos investidores. Ou seja, finalmente é uma empresa local e continuará a ser financiada pelo dinheiro dos impostos de Macau e tudo continuará como dantes. A única diferença é que a participação portuguesa numa das empresas estratégicas do território desaparece, ficando assim o poder de negociação mais reduzido, se bem que 0,1 por cento pouco significativo era, e tal viu-se quando se opuseram à decisão do aumento do capital social proposto pelos outros accionistas.
Com a saída da TAP, as esperanças que ainda havia de voltarmos a ter ligações entre a capital portuguesa e o Oriente (a opção que mais apoio reunia entre os cidadãos lusos era a da reactivação da ligação Macau-Banguecoque-Lisboa) desvanecem-se por completo. No entanto, o aspecto que realmente me deixa preocupado é o do uso da língua portuguesa. Pensando melhor, não se trata propriamente de um problema. Afinal, a língua portuguesa já não fazia parte da Air Macau há muitos anos! Basta consultar a página electrónica da empresa, para tal constatar. A dita existe em várias línguas asiáticas e em inglês. Assim como a comunicação da empresa com o exterior e com os passageiros, num completo atropelo à Lei Básica e às suas raízes culturais. Mas quem somos nós para nos queixarmos? Afinal, temos aquilo que criámos e tal vinha sendo prática, mesmo quando eram os portugueses que decidiam as estratégias do grupo!
Este problema, porém, não se restringe apenas à Air Macau. Outras empresas, com capitais estatais portugueses, ignoram o uso de uma das línguas oficiais da RAEM (o Português), mesmo sendo esta a língua oficial do país que nelas investe. A ADA (Administração de Aeroportos), cujos 49 por cento do capital pertencem à ANA – Aeroportos de Portugal, apenas usa o português na sua denominação oficial. E mesmo aqui só aparece depois da denominação em inglês, ao contrário do que aconselham as conservatórias de registo comercial que, quando se quer denominar uma nova entidade com termo inglês, indicam que tem de ter também denominação em Chinês e Português (por esta ordem)
Outra empresa ligada ao aeroporto, a CAM (Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau), – cujo accionista maioritário é o Governo de Macau (detém 55,4 por cento, sendo o restante detido pela STDM e outros accionistas), – publicou na imprensa local portuguesa um anúncio apenas em inglês, relativo ao concurso para concessão da exploração de cafeteria no aeroporto. No entanto, esta companhia apresenta o seu «website» nas duas línguas oficiais da RAEM, além do inglês.
A saída da TAP de Macau só vem, pois, aprofundar ainda mais o desapego existente, por parte de Portugal, em relação a Macau. E sendo o Português uma das línguas oficiais, se não houver um empenho por parte das autoridades do país que para aqui trouxe esta língua, ela mais rapidamente desaparecerá.
E isso, em minha opinião, deverá começar pelo exemplo das empresas em que o Estado português detém capital, directa ou indirectamente. Felizmente, em Macau ainda há algumas empresas nas quais isso acontece.
Não resta qualquer dúvida de que só com um emprenho real por parte de Lisboa e um apoio manifesto à RAEM e a quem aqui reside, se pode esperar que a língua se mantenha e prospere.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
A cozinha da NaE com mais receitas
O número de visitantes tem subido de dia para dia, assim como o número de fans na página no Facebook (actualmente conta já com 223).
Deixo agora uma lista, para quem tem andado mais ocupado, das receitas publicadas desde a última referência no PubEd (26 de Abril de 2010).
