Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

sábado, 14 de maio de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

200 médicos… só se anunciam 22?

PARECE piada de Primeiro de Abril mas, infelizmente, não o é! Ao que parece, o sector da Saúde de Macau precisa, para o novo hospital a construir na Taipa, de 200 novos médicos!

Com a conhecida qualidade dos serviços que nos prestam actualmente, e com as dificuldades que têm enfrentado para recrutar profissionais capazes ao exterior, prevejo que iremos ter mais uma fornada de médicos vindos do interior da China, com toda a carga negativa que isso acarreta! Falta de qualidade, mau domínio de inglês e nenhum de português ou mesmo cantonense, arrogância e pouco profissionalismo.

A área da Saúde em Macau está mal e precisa de mudar radicalmente, na opinião de especialistas locais e do exterior.

Há já vários anos que não se consegue convencer clínicos de qualidade de Portugal para exercerem em Macau (tirando alguns casos esporádicos). As condições oferecidas não são atractivas, como eram anteriormente.

Com a necessidade de recrutar mais duas centenas de médicos e sem opções viáveis, temo sinceramente pela nossa saúde. Recrutar no continente não é solução que nos sirva, visto que a qualidade, tanto em termos técnicos como linguísticos, é muito má.

Sempre que me desloco aos Serviços de Urgência, a primeira pergunta que faço ao médico que me atende é sobre a sua origem! Quando me indicam um vindo do continente, educadamente, peço para me encontrarem algum médico que fale português, desculpando-me com o facto de não saber inglês! Muitas vezes a opção que me dão é o ter como intermediário uma enfermeira/intérprete, mas que recuso, insistindo na necessidade de ter um clínico que me atenda na minha língua. Afinal, o Português também é língua oficial de Macau. Esta insistência gera, regra geral, muito desconforto. No entanto, insisto em não mudar de posição, porque a Lei assim o diz. Depois de muita insistência a situação é resolvida.

Agora, perante a necessidade de virem mais 200 médicos, e com a conhecida dificuldade de «importar» clínicos de Portugal e o deficiente domínio da língua inglesa por parte dos profissionais de Saúde do continente, prevejo um futuro ainda mais negro para quem precisa de se dirigir aos hospitais locais.

Já por diversas vezes sugeri que, na impossibilidade de oferecerem melhores condições aos médicos a recrutar em Portugal, tentem outros mercados. Afinal, a língua portuguesa é falada noutros países. Ao que se sabe, pelo menos o Brasil tem excedente de médicos que poderiam, eventualmente, prestar serviço em Macau. E, na falta de falantes da língua portuguesa, seria caso de optar pelos de língua castelhana (Cuba poderia ser uma opção, visto que em Portugal os contratam também) ou de língua inglesa (com as Filipinas aqui tão perto e muitos profissionais de qualidade disponíveis).

A par dos 200 médicos para o novo hospital a surgir em 2014 no COTAI serão precisos, – de acordo com os números dos Serviços de Saúde, – cerca de quatro centenas de enfermeiros e outros profissionais especializados.

Perante a escassez, em Macau, de trabalhadores com esta formação, como irá o Governo solucionar o problema?

Pelo que me é dado a saber, de acordo com dados divulgados anteriormente, há no território cerca de quatro centenas de pessoas habilitadas a exercer funções nesta área, mas as suas qualificações não são reconhecidas localmente, devido a problemas meramente burocráticos. Possivelmente, a abordagem deste problema de forma sistemática e séria seria um primeiro passo para resolver a escassez que o sistema enfrenta. Solução esta que poderia, pelo menos, atenuar o grande problema que é contratar mão-de-obra de qualidade ao exterior.

Recruta-se em Portugal

Em Portugal foram já publicados, entretanto, anúncios com intenção de recrutar especialistas. Para esse efeito, de acordo com um aviso publicado pela Ordem dos Médicos do País, os candidatos precisam de ter cinco anos de experiência. Oferecem a «Médico Especialista»: remuneração mensal de 68,820 a 83,700 patacas (equivalente a cerca de 6.000–7.300 euros), dependendo das habilitações literárias e experiência profissional; 22 dias úteis de férias anuais; subsídio de Natal e de férias; bilhete de avião de classe económica de ida e regresso ao local de origem; alojamento. Entre o dia 17 e 22 deste mês estará em Portugal o «subdirector dos Serviços de Saúde, Chan Wai Sin, a fim de realizar entrevistas aos médicos especialistas que forem selecionados».

De acordo com os detalhes sobre as especialidades, há duas vagas para Anatomia Patológica, Cardiologia e Gastroenterologia e uma vaga para Anestesiologia, Neurologia, Patologia Clínica e Pediatria, Cirurgia Toráxica e Vascular, Obstetrícia/Ginecologia, Imagiologia, Oncologia, Psiquiatria e Urologia, Otorrinolaringologia e Ortopedia, Medicina Física e Reabilitação e Medicina Legal.

No total são 22 as vagas, muito aquém dos 200 necessários para todo o corpo clínico!

Sabendo o que se tem passado com alguns dos médicos recrutados mais recentemente, sinto-me na obrigação de deixar um pequeno aviso a quem se candidate. No que se refere a condições de alojamento, aconselho a que deixem tudo preto no branco e por escrito. Caso contrário, quando aqui chegarem, acabam enfiados num «buraco», porque, em Macau, «alojamento» pode ter diversas interpretações e todas elas muito distantes daquilo a que em Portugal chamam casa! Os critérios são «um pouco» diferentes dos de Portugal!

Entretanto, ficamos sem saber de onde virão os outros 178 médicos!

sábado, 7 de maio de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Galaxy não cumpre

MUITO se tem dito e escrito sobre os trabalhadores que são necessários em Macau e a importação de mão-de-obra do exterior. Nos últimos tempos a Galaxy Resort tem andado nas bocas do mundo, muito por ser, neste momento, o maior investimento ainda em curso no território.

A falta de trabalhadores levou esta empresa a tentar um acordo com as autoridades governamentais, tendo conseguido ver aprovado o rácio de um trabalhador do exterior por cada quatro da RAEM. Por seu lado, o Executivo, através do departamento responsável pela área do trabalho e emprego, assegurou que, caso a empresa não respeitasse estes números, a suas quotas seriam drasticamente reduzidas e aplicada uma multa pelo incumprimento.

Pelo que se deduz dos números, por cada quatro mil residentes contratados, a Galaxy teria carta-branca para recrutar mil ao exterior. Mas – pergunto-me – será que alguém se preocupou em fiscalizar tal medida? Julgo que não! Tanto quanto sei, nunca foi nem está a ser cumprida.

Tomo como exemplo um caso que conheço: um dos investimentos de maior envergadura incluídos no complexo do COTAI. Trata-se de um clube de luxo, propriedade de um famoso «designer» de Hong Kong. Só ali, onde a força laboral é de cerca de meia centena de pessoas, apenas uma mão-cheia são de Macau (residentes permanentes e não permanentes). Toda a equipa gerente é do exterior, nomeadamente de Hong Kong e da Europa. Os restantes membros são do interior da China (a grande maioria) e alguns recrutados nas Filipinas e Taiwan. Além de não cumprirem o rácio de 4 para 1, há até pressões, por parte da equipa gerente e dos membros do interior da China, para o uso do mandarim, em detrimento do cantonense e do inglês.

No seio da equipa há até cidadãos locais que, apesar de experientes na área em que trabalham, quando se trata de escolher nomes para lugares de chefia, acabam sempre por ser preteridos por outros, vindos do continente e sem qualquer tipo de experiência. Situações dessas já levaram a que alguns trabalhadores anunciassem que irão abandonar o projecto, antes de o mesmo abrir as portas ao público em Junho.

Segundo me é dado a saber, a preferência por trabalhadores do interior da China tem mais a ver com o salário que lhes pagam, do que propriamente com a experiência. É que para a mesma posição, se for local, terá de receber quase o dobro. Os que vêm de fora aceitam muito menos e não se importam com a carga horária, visto estarem em Macau sozinhos e sem família, explicaram-nos.

Este é apenas um exemplo da regra que reina neste projecto. A situação não é exclusiva deste departamento, pelo que não se percebe por qual motivo as autoridades continuam a fechar os olhos ou a olhar para o lado, não investigando e apurando a verdade dos números.

Se neste clube, em que a equipa não é das maiores, nem 10% são locais, será fácil perceber que a percentagem de 75% de residentes de Macau, a que todo o «resort» está obrigado, anda muito longe do seu cumprimento.

Aliado ao facto de não cumprirem as directivas de quatro locais para um não local, impera ainda a regra de dar aos de fora os lugares de chefia, causando mal-estar entre a mão-de-obra de Macau, havendo trabalhadores locais com capacidade e experiência suficiente para ocupar essas posições. Aliás, isto era também algo que as autoridades tinham anunciado como sendo uma das medidas a cumprir.

Compreendo que não seja fácil controlar e que o Governo tenha dificuldade em andar a pedir os Bilhetes de Identidade de Residente (BIR) à porta do estaleiro da Galaxy. Porém, a entidade governamental de fiscalização pode exigir que a empresa lhe envie, detalhadamente, os dados de identificação de todos os trabalhadores. Bastaria pedir os dados por sector, para ficarem com uma ideia mais concreta da realidade.

O problema não é exclusivo

Esta situação não se regista apenas na Galaxy. Se nesta empresa os locais perdem os lugares de liderança para pessoas vindas do continente e se o próprio dialecto local é posto em terceiro lugar, é muito provável que o mesmo aconteça noutros empreendimentos.

No «vizinho» Venetian há muito que os trabalhadores se queixam do mesmo. Pelo que sei, aí resignaram-se à realidade porque, segundo afirmam, o Governo não lhes dá qualquer importância e nada faz para resolver o problema. Os casos aqui referidos mostram isso mesmo, ou seja, que os direitos dos locais estão a ser completamente atropelados e se continua a «tapar o sol com uma peneira». Só não vê quem não quer!

É altura de o Governo, através da Direcção dos Assuntos Laborais, ou de qualquer outro departamento, de uma vez por todas, fazer algo de positivo para proteger quem é de Macau e o direito ao emprego condigno.

domingo, 1 de maio de 2011

Libertem o Largo do Senado!

 

O «SEGUNDO sistema», através da Lei Básica, garante aos residentes um direito há muito enraizado nas culturas ocidentais. Refiro-me, mais em concreto, ao Artigo 27º da pequena constituição (de Macau), que foi acordada entre Portugal e a China e que estará em vigor até 2049.

A referência ao «direito à manifestação» tem em vista alertar para uma situação que se vem registando num local nobre da cidade. Trata-se do Largo do Senado, que sempre defendi como devendo ser livre de todo e qualquer tipo de manifestação de carácter privado, comercial ou de qualquer outra natureza.

Nas últimas semanas e meses tem sido palco de um sem número de iniciativas reivindicativas por parte de dois grupos distintos. Para além das costumeiras promoções institucionais.

O grupo mais pequeno critica injustiças relacionadas com uma seguradora. Sem querer correr o risco de ser simplista e insensível, considero que, se têm alguma queixa a fazer a uma instituição privada, usem os tribunais e não a praça pública. Afinal, não é costume dizer que a nossa liberdade acaba quando começa a interferir com a dos outros?

Os tribunais do território aí estão para dirimir este tipo de problemas e, se não resultar em primeira instância, há sempre a possibilidade de recorrer a instâncias superiores e, até, internacionais.

