Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Falar de Nós

O ARTIGO de hoje vai fugir um pouco do estilo que nos tem acompanhado ao longo dos últimos tempos. Em vez de opinião, será mais a transcrição de uma conversa com uma «filha da terra».

Incluído nos eventos de comemoração do 10 de Junho em Macau, foi organizado o lançamento de três obras relacionadas com Macau e a comunidade macaense. Tive oportunidade de trocar algumas impressões com a autora de um dos trabalhos. «Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje», de Alexandra Rangel, é uma obra que vai passar, sem dúvida, a ser de referência para quem queira abordar a temática macaense. Não sendo uma obra exaustiva, começou por ser uma tese académica, que acabou publicada em livro. Ela aí está para todos lermos e percebermos melhor esta terra onde vivemos e «quem são os macaenses». Um trabalho fácil de ler, informativo e que, mesmo para os mais informados sobre a temática, traz novas achegas.

A ideia, segundo Alexandra Rangel, surgiu aquando da necessidade de escolher o tema da dissertação de fim de curso da Licenciatura e Mestrado em Ciências da Cultura (especialização em Comunicação e Cultura), na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Perante a necessidade de escolha, a autora teve de decidir entre «diversas hipóteses sobre temática abordada nos vários seminários realizados durante o curso», acabando por escolher um tema «especialmente caro: a comunidade macaense, ontem e hoje». Segundo ela, «duas razões ditaram esta escolha: por um lado, o facto de estar intimamente ligada a essa comunidade e ter acompanhado de perto a sua evolução no período especialmente difícil, de grandes transformações, resultantes do acordo firmado por Portugal e a República Popular da China sobre o futuro de Macau; e, por outro, o desejo de divulgar mais amplamente essa comunidade tão singular, mas ainda, infelizmente, tão pouco conhecida em Portugal».

Um trabalho académico seria, pois, uma boa forma de ajudar a preservar essa herança e de dar a conhecer as características e as transformações no seio dos macaenses. O livro, que fala da comunidade macaense, dos desafios e do seu passado, segundo a autora, não foi muito difícil de organizar, visto existirem muitas fontes e locais onde procurar informação. «Talvez a maior dificuldade tenha residido na selecção das vastas fontes disponíveis», – sublinha – a começar por casa, onde o seu pai, membro destacado da comunidade local, guarda e continuamente aumenta o espólio relacionado com a história dos seus antepassados.

Depois de elaborado o plano de trabalho e identificados os capítulos a escrever, foi feita uma selecção da bibliografia e das pessoas a contactar, algo que demoraria imenso tempo, caso não tivesse havido a ajuda dos ensinamentos aprendidos durante alguns dos seminários organizados pela Universidade; especialmente o de metodologias de investigação foi de grande utilidade, confidenciou-nos a autora.

Apesar de ter começado como tese académica, o livro merece ser lido pela população em geral. A informação que agregou é de grande importância e lança uma nova luz sobre a comunidade macaense, desafios e futuro. Alexandra Rangel considera que é «apenas mais um contributo para um maior e melhor conhecimento dessa comunidade»; mas, depois de o ler, estou convencido ser algo mais do que isso. Agora que a obra é conhecida e que cada vez mais pessoas a lêem, continua a receber incentivos e votos para que continue o trabalho de pesquisa sobre o mesmo tema. Quanto a isso, Alexandra nada garante, mas adianta que, embora não tenha ainda planos concretos, planeia no futuro abordar outros temas relacionados com esta comunidade que bem conhece e com a sua terra.

Este trabalho, apesar de já estar disponível na Internet, na sua versão de tese, há algum tempo, apenas foi lançado como livro incluído nas comemorações do passado 10 de Junho, numa cerimónia de lançamento de três obras publicadas pelo Instituto Internacional de Macau (IIM): «Macau 1937-45 – Os anos da guerra», de João Botas; «Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje», de Alexandra Rangel e «The Portuguese Community in Shanghai», de António Pacheco Jorge da Silva.

A apresentação do livro de Alexandra Rangel foi também feita em Lisboa, no passado dia onze deste mês, no Palácio da Independência, durante um serão macaense, em que foi também apresentada outra obra publicada pelo IIM – «O livro de receitas da minha tia/mãe Albertina» – da autoria de Cíntia Conceição Serro.

Quanto à obra «Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje», diversas casas de Macau espalhadas pela diáspora já se mostraram interessadas e disponíveis para ajudar a promover a divulgação. Trata-se de um trabalho que todos os que se interessam por Macau, pela sua história e pelas suas gentes devem ler o quanto antes. Um manancial de informação e de novos dados, que irão surpreender os menos atentos e propiciar bons momentos de leitura informativa.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Não há moral para continuar

COMO é do conhecimento público, o Clube Náutico de Macau (CNM) tem sido protagonista de várias cenas menos dignas de uma instituição com mais de seis décadas de história. Recentemente, e após dois anos sem qualquer Assembleia Geral e sem prestar quaisquer explicações aos sócios, à sociedade ou à Comunicação Social sobre as polémicas que foram vindo a terreiro, teve lugar uma AG que serviu para apurar relatórios financeiros de 2009 a 2012 e para a eleição dos novos corpos gerentes. Ou melhor, reeleição dos existentes porque, mesmo havendo interessados em apresentar listas concorrentes, a presente direcção nunca providenciou a lista de membros actualizada. Isto, apesar de alguns sócios a terem pedido, com a antecedência prevista nos regulamentos e por escrito diversas vezes, para que fosse possível saber quantos sócios há com direito a voto e quais as probabilidades de haver transparência na sessão de voto. Um procedimento normal em qualquer associação, pelo que sei.

As alegações de fraude, por parte de alguns associados, são de vária índole e não vale a pena voltar aqui a enumerar todas as polémicas. Certamente que o Governo irá resolver o problema, caso a isso seja chamado e caso não venha a surgir bom senso na presente direcção e em todo o corpo de sócios. Só espero que não tenha que dissolver o Clube ou criar as condições para que isso aconteça. Se tal vier a suceder, esta direcção terá muito que explicar. Uma simples investigação dos Comissariado Contra a Corrupção ou do Comissariado de Auditoria deverá ser suficiente.

Não nos devemos esquecer que o terreno, ao redor do qual giram todas as polémicas, é propriedade do Governo. E, caso este seja retirado ao Clube, nenhuma direcção terá condições para continuar a aguentar o «barco».

Como tenho afirmado desde o início da polémica, não pretendo saber quem é o presidente ou quem são os corpos gerentes, assim como não estou interessado, nem sequer disponível, para assumir qualquer tipo de papel activo numa direcção. O que apenas me interessa é que – seja qual for a «gerência» – o faça em favor do Clube e que, acima de tudo, seja transparente para com todos os sócios e para com a sociedade.

O Clube Náutico de Macau é uma entidade sem fins lucrativos que se deve dedicar ao fomento das actividades náuticas e à gestão das instalações que lhe foram confiadas. E, sempre que algum sócio, em pleno direito, lhe requisite dados que não violem o direito à privacidade dos outros sócios (número e nome), estes lhe sejam facultados a qualquer momento e sem qualquer delongas. É uma entidade associativa, não uma sociedade privada com fins lucrativos, pelo que não há lugar a segredos. A transparência tem de ser total e acima de qualquer desconfiança.

A presente direcção, que foi nomeada para um novo mandato de dois anos, se realmente é tão sincera como diz ser, deveria ter vergonha na cara por obrigar o Clube a passar pelo vexame que tem atravessado nos últimos meses.

Costuma-se dizer que quem não deve, não teme. Portanto, a presente equipa directiva, se está tão segura de que tudo está a ser feito dentro da legalidade, deveria mostrar todos os dados públicos, para consulta de todos os sócios. Deveria cancelar os resultados desta eleição e dar a conhecer todos os dados que os sócios solicitem (mesmo que seja apenas um sócio a requerê-lo), antes das eleições, para que todos estejam em pé de igualdade.

O resultado para aprovação dos relatórios de contas (que foram aprovados todos ao mesmo tempo) foi de 69 votos a favor, 23 contra e 4 abstenções.

Para a eleição dos corpos gerentes, 64 votos a favor, visto que todos os outros abandonaram a sala em protesto.

É de salientar, – e eu posso comprovar porque estive presente no local – não havia mais de 40 pessoas na sala. A maioria dos votos foi feito por procuração; no entanto, os sócios não puderam verificar a veracidade dos nomes nas listas, porque estas não foram disponibilizadas atempadamente.

Dizer que os dados podem ser consultados na sede do Clube a qualquer altura não serve. Estes devem ser facultados antes das eleições e não após as mesmas. Aliás, se pedir para ver a lista de sócios na sede, tenho de esperar que venha autorização do presidente do Clube!

Como posso eu votar em consciência, quando não tenho conhecimento de toda informação?

Por exemplo, na última AG foram votados os relatórios financeiros relativos a 2009/2010/2011. Porque foram estes apenas entregues aos sócios minutos antes da votação? Como podia votar em consciência, se nem tempo tive de analisar os dados e confirmar os documentos apresentados?

Acredito que tudo tenha sido feito dentro da maior das legalidades e que nada haja a esconder. Mas, como a mim me pedem o cartão de sócio para comprovar o meu direito de voto, visto que a minha palavra não chega, serei eu e os outros sócios obrigados a acreditar na palavra da direcção?

Como se costuma dizer, «à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo». Portanto, antes que peçam às pessoas que confiem neles, devem dar provas de o merecer.

Para bem do Clube Náutico, para o bom nome das pessoas envolvidas e para a boa imagem de Macau, penso não haver outra saída, para as pessoas de bem presentes na direcção, que não seja demitirem-se e proporem outro acto eleitoral com todos os elementos, a tempo e horas.

Motivo da polémica: a construção do «Club House» e o contrato que foi assinado mais do que uma vez. Esta situação tinha sido resolvida, se no princípio a actual direcção não tivesse vendido os direitos dos pontões a privados. Esta medida fez com que o CNM ficasse sem fontes de receitas, dando os lucros a associados que especulam agora em busca de lucro. Se as rendas fossem para os cofres do CNM, penso que haveria dinheiro, mais do que suficiente, para fazer o «Club House», sem ser preciso andar com contratos que apenas geram discórdia.

Basta fazer contas! O ponto de amarração mais barato custa mil e 500 patacas por mês (18 mil por ano – todos os outros são mais caros, mas faremos contas pelos preços mais baixos). Há, pelo menos, 57 lugares, pelo que seria mais de um milhão de rendas por ano (1.026.000 patacas). Numa década, haveria dinheiro mais do que suficiente para fazer as construções necessárias e que estão na base de toda esta polémica. A mim, como sócio, interessa-me ver estas contas preto no branco. Tudo o resto, é acessório.

Quanto às declarações recentes da Capitania dos Portos, ao vir dizer que as vendas dos locais de amarração são ilegais, dá vontade de perguntar: porque não tomam a iniciativa e resolvem o problema?

E prevendo a Lei a possibilidade de se ancorar os barcos de recreio noutras zonas, nomeadamente na doca do Fai Chi Kei (durante a Administração Portuguesa havia ali muitos amarrados às bóias que ainda hoje existem), por qual razão a Capitania recusa permitir que ali deixemos os nossos barcos, forçando-nos a ter de pagar a privados que exploram ilegalmente os pontões da marina?

Espero por respostas das autoridades responsáveis.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Português falado, mas não compreendido

A LÍNGUA portuguesa anda mesmo pelas ruas da amargura na terra onde vivemos. Apesar de constar como língua oficial e de existirem nos serviços públicos muitos funcionários que a «falam», fazer passar a mensagem é cada vez mais complicado, especialmente quando isso é tentado via telefone.