No dia 27 de Abril - Sopa de massa com carne de vaca
No dia 28 de Abril - Salada de espinaça de água frita
No dia 29 de Abril - Peixe frito com molho doce
No dia 30 de Abril - Batido de morango e laranja
No dia 3 de Maio - Abóbora frita com ovo
No dia 4 de Maio - Biscoitos de duplo chocolate com pepitas
No dia 5 de Maio –Pato assado com caril vermelho
No dia 6 de Maio - Gambas cozidas com molho de marisco
No dia 7 de Maio - Galinha com molho em arroz (Khao Na Gai)
No dia 10 de Maio - Espinaça d’água frita com pasta de soja
No dia 11 de Maio - Amêijoas com pasta de piripíri
No dia 12 de Maio - Esparguete com carapau seco e couve chinesa
No dia 13 de Maio - Fruto de palmeira com calda
Visitem, comentem e, se tiverem dúvidas acerca das receitas ou dificuldades em encontrar alguns dos ingredientes perguntem que a Nae aconselhará substitutos.
sábado, 8 de maio de 2010
Casa para venda
Bombas de Gasolina para venda
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Até quando, Serviços de Saúde?
MOVIDO pela curiosidade que me assolou a alma depois de um episódio, – mais um, – caricato nos Serviços de Saúde (SS), decidi ver o que significa «fazer um checkup» nos termos médicos. Visto ser completamente ignorante no assunto, ou assim pensarem os SS sobre os pacientes que ali se deslocam, e para que não me restassem dúvidas, consultei um dos muitos dicionários disponíveis na internet dedicados às coisas da medicina.De acordo com o «Merriam-Webster’s Medical Dictionary», considerado uma das fontes mais credíveis pelos profissionais do sector, o termo em inglês checkup significa: «a general physical examination», sendo que, em português e em termos latos, se pode traduzir «exame físico geral».
Confrontando com o que tinha sido pedido ao médico dos SS, – estava escrito no papel entregue ao paciente «Full Checkup», – deduzi que se tratava de um exame de saúde completo. Aliás, era o que havia sido pedido para ser feito. No entanto, os SS referem «full checkup», mas apenas fazem exames de urina e de sangue, ficando o restante esquecido.
A questão que quero frisar é a da inexactidão do uso das línguas. Quando se tem de recorrer ao uso de uma língua, que não uma das línguas oficiais de Macau, há que ter muito cuidado. Porquê? Porque não sendo a língua utilizada o idioma materno do médico e do paciente, pode dar origem a mal-entendidos com consequências graves. Neste caso o paciente queria fazer um exame completo para apurar, não só o seu estado de saúde, mas também físico. Contudo, o clínico entendeu que seriam apenas necessárias análises de urina e de sangue. Mesmo assim, a terminologia que utilizou foi a de um exame completo. Como se pode ver na foto do boletim de consulta, recorre-se ao chinês, ao português e ao inglês ao mesmo tempo e de forma desigual. O Artigo 9.º da Lei Básica é claro no que respeita ao uso das línguas oficiais e não deixa margem para dúvidas.
No mesmo dia em que estive no Centro de Saúde do Tap Seac, a situação vivida era tão caricata que decidi tirar algumas fotografias. Aproveito agora para as publicar, até para que os SS não me venham acusar de má vontade por andar sempre a criticar a falta de informações em português. A verdade é que essas informações não existem. E mesmo que os responsáveis digam o contrário, os utentes não as encontram.
Na ocasião, dezenas de pessoas esperavam amontoadas num espaço sem as mínimas condições de ventilação e de salubridade. No banco de sangue estava uma pessoa de idade, de nacionalidade portuguesa, que não falava inglês (também de pouco adiantava porque os funcionários ali destacados mal se exprimiam nesse idioma), nem tão pouco cantonense. Sem saber o que fazer e sem ter quem lhe conseguisse explicar o procedimento, viu-se obrigada a ir embora. É que depois de muito procurar, não encontrou nenhuma informação na sua língua que, por acaso, até é uma das oficiais da RAEM. Aliás, como podem ver, o simples procedimento de retirar a senha de chegada está indicado em chinês!
Estando ali e tendo ficado indignado com a situação, tentei confrontar um dos funcionários de bata branca (não o consegui identificar pois não ostentava a placa com o nome) sobre o assunto. A reacção foi brusca, ríspida e totalmente inapropriada para um funcionário público, – tal não foi a falta de respeito e educação, – chegando mesmo a afirmar (num inglês que penso ter entendido) não haver necessidade de afixar informações em português! Indigno-me, tenho vergonha e não sei o que fazer nestas situações.