É comummente aceite pelos residentes que «carnavais» em pleno coração da cidade apenas servem para que os turistas façam chacota de nós e daqui levem uma péssima ideia, ao voltarem aos seus países de origem.

O segundo grupo, bem mais numeroso e de maior visibilidade, é o dos familiares que querem «a toda a força» que o Governo lhes permita a entrada e permanência dos seus filhos que ainda vivem do outro lado da fronteira. Pelo que sei, trata-se de um grupo de pessoas, muitas delas idosas, que ainda não perceberam que o Governo de Macau já nada mais pode fazer. Se Pequim não autorizar a entrada e permanência dessas pessoas, o Executivo não terá jurisdição sobre cidadãos do interior da China.

Voltando ao já referido Artigo 27º, este, além de garantir o «direito à manifestação», diz também que deveria ter sido publicada uma lista de locais onde tal seria permitido.

Depois de consultar alguns juristas locais, acabei por concluir que nada fora feito, ficando então aberta a possibilidade de manifestação em qualquer local da RAEM. Para organizar um qualquer evento – note-se – basta informar as autoridades com a devida antecedência.

Nascido e criado num Estado de direito democrático, prezo e concordo com o princípio de todo o cidadão ter direito a manifestar-se. Em muitos casos apoio todo o tipo de iniciativa reivindicativa, especialmente se estas denunciam a usurpação de direitos ou injustiças. Aliás, estas páginas vão fazendo eco de algumas dessas situações.

Neste texto não ponho em causa a justeza ou veracidade dos exemplos que cito. Critico, sim, onde tal acontece. O Largo do Senado não deve ser palco para este tipo de actividade. Empobrece a nossa imagem e denigre a reputação de um destino turístico que se quer de qualidade.

Se no Dia do Trabalhador de 2009 as autoridades impediram os manifestantes de passarem pelo Largo do Senado (mais propriamente pela Avenida Almeida Ribeiro), como se pode permitir a outros instalarem-se de «armas e bagagens» no mesmo local? A perturbação da ordem pública, que foi invocada em 2009, já não serve para actuar em 2011?

Apesar de concordar em pleno com a lei n.º 2/93/M, continuo sem perceber o seu Artigo 16º, exactamente aquele que obriga a que se elabore a dita lista dos locais proibidos. Ao que tudo indica, ela parece não existir. Se não for verdade, não é do conhecimento público.

Para a salvaguarda dos interesses de todos os cidadãos, mas principalmente da boa imagem de Macau, é urgente elaborar a relação dos locais onde não devem ser permitidas manifestações. O Largo do Senado, assim como a Praça Flor de Lótus e o Largo do Pagode da Barra, devem também, evidentemente, fazer parte da listagem, entre muitos outros sítios do território.

Em vez dos locais referidos, podem as autoridades, por exemplo, autorizar a Praça da Amizade (junto ao Hotel Sintra) ou o Jardim do Iao Hon, visto terem todas as condições para tais actividades.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Vela: ID deve apoiar

MAIS de três dezenas de crianças praticam gratuitamente desporto todas as semanas, graças a uma organização fundada por três residentes de Macau, sem qualquer apoio do Governo. Apesar de terem sido obrigados a constituir uma empresa de responsabilidade limitada e não uma associação, – idiossincrasias da Lei local, – optaram por criar a «academia» sem fins lucrativos, apenas pelo amor ao que fazem e para desenvolverem um desporto que já teve muitas tradições em Macau. Investiram algumas centenas de milhares de patacas do seu próprio bolso, recebem alguns apoios de entidades privadas e tentam, a todo o custo, convencer o Instituto do Desporto (ID) para a necessidade que têm de (pelo menos) serem reconhecidos oficialmente. Pois, se tal acontecer, mais apoios poderão chegar pela via privada, nomeadamente da concessionária do Jogo Galaxy, que está na disposição de avançar com um donativo superior a trezentas mil patacas, o que seria suficiente para fazer face às necessidades mais urgentes.

Desenvolvem a sua actividade lúdica há cerca de três anos e trabalham, gratuitamente, com crianças e com adultos, mediante um pequeno pagamento simbólico, que ajuda a suportar algumas das despesas correntes inerentes à gestão de uma organização ligada ao desporto. Quanto às instalações, apesar de terem já tentado, através da Capitania dos Portos, ter acesso a um barracão que não é utilizado há vários anos, continuam a depender da boa vontade de um empresário da restauração local que lhes disponibiliza dois locais onde armazenam os seus materiais e lhes deixa utilizar água canalizada e electricidade sem exigir nada em troca. Quanto à resposta da Capitania foi a de que não dariam autorização para utilizar algo que abandonaram há muitos anos e que apenas acumula lixo e bicharada!

Por esta altura já muitos leitores devem estar a perguntar de que organização se trata, Pois bem, refiro-me à única instituição que em Macau faz e promove activamente a vela desportiva. Apesar de haver uma associação de vela, – aparentemente, tanto quanto sei, pouco mais faz do que ter um barracão em Hác-Sá, cheio de motas de água e de barcos a motor para salvamentos, que os seguranças do recinto usam para pescar ilegalmente, – este grupo de pessoas tem dinamizado a saudável prática da vela, lutando contra todos os contratempos que lhes vão aparecendo, sempre com um sorriso nos lábios e com a resposta pronta de que para se praticar vela há que ter paixão e encarar a actividade como um divertimento.

A barreira mais recente, que impede a Galaxy em avançar com o chorudo donativo, que poderia resolver muitas das questões imediatas, é a falta de reconhecimento por parte do Instituto do Desporto. Pelo que entendi, «a bola» está agora no campo liderado por José Tavares. Apesar de não conhecer o «número dois» do ID, – tem fama de pessoa competente, atenta e sempre pronta a ajudar, além de um vastíssimo currículo profissional, que atesta o seu grande profissionalismo, – acredito que esteja para breve esse reconhecimento, visto que a Academia Jovem de Vela de Macau exerce um trabalho meritório, que merece ser apoiado por todos. Acredito que José Tavares e o seu colega do «leme», Alex Vong, irão dar «luz verde» em breve, visto que em Junho realiza-se o grande cartaz da academia: a regata internacional de Macau, que na sua primeira edição, realizada no ano passado, reuniu centenas de crianças provenientes de vários locais da região. A edição deste ano irá contar com equipas da África do Sul, das Filipinas, de Hong Kong, da China continental, da Malásia, da Austrália, etc. Um verdadeiro festival internacional que só poderá enaltecer o nome de Macau e contribuir para que a nossa juventude alargue os seus horizontes. Claro está que nunca colocando de lado o cariz desportivo e competitivo do evento.

Quem dúvidas tiver daquilo que escrevo, ou queria que os seus filhos e netos aprendam a velejar, basta deslocar-se a um sábado ou Domingo de manhã para junto do restaurante Miramar, – ao lado do hotel Westin, em Coloane, – para ver que em nada estou a exagerar. O entusiasmo das crianças é contagiante, o ambiente é muito saudável e, acima de tudo, é multicultural, o que em Macau apenas faz jus à terra e ao convívio de culturas que o território representa.

Eu próprio fui conhecer esta realidade a conselho de um amigo de Hong Kong. Depois de ler um artigo na revista náutica Fragrant Harbour, o seu director e meu amigo de longa data, David Robinson, aconselhou-me a conhecer o trabalho deste grupo de pessoas dedicadas. Fui – confesso – um pouco céptico, mas voltei convencido e rendido aos sorrisos e empenho dos mais novos.

Acredito que o Governo e outras entidades comecem a apoiar estas iniciativas, pois elas merecem todo o nosso apoio e carinho. Afinal, trata-se de desporto e do bem-estar dos nossos futuros líderes.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Jornal russo "Pravda.ru" escreve 4 páginas sobre Portugal

17 March 2011

Foram tomadas medidas draconianas esta semana em Portugal pelo Governo liberal de José Sócrates, um caso de um outro governo de centro-direita pedindo ao povo português a fazer sacrifícios, um apelo repetido vezes sem fim a esta nação trabalhadora, sofredora, historicamente deslizando cada vez mais no atoleiro da miséria.

 
E não é porque eles serem portugueses.
 
Vá ao Luxemburgo, que lidera todos os indicadores socioeconómicos e
você vai descobrir que doze por cento da população é portuguesa, o povo
que construiu um império que se estendia por quatro continentes e que
controlava o litoral desde Ceuta, na costa atlântica, tornando a costa
africana até ao Cabo da Boa Esperança, a costa oriental da África, no
Oceano Índico, o Mar Arábico, o Golfo da Pérsia, a costa ocidental da
Índia e Sri Lanka. E foi o primeiro povo europeu a chegar ao
Japão... e Austrália.

Esta semana, o Primeiro Ministro José Sócrates lançou uma nova onda
dos seus pacotes de austeridade, corte de salários e aumento do IVA,
mais medidas cosméticas tomadas num clima de política de laboratório
por académicos arrogantes e altivos desprovidos de qualquer contacto
com o mundo real, um esteio na classe política elitista Português no
Partido Social Democrata e Partido Socialista, gangorras de má gestão
política que têm assolado o país desde anos 80.

O objectivo? Para reduzir o défice. Por quê?
Porque a União Europeia assim o diz. Mas é só a UE?
Não, não é. O maravilhoso sistema em que a União Europeia deixou-se a
ser sugado é aquele em que a agências de Ratings, Fitch, Moody's e
Standard and Poor's, baseadas nos estados unidos da América (onde
havia de ser?) virtual fisicamente controlam as políticas fiscais,
económicas e sociais dos Estados-Membros da União Europeia através da
atribuição das notações de crédito.

Com amigos como estes organismos, e Bruxelas, quem precisa de
inimigos? Sejamos honestos. A União Europeia é o resultado de um pacto
forjado por uma França tremente e com medo, apavorada com a Alemanha
depois que suas tropas invadiram seu território três vezes em setenta
anos, tomando Paris com facilidade, não só uma vez mas duas vezes, e
por uma astuta Alemanha ansiosa para se reinventar após os anos de
pesadelo de Hitler. França tem a agricultura, a Alemanha ficou com os
mercados para sua indústria.

E Portugal? Olhem para as marcas de automóveis novos conduzidos por
motoristas particulares para transportar exércitos de "assessores"
(estes parecem ser imunes a cortes de gastos) e adivinhem de qual país
eles vêm? Não, eles não são Peugeot e Citroen ou Renault. Eles são
Mercedes e BMWs. Topo-de-gama, é claro.

Os sucessivos governos formados pelos dois principais partidos, PSD
(Partido Social Democrata, direita) e PS (Socialista, de centro), têm
sistematicamente jogado os interesses de Portugal e dos portugueses
pelo esgoto abaixo, destruindo sua agricultura (agricultores
portugueses são pagos para não produzir) e sua indústria (desapareceu)
e sua pesca (arrastões espanhóis em águas lusas), a troco de quê?
O quê é que as contra-partidas renderam, a não ser a aniquilação total
de qualquer possibilidade de criar emprego e riqueza em uma base
sustentável?