Recentemente, tive de entrar em contacto com a Biblioteca Central, sob a alçada do Instituto Cultural, para pedir informações sobre a forma de envio de exemplares de uma revista para a instituição. Pedi para falar em Português e, por três vezes, tive de tentar a ligação, sendo sempre transferido para uma pessoa que, supostamente, deveria entender a língua de Camões. O problema não era falar, era entender e fazer-se entender. Nenhuma das três pessoas conseguiu perceber aquilo que eu queria esclarecer e que era tão simples como dizer-me o endereço e a pessoa encarregue de receber as revistas!

O caricato de tudo isto foi que sempre que havia dificuldade em compreenderem o que eu queria, insistiam em comunicar em Inglês, nunca reconhecendo que havia falta de entendimento em Português. Aliás, a certa altura, deu-me impressão que me estariam a tentar fazer perceber que o problema de expressão era meu! A uma dessas pessoas cheguei mesmo a perguntar se «saberia falar», ao que me disse: «sabia falar, mas não entendia muito bem o que eu queria»!

O meu propósito era apenas de saber o procedimento para uma revista náutica de Hong Kong, onde colaboro, enviar alguns exemplares para leitura gratuita nas bibliotecas de Macau.

Na primeira tentativa insistiam que se eu «queria visitar a biblioteca teria que me dirigir pessoalmente». Pois! Calculo que uma visita por telefone deveria ser complicada!

Na segunda tentativa, passado o impasse da visita, diziam que sendo eu de Hong Kong (!) teria que lhes enviar uma carta para marcar dia e hora para falar do assunto…

E, da terceira vez, já eu desejoso de falar em Inglês e farto de tanta perda de tempo, fizeram-me saber que, para falar com jornalistas, tinham que pedir autorização superior! Nesta altura já eu estava pelos cabelos a tentar explicar, o mais simples que conseguia, aquilo que queria. Mais parecia uma conversa de loucos, em que eu dizia alhos e o interlocutor entendia bugalhos!

Tudo se resolveu em Inglês. Uma quarta pessoa, usando a língua de sua majestade, entendeu tudo à primeira e sem grandes confusões, esclarecendo que basta a revista de Hong Kong enviar as cópias para a Biblioteca Central, a nome ou ao cuidado do director. Pediu ainda, de forma bastante cordial, que fossem enviadas, pelo menos, cinco cópias para que fossem distribuídas por todas as bibliotecas, pois assim haveria mais pessoas a ler.

Sinceramente, é de lamentar os níveis de Português em Macau. Mesmo os que dizem falar a língua de Camões, na sua maioria, nem sequer conseguem compreender uma simples conversa pelo telefone.

Gostaria de saber que ensino se faz e como são avaliadas as pessoas que são contratadas por falarem Português.

E o mais grave é que estas pessoas estão convencidas de que falam Português. São situações como esta que devem ser abordadas pelo Governo. Muitos de nós começamos a pensar se será mesmo verdade e sincero o que se apregoa: que a língua portuguesa é importante e deve ser mantida em Macau.

Acredito, desde há muitos anos, que muitas profissões deveriam ser obrigadas a cursos de aperfeiçoamento e de actualização regulares. Defendo isto para quase todas as profissões e julgo que tal também se devesse aplicar a todos os funcionários públicos, no âmbito das suas funções, nomeadamente os que são contratados por dominarem as duas línguas oficiais. E não me refiro aos tradutores, mas sim aos normais funcionários que, por apenas referirem que falam Português na ficha de candidatura, ficam em vantagem em relação aos que o não falam.

Se um funcionário público é contratado devido à sua capacidade de falar Português, deveria ser, anualmente ou de dois em dois anos, avaliado para se saber se evoluiu (devendo ser promovido); se estagnou (deveria ser persuadido a progredir) ou se, pelo contrário, não tem conhecimentos suficientes para desenvolver as tarefas para as quais foi contratado (sendo neste caso obrigado a frequentar um curso de aperfeiçoamento ou, em caso mais graves, despedido ou transferido para outras funções).

Hoje em dia penso que, se um candidato a funcionário do Governo escrever no currículo que fala Português, quem o avalia levará isso em consideração na escolha. Mas, muito certamente, não se irá dar ao trabalho de verificar se tal é verdade. E quando se predispõe a verificar se o candidato realmente fala Português, muitas vezes é o próprio avaliador que não tem capacidade linguística para aferir os conhecimentos do outro. Quantas pessoas na Função Pública dizem falar Português e, na verdade, apenas dominam o básico?

Se as autoridades querem mesmo, e seriamente, apoiar o Português como língua oficial, devem começar a dar passos seguros e firmes, fazendo com que isso seja uma realidade e não se reduza apenas a umas linhas na Lei Básica.

Por outro lado, cabe a toda a comunidade portuguesa, e de falantes de Português, lutar diariamente para que isso aconteça.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Ainda a «diabrura» dos soldados

ESTA terra onde vivemos começa a tornar-se conhecida pela curta memória que vamos revelando ao mundo. Será mesmo que todos temos memória curta em Macau? Será que só damos atenção a certos assuntos, até que outros apareçam nas páginas dos jornais e nos façam mudar o nosso foco?

Gostaria de perguntar: quem ainda se lembra de uma notícia que veio na Comunicação Social, há uns meses, sobre a destruição do campo de jogos na Taipa, junto ao quartel da guarnição dos Exército Popular de Libertação? Uma decisão do nosso Executivo, em resposta às reivindicações dos soldados, só porque disseram que precisavam de mais espaço para guardar os «brinquedos». Como se o recinto que têm, em local nobre, não fosse suficiente! Para fazer face a essa falta de espaço vão privar a população de um dos poucos locais de desporto na ilha! As obras já arrancaram e podem ser vistas por quem ali se desloca.

Antes de enveredar pela destruição do espaço da população, e para fazerem face à falta de espaço que dizem sentir, porque não usam o que têm? Se repararem nas imagens disponíveis no «Google Maps», existe no recinto do EPL espaço livre para construírem as ditas arrecadações. Têm a maior piscina de Macau e a que maior «ratio» por utente apresenta, quando mesmo ao lado existe a piscina olímpica da RAEM e que eles também deveriam utilizar! Têm um espaço de treino e para paradas que ultrapassa o do campo desportivo que pediram ao Governo e que raramente é utilizado. E têm jardins que apenas eles podem usufruir, visto ser um local vedado à população.

Basta ver o mapa para se verificar a falta de aproveitamento do espaço disponível. Esta falta de racionalização não se coaduna com Macau, onde a escassez de terreno é um dos maiores problemas que enfrentamos.

A zona C na foto, que engloba a piscina ao ar livre, a zona de parada e as zonas de jardins e de treino é, sem qualquer dúvida, muito maior que a zona B, onde se encontram os dois campos de futebol e a parede de escalada. Portanto, qual é a necessidade de privar a população de um escasso espaço de lazer e desporto, quando existe, no recinto do exército, área livre para as ditas instalações de arrecadação?

Será que o homens da farda, sendo eles o epíteto do que deve ser a honra e rectidão na nação, não percebem que Macau tem falta de terreno e que a população tem de vir sempre em primeiro lugar? Afinal, não juram eles defender a Pátria e a suas gentes? Essas mesmas que agora atacam, espoliando o pouco que ainda têm. Pelo menos foi isso que fiz, quando jurei bandeira no meu tempo de tropa.

Quando a notícia veio a público, lembro-me de as autoridades dizerem que os campos seriam mudados para Coloane! E, nestas mesmas páginas, me indignei e pedi que me explicassem como iriam milhares de pessoas da Taipa para Coloane? Certamente que o Gabinete de Comunicação Social não enviou o texto aos visados, pois até hoje não recebi qualquer reacção das autoridades nem resposta às minhas questões.

Mas, apesar de continuar indignado e das obras estarem a arrancar no mesmo momento em que o leitor lê estas linhas, parece que mais ninguém se preocupa.

Em comparação, quando se falou da construção de um edifício junto ao lago da Avenida da Praia, até petições surgiram para tentar salvar as garças e o seu «habitat». Não descurando a importância das garças e do ecossistema de Macau, não seria também meritório organizar uma manifestação de desagrado, relativamente ao facto do Exército Popular de Libertação estar a ocupar terrenos que são do usufruto da população? Ou será que, sendo o exército, estão acima da Lei e ninguém se atreve a criticá-los? Que me desculpem os mais sensíveis, mas eu fui criado num país livre, nascido durante uma ditadura, mas criado durante um período de grande liberdade, pelo que, mesmo sendo o exército o símbolo máximo da autoridade e do poder, não me refreio de o criticar, quando considero que estão a violar direitos da população que juram proteger.

A justificação dada para a necessidade do terreno está relacionada com o facto de precisarem de espaço para armazenarem os equipamentos. Sendo o COTAI tão perto da Ilha da Montanha – no máximo cinco minutos – não seria prático que se optasse por construir o tal depósito para o material do outro lado do canal? Que diferença faria terem de se deslocar cinco minutos, quando está em causa não prejudicarem a população?

sábado, 16 de junho de 2012

Clube Náutico sem leme

O MANDATO da actual direcção do Clube Náutico de Macau (CNM) terminou no dia 6 de Junho, sem que tenham sido convocadas eleições nem apresentados quaisquer relatórios ao longo dos dois anos, para aprovação em Assembleia Geral. Para fazer frente a este problema e tentar resolvê-lo, um grupo de sócios descontentes, entre os quais se encontram o ex-deputado Jorge Fão e o ex-CEO da CTM, Paulo Alves, decidiram avançar com um abaixo-assinado para obrigar à convocação de novas eleições no clube.

Como é do conhecimento público, esta instituição, já com 63 anos de história, tem vivido desde 2007 um período conturbado, devido à actual direcção insistir em construir um «Club House», tendo para isso assinado um contrato algo confuso com uma empresa «offshore», registada nas Ilhas Virgens, britânicas, e com escritório em Hong Kong.

Em linhas gerais, o contrato diz que a empresa, a «Realgain Development», se comprometia a construir o «Club House» em troca dos direitos de construção de um edifício habitacional de 40 andares. Para tal, a direcção do Clube Náutico de Macau comprometia-se, no contrato, a interceder junto do Governo para modificar a natureza do terreno e do contrato de concessão do mesmo, permitindo-lhes, assim, construir algo que fosse para além das estruturas necessárias ao funcionamento do clube; em termos mais claros, que no terreno fosse possível também construir habitação para venda. No citado contrato haveria também uma garantia bancária, prestada aparentemente pela «Realgain», mas onde o nome que aparece é diferente, para assegurar que o contrato seria cumprido. Caso não o fosse, essa verba serviria para pagar a construção do «Club House», segundo a direcção cessante. No entanto, essa verba, dez milhões de dólares de Hong Kong, segundo se pode ver no contracto assinado, depositada num banco do continente, está bloqueada porque, entretanto, o empreiteiro encarregue das obras meteu uma acção em tribunal, por falta de pagamentos por parte do CNM.

Este grupo de sócios do CNM – intitulados SOS Clube Náutico de Macau – quer ver a situação resolvida e o clube a funcionar condignamente. No comunicado por eles lido afirmam que «de há dois anos, a actividade náutica do clube deixou de ter qualquer expressão. A doca do clube é hoje, essencialmente, um mercado especulativo para compra e venda de postos de amarração».