Acredito que os SS venham agora, – como têm sempre feito, – explicar, por carta, que se esforçam muito para escrever informações em português e que se não fazem mais é porque não podem. Pois eu volto a afirmar: Se fazem, fazem pouco, porque os resultados não se vêm.
A falta de recursos não pode servir de desculpa quando se fala de serviços do Governo, especialmente quando se trata da Saúde Pública. Se não têm funcionários suficientes contratem mais e resolvam a situação, pois a população de Macau tem todo o direito de ser bem atendida. E nas duas línguas oficiais...
No último artigo que escrevi e que intitulei «Serviços de Saúde estão-se nas tintas», publicado em Fevereiro, vieram-me dizer, por carta, que tudo fazem e que não é fácil resolver a situação. Ora, o facto de não ser fácil não pode ser desculpa para que nada se faça. Se outros serviços públicos o fazem, porque não os Serviços de Saúde?
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Venetian com controlo de fronteira
ESTAVA há dias a passar os olhos pela imprensa diária e deparei com um artigo num jornal local que noticiava um concerto em Macau. Um concerto que, como dizia o artigo, ninguém tinha tido conhecimento aqui na terra!Refiro-me à actuação da cantora punk Peaches, que teve lugar no Venetian, mas que este empreendimento se «esqueceu» de promover. No mesmo artigo podia-se ler que a maioria dos espectadores eram provenientes de Hong Kong, sendo que a imprensa de Macau teve conhecimento do evento porque, por curiosidade ou pura sorte, se deparou com a promoção na página electrónica da empresa de Las Vegas. Para cúmulo, não se tratou de um qualquer concerto, mas sim de um festival com vários grupos. Um festival denominado MIMA (Macau International Music and Arts) organizado pelos mesmos responsáveis do extinto Rockit Music Festival de Hong Kong. No entanto, apesar de usarem o nome de Macau, nem se deram ao trabalho de nos informar!
Porque não fazer do recinto do Venetian uma área de Hong Kong e colocar nas entradas balcões de controlo de passaporte como nas fronteiras?
A verdade é que a empresa Las Vegas Sands Macau (LVS), desde a saída do advogado Neto Valente, parece «estar-se nas tintas» para a RAEM. As promoções que faz são todas direccionadas a clientes do exterior. Quem se lembra das promoções no início da sua actividade, onde os residentes podiam usufruir de noites nos hotéis a preços convidativos ou as promoções de serviços e produtos nos resort especialmente para quem aqui vive? Pois, por coincidência ou não, desde a saída do proeminente advogado esse apego à comunidade de Macau parece ter desvanecido, se não mesmo desaparecido.
A empresa foi autorizada a operar em Macau perante certas condições, entre as quais se incluía, certamente, trazer valor acrescentado para a comunidade (contratação de mão-de-obra local, benefícios para os residentes, apoio às associações de cariz caritativo, entre outros aspectos) que normalmente este tipo de empresas têm de garantir como contrapartida do lucro que auferem e pelo facto de terem sido preferidas em detrimento de outros candidatos. Assim são obrigados no Estado americano do Nevada.
A verdade é que da LVS, nos últimos meses, o que se nota é apenas um completo descuido por Macau e desrespeito pelas leis do Território. A começar pelo facto de não usar as línguas locais, nem respeitar as tradições culturais da região. A ver, por exemplo, os caracteres chineses usados na toponímia no interior do edifício, que são simplificados em detrimento dos tradicionais usados em Macau. Isto já para não falar na completa inexistência do uso da segunda língua oficial, o português.
Quanto às reclamações apresentadas (mesmo em inglês) a empresa faz ouvidos moucos e ignora-as totalmente. Pessoalmente enviei-lhes diversos pedidos de esclarecimento que nunca foram atendidos. Acredito que não estarei sozinho e que muitos outros residentes se sintam lesados com tudo isto. Pelo que apelo ao Governo que decida fazer algo para proteger a boa imagem de Macau perante quem nos visita e, principalmente, perante todos os que aqui vivem e que não gostam de ser chamados de burro tão frontalmente.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
A Cozinha da NaE continua...