Aníbal  Cavaco da Silva, agora presidente, mas primeiro-ministro durante
uma década, entre 1985 e 1995, anos em que estavam despejando bilhões
através das suas mãos a partir dos fundos estruturais e do
desenvolvimento da UE, é um excelente exemplo de um dos melhores
políticos de Portugal. Eleito fundamentalmente porque ele éconsiderado
"sério" e "honesto" (em terra de cegos, quem vê é rei), como se isso
fosse um motivo para eleger um líder (que só em Portugal, é) e como se
a maioria dos restantes políticos (PSD/PS) fossem um bando de
sanguessugas e parasitas inúteis (que são), ele é o pai do défice
público em Portugal e o campeão de gastos públicos.
 
A sua "política de betão" foi bem concebida, mas como sempre, mal
planeada, o resultado de uma inepta, descoordenada e, às vezes
inexistente localização no modelo governativo do departamento do
Ordenamento do Território, vergado, como habitualmente, a interesses
investidos que sugam o país e seu povo.
 
Uma grande parte dos fundos da UE foram canalizadas para a construção
de pontes e auto-estradas para abrir o país a Lisboa, facilitando o
transporte interno e fomentando a construção de parques industriais
nas cidades do interior para atrair a grande parte da população que
assentava no litoral.

O resultado concreto, foi que as pessoas agora tinham os meios para
fugirem do interior e chegar ao litoral ainda mais rápido. Os parques
industriais nunca ficaram repletos e as indústrias que foram criadas,
em muitos casos já fecharam.

Uma grande percentagem do dinheiro dos contribuintes da UE vaporizou
em empresas e esquemas fantasmas. Foram comprados Ferraris. Foram
encomendados Lamborghini. Maserati. Foram organizadas caçadas de
javali em Espanha. Foram remodeladas casas particulares. O Governo e
Aníbal Silva ficou a observar, no seu primeiro mandato, enquanto o
dinheiro foi desperdiçado. No seu segundo mandato, Aníbal Silva ficou
a observar os membros do seu governo a perderem o controle e a
participarem. Então, ele tentou desesperadamente distanciar-se do seu
próprio partido político. E ele é um dos melhores.

Depois de Aníbal Cavaco da Silva veio o bem-intencionado e humanitário,
António Guterres (PS), um excelente Alto Comissário para os Refugiados
e um candidato perfeito para Secretário-Geral da ONU, mas um buraco negro
em termos de (má) gestão financeira. Ele foi seguido pelo diplomata
excelente, mas abominável primeiro-ministro José Barroso (PSD) (agora
Presidente da Comissão da EU, "Eu vou ser primeiro-ministro, só que
não sei quando") que criou mais problemas com seu discurso do que ele
resolveu, passou a batata quente para Pedro Lopes (PSD), que não tinha
qualquer hipótese ou capacidade para governar e não viu a armadilha.
Resultando em dois mandatos de José Sócrates; um Ministro do Ambiente
competente, que até formou um bom governo de maioria e tentou
corajosamente corrigir erros anteriores. Mas foi rapidamente asfixiado
por interesses instalados.

Agora, as medidas de austeridade apresentadas por este
primeiro-ministro, são o resultado da sua própria inépcia para
enfrentar esses interesses, no período que antecedeu a última crise
mundial do capitalismo (aquela em que os líderes financeiros do mundo
foram buscar três triliões de dólares de um dia para o outro para
salvar uma mão cheia de banqueiros irresponsáveis, enquanto nada foi
produzido para pagar pensões dignas, programas de saúde ou projectos
de educação).

E, assim como seus antecessores, José Sócrates, agora com minoria,
demonstra falta de inteligência emocional, permitindo que os seus
ministros pratiquem e implementem políticas de laboratório, que
obviamente serão contra-producentes. Pravda.Ru entrevistou 100
funcionários, cujos salários vão ser reduzidos. Aqui estão os
resultados:

Eles vão cortar o meu salário em 5%, por isso vou trabalhar menos
(94%). Eles vão cortar o meu salário em 5%, por isso vou fazer o meu
melhor para me aposentar cedo, mudar de emprego ou abandonar o país
(5%) Concordo com o sacrifício (1%) Um por cento. Quanto ao aumento
dos impostos, a reacção imediata será que a economia encolhe ainda
mais enquanto as pessoas começam a fazer reduções simbólicas, que
multiplicado pela população de Portugal, 10 milhões, afectará a
criação de postos de trabalho, implicando a obrigatoriedade do Estado
a intervir e evidentemente enviará a economia para uma segunda (e no
caso de Portugal, contínua) recessão. Não é preciso ser cientista de
física quântica para perceber isso. O idiota e avançado mental que
sonhou com esses esquemas, tem resultados num pedaço de papel, onde
eles vão ficar. É verdade, as medidas são um sinal claro para as
agências de ratings que o Governo de Portugal está disposto a tomar
medidas fortes, mas à custa, como sempre, do povo português. Quanto ao
futuro, as pesquisas de opinião providenciam uma previsão de um
retorno para o PSD, enquanto os partidos de esquerda (Bloco de
Esquerda e Partido Comunista Português) não conseguem convencer o
eleitorado de suas ideias e propostas.

Só em Portugal, a classe elitista dos políticos PSD/PS seria capaz de
punir o povo por se atrever a ser independente. Essa classe, enviou os
interesses de Portugal no esgoto, pediu sacrifícios ao longo de décadas,
não produziu nada e continuou a massacrar o povo com mais castigos.
Esses traidores estão levando cada vez mais portugueses a questionarem
se deveriam ter sido assimilados há séculos, pela Espanha. Que
convidativo, o ditado português "Quem não está bem, que se mude".
Certo, bem longe de Portugal, como todos os que possam, estão fazendo.
Bons estudantes a jorrarem pelas fronteiras fora. Que comentário
lamentável para um país maravilhoso, um povo fantástico, e uma classe
política abominável.
 
 
Timothy Bancroft-Hinc

sábado, 9 de abril de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Espaços mal geridos

EM Macau somos mais de meio milhão e a quantidade de residentes permanentes e não permanentes cresce de dia para dia. Mesmo sem os incentivos de compra de casa para aquisição de residência permanente, a verdade é que, mensalmente, o número de pessoas autorizadas a permanecer no território tem vindo a aumentar.

Cresce o número de pessoas num espaço que não alarga a sua área desde há muitos anos. Mesmo com os anunciados aterros, temo que o problema se mantenha, visto que quem aqui vive não poderá ser transferido, de armas e bagagens, para as ilhas artificiais que por aí andam a ser construídas.

A agravar esta situação estão os milhões de turistas que nos visitam e inundam tudo quanto é rua, ruela, praça ou qualquer outro espaço disponível. Acreditem que se encontram turistas nos locais mais inesperados!

Sabemos que este problema é um mal que temos de suportar, visto a nossa Economia depender, estrategicamente, de quem debanda aos casinos de Macau para aqui deixar as patacas (melhor dizendo, os dólares de Hong Kong porque, incrivelmente, nos casinos de Macau não se aceitam patacas! Deve ser dos únicos locais do mundo com moeda local, em que o seu próprio dinheiro não é aceite...). O número de jogadores que se sentam nas mesas de jogo é quase proporcional ao número de turistas, pelo que, se queremos jogadores para manter a Economia do território, temos de receber visitantes num número ainda maior ao actual.

Quando falamos em mais de meio milhão de residentes, e dos milhares de turistas que diariamente se acotovelam nas ruas de Macau, falamos na necessidade de políticas de gestão dos espaços públicos, que façam frente a este problema.

Macau tem uma praça principal (o Largo do Senado), que rivaliza em popularidade com as Ruínas de São Paulo. Aliás, ambas estão incluídas nas rotas do Património Mundial e são pontos obrigatórios de passagem para quem passe por Macau. São muitos os turistas que aqui se deslocam, no intervalo entre a mesa do bacará e a máquina de caça-níqueis, apenas para «bater» umas fotografias, servindo a famosa calçada à portuguesa de tapete e o casario típico de pano de fundo.

Locais como o Largo do Senado, as Ruínas de São Paulo, o Largo do Pagode da Barra e outros similares não se coadunam com a sua utilização para outros fins, que não seja o de serem locais de visita para quem procura algo que não encontra em mais nenhum local da Ásia: a mistura de culturas, a miscigenação de raças, os costumes e a arquitectura, gerados por vários séculos de convívio.

A recorrente utilização do Largo do Senado, para tudo quanto é evento, começa a assumir dimensões preocupantes. Diariamente são ali realizadas manifestações, exposições e outras actividades que deveriam, há muito, ser direccionadas para outros locais.

Havendo, felizmente, o Direito da livre manifestação em Macau, devia ser o Governo o primeiro a dar o exemplo, deixando de organizar eventos na praça. Pois só assim terá hombridade moral para exigir que as iniciativas de cariz particular sejam canalizadas para outras zonas.

Não fica bem na fotografia de quem nos visita ver um grupo de idosos a gritar e a empenhar bandeiras, reivindicando qualquer direito que considerem estar a ser violado. Também não nos é favorável haver painéis e palcos para festas ou outras iniciativas patrocinadas por tudo quanto é departamento do Governo, ou ainda indivíduos vestidos com trajes tradicionais – mais apropriados para peças de ópera chinesa – a queixarem-se de uma qualquer entidade privada. Tenham paciência! Há regras para tudo, incluindo o direito de manifestação, desde que utilizado com bom senso.

Recentemente foi organizado um evento (salvo erro de promoção de locais turísticos da China continental), que só não decorreu mesmo em cima da passadeira da Avenida Almeida Ribeiro porque o Departamento de Trânsito da PSP não terá dado autorização e porque os organizadores nem devem ter conseguido contratar uma seguradora que se responsabilizasse pelos danos que daí poderiam advir!

À hora de almoço e ao final do dia realizou-se um espectáculo gratuito no local. Os peões tentavam entrar na praça, depois de atravessarem a passadeira, mas o local de passagem era tão exíguo que as pessoas atropelavam-se para chegar ao Largo do Senado. A juntar à «festa», dezenas de prestáveis promotores do evento distribuíam panfletos, posicionando-se de forma estratégica. Resultado: o cenário mais parecia o de uma cerca de ovelhas, daquelas que se usam para fazer os animais passar ordeiramente, uns atrás dos outros, para mais facilmente poderem ser contados.

Este cenário repete-se ao longo de todo o ano. No Leal Senado, são exposições, palcos e manifestações; no Largo do Pagode da Barra, são espectáculos de ópera que ocupam toda a zona livre; junto das Ruínas, são painéis promocionais que em nada abonam para o bom nome da terra, nem do que intencionalmente promovem e, ainda, vendedores de carnes secas e biscoitos que, se não tivermos cuidado, nos enfiam, literalmente, os seus produtos goela abaixo.

Com tudo isto, sai a perder Macau e a sua imagem, porque quem nos visita (já para não falar nos cidadãos que deveriam estar sempre no primeiro lugar das preocupações do Governo) não consegue entender a razão de vários departamentos estatais autorizarem tamanhos atentados ao bom senso.

Espero que, de uma vez por todas, alguém com dois dedos de testa decida meter cobro a estas situações e devolva, pelo menos estes três locais às suas finalidades originais.

As outras iniciativas podem, e devem, ser canalizadas para outras áreas.

domingo, 27 de março de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Ancoradouros para barcos privados

certos aspectos em que Macau está uns passos à frente de Hong Kong. Nos últimos anos, o nosso território tem dado alguns exemplos à região vizinha, embora ainda tenhamos muito que aprender com ela.