De salientar que os pontões da Marina do Lamau são «privados»! Quem ali tem as suas embarcações, em vez de pagar à Marina, paga a um privado que é o proprietário do lugar; daí a especulação. No entanto, nada foi adiantado relativamente à solução deste problema. Aliás, caso fosse o clube a receber as mensalidades, em vez dos proprietários privados, muitos dos problemas de financiamento da instituição estariam resolvidos, visto que o total de «rendas» é superior a 200 mil patacas mensais, mais de dois milhões por ano: um valor mais do que suficiente para fazer face a todas as despesas mensais de funcionamento do CNM, se a gestão for cuidada. Se assim fosse desde o ano 2000, já teriam dinheiro mais do que suficiente para construir as instalações.

Pede-se, veementemente e com urgência, a intervenção do Governo para resolver a situação, especialmente nesta altura em que foi anunciado por Macau, China e Hong Kong a implementação da política de visto único para iates visitantes. Algo que pode contribuir para o crescimento do número de turistas, mas que precisa de uma marina e um clube a funcionar condignamente, defendem estes sócios descontentes.

Entretanto, em notícias publicadas em alguns jornais de Macau após a conferência de imprensa, podia-se ler que este grupo não mete de lado, totalmente, a construção de um prédio habitacional nos terrenos cedidos pelo Governo. Em alguns jornais podia ler-se que, numa segunda fase, poderá ser submetido um pedido ao Executivo para mudar a finalidade de parte do terreno, de modo a permitir a construção de um edifício habitacional, não se sabendo em que modos o querem fazer.

Actualmente, os sócios do clube são pouco mais de 120 e, destes, a sua maioria quer apenas ver o clube a funcionar bem e sem problemas. Afinal, quem ali tem os seus barcos quer ter a possibilidade de os usar e passar umas horas de recreio agradáveis. Muitos desses sócios defendem que os locais de amarração, que agora são particulares, deveriam ser restituídos ao Clube Náutico de Macau (à Marina do Lam Mau), porque não tem qualquer cabimento serem particulares, quando o terreno é do Governo e tem um prazo de utilização de apenas 25 anos (com início em 2000).

Se os pontões e todas as instalações fossem da marina, estaria assegurado o seu futuro financeiro com os pagamentos mensais de quem ali tem as embarcações, ficando o clube apenas dependente de si próprio, visto que as mensalidade dos sócios são insignificantes.

Outro dos aspectos que muitos sócios põem em questão é o facto de, actualmente, existirem muitos barcos na marina cujos proprietários nem sequer são membros do Clube Náutico de Macau, algo que deveria ser revisto quanto antes. Pessoas que não são sócios da instituição não deveriam ter acesso ao Clube, nem sequer deveriam ser autorizadas a ter ali a sua embarcação

Um problema para o Governo de Macau resolver quanto antes, em prol do desenvolvimento de um sector de actividade, que já teve muitas tradições no território.

Se este grupo de sócios conseguir angariar 25% de assinaturas para convocar novas eleições, pode ser que seja o primeiro passo para o ressurgimento do Clube, para bem de todos os que gostam de desportos náuticos.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Irresponsabilidade ou desleixo?

DECORRE por estes dias uma actividade promovida pelas autoridades marítimas de Macau, com a participação de centenas de pessoas do território e visitantes. Durante a época de defeso da pesca, pelo segundo ano consecutivo, pescadores, Capitania dos Portos e outras autoridades têm andado a levar residentes e turistas a passear em alguns barcos de pesca pelas águas adjacentes ao território: uma forma de fazer face à crise e ocupar os pescadores durante esta época de defeso imposta pelas autoridades de Pequim, segundo justificam os impulsionadores da iniciativa. E uma forma de dar a conhecer a ancestral forma de vida dos homens do mar, justificam as autoridades.

Até aqui, tudo bem! Aliás, considero meritória a actividade e espero que se possa manter durante muitos anos. E, se possível, deveria estar disponível durante todo o ano. Certamente que alguns pescadores iriam preferir andar a passear, do que nas lides pesadas da pesca, caso conseguissem sustentar a família dessa forma.

No entanto, o que me preocupa nisto é a questão da segurança. A legislação marítima de Macau é muito clara no que diz respeito aos requisitos de segurança das embarcações de recreio, de pesca e comerciais. Neste caso, seria uma de pesca, transformada em recreio, pelo que se terá de aplicar o que à última diz respeito.

Além de ser obrigatório estar equipada de rádio de comunicações, radar, sistema de posicionamento global e, no caso de embarcações, com as dimensões das de pesca, têm ainda de ter outros equipamentos electrónicos que, para além de ajudarem à navegação, servem para garantir a segurança a bordo, mas cuja complexidade técnica não vale a pena estar aqui a esmiuçar.

Além de tudo isto, a emissão de uma licença para uma embarcação obriga a que exista uma farmácia a bordo; e, no caso de embarcações deste tamanho, terá de ser bastante completa, desde comprimidos para enjoo, até compressas e alfinetes de ama. Uma lista abrangente e que pode ser consultada na página da Capitania dos Portos, assim como toda a restante legislação.

A par de tudo isto, no acto de registo de embarcações tem de se declarar o número de ocupantes, com a obrigação de ter um colete salva-vidas para cada um deles. E, para barcos desta dimensão, é obrigatório também dispor de embarcações salva-vidas que se encham de ar automaticamente, quando forem metidas à água.

Andar a vender bilhetes, promovidos pelo Governo e com o seu aval, para levar pessoas a passear em embarcações que não oferecem as mínimas condições de segurança, parece-me ser, em minha opinião e tendo em conta já alguma minha experiência de mar, um acto de tremenda irresponsabilidade e, por outro lado, um acto de completa falta de consideração e de justiça para com os empresários que apostaram nas embarcações de lazer e que são obrigados a pagar impostos e a cumprir todos os requisitos que atrás enunciei.

Há, pelo menos, duas embarcações que navegam, diariamente, nas águas de Macau com turistas e que cumprem, aparentemente, todos os requisitos. Esses barcos, que servem inclusivamente refeições, estão a ser discriminados, em favor dos pescadores.

Consulado fica mal na fotografia

Foi com agrado que vi, mais uma vez, se bem que por razões muitos tristes, Macau juntar esforços quando foi pedido auxílio para ajudar a família da jovem portuguesa que faleceu num trágico acidente de viação. Sem meios de suportar os custos da transladação do corpo, e depois de ter recebido uma nega do Consulado Geral de Portugal em Macau, a família ficou nas mãos da generosidade da população, para fazer com que tal fosse possível.

Foi uma onda contagiante de solidariedade que se viu em torno deste obstáculo e que rapidamente ultrapassou as expectativas iniciais. Macau, como já tinha acontecido noutras ocasiões – lembram-se das campanhas para ajudar Timor? – juntou mãos e uniu todas as comunidades no apoio a esta jovem portuguesa e à sua família.

Quem acabou por ficar mal na fotografia foi o Consulado de Portugal. As comparações não se fizeram esperar e vários casos foram trazidos à praça pública, nomeadamente pela comunidade não portuguesa ou chinesa. Por exemplo, casos de turistas filipinos e tailandeses que perdem a vida em Macau e os seus representantes diplomáticos não hesitam em prestar todo o apoio às famílias afectadas. A transladação dos corpos fica sempre a cargo das representações diplomáticas, assim como todo o processo burocrático. Afinal, para que servem as representações dos nossos países no estrangeiro, se não for para ajudar os seus nacionais em tempos de aflição?

Na verdade, não sei o que se passou no Consulado de Portugal, mas custa-me acreditar que não houvesse 15 mil euros para suportar os custos do processo. E, mesmo que não dispusessem da verba, julgo que não deveria ser muito difícil encontrá-la junto de entidades locais, nomeadamente o cônsul honorário em Hong Kong ou departamentos do Governo da RAEM.

Muito feio e um péssimo exemplo de solidariedade da parte de quem deveria ser a primeira instituição a resolver o problema. Esperemos que, futuramente, haja um plano de contingência e que não voltem a suceder casos semelhantes. Um fundo de emergência para fazer frente a estes casos deveria existir em todas as representações diplomáticas.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Carreiras 25 e 25X não respeitam contrato

NESTES últimos dias, devido a uma reparação mal feita no meu veículo pessoal, tenho andado de transportes públicos e apraz-me dizer que, não obstante a manifesta falta de qualidade dos veículos utilizados por todas as companhias, a cobertura e a eficiência dos mesmos têm melhorado muito. Durante o fim-de-semana, tendo de deslocar-me ao COTAI assiduamente, nunca demorei mais de 15 a 20 minutos, a partir do centro da cidade. Isto, incluindo o tempo de espera na Rua do Campo pelo autocarro número 25 ou 25X.

Saliente-se que os esforços das autoridades em aumentar a rotatividade e assiduidade dos autocarros nas paragens tem dado frutos. No entanto, continuamos a contar com veículos velhos ou, quando novos, são de tão má qualidade que mais valia serem velhos!

Não consigo perceber como é que autocarros com um e dois anos façam mais barulho do que uma lata velha ao vento e que o seu interior esteja a cair aos bocados, devido à manifesta falta de qualidade dos materiais utilizados pelos construtores chineses.

Por que razão não obrigaram a que se comprassem autocarros de qualidade comprovada? Não é preciso ir muito longe: o exemplo de Hong Kong, onde usam marcas britânicas, serve muito bem. Mas, mesmo em Macau há exemplos de empresas, ligadas ao jogo, que chegaram à conclusão que marcas chinesas não servem. Apesar de serem mais baratas, a longo termo, acabam por ficar mais caras, devido à manutenção e à constante substituição que é necessário fazer. A Venetian e a SJM são os primeiros exemplos, tendo optado por começar a substituir a frota por marcas europeias.

Disseram-me, aquando do concurso, – por acaso a sua minuta passou pelas minhas mãos – que as marcas envolvidas eram muito utilizadas no interior da China e que eram das mais conceituadas! Mas, sabendo nós que os critérios de qualidade que se aplicam na China continental são muito baixos, por que razão os deixaram aplicar a Macau? Não deverá a RAEM, «centro de turismo internacional», ter parâmetros de qualidade mais altos, à altura dos pergaminhos que apregoa aos sete ventos? Ou, será que o «slogan» irá passar para «centro de turismo chinês»? Bom…

No contrato de concessão que todas as operadoras aceitaram e assinaram, havia, pela primeira vez, a obrigatoriedade dos autocarros estarem equipados com sistema de GPS e com sistema de informação sonora e visual das paragens, nas duas línguas oficiais e também em Inglês. Mas, na verdade, depois de um ano de actividade sob o novo contrato de concessão, este sistema raramente funciona em muitos dos autocarros. Aliás, o sistema é igual em todas as concessionárias! Afinal teve de ser o Governo a fazê-lo, para que as empresas o usassem!

Das vezes que utilizei, nomeadamente, as carreiras 25 e 25X, nunca vi o sistema a funcionar na sua totalidade. Muitas das vezes o som está desligado e o sistema visual apenas dá informações em Chinês. Apesar de ter tentado contactar as companhias, nomeadamente a TRANSMAC, que é a que explora as carreiras referidas, não houve qualquer tipo de resposta.

Para me precaver de qualquer tipo de mal-entendido, enviei as interpelações nas três línguas usadas, referidas no contrato que assinaram com o Governo. Mas, mesmo assim, não houve direito a qualquer tipo de contacto por parte da empresa. Tentativas de abordagem feitas via telefone foram em vão, porque nunca consegui fazer-me entender, ou faziam por não entender.