A Cozinha da NaE continua a publicar receitas caseiras de comida Tailandesa, e de fusão, além de algumas explicações e introduções a ervas, molhos e temperos mais usados na cozinha do Reino da Tailândia.
Para quem não se lembre dos manuais da escola, os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao Reino, ainda na altura se chamava Sião e a capital ainda se encontrava no interior do país, num local chamado de Ayuthaya (celebram-se os 500 anos em 2011). As relações dos tailandeses com os portugueses eram tão boas que, aquando da invasão da antiga capital pelos inimigos birmaneses, o rei trouxe consigo na fuga, além dos seus concidadãos, os portugueses, dando-lhes um lote na nova capital (Thonburi) para que se instalassem. Ainda hoje ali existe o bairro português e a influência da comida lusa pode encontrar-se em diversos pratos tailandeses. Especialmente em sobremesas.
É isso que a NaE, na sua cozinha, tenta trazer a todos os que falam tailandês, inglês e português. Partilhar um pouco desse património gastronómico e de encontro de culturas
Mais recentemente publicou uma receita de “Salada de caranguejo japonês”, uma de “Caril vermelho de cogumelos” e “Carapau salgado frito com couve chinesa”, além de muitas outras.
Vejam, leiam, experimentem e, se tiverem dúvidas ou quiserem partilhar a experiência, deixem uma mensagem à NaE no blog. Ela agradece a interactividade.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Cuspo para o chão ou furo a fila
O COMPORTAMENTO das pessoas em Macau foi algo que sempre me fascinou, e por muito que me esforce, cada vez o percebo menos. É frequente dizer, ou ouvir dizer, que são os de fora que vêm para aqui fazer as coisas que nos desagradam. No entanto, penso que não será assim tão linear…Temos por hábito dizer que as pessoas de Macau são bem comportadas e que os maus exemplos são praticados por quem nos visita. Eu assim gostaria de acreditar, mas o que vemos no dia-a-dia deixa poucas hipóteses para desculpar certos actos menos dignificantes.
Todos sabemos que grande parte da população do território é proveniente de outros locais, nomeadamente da China continental. De acordo com dados «oficiais» muitos dos residentes, especialmente da zona norte, vivem em Macau há menos de vinte anos, ou seja, há menos de uma geração. E desde 2000 o número de pessoas com autorização de residência cresceu em flecha, fazendo com que a percentagem do número de nascidos no território seja cada vez menor.
As conversas de café sobre formas de comportamento, diferenças culturais e afins, alongam-se sem nunca chegarem a consensos satisfatórios. Quando enveredo por este tipo de discussão filosófica, particularmente com amigos de etnia chinesa, acabamos sempre por chegar a uma espécie de consenso onde atiramos as culpas para quem vem de fora e aqui chegou há menos tempo. Existem dois grupos visados nesse sacudir de água do capote, o dos imigrantes vindos do interior da China e dos outros países asiáticos, e o dos turistas que entram e saem todos os dias.
A culpa morre solteira
Mas se olharmos com atenção, nem tudo é assim tão linear: quando vamos a uma repartição pública, por exemplo à sede dos Correios de Macau, que fica ali mesmo no centro, vemos os utentes alinhados em filas ordenadas, pacientemente esperando pela sua vez sem tentarem passar à frente de quem quer que seja. Acredito que os utentes dos Correios sejam locais e não visitantes. A maioria dos utentes, que mais não seja pela especificidade do serviço, devem ser mesmo residentes permanentes.
Depois de vermos as pessoas muito ordenadas nos Correios (ou em qualquer outra repartição pública) deparamos com as mesmas pessoas na paragem do autocarro a empurrarem-se e a passarem à frente de tudo e de todos para entrarem dentro do transporte público. Este comportamento que muitas vezes gostamos de apontar como sendo praticado essencialmente por chineses vindos do continente é deplorável.