Com o desenvolvimento da sociedade, e sendo a RAEM um local primordialmente virado para o mar, é natural que quem aqui vive se sinta, cada vez mais, atraído pela água. Apesar de ser uma cidade ribeirinha, de tradições afincadamente enraizadas no espírito da faina, Macau não faz jus ao nome de ser o porto e porta de entrada na China que, em séculos passados, fez os portugueses aqui permanecerem.

Quem pretender fazer da ligação ao mar um modo de vida, ou um modo de passar momentos agradáveis, defronta-se com inúmeros obstáculos legais, burocráticos e outros de pura casmurrice de quem decide.

Colocando de lado o facto das embarcações serem, mais ou menos dispendiosas, a verdade é que, apesar de não ser impossível comprá-las, será quase impraticável mantê-las em Macau.

De acordo com a legislação (draconiana) vigente, quem pretender adquirir barco (seja ele a motor ou à vela) tem de o guardar na Marina do Lamau ou no Clube Naútico, em Coloane. Enquanto este só aceita embarcações de pequeno porte, por se tratar de doca seca, a primeira só aceita quem tiver uma conta bancária a rondar os milhões, visto que os pontões estão todos vendidos e as rendas custam mais do que algumas casas e a quota do clube outro tanto.

Olhando para Hong Kong, onde possuir um barco não é luxo, vemos que a realidade é bem diferente. Se for residente na antiga colónia britânica, ou tendo ali uma empresa registada, pode optar por requerer um local de ancoramento, – devidamente controlado pelas autoridades marítimas, – numa das zonas para tal autorizadas (há dezenas de locais por todo o território com espaço para milhares de fundeadouros), sendo o preço de pouco mais de dois mil e 600 dólares de Hong Kong (para um barco até 60 metros quadrados de área), podendo alcançar os 17 mil dólares, se se tratar de um barco maior.

Nas várias vezes que abordei os serviços competentes em Macau – porque, como muitos residentes com menos posses para pagar as verbas exorbitantes da Marina e do Clube Náutico, também tenho direito de usufruir de uma embarcação na terra onde vivo, trabalho e pago impostos – a resposta da Capitania dos Portos foi sempre a mesma, num tom ríspido e algumas vezes a rondar o arrogante. As escolhas são as que conhecemos, ou se paga a quem explora os locais existentes ou não se pode comprar barco. Esta situação deixa muitos dos potenciais interessados numa embarcação de recreio, ou mesmo em viver a bordo, sem qualquer hipótese de recurso.

No entanto, sabemos que há no Porto Interior locais para ancorar barcos de pesca, que ali ficam aquando de tufões, durante a época do defeso, no Ano Novo Chinês e em outras ocasiões. Sobre a hipótese de um particular ali também poder ter, com todas as condições, um local para a sua embarcação, a Capitania nada diz, deixando antever que tal não será possível, visto que não há qualquer tipo de regulamentação que o preveja.

Não será tempo de, em Macau, se olhar para estes pormenores? Há na RAEM, além do Porto Interior, outros locais que podem servir para ancorar as embarcações de recreio (nomeadamente em Hác Sá e em Cheoc Van, na zona do porto de águas profundas, ou ao lado do aeroporto perto da central térmica) e que deveriam ser geridos pela Capitania, para que quem estivesse interessado pudesse requerer um ancoradouro para a sua embarcação, sem ser obrigado a enveredar por clubes ou instituições de cariz particular que apenas visam o lucro.

Não querendo estar a levantar qualquer falso juízo, o facto de se mostrarem irredutíveis e pouco interessados em estudar a questão dá a entender que estão a defender os interesses de quem explora as únicas duas opções privadas, obrigando, indirectamente, os interessados a ter que pactuar com situações de completa exploração.

Um barco para recreio ou mesmo para se viver nele, numa localidade à beira mar como é Macau, não é um luxo. Para quem pense que é capricho de rico, basta ver que os barcos são mais baratos do que as casas e oferecem as mesmas condições de habitabilidade.

Em Hong Kong compram-se juncos chineses, completamente adaptados para uma vida a bordo, com tudo o que se possa imaginar a nível do equipamento que se encontra numa habitação, por menos de um milhão de dólares de Hong Kong.

Quanto aos preços de manutenção, acreditem que gasto mais por ano com a minha casa! Portanto, para quem vive em Macau e aqui compra um apartamento, não acredito que ter barco seja uma questão de luxo.

Depende, claro está, do ponto de vista. Eu, se me fosse proporcionado pelas autoridades competentes, ponderaria sinceramente entre viver na água ou num prédio cheio de vizinhos mal-educados.

sábado, 19 de março de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

As «mijinhas» de Pequim

QUANDO era miúdo, lá na minha terra tínhamos uma expressão da qual ainda hoje gosto de me lembrar quando algo nos aparece a conta-gotas. Dizíamos que era às «mijinhas», ou seja, nunca vinha tudo de uma vez e tínhamos de esperar eternamente até que tudo chegasse! Digamos, era um martírio para uma criança impaciente.

O facto das mensagens do outro lado da fronteira chegarem sempre truncadas, ou a conta-gotas, há muito deixou de me surpreender. Raramente vemos vir de Pequim um sinal que seja claro, conciso e sem campo para ilações que não sejam as originais.

Há quanto tempo se fala da falta de espaço de Macau? Que me lembre, desde sempre! Daí existirem tantos aterros nesta terra. Mas, como em tudo, os aterros não se podem estender eternamente, caso contrário corremos o risco de um dia destes chegar a Hong Kong a pé. Lá ficavam os barcos sem negócio e a ponte Y ficava sem grande utilidade!

A solução que Pequim encontrou, sugerida por muitas vozes deste território, foi a de «dar» a Ilha da Montanha – não lhe chamem «Henqin», porque tem nome em Português; e, em Cantonense, chamam-lhe «wankam» – às «mijinhas». Primeiro foi o talhão para a Universidade de Macau, tendo logo tudo quanto é instituição de ensino feito fila para que lhes fosse atribuído semelhante benesse. Muitas delas nem em Macau fazem um serviço competente, mas querem expandir-se!

Depois da onda educativa, seguiu-se a da ciência, com vários hospitais programados para a ilha e com a promessa de que, se estivermos doentes, podemos conduzir para ir ao médico na China!

Por mim, obrigado, mas não quero, e por duas razões principais: primeiro, porque se estou doente não devo ter grandes condições para conduzir; segundo, porque nem mesmo em Macau confio nos médicos vindos do continente, quanto mais na Ilha da Montanha!

É do conhecimento público que está em construção o maior parque aquático da Ásia ali na mesma ilha. Aliás, de certas zonas, em Coloane, consegue-se ver parte do parque em construção. Será que, se formos ao médico na ilha, nos dão autorização para ir visitar o parque e tomar banho? Ou para tal vamos precisar de Visto?

Não consigo perceber o motivo de tanta indecisão e falta de vontade política. Não quero acreditar que seja falta de visão, porque se há coisa que Pequim nos ensinou é que percebem de planeamento económico a longo prazo. O resultado está à vista de todos, com uma Economia galopante e forte.

A solução da Ilha da Montanha viria, como dizia o empresário David Chow há já alguns anos, resolver muitos dos problemas de Macau, principalmente em termos de espaço e pôr termo a muitas das dificuldades que aqui são sentidas, nomeadamente no que diz respeito à especulação imobiliária.

Por outro lado, estando tudo a ser feito a conta-gotas, deve haver quem tenha mais informação do que nós, simples cidadãos. Só assim se percebe que grupos empresariais, nomeadamente americanos e ligados ao jogo na Ásia, tenham andado a investir fortemente na compra de direitos de uso de terreno na dita ilha vizinha de Macau. Se não souberem algo mais do que aquilo que nós sabemos, é de supor que não seja um bom investimento.

Parece quase evidente que, mais cedo ou mais tarde, a Ilha da Montanha fará parte de Macau. Julgo que isso será realidade daqui a uns anos; o que não percebo é a razão por que não decidem, de uma vez por todas, anexar a ilha e dar a Macau os direitos de utilização. Aliás, de todas as opções existentes, essa seria a mais viável e de fácil concretização. Afinal, a Ilha da Montanha apenas está ligada ao continente por uma pequena ponte, que a liga à Ilha da Lapa (a que os chineses chamam Wanchai). Bastaria criar na dita ponte um controle fronteiriço, à semelhança das Portas do Cerco e, aos habitantes da ilha que ali vivam (digamos há 20 anos consecutivos ou ali tenham familiares directos) dar-lhes a residência de Macau. Resolvia-se o problema rapidamente, ganhando Macau mais mão-de-obra (serão cerca de 20 a 30 mil os habitantes da ilha) e mais alguns habitantes em troca de uma área enorme para expansão.

Talvez seja uma solução que soa a simplória mas, em troca das «mijinhas», estou para aceitar qualquer coisa!

Em Macau julgamos ser profissionais e, regra geral, queremos decisões rápidas e duradouras. De Pequim temos sido surpreendidos, regularmente, com decisões muito acertadas, tanto a nível internacional, como a nível de Macau. Mas, de tempos a tempos, surgem sinais muito confusos que nos levam a pensar se haverá mesmo uma «linha» decidida para o desenvolvimento deste pequeno pedaço de terra a que chamamos Macau.

domingo, 13 de março de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

CTM mete a «pata» na poça

ESTE artigo vai soar a diário de uma pessoa insatisfeita, mas, como penso não estar sozinho nesta luta, decidi, mesmo assim, escrever.

Às seis e meia da manhã do dia 25 de Fevereiro, já acordado, decidi verificar a minha correspondência electrónica, como faço todos os dias durante a semana. Para surpresa minha, não tinha acesso à Internet em casa através do sistema sem fios que tenho instalado em todo o apartamento. Pensando ser um problema do sistema físico, fiz o que mandam os livros, verificando todas as ligações e, depois de me certificar que tudo estava conforme, desliguei todo o sistema e recomecei-o. De nada valeu. Continuava sem acesso à rede global em casa. Verifiquei o telemóvel, visto que, como muitos de nós, hoje em dia, também por esse meio posso aceder à Internet, e tudo funcionava, acabando por consultar a correspondência ali mesmo. Digamos que às seis e meia da manhã estava com pouca paciência para telefonar para a CTM e ter de explicar tudo, em inglês, a um(a) telefonista que nada iria resolver. Isto, claro, se fosse capaz de me fazer entender, porque maior parte das vezes o nível de entendimento em inglês (para já não falar do português que deveria ser tido como língua principal, ao lado do chinês) é pouco mais que básico! Culpa não do funcionário, mas da empresa que não contrata pessoas competentes, ou não lhes dá o treino devido.

Problema da correspondência resolvido, voltei costas ao problema e fiz-me à vida.

Chegado ao escritório, já esquecido do «glitch» técnico que me tinha deixado mal disposto logo de manhã cedo, ligo o computador, verifico todas as contas de mensagens electrónicas e, como sempre, deixo a privada da CTM para último. Os afazeres profissionais no escritório vêm sempre em primeiro lugar e só se verifica a conta privada caso haja tempo livre para isso.

Ao aceder à caixa de correio da CTM, via «Cyberctm webmail», na página em português, «Sorry, you haven't subscribe the service»! Só aqui me apercebi que pelo telefone também não tinha tido acesso a esta conta!