Tendo conhecimento pessoal do que foi exigido nos contratos, considero que, se fossem cumpridos na íntegra, teríamos serviços de autocarro de boa qualidade. No entanto, o que acontece é que não há fiscalização. O controle que a DSAT faz restringe-se à assiduidade das chegadas e partidas, tudo o resto que foi exigido, normas EUROIV, materiais utilizados, autocarros com acesso para deficientes, sistemas sonoros e visuais nas línguas oficiais, etc. Tudo isso passa sem que ninguém regule e fiscalize, pelo que as companhias de autocarros estão-se nas tintas para a letra do contrato.

Quanto à qualidade dos autocarros, visto que os accionistas das empresas concessionárias não os utilizam, os utentes que se aguentem!

Se do outro lado da fronteira servem, porque não hão-de servir em Macau? – devem dizer, indignados, os responsáveis! Nós, os residentes de Macau, somos mesmo muito exigentes!…

No meu ponto de vista, Macau não se deve nivelar pelos requisitos de qualidade da China continental, neste campo. Se pretendemos ser «civilizados» e considerar Macau como uma cidade internacional, é necessário e urgente que os responsáveis do sector dos transportes comecem a tomar medidas adequadas e a fazer cumprir os contratos.

Amigos ou não, os contratos são para cumprir!

Estamos a falar de transportes públicos. Quanto aos táxis, infelizmente, continua tudo na mesma!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Críticas construtivas

NO seguimento do meu artigo de há duas semanas, em que falava de um bom exemplo dado pelos agentes da autoridade de Macau, não queria deixar passar a oportunidade de referir que bons e maus exemplos vêmo-los em todas as profissões. O referido artigo deu origem a uma série de comentários, uns abonatórios, outros nem tanto!

Se, na generalidade, na Imprensa se aborda mais os maus exemplos, isso se deve ao facto de serem estes a excepção e não a regra. Qualquer profissional tem por obrigação exercer bem a sua função, sendo os erros merecedores de comentários menos positivos e de críticas que se espera sejam construtivas.

Quando feitos de forma construtiva, os comentários são sempre positivos. Quem deles é alvo deve aprender a tirar o melhor proveito e usá-los como forma de aumentar a qualidade do produto do seu trabalho. As críticas que apontam para outro lado, o melhor é esquecê-las e não pensar mais no assunto!

Na verdade, a polícia de Macau, como já foi dito inúmeras vezes, é de boa qualidade e a grande maioria dos agentes são bem formados e dignos da farda que envergam. A qualidade da escola de polícia está acima de qualquer suspeita e tem provas dadas ao longo dos anos.

No entanto, alguns agentes, quando começam a trabalhar na rua,c parece terem esquecido tudo o que aprenderam durante a formação, acabando por denegrir o todo da corporação, levando a que a população tenha a polícia em muito pouca consideração.

O facto dos agentes serem frequentemente visados nas páginas dos jornais e nas redes sociais reflecte apenas a necessidade de haver uma maior fiscalização por parte dos superiores e das comissões – (Macau é a terra delas!) – que foram criadas para assegurar a qualidade. Muitos desculpam os «descuidos», pelo facto de ser um trabalho de rua, em vez de ser num escritório com ar condicionado! Contudo, não nos podemos esquecer que também são feitas muitas críticas a outros funcionários públicos da linha da frente que trabalham em locais com ar condicionado e ambiente controlado. Portanto, o facto de ser um trabalho que tem de lidar com os rigores do clima em nada os desculpa das asneiras que fazem!

Quando me aparecem com essas desculpas, só me apetece dizer que ninguém é obrigado a ser polícia. E se não querem ser alvos de críticas desse tipo, optem por outras profissões. Afinal, pelo que sei, só vai para a polícia quem quer.

Qualquer profissão, especialmente as que lidam diariamente com a população, são constantemente alvo de críticas por parte das pessoas com quem contactam. É da natureza humana apontar apenas os erros…

Por exemplo, os jornalistas, pelo simples facto de fazerem críticas em textos de opinião, ou de abordarem certos temas de forma menos «correcta», são bombardeados com comentários de pessoas que ou não entenderam, ou não concordam com o ponto de vista. Infelizmente, por muito que se tente, não se consegue agradar a todos.

O que me aborrece é o facto de alguns cidadãos não aceitarem que possa haver pessoas com pontos de vista diferentes, assim como pessoas que, no seu direito à opinião, não gostem do trabalho dos agentes (tanto da polícia como de qualquer outro serviço) e sejam alvo de represálias por expressarem a sua opinião livremente. Afinal, temos ou não liberdade de expressão em Macau?

Hipoteticamente, o eu não gostar da polícia em geral não deve ser um factor negativo para a minha vida em sociedade. Assim como não deve ser para outros cidadãos que, possivelmente, não gostem de médicos, ou juízes, ou dos fiscais do fumo, para citar alguns exemplos.

Cada cidadão tem a liberdade de apontar o que pensa estar errado e esperar, da parte das autoridades competentes, que isso seja corrigido, quando tal se justificar.

A verdade é que em Macau, neste caso a polícia, tem muito que melhorar, especialmente no que diz respeito aos agentes que andam à chuva e ao sol. O factor climatérico não pode, nem deve, interferir na sua capacidade de desenvolver e prestar um serviço de qualidade ao cidadão comum. Há muitos agentes policiais que, mesmo perante os rigores do clima de Macau, prestam um serviço exemplar.

Um erro, por pequeno que seja, causa má impressão na população e acaba por manchar a globalidade da corporação, pondo em causa os milhares de agentes que, diariamente, dão o seu melhor, à chuva e ao sol.

É isto que as chefias da corporação devem ter em conta: ver onde estão os maus exemplos e corrigi-los, para que toda a equipa fique a ganhar. Tentar desculpar as chamadas «ovelhas negras» só acaba por prejudicar toda a imagem do grupo.

Por mim, como sempre, andarei por aqui para ir apontando o dedo e aprendendo com as críticas.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Feira de iates, outra vez!

O TEMPO passa como se fosse vento, sem que nos apercebamos de que a cada dia ficamos mais velhos e as oportunidades só se concretizam uma vez. Se não as aproveitamos, vamos acabar por nos arrepender durante o resto das nossas vidas. Isto aplica-se tanto a pessoas, como ao próprio Governo.

No ano passado, mais ou menos nesta altura, escrevia sobre algo que pouco, ou mesmo nada, foi falado na Imprensa local. Apesar de ser um evento de grande envergadura e de ser, então, a primeira vez organizado nesta cidade, não mereceu o apoio que merecia da população, da Comunicação Social e, muito em especial, do Governo, que apenas olha para o Jogo, para os «patos bravos» e a especulação imobiliária com o seu lucro fácil.

Macau vai ser palco, pela segunda vez, de uma feira de iates e barcos de luxo. Ao contrário do que a maioria da população pensa, barcos não são apenas para gente rica, pois há-os para todas as bolsas. Aliás, existe o estereótipo de que os donos de barcos e quem viaja de barco são milionários. Pois, posso garantir que quem tem essa ideia nunca meteu os pés dentro de um veleiro ou de um barco a motor. Aliás, a nível mundial, os milionários nesta vertente são uma minoria e raramente embarcam em grandes viagens, servindo os seus barcos apenas para ostentar e mostrar a sua riqueza.

Há todo um outro mercado na náutica de lazer que gera riqueza e empregos, mas que não significa que os proprietários sejam ricos.

Se bem que o exemplo da feira de Macau aponte mais para as carteiras recheadas da China, a verdade é que em Macau não há condições para mais barcos. A actual marina, se é que lhe podemos mesmo chamar marina, está cheia e não tem qualquer tipo de condições. Nem casa-de-banho tem, para já não falar nas outras instalações de apoio que os sócios, que pagam mensalidades e jóias de membro, deveriam ter para uso: bar, duches, zona de reparações, entre outras, apenas para citar algumas das lacunas.

Por outro lado, quem quer comprar barco em Macau enfrenta o problema de não ter onde o colocar. E, caso opte por um barco que possa ser colocado num reboque, enfrenta um outro problema ainda maior, relacionado com o trânsito. Ao que parece, em Macau, não é permitido circular com atrelado em carros particulares, o que inviabiliza qualquer tipo de recurso a essa solução para fazer face à falta de lugares na marina.

Recentemente escrevi nestas páginas que a directora da Capitania dos Portos dizia haver dois locais para iates em Macau. Continuo à espera que me digam onde fica o segundo, porque quero ir ver!

Por outro lado, a Lei Marítima de Macau reconhece a existência de vários portos em Macau e locais de ancoragem. Mas, na verdade, isso não passa de letras no papel. Se quiserem provar isso, experimentem mandar uma mensagem a pedir um local para ancorar um barco. A resposta irá apontar para a Marina do Lamau (que, como já se referiu, está cheia). Portanto, um livre residente de Macau que pague impostos, como toda a gente, se quiser ter barco, em vez de carro, vê-se obrigado a ter de pagar a uma entidade privada para o «estacionar». Algo que, no meu ponto de vista, é injusto, pois quem tem carro pode estacionar na rua, visto ainda existirem locais sem parquímetros.

Antigamente era possível ancorar no Porto Interior, na zona onde param os barcos de pesca, mediante o pagamento de uma taxa anual à Capitania. Actualmente, porém, apesar de tal estar previsto na lei, a Capitania recusa-se a atribuir bóias de ancoragem a privados que não sejam «pescadores». Uma discriminação que não se percebe.

Com todos estes contratempos, Macau avança para a segunda feira de iates! Espero que este ano, pelo menos, os representantes do Governo, nomeadamente do Turismo, se dignem a comparecer no evento, que mais não seja para saborearem uns aperitivos de graça e beberem uns copos de champanhe!

A iniciativa este ano está a cargo das mesmas entidades que organizaram o evento há um ano. Aliás, entidades da China, algo que também não se percebe, dado haver em Macau empresas com experiência suficiente para realizar um evento desta natureza. Além disso, a empresa responsável pelo evento nem sequer tem história na organização de feiras de barcos!

Ah! Este ano parece que vai haver uma regata com dezenas de veleiros. Eu, incredulamente, pergunto-me de onde virão tais velejadores e embarcações! Em Macau há cinco, mas apenas três sobem as velas regularmente! E quando se organizam regatas de e para Hong Kong, nunca se conseguem mais de dez… Vamos esperar…

Fórum alarga esfera

Apenas um pequeno aparte, visto ter lido a notícia recentemente e não querer deixar passar a oportunidade de a realçar. O Fórum de Macau prepara-se para alargar a sua esfera de influência a actividades não económicas, nomeadamente à cultura, pelo que foi abordado por alguns dos seus membros numa reunião na semana passada. Gostaria de manifestar o meu agrado e esperar que não voltem a recusar apoio a iniciativas de cariz cultural e de promoção de Macau, como aconteceu recentemente, depois de terem garantido que dariam todo o apoio necessário a nível institucional.

Sabendo-se que o Fórum tem vindo a apoiar a Semana Cultural e a Lusofonia, é muito difícil entender a recusa de apoio a um evento que tem como propósito promover Macau e os laços que ligam os países de língua Portuguesa.

Fica o reparo, a nota de agrado e o conselho para que submetam novamente a proposta, se esse propósito avançar. Desta vez enviem directamente ao secretário-geral; pode ser que a receptividade não mude.