Não quero estar aqui a defender os que chegaram há mais ou menos tempo a Macau. A verdade é que a falta de educação não escolhe proveniência. Por experiencia própria posso afirmar que já vi nascidos em Macau a praticar os maiores actos de falta de civismo e já vi pessoas que se mudaram há bem pouco tempo para Macau, vindos do interior da China ou de outro país asiático (com níveis e desenvolvimento mais baixos do que os de Macau) a darem exemplos de civismo e de bom comportamento social.
Já o meu avô dizia, a educação, assim como o conhecimento, não ocupa lugar e fica bem a todo a gente. É tudo uma questão de educação. E, como se sabe, a educação não vem com rótulos mas pode ser ensinada, se bem divulgada. Se houver campanhas sérias e compreensão, mas também fiscalização a sério, as pessoas acabam por «aprender».
O que não vale a pena é andar a gastar milhões na promoção de leis e a ditar «bitaites» de educação cívica, se a fiscalização não for eficiente. Existem Leis e Regulamentos em Macau que são mais do que suficientes para «educar» a população residente e não residente. O que faz falta é que sejam aplicados com seriedade – quando digo seriedade, digo rigidez de forma contínua. Quem é apanhado a prevaricar deve ser punido e assunto arrumado. Isto, claro, daria para muita discussão e, como tudo, nunca poderá ser tão linear.
A complexidade do problema é enorme e de difícil solução, mas se começarem, a sério, pelas escolas, pode ser que daqui a dez ou vinte anos tenhamos uma geração mais educada.
Para quem vem de fora apliquem os diplomas em vigor e não os deixem ir embora sem regularizar a situação.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Vamos americanizar os nomes
O HÁBITO de mudar a nomenclatura dos edifícios e dos locais em Macau foi um dos episódios mais caricatos que marcaram o pós-colonialismo português (como muitos lhe chamaram). Agora, passados mais de dez anos, ameaça vir a tornar-se novamente hábito; desta vez, porém, com outros contornos.Os finais de 1999 e os primeiros anos do segundo milénio viram nascer um movimento que, de um dia para o outro, viu o Palácio da Praia Grande passar a chamar-se Sede do Governo da RAEM, o Palacete de Santa Sancha passar a Residência do Chefe do Executivo (ou Sala de Recepções da RAEM), o Edifício do Leal Senado a Edifício do IACM, além de muitos outros exemplos. Felizmente, alguns voltaram à denominação original, devido a terem sido incluídos na lista de Património Mundial. No entanto, muitos outros continuam a usar os novos nomes, como que envergonhados do passado que carregam sobre os ombros e que, quer algumas almas iluminadas queiram ou não, traz a Macau milhares de turistas, desejosos de apreciar a diferença cultural, de raiz portuguesa. Se fosse para verem aspectos de cultura chinesa, certamente que o fariam melhor no «continente» e com muito mais opções. A diferença em Macau, é mesmo pelo facto de ser Macau, como divulga a Direcção dos Serviços de Turismo por todo o lado.
Mais recentemente, apareceu uma nova vaga de mudança de nomes oficiais; mas, desta feita, de carácter privado e fomentada pelo investimento estrangeiro no sector do Jogo. Especialmente quando abordamos nomes em língua inglesa, visto que a obrigação de haver denominação em português visível deixou de ser tida em conta. Quando vamos fazer o registo de uma empresa, é-nos dito que há a obrigação de a denominar nas duas línguas oficiais, quando queremos usar também um nome em inglês, como explicaram num cartório de registo comercial.
Voltando ao tema que me leva a escrever esta coluna, o COTAI, mais concretamente, a Estrada do Istmo, passou a chamar-se «COTAI Strip» e à zona do aterro de Seac Pai Van agora chama-se «COTAI South».