Nesta altura já me tinha esquecido do que havia ocorrido às seis e meia da manhã. Eram 9 e 15 e tentei ligar a linha 1000, tendo sido atendido, depois de dez minutos de música, por uma telefonista na linha em português, sob a opção Internet, que me perguntou o que queria (em inglês!). Se estava na opção Internet, certamente que não queria tratar de assuntos do telemóvel, certo? Ao ter referido o que se passava, nem tempo me deu para explicar mais, dizendo que me iria transferir para o «Internet Service». Fiquei perplexo! Então, não tinha eu teclado 1000, opção 3 (português, o inglês vem em segundo lugar, antes da língua oficial portuguesa!) e depois opção 2 para Serviços de Internet e 0 para falar com um agente de serviço?

Olhei para o relógio dessa manhã de sexta-feira e marcava 9:17. Ouvi música e uma voz que, de tempos a tempos, em Chinês, Inglês e Português, me ia dizendo que estavam todos muito ocupados e que, em breve, iria ser atendido. Às 9.38, depois de muita música, alguém atendeu a minha chamada que estava em espera, para me dizer o que a voz gravada me vinha repetindo incontáveis vezes! Depois, perguntando se era urgente e, em tal caso, para deixar o meu contacto e que alguém me iria telefonar mais tarde!

Sendo urgente, será que se coadunava com esperar por um telefonema mais tarde e que, hipoteticamente, nunca iria chegar? Quando me preparava para deixar o número de telefone, e como estranhei o silêncio do outro lado da linha, deparei que me tinha desligado a chamada na cara, sem apelo nem agravo!

O problema devia-se a não ter sido feito o pagamento da conta. Contudo, apesar de estarem certos e com direito a cortarem-me o sinal, algo deveriam ter feito para me avisar. Quando me desloquei à empresa para pagar outras contas, como sempre faço, nada me foi dito (apesar de estarem todas sob o mesmo nome e endereço). Nem um telefonema me fizeram a avisar. Dizem ter enviado um «email»! De que serviria, se eu não tinha acesso a ele?

Sei não estar sozinho nesta onda de insatisfação perante o serviço da CTM. Basta falar com conhecidos para ouvir queixas das mais variadas, sejam elas relativas aos telemóveis (onde felizmente temos outras opções), seja relativo à linha fixa (onde não parece haver grandes problemas, visto o serviço ser invariavelmente mau e de pouco uso), ou seja acerca da Internet (onde, infelizmente, não temos opções e considero que o Governo deveria tomar uma posição para resolver o problema).

Macau, que pretende ser um território evoluído e que se promove como cidade internacional, precisa urgentemente de mais opções para serviços de Internet. Só havendo outro(s) concorrente(s) que ofereçam serviços idênticos, a CTM se verá «obrigada» a melhorar os seus e os cidadãos poderão ter acesso a um serviço mais desenvolvido.

O serviço da Internet da CTM é deplorável e caro. A velocidade de acesso é arrepiantemente lenta, quando comparada com as velocidades (efectivas e reais) que se praticam noutros países (basta ir a Hong Kong, se não quisermos comparar com a Europa). Nós que pagamos merecemos melhor. Merecemos, pelo menos, respeito e sinceridade.

Todos temos problemas e, caso sejam reconhecidos, certamente todos iremos entender e ser mais tolerantes. A postura de que a culpa é sempre do outro não nos serve. Logo que haja outra opção, mesmo que pior, serei dos primeiros a experimentar, até que a CTM se decida a tratar os clientes com respeito e seriedade.

Chega de arrogância, mau serviço e falta de educação e respeito.

domingo, 6 de março de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Condutores têm de ser locais

capa_lrg ESTA coluna corre o risco de começar a parecer uma perseguição aos serviços de autocarros! Garanto, porém, que longe de mim está tal ideia. Quanto muito será um espaço de crítica, tendo em vista a melhoria do serviço a que todos temos direito.

Na semana passada falava dos autocarros. Nesta edição vou voltar ao mesmo tema, por ter lido um artigo na imprensa diária que nos dava conta da preocupação da nova operadora na contratação de condutores locais. E, logo no dia seguinte, a autoridade competente a vir dizer que há em Macau condutores suficientes. A companhia, perante as dificuldades, avançava com a solução de se contratarem no Continente.

Como todos sabemos, a qualidade dos condutores locais de autocarros (e de táxis também) é do pior que há. Julgo mesmo que, se fossem obrigados a fazer um curso de reciclagem anualmente, muitos deles reprovariam nas provas.

Virem com a ideia de ir recrutar ainda mais condutores ao interior da China é algo pouco sensato. Primeiro, os condutores do lado de lá das Portas do Cerco têm um comportamento na estrada completamente diferente daquele que se quer em na RAEM; segundo, a qualidade dos condutores, a aferir pela forma como são feitos os exames de condução (prática e teoria) no Continente, deixa muito a desejar em termos do «standard» internacional, aliás, a carta de condução da China não é reconhecida internacionalmente, ao contrário da de Macau; terceiro, os condutores do Continente não conhecem Macau, pelo que poderia ser contraproducente pô-los a conduzir um veículo cheio de pessoas.

Admito que haja falta de profissionais do volante e creio bem que se torne difícil às empresas encontrar condutores. No entanto, a solução de os ir buscar ao outro lado não me parece acertada.

Antes de mais, é preciso cumprir os regulamentos e nivelar a qualidade por patamares superiores. O nivelamento por baixo dá sempre maus resultados.

Quando os responsáveis das empresas concessionárias dizem que não há mão-de-obra local, o problema deve ser resolvido internamente. E, para que se resolva, há preceitos que têm de ser preenchidos. Para começar, torna-se necessário oferecer uma carreira condigna e com salários ao nível da exigência da profissão. Se os condutores tiverem um salário e regalias atraentes, não haverá falta de interessados em tirar a carta de condução profissional para trabalhar como condutores de autocarro. Perante a urgência da contratação, a medida mais acertada será o Governo anunciar cursos de reciclagem de condutores, em tempo recorde, para que se possam preparar, em pouco tempo, 100 ou 200 condutores, de modo a poderem colmatar as necessidades das três empresas. Não havendo cidadãos locais (residentes permanentes) interessados, poder-se-ia, eventualmente, dar a possibilidade a residentes não permanentes. Neste caso, porém, com a obrigatoriedade de terem de ficar ligados à empresa por um período mínimo de tempo (alguns anos, talvez) e sem possibilidade de trabalharem noutro local. Uma simples aplicação das leis laborais já em vigor.

Urge em Macau optar-se por formação de qualidade. O recurso, sempre que nos sentimos apertados, ao mercado da mão-de-obra do Continente, não serve os nossos intentos. A qualidade que vem do outro lado raramente chega aos patamares pretendidos. Daí que, quem fica a perder somos todos nós e quem nos visita. Macau tem de marcar a diferença, pela positiva e não pela negativa, como tem sido nota dominante até agora.

Esta nova etapa dos serviços públicos de autocarros no território é uma boa oportunidade para a Direcção dos Assuntos de Tráfego, conhecedora das reduzidas dimensões de Macau, fazer uma análise profunda e abrangente da realidade local, programar e executar da melhor forma as decisões que vier a tomar, tendo sempre em vista oferecer ao cidadão comum um serviço de transporte público deveras eficiente. Se tivermos um serviço de autocarros de qualidade, em que os condutores além de conhecerem o terreno revelam boa condução e boa educação, os utentes certamente irão optar mais vezes por os utilizar e os turistas sairão daqui com uma melhor imagem.

O panorama actual é assustador. Só quem não usa os transportes públicos é que não sabe a aventura que é andar dentro de um autocarro em Macau com as travagens bruscas, corridas de paragem a paragem, além de manobras que metem em perigo os passageiros e quem circula na via pública.

Por sorte, ao longo dos anos, os incidentes têm sido poucos. Será necessário que aconteça uma tragédia para que os responsáveis acordem?

Um bom serviço de autocarros tem de passar, primeira e necessariamente, pela boa qualidade dos veículos e segurança dos mesmos; mas, também, pela formação dos condutores e, ainda, pela informação acessível a todos e de forma correcta.

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Uma para a DSAT aprender

capa_lrg NA anterior edição, um artigo de um colega nestas páginas falava da organização dos táxis em Kuala Lumpur (Malásia), fazendo uma comparação com a de Macau. Como todos sabemos, o sistema de táxis na RAEM funciona mal, quando funciona! Na Malásia, apesar de também lá haver queixas, do esforço feito pelo Governo e de haver condutores que insistem em fazer ajuste directo da tarifa, o serviço é muito superior ao que temos por aqui. Desde logo, a começar logo pela qualidade dos carros e a proficiência em línguas dos condutores que, no mínimo, dominam três. Sendo as mais usuais o idioma nacional, o Bahasa Malaio, logo seguido do Inglês, que é a língua de trabalho, e do Mandarim (ou Cantonense), que é falado no seio da comunidade chinesa malaia e por muitos não etnicamente chineses.

Quem nos dera, em Macau, que ao menos falassem as duas línguas oficiais! E como sonhar ainda não paga imposto, porque não falarem também Inglês? Eu sei que sou um sonhador incurável! Mas, como não falam, pelo menos que a Direcção dos Serviços de Assuntos de Tráfego (DSAT) nos fornecesse a informação correctamente nas línguas oficiais.

Deixando os táxis de parte, e como também estive recentemente na Malásia, gostaria de aqui abordar um exemplo que serve, mais uma vez, como uma luva para Macau. Vamos em breve passar a uma nova fase do serviço de autocarros públicos com a entrada de mais uma empresa no sistema, pelo que é de todo imperioso que obriguem (todas elas) a cumprir tudo quanto está estipulado no caderno de encargos, principalmente a cláusula que diz ser obrigatório existir informação (sonora e visual) das paragens e trajectos e – também importante – que funcione, pelo menos, nas duas línguas oficiais. Actualmente isso não se verifica. Quem anda de autocarro ouve apenas informação em cantonense e mandarim, estando completamente esquecida a segunda língua oficial. A DSAT parece nada se importar, visto que a situação nunca foi rectificada, mesmo depois de muitas queixas. Dizem ser complicado! Será que é complicado só em Macau? É que noutros locais vimos e ouvimos a informação em mais do que duas línguas em simultâneo e sem qualquer problema. Será que em Macau somos menos inteligentes, ou querem fazer de nós ignorantes?

A cidade de George Town, em Penang, pode comparar-se, visto ser também Património Mundial da UNESCO. No entanto, ao contrário do nosso território, tudo funciona como deve ser e sem sobressaltos de maior (há excepções, como em todo o lado).

Deixem-me tentar explicar o sistema de funcionamento dos autocarros. Tomo por exemplo a carreira 101, que apanhei diversas vezes para me deslocar do hotel para o centro de George Town e vice-versa. É uma carreira circular, começando e terminando na central de autocarros, bem no centro da cidade. Há dois terminais, o Komtar, no centro, e o Jetty, que serve as carreiras mais distantes, funcionando ambos de forma circular. Em cada um deles há quatro linhas identificadas por números de 1 a 4, e que depois se desdobram em diversas carreiras; no meu caso, a 101 seria a primeira da linha 1, havendo também a 102, 103, 104 e 105, pelo que me apercebi. Todas elas têm trajectos diferentes, não havendo muitas sobreposições ao longo do percurso. No caso da 101, no trajecto do hotel para o centro da cidade apenas se sobrepunha à 104 em uma ou duas paragens, antes de entrar no centro histórico, onde não vi nenhum autocarro partilhar nenhuma paragem no trajecto. Isto em muito contribui para que não haja engarrafamentos e para que as pessoas não se amontoem nas paragens, visto que cada uma apenas serve uma carreira.