Afinal, a Economia e o Comércio andam sempre de mãos dadas com a cultura e os laços afectivos.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bom exemplo

É JÁ normal passarmos dias e semanas a criticar tudo e todos, esquecendo que diariamente há pessoas que se esforçam por fazer o seu melhor para tornar a nossa vida um pouco mais fácil e segura. Tornou-se hábito criticar as autoridades de Macau por tudo o que de menos positivo fazem. Mas, apesar de evidentemente haver muito que pode ser mudado para que a imagem da polícia seja melhorada, há sempre bons exemplos.

Os aspectos negativos abundam nas redes sociais, em imagens captadas nas ruas do território, com agentes da autoridade a actuarem de forma menos correcta e pouco profissional, seja o atravessar uma passadeira sem cumprirem as regras do trânsito, ou o abusarem da autoridade que a farda lhes dá. No entanto, julgo que todos agentes, em essência e felizmente ainda na sua maioria, são pessoas de bem e que se esforçam perante a adversidade para darem sempre o seu melhor.

A população tem, por tradição, um olhar sempre muito atento às coisas erradas que as autoridades fazem. Mas, quando algo de bom é feito, regra geral, fica esquecido e passa sem ser enaltecido. É precisamente um destes episódios que hoje quero aqui realçar. Aconteceu recentemente e envolveu, pelo menos, seis agentes da autoridade. Todos eles procederam de forma correcta e voluntariosa.

Num fim de dia, com o tráfego no seu auge à saída do túnel, no final da Rua do Campo, um carro pára com falta de combustível num dos semáforos junto do jardim Lou Lim Ieoc. Como se deve imaginar, a paragem do veículo causa muita confusão no trânsito. Um dos dois ocupantes, sem ter outra solução, decide deixar o veículo com os quatro piscas ligados e com o outro ocupante pronto para receber os agentes da autoridade que deveriam chegar a qualquer momento. Entretanto, desloca-se a pé ao posto de abastecimento mais próximo, neste caso o da Caltex, do outro lado do túnel da Guia! Na ida, atravessou o túnel a pé, algo que é ilegal, mas não foi interceptado por nenhum agente. No trajecto de volta, um polícia de motorizada deu-lhe indicação para parar na saída do túnel. Rapidamente explicada a situação, o agente deixou a mensagem, que lhe cabe deixar nestas situações sobre a necessidade de se seguir as regras e cumprir os requisitos de segurança. Porém, vendo a urgência da situação, não demorou mais de dez segundos e deixou seguir a pessoa com o combustível, rumo ao carro imobilizado.

Chegado ao local onde o veículo se encontrava, já vários agentes da autoridade estavam a tentar resolver a situação. Apesar da confusão inicial, devido ao facto dos agentes dominarem pouco o Inglês e não falarem Português, mostraram-se bastante cooperantes e, entre tentarem minorar o problema do trânsito e tentarem encontrar uma solução, ofereceram-se para empurrar o veículo para um local seguro, depois de atravessada a Avenida Horta e Costa.

Durante todo o processo, não se notou um único momento de maior tensão nem de falta de profissionalismo ou arrogância por parte dos agentes. Mesmo perante a manifesta irritação dos ocupantes do veículo, devido à situação em que se encontravam, os agentes nunca mudaram de postura. Tudo tentaram para ajudar a resolver o problema, tendo mesmo pedido para que fosse chamado um reboque para que o carro fosse removido, mais tarde, para um local onde fosse possível ver e solucionar o problema.

Enquanto era empurrado o veículo, para que o trânsito fluísse normalmente, e já com algum combustível no depósito, este decidiu pegar, deixando todos os envolvidos algo surpresos. É que durante o período em que o carro esteve parado sem combustível, e depois de várias tentativas de o fazer pegar, a bateria tinha «morrido». Sendo um veículo automático, era suposto não pegar de empurrão! Assim que o veículo começou a funcionar, os agentes ajudaram a controlar o trânsito para que o veículo se imobilizasse em local seguro, tendo um dos ocupantes, o proprietário, ficado com alguns dos agentes, esperando que lhe fosse dado um «sermão» ou que lhe fosse passado qualquer tipo de multa.

Os agentes sorriram, dizendo ter sido bom que tudo se tenha resolvido sem necessidade de reboque e desejaram a continuação de boa viagem. Um aperto de mão do agente mais sénior e muitos obrigados da parte do ocupante do carro «selaram» o incidente.

Uma situação que poderia ter sido bem mais complicada, caso a autoridade tivesse tido outro tipo de postura. Mas, com profissionalismo e com boa educação e uma postura de servir a população, ficou beneficiada a boa imagem de toda a corporação.

Pena que os agentes não tenham sido identificados, pois mereciam, da parte envolvida, uma menção de agradecimento. Ficam estas palavras de agradecimento, depois de me terem contado o incidente.

Por vezes, a imagem que temos das autoridades acaba distorcida e errada, apenas porque tendemos a olhar para o todo, tomando como exemplo uma pequena parte. E essa parte pequena é sempre a do lado negativo.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Nem tudo são espinhos

ESTAS últimas semanas tenho tentado, seriamente, encontrar assuntos que possam ser abordados pelo lado positivo. Mas, no entanto, a minha procura tem sido algo inglória. Até parece que em Macau nada se faz que mereça ser enaltecido. Na verdade, não é bem assim.

Há associações e pessoas que se dedicam, diariamente, a fazer coisas positivas e a contribuir para o bem da sociedade. Regra geral, todas as associações de beneficência têm obra que merece ser enaltecida por todos nós. Se não fossem elas, muito do trabalho de apoio aos mais desfavorecidos ficaria a cargo do Governo, com todas as implicações que isso traz e que são do conhecimento público. Este tipo de parceria público-privada, em Macau, funciona positivamente e parece ser a indicada, desde que continue a haver dinheiro nos cofres de Santa Sancha. Pelo que me dizem, o único aspecto que falha é a falta de pontualidade do Governo, que demora em aprovar os apoios financeiros, deixando essas entidades a funcionar com duodécimos e obrigando-as a não pagar aos seus fornecedores. Felizmente, como em Macau já todos sabem como funciona o «Estado», esses fornecedores vão tendo paciência e aguentam o barco, enquanto o dinheiro não chega. Outro dos aspectos menos positivos deste «casamento» é a falta de critérios justos na atribuição das verbas, havendo associações que recebem exageradamente, tendo em conta as actividades e trabalho que fazem, enquanto que outras, pelo contrário, fazem muito com pouco.

Em termos organizativos, e mesmo para a tranquilidade de quem trabalha, não seria tudo mais fácil, se o Governo garantisse, desde logo, os apoios a essas instituições no início, ou no final do ano, tendo em vista o planeamento do seguinte? Assim as associações e instituições de solidariedade poderiam programar as suas actividades sem qualquer tipo de constrangimentos, facilitando a vida a todos os envolvidos.

A verdade é que em Macau há associações para tudo e mais alguma coisa. Esta explosão de colectividades deve ter sido provocada pela abertura dos cordões da bolsa dos subsídios por parte do Governo. Não estou ciente de números certos, mas, sem errar muito, devem existir mais de dez mil instituições, com figura jurídica de associação sem fins lucrativos, a receber subsídios do Governo anualmente. Este fluxo constante de dinheiro, aliado ao tipo de processo eleitoral adoptado para a Assembleia Legislativa, que dá prioridade a deputados eleitos indirectamente em representação de grupos profissionais e interesses associativos, pode muito bem estar por detrás deste crescente número de grupos organizados.

Não seria negativo, se todas as associações apresentassem trabalho. No entanto, e contribuindo cada vez mais para a má imagem que o «associativismo» começa a ter em Macau, há muitas que recebem verbas apenas para organizar festas ou publicar panfletos, ou apenas para pagar as contas correntes.

Basta ver as listas de apoio publicadas em Boletim Oficial, para constatar que algumas recebem até centenas de milhar de patacas por ano para publicarem uma revista! Será uma revista feita em papel especial? Duvido…

O associativismo, na minha opinião, está intimamente relacionado com a coesão da sociedade, mas também com o grau de satisfação que os cidadãos sentem, relativamente à qualidade de vida que usufruem. Se consideram que a qualidade de vida é boa, tende a crescer o número de agregados identificados com actividades lúdicas e de lazer, nomeadamente associações desportivas. Se, pelo contrário, o simples cidadão se sente pouco satisfeito com a sua qualidade de vida, surgem cada vez mais associações com o objectivo de proteger os interesses de classe, nomeadamente instituições que lutam pelos interesses de um bairro, ou de um grupo étnico ou profissional específico.

Para ser justo para com todas as associações, a distribuição das verbas do Governo deve, antes de mais, olhar ao plano de actividades e à totalidade do que foi realizado no ano anterior. Até agora, muitas das críticas da população vão de encontro à falta de critérios na atribuição dos subsídios, ouvindo-se amiúde que o Governo dá mais aos grupos constituídos pelos amigos, deixando de fora associações que fazem muito trabalho em prol dos mais desfavorecidos.

Não me atrevo a aconselhar que o Governo deveria criar uma comissão para estudar esta problemática, porque esse é outro dos problemas deste Executivo: comissões para tudo e mais alguma coisa. Mas, no entanto, algo tem de ser feito, para que as injustiças terminem e as verbas públicas comecem a ir para quem realmente precisa delas. Ver os relatórios de actividades anuais pode ser um bom indicativo (se bem que não seja apenas esse o critério) para se saber quem faz o quê com o dinheiro recebido!

Recentemente foi criada mais uma associação de cariz lusófono e que agrega desde cultura, arte e economia! Polivalente e abrangente quanto baste! Daqui a um ano vou querer ver o que foi feito e de onde veio o dinheiro.

Agora, antes de terminar, gostaria de deixar aqui um lamento: tendo-se passado recentemente 20 anos do desaparecimento daquele que é considerado como o «expoente» máximo da comunidade macaense, foi pena que o antigo presidente da Assembleia Legislativa e homem das leis durante muitos anos, Carlos d’Assumpção, nem uma palavra tenha merecido por parte do actual Executivo de Macau. Nem sequer na Assembleia Legislativa que ajudou a criar!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Governo negligencia os Portugueses

SINCERAMENTE já começa a fartar o tanto atirar areia para os olhos de quem quer ver. O que se apregoa raramente tem reflexos na realidade e só não vê quem não quer.

A verdade é que em Macau, no papel, temos duas línguas oficiais e ambas, tanto quanto sei, devem ser tratadas em pé de igualdade. Portanto, por que razão a língua portuguesa acaba sempre por ser preterida em todas as actividades do Governo?

Como já ouvi de alguns causídicos portugueses estabelecidos em Macau, se temos que nos adaptar à realidade e estar preparados para interpretar as mensagens em Chinês, por que razão se meteu na Lei Básica que o Português é língua oficial?

Se for no sector privado, ainda percebo que não se use, apesar de considerar que, mesmo aqui, o Governo deveria promover o recurso às duas línguas oficias e mais a de comunicação internacional. Basta olhar para Hong Kong, onde o Governo gasta milhões a promover (mesmo na Comunicação Social) o ensino e uso do Inglês. Mas, quando se trata de comunicações do próprio Governo, não consigo aceitar. E isto não é ser radical; é apenas defender aquilo que marca a diferença em Macau.