Foi precisamente este último que mais me chamou à atenção, visto ser, pelo que sei, o mais recente e porque a nova denominação não corresponde à verdade, já que a zona onde se insere nem sequer faz parte do COTAI (oficialmente, COTAI significa Zona de Aterros entre Coloane e Taipa, sendo a denominação um «portmanteau» nascido destes dois nomes próprios). Trata-se de parte da ilha de Coloane, junto do Parque Natural de Seac Pai Van, e que fora aterrada na década de oitenta do século passado, quando ainda existia o istmo que ligava as duas ilhas e que, segundo se lembram muitos dos que aqui vivem há mais tempo, ficava intransitável em épocas de chuvas mais intensas.
Aliás, naquela zona havia, ou ainda há, um parque industrial cujo nome é «Concórdia» e que era gerido por uma empresa de capitais públicos denominada Sociedade de Desenvolvimento do Parque Industrial da Concórdia.
Se não passaram por esta zona nos últimos dias, aconselho a que o façam, de carro ou autocarro e vejam com os próprios olhos o que se passa, porque está à vista de todos.
Lembro-me de que, quando cheguei a Macau, a ilha de Coloane era apelidada de «pulmão verde de Macau» e que o Governo se manifestava empenhado em que assim ficasse. Foram várias as vezes que «patos bravos» tentaram, por diversas vias, mudar o rumo do Governo e obter autorização de construção em grande escala. Tal nunca fora conseguido, tirando o caso dos prédios na praia de Hac Sá, mantendo a ilha como o único refúgio verde do território, a par da Colina da Guia. Infelizmente – e digo-o com muita mágoa – essa opção e firmeza do Governo parece estar a ceder ao jogo dos interesses, ou seja, dos empresários da construção.
Os «patos bravos», como referia um articulista de Hong Kong recentemente, em Macau têm muito poder e conseguem sempre o que querem.
Afinal, Coloane vai ter construção em altura e a dar o (mau) exemplo, por vergonhoso que seja, é mesmo o Governo! Na zona da pedreira, logo à entrada da ilha, segundo consta, vai nascer um complexo de habitação social!
E no «COTAI South» vai nascer um empreendimento de luxo. Ele está anunciado e até é promovido no próprio local!
domingo, 4 de abril de 2010
Passividade da DSSOPT
SE me pedissem para eleger a situação que em Macau mais me envergonha ou me deixa perplexo, certamente que elegeria as construções ilegais. O território, ou melhor, os seus telhados, estão cheios delas. Macau cada vez mais se parece com um bairro de lata!Passamos dias e dias sem nos apercebermos da sua existência. Muitos dos que nos visitam também não as notam porque o território está feito de tal forma que as pessoas raramente olham para cima. Existe algo que nos força a olharmos para a frente ou para o chão e raramente perdemos uns segundos a olhar para o céu. A verdade é que há poucos atractivos que o justifiquem. Se exceptuarmos alguns edifícios que merecem ser apreciados na sua plenitude, pouco mais há para ver acima da cota dos cinco ou dez metros.
Eu vivo num quarto andar na zona histórica de Macau, mesmo nas traseiras da Fortaleza do Monte. Um edifício que data de há cerca de 20 anos, ou pouco menos. No entanto, a zona envolvente com inúmeras construções ilegais fazem acreditar que o bairro data de há mais de um século e, a cada dia que passa, mais parece um bairro de lata.
As queixas à Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) de nada servem porque não se vê resultado nenhum do seguimento das mesmas, deixando a impressão que nada é feito. A polícia nem sequer se digna dar acompanhamento ao problema porque, segundo dizem, não lhes compete, atirando a responsabilidade para a entidade anterior.
O prédio em frente ao meu (isto serve apenas de exemplo porque, infelizmente, se repete telhado sim, telhado sim), que já conta com um último andar (anteriormente o terraço) ilegal, foi recentemente alvo de nova intervenção. Ainda não contentes por terem ocupado mais de 50% do terraço do edifício, decidiram cobrir a restante (área comum que deve ser do uso de todos os proprietários do edifício) como se de um anexo da outra se tratasse.
As fotos que vos deixo, que foram tiradas ao longo de vários dias, chegam para ilustrar o que se arrastou aos olhos de todos. Claro, como ninguém olha para cima, estas situações continuam impunes e sem que as autoridades se preocupem.