A tarifa é paga manualmente ao condutor (que domina os nomes dos locais da sua carreira em várias línguas e que está sempre pronto para tentar ajudar quem lhe pede informações). A cada paragem o condutor vai anunciando o nome do local, para que os passageiros saibam onde estão e onde devem sair. Muitas das vezes anuncia também o nome das atracções turísticas e edifícios governamentais na área (por exemplo, o edifício do Parlamento, que fica perto do Forte Cornwallis – o local de chegada do ingleses em Penang, – ou o edifício dos Correios, que fica perto do Church Street Pier).

No interior do autocarro há uns painéis bem claros com o trajecto da carreira em questão indicado por duas linhas rectas, uma para o trajecto de ida, outra para o de volta, referindo todos os locais das paragens. Simples e bem claro.

Em adição a este sistema de transportes públicos pagos, há duas carreiras também circulares dentro do centro histórico de George Town que são gratuitas, funcionando no mesmo esquema das normais, uma com partida e chegada à central Komtar; a outra parte e chega ao terminal Jetty, ambas com paragens fixas ao longo do percurso.

Este modus operandi permite que os turistas (mas também os residentes quem têm de ir ao centro da cidade histórica) não tenham de pagar constantemente para se deslocar entre atracções turísticas, ou entre os dois terminais onde se pode utilizar os autocarros pagos. Este serviço é da responsabilidade do Municipality of Penang e suportado pelas verbas públicas.

Porém, nem tudo é positivo. Como em tudo, os erros dos outros devem servir de exemplo para nós. No que respeita ao civismo dos cidadãos e no respeito por filas de entrada, em Penang parecem sofrer do mesmo problema que em Macau. Raramente respeitam as filas de espera para entrar nos autocarros e, quando estes param, os passageiros atropelam-se uns aos outros para entrar.

Aspectos culturais? Não! Pura e simplesmente falta de educação e sentido cívico pouco desenvolvido, pelo que tive oportunidade de ouvir de vários nativos.

Onde é que eu já ouvi isto?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Macau Pass nos táxis?

capa_lrg COM o passar dos anos e com o mau serviço que os taxistas nos fornecem, a paciência dos utentes começa a esgotar-se. Recentemente foi introduzido em Hong Kong o pagamento via cartão Octopus (o equivalente ao Macau Pass aqui na RAEM), pelo que a empresa responsável pelo sistema de dinheiro de plástico em Macau mostrou-se receptiva à ideia de tal vir também a ser adoptado no território. Uma opção que, em minha opinião, seria de louvar – mais não fosse – para terminar com a situação que ocorre sempre que a quantia a pagar não termina em números redondos. Sempre que isto sucede, – não sei como, – os taxistas nunca têm trocos!

Perante a sugestão da Macau Pass, os representantes dos profissionais dos táxis mostraram-se completamente indignados, vindo a público afirmar que será uma forma de diminuir os rendimentos dos seus associados!

Esta afirmação deixou-me perplexo! Pensava que os rendimentos dos taxistas fossem baseados nas tarifas cobradas. Afinal, pelo que se deduz da preocupação dos seus líderes associativos, o esquema das gorjetas forçadas faz mesmo parte da sua fonte de rendimentos!

A questão foi também levantada em Hong Kong, quando foi decidido introduzir o sistema de pagamento nos táxis, para facilitar o pagamento por parte dos utentes. E, apesar de existir no sistema a possibilidade de deixar gorjetas, os homens do volante continuam a dizer que os rendimentos baixaram.

Daí ser legítimo perguntar: baixaram os rendimentos, ou deixou de existir forma de, abertamente, roubar e burlar os utentes?

Em Hong Kong sucedeu-me, por diversas vezes, os taxistas não terem troco exacto para entregar no final da corrida; no entanto e como, regra geral, falam alguma coisa de inglês, a situação resolveu-se sem grandes problemas. Em Macau, como falam mal até mesmo cantonense, quando não há troco, a solução é chamar a polícia. No entanto, como nem todos os utentes estão com paciência para chamar a polícia, acabam sempre por deixar o troco como se fosse gorjeta, sendo coniventes, assim, num acto ilícito, mas de que todos têm conhecimento.

Macau é pródigo neste tipo de situações e o que se passa com os trocos nos táxis pode ser visto noutros locais e noutras ocasiões.

Cliente paga horas extras

Vejamos o que se acontece, ano após ano, no Ano Novo Chinês, com os preços nos estabelecimentos de comidas e bebidas que optam (e muito bem do ponto de vista comercial) por ficar abertos para nos servir. Não são a regra, mas muitos cobram aos clientes a obrigação legal que têm de pagar a triplicar aos empregados por estes trabalharem em dia feriado. Dizem que se não pagarem aos empregados eles não trabalham. Pois eu também não trabalharia, se o meu patrão não me pagasse! Contudo, não cabe ao meu patrão passar a factura do meu trabalho extraordinário para o cliente. Pelo menos, passar assim tão descaradamente!

É usual, durante os dias de Ano Novo, ver-se nas portas dos restaurantes e cafés anúncios a alertar quem entra que, ao normal preço da conta dos produtos consumidos, será acrescido um valor de 30 por cento, para fazer face ao aumento dos encargos que têm em manter as portas abertas para servir quem ali se desloca.

Não se regista em todo o lado, mas acontece na grande maioria, e as autoridades nada fazem.

Num restaurante da zona da Barra cheguei a presenciar um turista que, indignado, chamou um polícia que por ali circulava na altura e perguntou-lhe se era legal, tendo o polícia encolhido os ombros e dito que era normal!

A verdade é que não é legal. Mas também é verdade que as autoridades e o Governo nada fazem para que isto acabe.

De uma vez por todas há que fazer entender aos proprietários dos restaurantes e similares que, se querem fazer dinheiro e ter as portas abertas, devem pagar do próprio bolso, porque os clientes já pagam mais do que suficiente. O facto de terem de pagar horas extras aos empregados não pode ser justificação para carregar ainda mais a conta final que cada pessoa paga.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Macau infeliz

capa_lrg ANDAR pelas ruas de Macau hoje em dia parece quase uma aventura. E a verdade é que se trata de uma aventura que todos nós temos de enfrentar diariamente.

Será que alguém tem ideia de quantas obras estão neste momento em curso? Julgo que não exista qualquer tipo de contabilização. Mas caso existisse, penso que não incluiria obras como, por exemplo, as da Avenida Sidónio Pais, ali perto da zona do Tap Seac, que tem sido martirizada meses a fio com rasgos e cortes, ora na via da direita ora na da esquerda! Imagino o que será viver, trabalhar ou ter de passar por ali diariamente. Só a área junto da Escola Sir Robert Ho Tung tem sido alvo de intervenções há mais de um ano.

Macau parece, hoje mais do que nunca, um autêntico estaleiro a céu aberto e ninguém parece incomodar-se com isso.

Falava-se, ainda recentemente, do grau de satisfação da população. Não sei como certas sondagens são feitas, mas creio bem que pouco terão de universal e representativo. Ninguém – que eu saiba – alguma vez fora contactado para responder a estes questionários, pelo que levanto a questão: será falta de sorte ou as pessoas são escolhidas a dedo. É que, passada mais de uma década a viver nesta terra, conheço um bom número de pessoas de todas as etnias. Mesmo assim, embora relacionado com um grupo bastante ecléctico de amigos e conhecidos, não tenho conhecimento de nenhum deles ter sido sondado. Apesar de ser matematicamente possível, as probabilidades de nunca terem acertado com alguém que conheça são muito baixas.

Voltando ao grau de satisfação das gentes de Macau, parece que andamos todos muito felizes. Pela parte que me toca, não me vou queixando muito; no entanto, acredito que haja muitas pessoas com muito a assinalar. Perguntem a um beneficiário do Instituto de Acção Social – que infelizmente são cada vez mais, apesar de Macau estar a arrecadar mais dinheiro do que nunca – se estão contentes com a vida que levam.

Há vários factores que contribuem para que as pessoas se sintam felizes. Se me perguntassem, eu elegeria: ser saudável, ter um emprego que ofereça um salário suficiente para pagar as despesas; ter amigos e família por perto; e um sistema de segurança social que me garanta os anos de reforma. Estes seriam os meus principais pontos de preocupação, ao avaliar o meu grau de felicidade.

Claro que cada pessoa tem as suas prioridades. Se tivesse de escolher apenas dois dos pontos que referi, possivelmente escolheria o segundo e o terceiro. É natural que, se pedissem a uma pessoa com outras necessidades para escolher entre estas opções, possivelmente escolheria o primeiro e o quarto. Afinal, a felicidade é isso mesmo: algo muito pessoal e que dificilmente se consegue medir de forma científica.

Voltando à questão das obras, será que alguém consegue sentir-se feliz se viver num local onde se ande constantemente a fazer obras? Não falo apenas nas obras de rua, mas também naquelas que se realizam diariamente, e anos a fio, nos prédios onde vivemos, ou nos edifícios que constantemente vão sendo demolidos para dar lugar a novas torres.

Macau vai agora entrar noutra fase de construções que, possivelmente, se irão arrastar por mais cinco ou dez anos. Temos o metro na calha e os novos aterros. Só estes empreendimentos vão demorar mais de cinco anos e terão um impacto à escala global, influenciando todas as zonas do território. Aliás, o metro é obra que promete prolongar-se no tempo, visto ser uma estrutura que vai estender-se a várias áreas da cidade.

É já tempo das autoridades começarem a programar, de uma vez por todas e de forma séria e acertada, as intervenções urbanas, de modo a atenuar o transtorno a quem aqui vive. E para que, depois da sua conclusão, não seja necessário que outro serviço volte a abrir buracos para mais construções.

Deixem-nos descansar e saborear Macau como deve ser! Só assim se pode ter uma população satisfeita e contente!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Uma dieta de coelho

capa_lrg VAMOS ter coelho para o ano inteiro, agora que cruzámos a última lua de mais um ciclo chinês. Chegámos a 4708, de acordo com o milenar calendário tradicional do Império do Meio. Um ano do coelho que será ensombrado pelos pandas de Seac Pai Van ou, que mais não seja, pela moda que se vê por toda a cidade. Por sorte, e tirando as orelhas ao coelho, os animais até se parecem um com o outro. São ambos peludos e, de certa forma, dados a abraços aconchegados.

A verdade é que, sem darmos por isso, Macau deu mais uma volta ao calendário e, terminado o ano do tigre, entramos agora no ano Xin Mao, ou mais conhecido como ano do coelho.

Não sou muito dado a adivinhações mas sempre me entretenho, nestas alturas, a ler o que se vai publicando na imprensa local acerca do que nos espera para este novo ciclo. Sem querer entrar em pormenores, tenho a dizer que não fiquei muito convencido, tanto pelos dotes de adivinho dos «especialistas» contactados, assim como com os prognósticos avançados. Se no ano do tigre se esperavam dias difíceis, as previsões para este ano parecem ser ainda piores. Na verdade, não me lembro de ver, ao longo dos anos a viver no Oriente, um adivinho a dar um prognóstico positivo para o ano seguinte. Sem saber muito bem porquê, as hipóteses avançadas apontam sempre mais para o lado negativo. Atrevo-me a dizer que se trata de uma boa forma de se protegerem. É que, dizendo ser negativo, mesmo que não se concretize, ninguém lhes vai apontar o dedo. Pelo contrário, se apontarem um futuro risonho e depois não se concretiza, terão uma mão-cheia de processos judiciais em cima e a clientela a cair em flecha! Tal e qual como a Comunicação Social, o que é positivo não vende!