Recentemente, recebi na caixa do correio lá de casa dois panfletos relativos à reforma do sistema político, algo que, pela sua importância, diz respeito a todos os residentes permanentes. Apesar de algumas consultas apresentarem resultados dizendo que os Portugueses não querem saber da política em Macau, eu, como cidadão permanente e responsável, preocupo-me com as questões políticas na RAEM. Afinal, essas mesmas questões, mais cedo ou mais tarde, irão ter repercussões na minha vida privada. Apenas por isso, se não por mais razões, já merecem toda a minha atenção, visto que não estou em Macau com mentalidade de emigrante. Quando aqui cheguei, este pequeno território estava ainda sob administração portuguesa; não cheguei como sendo emigrado a um país estrangeiro, mas sim como migrante. Apesar de não ter aqui nascido, sinto esta terra como minha e não tenho qualquer intenção de a deixar permanentemente. Nunca esteve, nem certamente estará no meu horizonte amealhar patacas para voltar às origens. Se assim fosse, talvez tivesse aproveitado outras benesses e já tivesse feito as malas!

O panfleto chegado à minha caixa do correio, como deve ter chegado a tantos outros domicílios, era sobre o Documento de Consulta sobre o Desenvolvimento do Sistema Político; só que apenas me chegou a versão em Chinês. E em duplicado!

Sendo um documento de extrema importância para o futuro de Macau e de todos nós, não deveria o Governo estar mais empenhado em fazer com que toda a população tenha acesso à informação? Não deveria o Governo ter dedicado mais atenção ao envio da informação nas duas línguas oficiais?

Uma fórmula simples para resolver estes problemas passaria por terem impresso os folhetos com as duas línguas, em vez de terem optado pela impressão de versões separadas. A própria separação indica, per si, discriminação.

São pormenores como estes que me levam a crer que a conversa da língua portuguesa é apenas para atirar areia para os olhos de quem quer ver. Se realmente estão empenhados em nos tratar como cidadãos iguais, independentemente da raça, credo, origens sociais ou qualquer outro diferenciamento, comecem a mostrar trabalho e empenho. Ou será que esse interesse só se irá manter enquanto for possível retirar proveitos económicos das relações com os Países de Língua Portuguesa?

O período de consulta foi de 10 de Março a 23 de Abril, amplo o suficiente para que os interessados pudessem apresentar as suas questões e opiniões. Eu próprio o fiz relativamente a alguns assuntos, apesar de concordar com a metodologia e com os pormenores do processo. Mais, em minha opinião, não se poderia esperar ou pedir, tendo em conta a realidade de Macau.

No entanto, tendo o período de consulta terminado no passado dia 23 (segunda-feira), por que razão enviaram os panfletos apenas na semana anterior? Os meus, em Chinês, chegaram no dia 16 ao domicílio.

Entretanto, visto serem apenas em Chinês, através de uma conversa telefónica aconselharam-me a ir levantar a versão portuguesa. Ou, caso preferisse, poderiam enviar-me a cópia em Português!

Apenas deixo uma questão: por que razão terão os leitores de Português ser discriminados e obrigados a telefonar, para pedir que lhes enviem algo que consigam ler?

Gostaria de saber se, para um tratamento igual das línguas, no próximo envio, o farão apenas em Português, para que os leitores de Chinês peçam a versão que conseguem ler, via telefone. Isso, sim, seria tratamento igual perante o Governo de Macau!

Realmente já cansa tanta falta de consideração, perante tanta retórica rota!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Macau tem dois locais para iates?

EM Macau habituámo-nos a ouvir dos dirigentes do Governo as mais sérias barbaridades, sem que ninguém venha a público dizer que estão enganados e os chame à responsabilidade pelos erros cometidos.

Recentemente, foi a vez da Capitania dos Portos, pela voz da sua chefe máxima, Susana Wong, ao anunciar que está a ser planeado um processo para licença única dos barcos de lazer. Algo que, segundo as notícias vindas a público, baseadas num comunicado à imprensa apenas em Chinês (como já vem sendo hábito da Capitania dos Portos, infelizmente), foi decidido na última reunião da Assembleia Nacional Popular, em Pequim! Os barcos de Macau, Hong Kong e da província de Cantão vão passar a ter uma espécie de registo de navegação, único, que lhes permitirá entrar e sair dos portos da região sem grandes problemas.

Eu pergunto-me: com o registo do meu pequeno barco à vela, que problemas tenho eu para entrar em Hong Kong ou em Nansha (marina perto de Cantão)? Nunca tive qualquer tipo de problema com papéis, porque estão todos em ordem. Para Hong Kong, basta-nos apresentar o BIR de Macau e assinar o papel da emigração (aliás, se for apenas para passar a noite numa das baías, muitas das vezes as autoridades de Hong Kong nem se dão ao trabalho de fiscalizar). Caso haja entrada em Hong Kong, antes de sair, no prazo de 24 horas, temos de informar as autoridades portuárias locais. Na China, o processo é o mesmo, apenas com a agravante de incluir vistos.

Em Macau, não tenho conhecimento de nenhum barco de recreio vindo da China, mas de Hong Kong têm vindo vários, ao longo do ano (mas muito longe dos 100 que o comunicado informava!), e o processo é igualmente simples.

Não se entende, por isso, a razão de tanta euforia com um assunto que nada traz de novo.

Por outro lado, a directora falava na perspectiva de se aumentar a actividade no campo da náutica de recreio e da necessidade de haver mais pontões ou locais de atracagem: um problema velho em Macau, mas que apenas o Governo não vê forma de resolver. Já aqui se avançou com, pelo menos, duas opções: uma, que incluía a construção de raiz; e outra, que incluía a reconversão das estruturas existentes, ambas trazendo valor acrescentado a Macau e a toda a sua linha costeira na cara do território. Qualquer grande cidade mundial, que faça jus ao seu nome e história ligada ao mar, tem marinas à entrada. Olhem para Sidney, Nova Iorque ou Lisboa, para falar apenas de algumas!

Susana Wong dizia que havia dois locais para atracar os iates em Macau! Eu vivo em Macau desde 1997 e, desde essa altura, só sei da existência da Marina do Lamau para se atracar barcos. É verdade que existe o Porto Interior e o abrigo do Fai Chi Kei, mas as «máfias» dos pescadores nem sequer deixam os desportistas náuticos sonhar em ali atracarem, quanto mais os barcos que nos visitam. Veja-se a reacção do «sindicato» dos pescadores na notícia do «Ponto Final» para logo nos darmos conta do que eles pensam. Nem sonhem sequer em usurpar os locais que a proeminente indústria pesqueira da RAEM usa!

A directora da Capitania, certamente, referia-se a Cheok Van, que outrora foi o Clube Náutico e que serviu para milhares de crianças aprenderem a velejar. Depois de ter sido entregue ao Governo, nunca mais abriu portas, apesar de haver, pelo menos, uma proposta de um grupo particular para o reactivar e o restituir à população. Segundo sei, a isto o Governo disse nem pensar, porque são eles que sabem o que ali se deve fazer! Há vários anos fechado com as instalações a apodrecer, ali há barcos sem serem usados na totalidade das suas capacidades.

Cheok Van está longe de se chamar um local de atracagem de barcos, visto ser uma doca seca e, como tal, só pode acolher barcos que possam ser retirados facilmente da água através de um guincho: equipamento que, da última vez que foi usado antes do tufão Agupit, quase danificou um barco por se ter partido um cabo e porque quem o operava não sabia o que fazer!

Da Capitania já nada me impressiona, nem mesmo que não saibam o mínimo da sua faina. Tenho pena porque ali trabalham pessoas com imenso valor e com muitas provas dadas, especialmente técnicos que vieram da Administração Portuguesa e que muito têm para dar a Macau e a quem gosta de coisas ligadas à água.

Quando pessoas novas ligadas à Capitania não sabem distinguir entre bombordo e estibordo, algo de muito errado se passa no reino da «marinha».

segunda-feira, 16 de abril de 2012

As criancices de Macau

RECENTEMENTE, ao ler um artigo publicado por uma advogada brasileira, fiquei com a impressão de ver aí retratada a sociedade de Macau. Quando me dediquei a digerir o que tinha acabado de ler, lembrei-me de afirmações de Carlos Morais José, feitas recentemente, acerca da infantilização da sociedade e dos benefícios que isso traz para as camadas governantes. Em Macau é conveniente ter-se uma sociedade infantil, pois assim ela pode ser manipulada e moldada de forma a que aceite tudo o que o Governo decida.

A verdade é que, quanto mais os membros da sociedade se comportam como crianças, mais fácil se torna para o Governo controlá-los e influenciá-los. E, em Macau, esses comportamentos são cada vez mais visíveis, sejam eles nos «Hello Kitty’s» ou nos carros cheios de bonecos e outras decorações dignas de um quarto de criança, seja nos comportamentos que se vêem à mesa dos restaurantes, ou nos tópicos de conversas entre pessoas adultas à mesa do café. Ou, em casos mais severos, na falta de capacidade para conjecturarem sobre o futuro e sobre o que querem para as suas vidas.

Este fenómeno não é recente e o seu estudo já se arrasta desde o século XVII, quando o filósofo alemão, Immanuel Kant, o abordou dizendo que «a menoridade é a incapacidade de fazer uso do seu entendimento sem a direcção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a sua causa não estiver na ausência de decisão e coragem de se servir de si mesmo sem a direcção de outrem».

Passados três séculos, é incrível como estas palavras continuam muito actuais e visíveis em Macau, assim como em toda a Ásia. Na Europa, aparentemente, tal se faz sentir noutros moldes.

No mesmo texto de autoria brasileira lia-se que «a infantilização do adulto, ou seja, o processo tendente a infantilizar e manter a pessoa infantil, sem capacidade de raciocínio claro, sem opinião própria decorrente do seu próprio entendimento, interessa aos Governos que pretendem induzir as pessoas a acreditarem no que eles querem que acreditem, mesmo sem lógica e sem coerência. Isso começa pelos discursos, pela demagogia e pela publicidade muitas vezes hipnótica, sempre rebaixando a mentalidade, como se fôssemos todos destituídos de raciocínio e de capacidade de entendimento».

Aqui em Macau juntam-lhe cheques e outros doces, como quem dá um saco de rebuçados a uma criança, para que ela deixe de choramingar. Lembram-se de alguém tentar convencer os funcionários públicos de que os aumentos não teriam retroactivos, porque o orçamento não teria capacidade de os cobrir? Como? Então o Governo nunca consegue gastar o orçamento anual e seriam agora uns meros retroactivos que nos iriam levar à bancarrota?

Durante a leitura vinham-me à cabeça os pandas e todo o carnaval feito à sua volta: os pandas que até falam como pessoas! E as publicidades infantis que nos ensinam como lavar as mãos e como escolher o que comprar e os diálogos infantis que se lêem e ouvem na Comunicação Social local.

Basta olhar para a publicidade que nos é impingida na televisão local (e na de Hong Kong no que diz respeito a publicidade institucional, porque a de empresas privadas, nomeadamente de cariz ocidental, até tem qualidade), em que somos todos tratados como crianças sem inteligência, para as quais se tem de recorrer ao uso de bonecos animados e discursos infantis, para fazer passar a mensagem.

Este processo, como dizem os estudiosos, é vantajoso para Governos que querem manietar a sociedade, de forma que esta seja dócil e fácil de convencer. No entanto, a longo termo, os riscos são muito elevados, visto que essa geração se tornará completamente inútil no que diz respeito a liderança.

Em Macau, daqui a dez ou vinte anos, os jovens, que agora são bombardeados com mensagens infantis e que entram na sua fase de jovens adultos a comportarem-se como se tivessem dez anos, não irão estar minimamente preparados para tomar as rédeas do poder e de liderança deste território.

Segundo Kant, a única saída para este ciclo vicioso é a «transformação do espírito», isto é, a mudança de mentalidade e o acordar da população, rejeitando tudo o que o Governo e as autoridades lhes tentam impingir. Só assim poderão «emergir da menoridade e empreender uma marcha segura», tendo como resultado final adultos seguros de si e com ideias próprias e construtivas.