No prédio ao lado deste existe pelo menos um andar completo todo ilegal. E por cima desse apêndice, já de si fora-da-lei, foi ainda construído um solário «particular»! O peso de tudo isto é tal que, na estrutura exterior do rés-do-chão se viram obrigados a aplicar umas peças metálicas para ajudar a suportar o esforço e abrandar a abertura das fendas nas paredes. Imaginem o que poderá dali advir num qualquer dia azarado.
No meu edifício, os proprietários do quinto (último) andar, decidiram que o terraço era deles, pelo que simplesmente o fecharam e construíram o que bem quiseram sem dar nenhuma satisfação aos restantes vizinhos! Interrogados sobre o assunto, dizem não querer saber. Alguns aconselharam mesmo quem se queixava para apresentarem queixa às autoridades, sabendo que nada se iria resolver!
É esta a passividade que temos de enfrentar em Macau. Mas, imaginemos que acontece um incidente semelhante ao que aconteceu em Hong Kong recentemente. Será que é necessário esperar que haja a queda de um edifício, causando vítimas mortais, para que as autoridades se metam em campo e obriguem os transgressores a repor a legalidade?
De tempos a tempos vemos notícias promovendo as actividades de fiscalização. No entanto, pergunto: Já alguém viu alguma construção ilegal vir abaixo? Em mais de 13 anos, nunca vi nada de semelhante…
segunda-feira, 29 de março de 2010
Vem parque de autocarros
Eu sugeria ainda mais ao Governo, porque não construir um silo nas traseiras das ruínas, afinal entre a fachada e a cripta existe um espaço vazio!
Sinceramente, para quê andar a mandar areia para os olhos de quem aqui vivi se a decisão estava já tomada e a adjudicação feita?
Bom, esperemos agora os resultados das escavações… Cá para mim, e como é conveniente para alguns, não se vai encontrar nada de relevante. Pois assim fica aberto o caminho para o dito parque de estacionamento que os residentes pedem!
Acredito ser pouco credível que os residentes da zona tenham pedido um parque de estacionamento naquele local, ainda para mais que o parque não se destina a automóveis ligeiros mas sim a autocarros de turismo!
sábado, 27 de março de 2010
Macau e Milão são diferentes?
A NOSSA terra parece, aos olhos de quem a olha de fora, que não se preocupa com a herança cultural. Isto foi-me já dito vezes sem conta e pelas mais variadas pessoas. Quero acreditar, sinceramente, que não é verdade. Mas olhando para o que vamos vendo com o passar dos anos, cada vez me convenço mais que os de fora têm mais objectividade do que nós que aqui vivemos. No dia-a-dia parece que vamos atirando areia para os olhos e, pouco a pouco, vamos deixando que o património vá dando lugar à modernidade.O evoluir dos tempos não é negativo. Pelo contrário, progressos tecnológicos e novas mentalidades criadas com o passar dos anos, são sempre bem-vindos. No entanto, quando isso começa a destruir aquilo que os nossos antepassados nos deixaram, algo estará errado, porque um povo que não respeita o seu passado nunca poderá ter um futuro risonho. A história conta-nos isso muitas vezes, pelo que todos temos a obrigação de fazer com que tal não aconteça.
Em Macau, com o passar dos anos, muito do património foi desaparecendo, sendo poucos os exemplos de locais que foram preservados, em detrimento do desenvolvimento económico. O exemplo mais recente é o dos edifícios militares da zona de Mong Há, que o Governo decidiu demolir, apesar dos protestos de indignação vindos de vários sectores da sociedade, com mais conhecimentos sobre o assunto que os próprios especialistas que decidiram pela sua demolição. Arquitectos, membros de associações de preservação do património e outros especialistas fizeram ouvir as suas vozes, mas de nada serviu.