Sem dar-me ares de cartomante ou de adivinho chinês, atrevo-me a dizer que este ano vamos ter doze luas dominadas por uma polémica em redor do Metro Ligeiro, entrelaçada com «boas novas» dos pandas de Coloane e uma ou outra novidade que não veio no programa de Governo. Prevejo também que para os lados do COTAI se registem mais umas detenções de trabalhadores ilegais e que os pequenos empresários de Macau continuem a ter sérias dificuldades em encontrar mão-de-obra. E, por último, é quase certo que a venda de coelhos de estimação irá aumentar durante este ano, sendo um bom ano para as quintas produtoras do outro lado da fronteira. Cuidado com as pragas de sarna que normalmente afligem este animal. E acrescento ainda: se estes prognósticos não se registarem, pouco pior há-de ser o nosso ano!

Como não quero passar sem deixar um cheirinho do que li, aproveito para escrever que, em 2011, de acordo com as revistas da especialidade, o que define o ano não é o tamanho do animal, mas sim os seus intrínsecos valores. No caso do coelho, caso fosse pelo tamanho, teríamos um ano pequenino, doze meses muito «sofisticados». Seja lá o que isto quer dizer! «Gracioso e sensível»! Daí que os especialistas aconselhem para que as decisões sejam «tomadas tendo por base a nossa intuição e de forma sensível e ponderada, pondo de lado todos os impulsos e explosões espontâneas».

Dizem ainda que os nascidos no ano deste animal serão «bons candidatos para políticos ou diplomatas», o que me leva a deduzir que em Macau e Portugal, nos anos do coelho, a partir de 1939 (os de 39 terão agora 71 anos; os de 1951, 59 anos; os de 63 estarão a contar 47 anos e os de 75 terão completado 35 anos), tenham nascido muito poucas pessoas. E as que nasceram enveredaram pela profissão errada, se tivermos em conta o estado da política actualmente! Esperança então para o futuro…

Resta-nos apenas esperar que, no ano de Xin Mao, prestes a começar, tenhamos saúde, emprego e boa disposição. Tudo o mais que vier será por acréscimo.

Um bom ano a todos os amigos e leitores.

Kung Hei Fat Choi!

PS – Permitam-me um aparte. Assim como gosto pouco de ver decorações natalícias nos templos chineses, também não gosto de ver decorações de Ano Novo Chinês em igrejas católicas. Cada tradição no seu lugar certo, para que todos sejam respeitados.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Leonel de Barros deixou-nos

Nunca tive a oportunidade de privar muito com ele. No entanto, estando em Macau há mais de uma década, seria impossível passar ao lado da figura de Leonel de Barros. Possivelmente o maior investigador da história de Macau dos últimos anos. Profícuo na sua produção literária e artística, muito deixou para que recordemos a Macau do seu tempo.

As suas obras ficam para a posteridade. Macau deve honrar o seu nome e não o deixar esquecer.

Leonel de Barros deixou Macau ontem, sem nunca ter partido. Paz à sua alma.

Macau e quem aqui vive ficou mais pobre.

O Jornal Tribune de Macau fez-lhe uma homenagem na passagem do seu 86° aniversário. (ver aqui o texto no JTM)

Na foto do projecto Memória Macaense, durante o lançamento de um dos seus livros. Leonel de Barros ao centro.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cozinha da NaE volta a publicar

Boas tardes a todos.

Gostaria de vos informar, especialmente aos que vivem em Macau (porque podem aceder a um dos ingredientes mais facilmente) que a Cozinha da NaE voltou a publicar uma receita.

Vejam, experimentem e comentem…

http://naeskitchen.blogspot.com/2011/01/fried-rice-with-chinese-bbq-duck-arroz.html

domingo, 16 de janeiro de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Não há cultura musical

capa_lrg DE há uns anos a esta parte deixei de sair à noite em Macau. Antes fazia-o regularmente, mas, por falta de escolhas, comecei a ficar por casa, ou a reunir-me com os amigos em casa destes ou na minha.

A falta de opções de diversão e culturais em Macau é um dos problemas que, mais cedo ou mais tarde, todos temos de enfrentar. Sendo ainda do tempo do Clube de Jazz na Rua das Alabardas, sinto falta daquele espaço e de outros similares. Quer se goste ou não deste estilo de música, a verdade é que qualquer cidade que se diga «desenvolvida» tem um clube desta natureza, assim como clubes de teatro e de poesia. Em Macau, infelizmente, é o que se sabe! Tenho esperança de que o novo director do Instituto Cultural, um homem que realmente sabe de cultura, tenha pulso para reavivar tudo isto.

É que para quem gosta de ouvir música e desfrutar de alguns momentos na companhia dos amigos não há local onde o possa fazer sem ser importunado por frequentadores mais excitados com o calor da noite, ou com os teores alcoólicos das bebidas maradas que vão servindo nesses sítios.

A princípio, quando abriram os bares do hotel MGM e o do Galaxy, ainda era possível ir ali desfrutar de uns momentos agradáveis e tomar uma bebida (que não deixava mossa no dia seguinte) com os amigos. No entanto, mesmo estas opções não são para todos os gostos, visto que os estilos musicais em pouco diferem.

Pelo que me é dado a saber, não existe em Macau qualquer local onde possamos ouvir bom jazz ou qualquer outro tipo de música que não seja a da «moda». Ouvi falar, – mas confesso que nunca ali me desloquei, – de um pequeno bar nas traseiras das Ruínas de São Paulo, onde se pode ouvir boa música, apreciar um «bom vinho» e desfrutar de agradáveis momentos num ambiente calmo e relaxado. Fora disto, de nada mais tenho conhecimento, a não ser de uns esporádicos acontecimentos que vão sendo organizados aqui e ali. Julgo, porém, que Macau precisa e merece mais. Deixo todas as minhas esperanças em Ung Vai Meng para voltar a agitar as águas.

O mundo cultural de Macau, no campo da música, antes de 1999, era bem mais animado, com vários locais em hotéis onde se podia ouvir piano, jazz, desfrutando, assim, de uns momentos agradáveis com os amigos, sem ser importunado por outros frequentadores do local.

Quando o Clube de Jazz mudou da zona antiga da cidade para a Casa de Vidro, no NAPE, pensava-se que seria o impulso necessário para o transformar naquilo que todos esperavam, num grande clube e dinamizador cultural de Macau. Ainda me lembro, já nas novas instalações junto ao Rio das Pérolas (uma localização privilegiada), de ver pessoas muito conhecidas de Hong Kong a apreciar a música e a vista nocturna de que se desfrutava na Casa de Vidro. Acontece que a mudança foi o fim do clube e, desde então, Macau já não dispõe de nenhum local onde se possa apreciar este tipo de música e que a ele se dedique em exclusividade.

Parece uma contradição o território estar cada vez mais próspero economicamente, mas, no que diz respeito à oferta cultural e recreativa, as opções serem cada vez mais reduzidas. As que existem em nada se diferenciam. Faltam opções e qualidade na oferta de diversão musical nocturna em Macau.

Se olharmos para Hong Kong vemos que ali se pode apreciar música jazz em diversos locais e, para quem não gosta de música, há várias outras opções, tais como clubes de humor ou de teatro, que apresentam diariamente uma panóplia de actuações para quem os visita.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

As chagas de São Lázaro

ANTES de entrarmos nos assuntos desta semana, como estamos no início de um novo ano, quero aproveitar para desejar um excelente 2011 a todos os leitores d’O Clarim.
Nos últimos dias de 2010 aproveitei para passear pelas ruas de Macau, tendo deparado com algumas situações que julgo merecedoras de seram referidas nestas páginas. Vou-me cingir a algumas que presenciei numa zona nobre deste nosso território.
No bairro de São Lázaro, tão badalado pelo Governo como a nova zona «hip» para as artes e cultura, temos situações de estacionamento completamente inadequadas para um local que se pretende ser frequentado por turistas e pessoas da cultura. O exemplo que vou referir serve para demonstrar que é necessário mais trabalho por parte das autoridades. Não basta dizer que querem fazer da zona um local aprazível. Se essa vontade não for acompanhada de medidas efectivas no terreno, de nada valerão as boas intenções de quem nos governa.
Primeiro: a questão do estacionamento. Como pode verificar quem por ali passa, são ocupados espaços que não se destinam a tal finalidade. Esta situação, que se repete um pouco por todo o bairro, incomoda os moradores e coloca em perigo quem por ali circula; é que, estando os passeios ocupados, os transeuntes têm de se movimentar na via. E quem não deixa o seu veículo a ocupar os passeios, deixa-o a ocupar locais contra-indicados para o efeito, dando mau aspecto a toda a zona e deixando uma má imagem junto de quem nos visita e que espera encontrar um local atractivo e bem arrumado.
Este bairro tem sido escolhido por muitos casais e revistas de moda para sessões fotográficas, especialmente à noite, devido às características da luz e ao efeito emprestado por todos os edifícios bem restaurados. No entanto, como em qualquer estúdio de «faz de conta», em São Lázaro só temos fachada em muitos dos edifícios. Se olharmos para dentro de alguns deles, vemos que estão em ruínas, apenas se mantendo o aspecto exterior com alguma dignidade.
Nesta zona da cidade vive gente (famílias) desde há muitos anos, porventura até há várias gerações. Tal não se coaduna com fachadas arranjadas. É necessário, de uma vez por todas, que a intervenção seja feita na totalidade e em toda a área há inúmeros prédios, de estilo semelhante ao daqueles que se encontram na rua principal, que precisam urgentemente de restauro completo para poderem ser mostrados à população e a quem ali se desloca para conhecer uma zona histórica. Para fachadas e «faz de conta» já basta a Veneza no COTAI.
Outro dos problemas graves que se pode ver na zona prende-se com o lixo. Na Rua do Volong, junto da Escola de Música do Conservatório de Macau, encontram-se uns contentores de lixo que continuamente cheiram mal. Mais à frente, o pessoal de limpeza das ruas deixa abandonado o seu material de trabalho (carrinho de mão e vassouras) no meio do passeio, preso com correntes, não vá alguém querer roubar tão precioso equipamento! No espaço que medeia estes dois locais, há sempre um rasto de líquido putrefacto e outros detritos, acumulando-se os maus cheiros e a falta de salubridade. Aliás, quem por ali passa pode inclusivamente observar que há até mesmo ratoeiras para roedores, tal deverá ser a proliferação de tais bichos, devido à falta de higiene. Algumas vezes, passando por ali, já vi mesmo turistas mudarem de passeio, por não suportarem o mau cheiro que emanava do local em dias mais quentes.
Será este o postal que se quer para São Lázaro?