Um adulto infantilizado perde a sua liberdade e, com ela, a vida que poderia viver com «maturidade, gratificação, aperfeiçoamento de si mesmo, prejudicando assim suas relações afectivas, sociais, profissionais».

A sociedade de Macau caminha perigosamente para a infantilização, e ninguém parece estar preocupado com isso. No entanto, basta-nos olhar para o outro lado da fronteira. Na China, com todos os problemas que se lhe podem apontar, sendo um país comunista onde faltam grande parte das liberdades, nota-se que a sociedade não «necessita de protecção a esse ponto». Basta ver que as publicidades e os discursos dos seus líderes são muito mais sérios e, gostando-se ou não da ideologia, cheios de significado.

Aliás, barreiras ideológicas à parte, os jovens do outro lado da fronteira que vêm trabalhar para Macau estão muito melhor preparados dos que os locais. Falam mais línguas, têm mais conhecimentos e, acima de tudo, têm personalidade e sabem o que querem, sem medo de tomarem decisões.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Soldados «roubam» zona de lazer à população

ESTA semana gostaria de pedir a alguém que me explicasse a razão do Exército Popular de Libertação (EPL) precisar de mais espaço em Macau. Por mais imaginação que tente usar, não consigo desvendar a necessidade dos «soldadinhos de chumbo» terem mais espaço e, ainda para mais, terem-no em detrimento das zonas de lazer da população!

Ou sou eu que não entendo nada disto, ou é a classificação dos valores morais nesta terra que anda toda virada do avesso.

Então, aos senhores que gostam de andar aos tiros, que olham muito para o seu umbigo e que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo de bons cidadãos, o Governo, de mão beijada, oferece-lhes um terreno, numa zona nobre do COTAI e retira à população um espaço de lazer!? Algo de muito errado se passa por aqui!

O Governo, perante a apatia de toda a população, veio dizer que vai ser construído um espaço de lazer, de raiz, em Coloane! Ora eu, que nem vivo na Taipa nem em Coloane, deveria estar-me nas tintas para tudo isso. Mas, infelizmente, não estou, pois não consigo perceber como é que um espaço de lazer em Coloane (que é necessário, sem dúvida, perante a escassez dos mesmos na ilha) pode colmatar a subtracção de um na ilha da Taipa, onde a sua falta é também gritante, devido ao rápido e desenfreado crescimento da população e da especulação imobiliária.

Será que o Governo vai providenciar ligações directas do antigo local para o novo, para todos os residentes da Taipa que queiram ir jogar à bola? Ou será que os interessados têm de ir a pé? Afinal, até nem é má ideia, visto que o objectivo é mesmo fazer exercício!

O que mais me preocupa, no meio de tudo isto, é a falta de interesse que o anúncio da oferta do local ao exército provocou na população e na Comunicação Social. Aparte alguns poucos esguichos de opinião na Imprensa portuguesa, pouco mais se ouviu. Cala e segue, como se costuma dizer!

Os soberanos interesses da Nação e a defesa territorial de Macau que está seriamente ameaçado (pelas hordas que vêm do outro lado da fronteira!?), a tudo obrigam e todos os sacrifícios são justificáveis, em tempos de crise iminente como esta que atravessamos…

Ironias à parte, resta-nos saber o que está por detrás desta decisão. E, já agora, gostaria de saber qual a posição do EPL, relativamente a este assunto. Será que é só mais um caso em que apenas os cidadãos não-chineses se queixam e a comunidade chinesa amocha?

Se tivesse sido tornado público em Abril, eu ainda me sentiria tentado a pensar que fosse peta de 1 de Abril, mas como isto veio ao conhecimento da sociedade a meio do mês de Março, sou mesmo obrigado a acreditar que é mais uma das aberrações de Macau.

O Governo, quando anunciou tal novidade, dizia que se devia a um «reajustamento do quadro de pessoal» do EPL, mas que não afectaria os residentes! De acordo com o Conselho do Executivo, a «Administração já escolheu um novo espaço (…), para que a relocalização não afecte o uso destas instalações recreativas e desportivas pela população»! De acordo com a mesma explicação, a decisão tomada teve em conta as «necessidades em termos de construção de instalações de treino e depósito de equipamento» que, a par com o aumento de efectivos, obrigam a que o quartel aumente para uma área superior a 61 mil metros quadrados.

Nós estamos na China, certo? Penso que sim, e sempre assim foi. Por isso, por que razão precisa o Exército de estar a aumentar os seus efectivos em Macau, se os seus componentes nada fazem aqui? E, por que razão precisam de espaço para armazenar o equipamento, se o outro lado da fronteira, tanto Zhuhai como a ilha da Montanha ficam a menos de cinco minutos de carro? A mesma incógnita se aplica ao facto de justificarem a necessidade com o facto de não terem espaço para exercício…

Então, pelo facto de os soldados não terem espaço para esticar as pernas, quem se lixa é a população, que vai ser obrigada a ir para Coloane para dar pontapés na bola!?

Que me desculpem os mais conservadores, mas, numa época como a que vivemos, em que Pequim apregoa as relações pacíficas com o Mundo, numa Região dita Especial, parece que acabaram de sair da Revolução Cultural, tal é a necessidade de militarizar e defender o quinhão.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Governo opta por táxis poluentes

 

MAIS uma vez Macau vai perder uma grande oportunidade de dar um passo de gigante em direcção à modernização e elevação do nível de protecção ambiental.

Já anteriormente se tinha perdido uma oportunidade de ouro, quando se procedeu à nova adjudicação dos serviços de autocarros, não se tendo introduzido, no caderno de encargos do contrato, a obrigatoriedade das concessionárias utilizarem veículos amigos do ambiente, à semelhança do que acontece em grande parte das cidades, com as quais Macau se quer comparar. A oportunidade perdeu-se e continuamos com autocarros que poluem mais do que os carros ligeiros, sem que o Governo pareça interessado em resolver a situação.

Na altura em que foi renovado o contrato com as concessionárias de transportes públicos teria sido fácil introduzir a obrigação do uso de veículos eléctricos ou, no mínimo, movidos a gás, como acontece em muitas cidades evoluídas e bem próximas de Macau e que obedecessem-se a critérios Euro VI.

Infelizmente, foi mais vantajoso (para os bolsos de alguém supõe-se) continuar a usar veículos movidos a combustível fóssil e com normas de emissão de gases mais do que desactualizadas. Para Macau exige-se a norma Euro IV para veículos movidos a gasóleo, como se essa fosse a mais moderna…

Depois desta oportunidade crassa dos autocarros, é agora a vez dos táxis.

A Direcção dos Assuntos de Tráfego prepara-se para lançar o concurso público para a atribuição de mais 200 alvarás, no próximo mês, e apenas se exige que os automóveis respeitem as normas EURO IV, em vez de se avançar para carros movidos a electricidade ou, no mínimo, a gás, como acontece em Hong Kong há, pelo menos, 15 anos!

Estamos mesmo num território retrógrado, no que diz respeito à mentalidade de protecção ambiental e no que se refere à coragem política de quem nos governa.

De salientar, para quem está menos dentro destes pormenores das normas europeias de emissão de gases, que a EURO IV data de 2005, tendo sido substituída pela EURO V, proposta em Setembro de 2009! No entanto, aqui ainda vamos usando o que os outros já não querem! A diferença das emissões entre a IV e a V é de 50%! E, apenas como informação acessória, saliento que já está feita uma outra proposta na Comissão Europeia para a EURO VI, que deve entrar em vigor como obrigatória em 2014, estando já a ser usada pela maioria dos construtores automóveis. Actualmente a EURO VI é apenas facultativa; contudo, há grandes incentivos fiscais para quem a queira adoptar.

Em Macau tendemos a seguir a mãe-pátria, mas, como sempre me ensinaram, só se devem seguir os bons exemplos. Os maus exemplos, mesmo vindos da mãe-pátria, devem ser metidos de lado. Aliás, em termos de protecção ambiental, a China nada tem a ensinar ao mundo, visto que, mesmo tendo ratificado o Protocolo de Quioto, os chineses não são obrigados a cumprir as suas metas em termos de emissões. Daí que a China continue a ser classificada como país em vias de desenvolvimento! Por outro lado, em Macau o dito protocolo não é aplicável.

Se queremos ser considerados uma cidade evoluída e dar aos cidadãos qualidade de vida, devem ser seguidos exemplos comprovados de boa qualidade de vida. A Europa pode ter muitos problemas e pode estar mesmo a atravessar uma das maiores crises económicas da sua história, mas, sem sombra de dúvida, em termos de qualidade de vida e de protecção ambiental, as suas leis e regulamentos são dos mais avançados de mundo. O Japão, os Estados Unidos e mesmo Singapura baseiam-se nas regras ambientais do Velho Continente para preparar as suas próprias leis locais. Macau, se quer ser considerado um local evoluído em termos de qualidade de vida, deve começar a olhar para fora, em vez de olhar para os bolsos.

Com o caos que se vive no trânsito de Macau e com diminuta dimensão do território, se não se implementarem medidas para reduzir ao mínimo as emissões poluentes, muito em breve iremos ter ruas onde será impossível circular a pé, porque o ar se torna completamente poluído e perigoso para a saúde humana.

A oportunidade que agora se proporciona, para começar a obrigar os táxis a serem dos primeiros a recorrer ao uso de veículos mais ecológicos, tem de ser, por isso, aproveitada.

O exemplo tem de vir do Governo, pois só assim se pode depois exigir à restante população que faça o mesmo.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Polícia «à rasca»

 

O CLIMA que se tem sentido nas últimas semanas parece ter causado alguns danos no estado psíquico dos residentes de Macau e, muito em particular, das nossas autoridades. Um prolongado capacete – como se chama por aqui a este período de humidade e neblina que cobre o território como um manto espesso e pesado durante esta altura do ano – tem levado os mais afortunados a antecipar férias e a «fugir» para latitudes mais favoráveis para descansar ao sol, onde podem recuperar emocional e fisicamente.

Quem por aqui fica vê-se «obrigado» a viver num ambiente pesado, pouco animado e que deixa qualquer um de nós cansado, mesmo antes de sair de casa.

Este é um sentimento que atinge a todos, parecendo não ter solução à vista. Até os animais parecem molengões e pouco dados a actividades que lhes consumiriam mais energia do que aquela que precisam para fazer as tarefas indispensáveis à sua sobrevivência. Se fossem pessoas, chamavam-lhes preguiçosos; visto tratar-se de animais, será mais correcto dizer que agem como a sua natureza lhes indica…

Julgo, porém, que é mesmo preguiçoso; e muito mais me apetece chamar ao agente da polícia que não tomou as devidas providências, quando presenciou um crime junto dos edifícios da Nova Taipa. Quando balões de água foram atirados de um dos prédios e destruíram propriedade na via pública, de acordo com o que veio a lume na Comunicação Social, o elemento das forças de segurança nada fez, mesmo perante a insistência dos populares, desculpando-se que não tinha mandato para o efeito! Afinal, para que serve andar fardado, se nem sequer pode tocar à campainha para pedir informações?

Digamos que, nos últimos tempos, a polícia do território parece andar na mira da população. Antes deste caso, um outro, relativo ao facto de um agente da autoridade não saber da ilegalidade da cobrança das famosas taxas de pagamentos com cartões de crédito, foi também alvo de críticas.