Outro dos exemplos recentes é o da anunciada demolição do bairro comunitário no Fai Chi Kei, uma obra arquitectónica de estilo único no território, premiada internacionalmente e que os «especialistas» do Governo decidiram que tinha de ir abaixo para dar lugar a um novo empreendimento (de habitação social também). A decisão sobre este caso parece estar tomada e nada leva a crer que possa mudar. Eu diria, decisão «à Macau» e que ninguém se aventura a pretender alterar. Houvesse nesta terra um movimento cívico forte, como acontece em Hong Kong ou em muitos países europeus, e ver-se-ia se a decisão iria para a frente!
Está na calha mais uma dessas decisões. E isto, mesmo apesar do presidente do departamento que trata dos assuntos culturais desta terra ter dito que, por ele, a decisão seria alterada e os edifícios preservados. Afinal, quem manda?
Primeiro, Guilherme Ung Vai Meng veio a público dizer que, como homem da cultura e das artes, não concordava com a demolição das «casas dos funcionários públicos» junto da entrada da Fortaleza do Monte. Depois, deu o dito por não dito e já não se opõe a que tal aconteça, mas na condição de aquele projecto ser incluído no plano geral de revitalização da zona. Acontece que, e como é do conhecimento público, a decisão parece ter vindo a ser forjada desde 2003. Agora, após um grupo de membros da sociedade ter sugerido a construção de um parque de estacionamento na zona, o Governo anunciou a sua demolição. Um anúncio feito, – pelo que é público, – sem ter sido precedido de qualquer estudo. Apenas planeado para dar resposta ao requisito daqueles cidadãos. Quem são eles? Isso ninguém diz, mesmo que a população da zona diga que não quer ali nenhum parque de estacionamento. A resposta, ao que se sabe, deverá ser, contudo, do conhecimento de quem tomou a decisão! Pelo que se vê, este é mais um exemplo evidente onde o que está em causa é a lei do mais forte a levar sempre a melhor. É caso para perguntar: Até quando, em Macau, estará em vigor este tipo de decisões, que ignora a voz e o direito dos mais fracos?
Havia um problema que impedia a concretização do plano, isto é, o facto de o terreno ser privado! Isso foi resolvido em 2008, tendo as negociações com o Montepio sido concluídas com a troca de direitos de construção de um terreno na Rua de São Tiago da Barra (publicado no Boletim Oficial em Novembro de 2008).
Na verdade, aquilo que me preocupa é o facto de estar mais do que anunciada a construção de um parque de estacionamento naquele local! Destruir construções únicas em Macau, em zona histórica, para depois ali instalar um parque de estacionamento que só vai fazer com que mais veículos acedam à zona? Creio, do ponto de vista de cidadão, que isso só revela falta de bom senso.
Em qualquer cidade turística, com as mesmas características de Macau (Milão ou Coimbra, por exemplo) a norma é deixar os carros fora dos centros históricos e «obrigar» os turistas a andar a pé. Em Macau, apesar da sua pequenez e do traçado estreito das suas vias e das dificuldades do trânsito automóvel cada vez mais denso e caótico, tudo parece ser deixado ao capricho dos patrões das agências de viagens que, olhando apenas para os seus interesses, querem levar os turistas «ao colo» até ao interior dos monumentos!
Demolir os prédios para fazer escavações, até posso concordar; agora, depois destas terminadas, pretender ali fazer um estacionamento? Não, obrigado!
Afinal, para que foi feito o parque de estacionamento no Tap Seac (aliás, o maior parque de autocarros em Macau)? Proporcionem aos turistas o andar a pé, pois além de assim fazerem exercício, os autocarros deixarão de poluir o centro urbano e de congestionar o trânsito. E mais: até os comerciantes que têm estabelecimentos nas ruas entre o estacionamento e as zonas históricas agradecerão, ao ver os seus rendimentos aumentar com os turistas que vão passando à porta. Porque não pensar nisto a sério, no interesse da própria cidade e de todos os cidadãos?
Quando vou a qualquer cidade com centro histórico, se o quero visitar, tenho de andar a pé cerca de 30 minutos. Porque é que em Macau tem de ser diferente?
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