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

«Verdades» tiveram razão

RECENTEMENTE tem-se falado das reformas políticas no território, ouvindo os dois lados da barricada a advogarem as suas diferentes posições: uns – os que se opõem a qualquer reforma nesse sentido, – dizendo que a RAEM não estará ainda preparada; outros, os defensores da introdução de medidas democráticas, dizendo que já é mais do que tempo para avançar com as medidas previstas de reforma.
Pessoalmente, tenho uma visão relativamente à democracia em Macau e na Ásia que deverá interessar a poucos, pois não creio que ela possa funcionar nos moldes em que é concebida no mundo ocidental. Sendo a democracia a voz da população, gostaria de salientar, no entanto, um recente avanço numa polémica que, há já algum tempo, se arrastava.
Lembram-se, certamente, de ter visto nas páginas dos jornais o conflito entre os moradores da zona da Calçada das Verdades, no centro da cidade, e a Direcção dos Serviços dos Assuntos de Tráfego, relativamente ao estacionamento ilegal em toda aquela área. A troca de galhardetes arrastou-se por meses, com várias decisões tomadas à revelia pelas autoridades e os moradores a manterem sempre firme a sua posição.
Primeiro, reinava uma total anarquia, com motorizadas e carros estacionados em todo o lado, impedindo mesmo alguns moradores de abrir as portas dos próprios apartamentos do rés-do-chão. Depois, os serviços competentes, após várias queixas, decidiram criar locais de estacionamento demarcados. Mas de pouco serviram porque, como se pode ver um pouco por toda a cidade, tais demarcações não são respeitadas, e as autoridades nada fazem para corrigir a situação. Para o confirmar, basta referir, por exemplo, o que se verifica nas traseiras do Consulado Geral de Portugal, vendo as motorizadas ali estacionadas, ao lado de uma das caixas de ponto da polícia, sem que tenham uma única multa.
O arrastar do problema das Verdades, com o constante perigo para a saúde, e com os moradores a continuarem com as suas queixas, não deixou outra opção às autoridades competentes que não fosse ir ouvir o que tinham para dizer e sentar-se à mesa.
As reuniões com os moradores e seus representantes repetiram-se por diversas vezes, com os residentes no local a insistir que as ruas deveriam ser fechadas ao trânsito motorizado, deixando sempre a quem ali vive a possibilidade de estacionar, como sempre fizeram.
Em Macau fazem-se auscultações para tudo e para nada. O que acontece, porém, como criticam os nossos representantes na Assembleia Legislativa, é que as opiniões da população acabam sempre por cair em saco roto, sendo as verbas despendidas no processo auscultativo um desperdício de dinheiros públicos.
Desta vez, ainda assim, parece que o Governo foi mesmo ao encontro daquilo que os moradores sempre pediram, tendo ficado a primeira, a segunda e a terceira ruas com trânsito completamente proibido, e a quarta com trânsito condicionado a moradores.
Os condutores ainda não se habituaram à ideia, como pude verificar num destes dias, quando por ali passei e vi um agente da autoridade a multar algumas motorizadas estacionadas ilegalmente. Noto que a situação melhorou muito, quando comparada com o que se passava há algumas semanas. Os residentes da zona agradecem a melhoria da qualidade de vida.
A pergunta que fica, e que muitos fazem, é esta: por que razão os responsáveis levaram tanto tempo a decidir o que os moradores sempre pediram? E, por outro lado, por que razão o Governo não actua sempre da mesma forma? Se neste caso ouviram as pessoas envolvidas e foram ao encontro dos seus anseios, por que não aplicam a mesma fórmula noutros casos? Será que tem que se deixar a impressão de haver dois pesos e duas medidas, consoante a área da cidade ou o problema que se tem de resolver?
Certamente, se a postura fosse sempre a mesma, constante e clara, os moradores não teriam tantas razões de queixa, relativamente às decisões tomadas pelos governantes.
Não há dúvida que dar voz à população é a melhor forma de democracia que se pode pedir.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sócrates o Mestre

Então nós temos um Primeiro-ministro que é mestre e ninguém sabia de nada? É preciso virem os amigos americanos dizerem-nos que o Sócrates se licenciou em Engenharia Civil em Coimbra e tirou um mestrado no Instituto Universitário em Lisboa!!!
Afinal, para que precisou de tirar o curso de engenharia à pressa e causar toda aquela polémica com o exame de domingo?

http://www.worldleaders.columbia.edu/participants/jos%C3%A9-s%C3%B3crates-0

José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, commonly known by his given names José Sócrates, is the prime minister of Portugal and secretary-general of the Socialist Party. Sócrates first became prime minister in 2005 and was re-elected in 2009.
He was born in 1957 and spent his early years in the city of Covilhã. At the age of 18 he went to Coimbra, where he earned a degree in civil engineering. He received an MBA in 2005 from the Lisbon University Institute.


Numa tradução livre:
“José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, normalmente conhecido José Sócrates, é o Primeiro-Ministro de Portugal e secretário-geral do Partido Socialista.
Sócrates foi eleito Primeiro-Ministro, pela primeira vez, em 2005, tendo sido re-eleito em 2009.
Nasceu em 1957 e passou os primeiros anos da sua vida na cidade da Covilhã. Aos 18 anos rumou a Coimbra, onde tirou um curso de Engenharia Civil. E recebeu um MBA em 2005 pelo Instituto Universitário de Lisboa.”

sábado, 11 de dezembro de 2010

Falar quando há algo para dizer

NA última deslocação que o Primeiro-Ministro de Portugal, José Sócrates, fez à Região Administrativa Especial de Macau, alguns dos «importantes» da terra ficaram indignados pelo facto de este não ter dirigido a palavra à comunidade portuguesa.

Pessoalmente, não me interessa nada que o Primeiro-Ministro, seja ele de Portugal, da China ou de qualquer outro país, venha a Macau e nos dirija a palavra (falo como residente). O que me interessa mesmo são actos e acções. De palavras e boas intenções estou cheio e, penso eu, será este o sentimento da maioria da comunidade radicada ou nascida em Macau.

Se Sócrates veio a Macau e não dirigiu a palavra à comunidade portuguesa, deverá ter sido porque não tinha nada de importante para dizer e, quando assim é, mais vale estar calado. De palavras ocas estamos todos fartos, pois sempre que por aqui passa um qualquer dirigente de Lisboa ouvimos um rol de promessas que nunca são cumpridas.

De que serve dirigir a palavra à comunidade se, logo após entrarem no barco para Hong Kong (sim, porque já nem voos de Lisboa para Macau temos), se esquecem de que existe uma comunidade significativa neste território?

Quem aqui vive e tem raízes em Portugal espera mais do Executivo de Lisboa; pelo que me toca, vivo muito bem sem que eles se preocupem. Não me pagam «tachos», nem conto com o Governo de Portugal para a reforma ou qualquer outro tipo de apoio; portanto, se aqui querem vir e não falar, tanto melhor!

Por outro lado, acho de completo mau gosto que um dignitário de Portugal venha a Macau e apenas convide uma parte da comunidade para se encontrar com ele. Se vem em representação do País, deveria «honrar» com um convite ou, no mínimo, com um encontro aberto, todos aqueles que possuem um passaporte de Lisboa. O facto de ter convidado apenas uma «elite» demonstra, de facto, a forma como olham para quem aqui tenta dignificar o nome do País.

Há muito deixei de participar em reuniões que tenham lugar no Bela Vista, pois considero que apenas se realizam para a fotografia e nada mais significam. Há outras formas de mostrar à comunidade de nacionalidade portuguesa (não nos podemos esquecer que são umas centenas de milhar), que Lisboa não os esqueceu.

Relativamente aos encontros no Bela Vista, havia quem os caracterizasse como sendo um óptimo local para beber bom vinho e comer maus aperitivos «à pala»! Como sou mau de estômago, prefiro beber bom vinho em casa e confeccionar os meus aperitivos. Assim poupo nas azias!

Para que Lisboa nos ouça, temos o Consulado Geral de Portugal, cujo trabalho, se exceptuarmos alguns funcionários que deixam nódoa na folha de serviço por serem arrogantes, apresenta um saldo muito positivo. A destacar, sem dúvida, o nosso cônsul, que tem sido hábil nos contactos e tem feito intervenções bem medidas em prol dos portugueses e da presença da cultura portuguesa em Macau.

Também a Casa de Portugal, apesar de ser uma associação particular, tem tudo feito para elevar bem alto a presença lusa nestas terras. As iniciativas estão à vista e são muitas, e quem lidera a associação só não faz mais, porque faltam os meios para isso.

Para além destas duas instituições, não nos podemos esquecer também as de cariz mais local, como a Associação dos Macaenses, a qual, embora direccionada para os «filhos da terra», nunca esquece a sua portugalidade. Isso mesmo o seu presidente, Miguel de Senna Fernandes, faz questão em manter. É o que sucede com a também local APOMAC, mais voltada para os aposentados, mas, apesar de zelar pelos interesses dos seus associados, nunca renunciou às características lusas que a viram nascer.

Por último, não gostaria de deixar passar a oportunidade de referir também a ATFPM, dos funcionários públicos e dirigida por José Pereira Coutinho e Rita Santos. Antes de mais, ela assume-se como uma associação de cariz português, embora a sua mais importante missão seja a defesa dos interesses dos funcionários públicos. Esta deverá ser, sem dúvida, a associação de Macau que mais membros tem com nacionalidade portuguesa, sem esquecer que o seu próprio presidente é também membro do Conselho das Comunidades Portuguesas, em representação de Macau.

Sem querer estar a enumerar todas as associações e clubes de cariz português, penso que estaremos bem representados enquanto comunidade. Pelo que não precisamos que venham de Lisboa dar-nos música…

Que venham e fiquem bem caladinhos! É melhor do que virem e, ao abrirem a boca, acabarem por sair asneiras...

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Laranjas com produto tóxico (for Eng use the link)

Um aviso que vem de Xangai mas que pode muito bem ser aplicado em Macau. As laranjas à venda podem estar contaminadas com uma cera tóxica.
As autoridades de Xangai ordenaram que os vendedores de fruta parassem de comercializar laranjas por suspeitas de uso de uma cera tóxica. A notícia está a ser veiculada pela imprensa do continente como sendo um dos últimos escândalos de segurança alimentar.
O Governo de Xangai está a realizar testes nas laranjas depois de consumidores se queixarem que a pele ficava vermelha depois de estar em contacto com as laranjas compradas em alguns mercados da cidade, lia-se no Oriental Morning Post.
As ceras industriais podem afectar os cérebros dos humanos, o sistema imunitário e causar problemas respiratórios avança o jornal.
“Os guardanapos (de papel) ficam vermelhos quando se limpa a pele e se segurar a laranja na mão esta fica vermelha”, afirmou um consumidor de nome Hu.
Um vendedor não identificado no mercado abastecedor de produtos agrícolas disse ao jornal que algumas laranjas eram tratadas com esta cera industrial tóxica para “que parecessem mais frescas e pudessem ser vendidas a um preço mais alto”.
As autoridades de Xangai ordenaram a todos os vendedores que retirassem dos pontos de venda todas as laranjas enquanto os testes decorrem.
Até ao momento ainda não foi apurado se as laranjas estavam a ser tratadas com a cera tóxica pelos vendedores ou pelos produtores na provincial de Jiangxi.
O Governo chinês está cada vez mais sobre pressão, tanto dos seus cidadãos como de países como os Estados Unidos da América para que melhorem os parâmetros de segurança alimentar e dos medicamentos.
Fica a questão para Macau. Será que nos nossos mercados também estão a vender deste tipo de laranjas?
Ler aqui no Channel News Asia.

NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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