É inacreditável que exista tanta falta de inteligência nos jovens agentes do corpo da polícia de Macau! Mais parece burrice! Mas esse termo não pode aqui ser usado. Um polícia, que deve ser preparado e saber, antes de mais, a legislação do Governo que jurou servir, não pode andar na rua, se não estiver apto a responder às solicitações dos cidadãos.

Cada vez assume mais forma o que se houve à boca pequena: que hoje em dia vai para a polícia quem não consegue arranjar outro emprego no Governo ou nos casinos! Isto é, se não é bom para mais nada, há sempre esta solução, visto haver falta de efectivos. É pena, porque a corporação é constituída, na sua maioria, por excelentes indivíduos e tinha, até há poucos anos, uma imagem que transpirava competência e saber. Nos últimos anos, com a entrada de fornadas de mancebos, a qualidade é o que se vê nas ruas.

Felizmente, a polícia de Macau, mesmo assim, nas suas chefias e cargos mais elevados, é composta por pessoas cultas e bem formadas. Porém, o facto de haver alguns elementos que não estão minimamente preparados para usar a farda faz com que toda a corporação fique denegrida. As últimas aulas parecem ter sido bastante produtivas, a julgar pela juventude fardada e sem qualquer preparação para serem agentes.

A juntar ao facto dos agentes não conhecerem a Lei, mais concretamente no caso dos cartões de crédito, tenho ainda que realçar outro aspecto negativo. A tentativa – de acordo com o que foi relatado na Imprensa – de encobrir a falta de preparação do agente, quando o cidadão tentou apresentar queixa, leva a crer que existe um conluio de classe, procurando encobrir os erros dos colegas. Será que isto deve ser tolerado?

Se há falta de formação, tal não deve servir de desculpa para os agentes continuarem a prestar um mau serviço. E, por outro lado, os agentes que tentam proteger os que têm prestações menos positivas deviam ser chamados à responsabilidade, tanto civil como criminal. Ninguém está acima da Lei e a sociedade de Macau deve ser regida de acordo com os códigos legais que a todos obrigam ao cumprimento de regras. No caso de dúvidas no processo, basta irem procurar as gravações de áudio e vídeo das esquadras envolvidas (devem existir, presumo).

Tenho conhecimento que ambos os casos, o do cartão de crédito e o dos balões de água, deram entrada na polícia e que, em ambos, houve referência à falta de profissionalismo dos agentes envolvidos. Agora, como residente de Macau, espero que o resultado do inquérito seja tornado público, pois a população tem o direito de saber como se processam estes casos, que envolvem falta de qualidade de quem tem por obrigação proteger os direitos e a segurança dos residentes locais.

Não se trata de uma perseguição aos agentes de autoridade. É apenas uma exigência de um serviço de qualidade, assim como nos exigem o cumprimento da Lei e o respeito das regras de bom comportamento numa sociedade de direito.

Se aos cidadãos exigem que sigam regras e que cumpram o que está estipulado na Lei, também o mero cidadão tem de exigir que as autoridades sigam e se guiem pelas mesmas leis e por um código de conduta que seja recto e claro. E, acima de tudo, que seja íntegro e respeitador dos direitos de todos os residentes de Macau.

O facto de virem, há umas semanas, anunciar que o valor das multas emitidas aumentou exponencialmente, em nada abona para a imagem da autoridade. Sinceramente, gostaria de saber que multas aumentaram mais e em que é que estas contribuem para a melhoria da segurança na estrada no território, em geral.

domingo, 18 de março de 2012

Condução: problema está na exigência

A SITUAÇÀO dos transportes públicos está a atingir um ponto de não retorno em Macau. Os acidentes sucedem-se em catadupa e o Governo parece ser incapaz de meter mão no problema para o resolver de uma vez por todas. O congestionamento continua a agravar-se de dia para dia e, perante a eventualidade de vir a ser permitida a entrada livre de carros vindos do outro lado da fronteira, o futuro apresenta-se bastante negro para o território.

A última empresa a entrar no mercado dos transportes públicos, a Reolian, tem sido o alvo de todas as críticas neste sector. Pessoalmente, e sem ter nada a ver com o assunto, lamento o que tem sido dito de forma pouco justa, porque se formos ver os registos das outras concorrentes, a Transmac e a Transportes Colectivos de Macau (TCM) não ficam nada melhor na fotografia! Com efeito, acidentes acontecem em todas elas.

A Reolian está a pagar, talvez, por ter sido a última e estar sob o constante escrutínio da população e da opinião pública. Talvez por ser estrangeira? Não quero acreditar que seja por isso, tanto mais que o sócio local é de peso, mas…

A verdade é que os problemas dos transportes públicos e dos acidentes têm raízes bem mais profundas do que apontar culpas à empresa A, B ou C.

Estou em crer que, à semelhança de muitos locais menos civilizados do que Macau, se fosse obrigatório para os condutores profissionais (e aqui incluo-os todos, taxistas, motoristas privados, condutores de autocarro, etc) fazerem cursos anuais ou bienais de reciclagem com provas também obrigatórias, muitos deles, se não mesmo a totalidade, não veriam a licença profissional renovada. Tem de haver critérios rígidos para quem «transporta» as nossas vidas diariamente. Afinal, os pilotos de avião não são obrigados ao mesmo? A diferença é apenas que um anda no ar e o outro em terra, mas ambos têm responsabilidade pelas vidas humanas que transportam.

O problema está na raiz do sistema e parte já do modo como as licenças são atribuídas e as cartas de condução são emitidas. Tirar a carta de condução, em Macau, é mais fácil do que fazer o exame da quarta classe! Por isso, como será possível exigir que os condutores profissionais estejam habilitados a conduzir bem?

E, se a isso juntarmos toda uma multidão de condutores «amadores» que diariamente circulam nas ruas de Macau, o problema assume proporções alarmantes, com resultados que todos conhecemos. A par disto, temos uma autoridade complacente, que apenas actua em situações de mau estacionamento. Se as regras fossem aplicadas abrangentemente, os condutores depressa aprenderiam que há regulamentos e formas de comportamento que têm de ser seguidos.

O nosso sistema de ensino de condução (desde o normal ao profissional) é podre e caduco. As pessoas ficam habilitadas a conduzir, sem nunca terem estado inseridos em situações reais de trânsito. Aliás, quando são admitidas às aulas de condução, não sabem nem dez por cento da teoria! Portanto, quando não sabem as regras, como podem vir a ser bons condutores?

Os próprios instrutores, salvo raras excepções, são grande parte do problema, porque também eles não sabem o suficiente para ensinarem aos alunos. Ora, quando o mestre é fraco, todos sabemos que a obra sai torta.

Quantos de nós não foram já buzinados pelo carro de trás, quando paramos na passadeira para deixar passar os peões? A mim acontece-me diariamente e apetece-me sempre sair do carro e perguntar ao condutor que buzinou se conhece o Código!

Urge fazer uma reforma completa do sistema de ensino da condução e da forma de actuação das autoridades, perante as infracções ao trânsito. Há situações que merecem mais atenção do que o estacionamento ilegal.

Só depois de mudar o sistema de ensino seriamente, se pode começar a pensar em ter condutores civilizados em Macau. E, quanto aos que poderão vir do outro lado da fronteira, há que os informar muito claramente que as regras aqui são diferentes e que a autoridade não perdoa transgressões.

Custa muito pouco sonhar com um futuro melhor!

domingo, 11 de março de 2012

Não fumem, porquê?

deixei de fumar a tempo inteiro há alguns anos; no entanto, ainda considero que as leis antitabaco são uma afronta à liberdade de cada um. Se proíbem as pessoas de fumar em locais abertos, como parques e jardins, porque não proíbem também de respirar ou de comer ou de andar?

São princípios que nunca irei entender nem nunca irei aceitar, sendo ou não fumador. Sempre me ensinaram que cada um deve tomar as opções livremente. Assim como eu decidi cortar no tabaco, de livre vontade, e assim como fumo sempre que me apetece também, o Governo não tem nenhuma autoridade de forçar os fumadores a serem marginalizados perante o resto da sociedade. Além do mais, o Governo de Macau nem sequer é eleito universalmente; logo, não representa a totalidade da população, nem tem o mandato legitimado popularmente. Mas, mesmo sendo eleito com todos os direitos, continua a não ter essa autoridade.

Quanto a não se fumar em locais fechados durante as horas de expediente, ou nos hospitais, escolas, etc., concordo completamente. Aliás, isto não será uma mera lei, mas sim educação e formação cívica das pessoas. Mesmo quando era fumador, tinha em atenção não incomodar com o meu fumo. Muitas vezes, mesmo em locais abertos, perguntei a quem estava ao meu lado se não incomodaria com o fumo.

Se concordo com as medidas para locais púbicos interiores, por outro lado, discordo totalmente que nos bares, restaurantes e discotecas não se possa fumar. Nestes locais, considero que se deveria manter uma postura mais aberta e implementar – porque não? – um horário. Por exemplo, até às dez da noite ser proibido fumar, sendo que, após este horário, quem quiser fumar não teria de se deslocar à rua.

Afinal, a lei tem como objectivo proteger a saúde da população. Portanto, para se ter uma vida saudável, nada melhor do que deitar cedo e deixar quem quer viver uma vida desregrada, fumar e beber, descansado depois das dez da noite. Aliás, no caso dos bares e discotecas, só lá vai quem quer e, se o fumo incomoda, fiquem em casa ou na rua. Nestes casos, tenho impressão que o álcool e o ruído da música devem fazer mais mal do que o fumo!

Outro aspecto desta lei draconiana que me chamou à atenção foi a sua promoção, especialmente os painéis que se vêm por toda a cidade. Aparecem dois elementos, um feminino e um masculino. Bem parecidos, diga-se! Mas com uma cara de poucos amigos! Será que tentam intimidar pela expressão facial, ou fui eu que não entendi a mensagem subliminar?

Cresci a pensar que o papel da autoridade, antes de mais, é ser pedagógica e educativa, antes de enveredar por medidas punitivas e repressão.

Cada vez que passo pelos ditos painéis publicitários, acabo com um sorriso na cara, porque não consigo entender o que pretendem com aquelas caras de sério que mais parecem de palhaços mal representados. Parecem dois meninos do coro a tentar fazer cara de mau!

Mas, diga-se, não devo ser o único a achar piada à criatividade, porque tenho visto muitos turistas a tirar fotografias à dita campanha. Aliás, alguns amigos meus que vieram de visita a Macau perguntaram-me qual era a razão da cara de zangado dos dois protagonistas!

Será tempo dos Serviços de Saúde, que contam com uma grande equipa de falantes de Português e grandes especialistas em comunicação, fazerem campanhas a sério. Já basta o facto da lei ser piadética; não é preciso fazerem publicidades a roçar o ridículo, porque, se assim for, perde toda a piada e o objectivo principal fica diluído na mensagem indecifrável.

A lei antitabaco já é, por si, razão de chacota e de riso, pelo que não é necessária mais promoção para que fique mais caricata. Se a querem implementar e fazer com que as pessoas, mesmo assim, a respeitem, usem métodos educativos e o charme do sorriso. Irá, certamente, resultar melhor do que as caras de poucos amigos!

Ainda outro aparte. Se é proibido fumar em locais públicos abertos, e os autocolantes foram colocados em todo o lado, por que razão se continua a fumar à saída do Terminal do Porto Exterior? Os caixotes do lixo, com os cinzeiros tapados com os ditos autocolantes, mais parecem depósitos de «beatas» e ninguém parece notar! Um bonito cartaz turístico e um exemplo mais do que perfeito da boa implementação da lei!

NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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