Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Maltratado

DEVE ter notado que deixei de trazer a estas páginas assuntos relacionados com a CTM e o seu péssimo serviço. Tal, involuntariamente, deveu-se ao reconhecimento de que nada iria mudar apesar de, no início e quando ainda havia alguém de língua portuguesa preocupado na estrutura da empresa, muitas promessas terem sido feitas.

A verdade é que o serviço da CTM continua tão mal que só as concorrentes conseguem fazer pior! Mas, qualidade, ou a total ausência dela, à parte, a verdade é que na CTM pouco ou nada há a salientar pela positiva.

A minha última experiência nas instalações da companhia deveu-se ao processo que, paulatinamente, tenho vindo a desenvolver, tendo em vista a total desvinculação dos seus serviços. Dado ainda não haver outra opção para a Internet e para o telefone fixo (apesar de já ter sido adjudicada, infelizmente ainda temos de «gramar» com serviços de baixa qualidade e somos obrigados a pagar dos preços mais altos do mundo). Tudo, claro, com a conivência do nosso Governo e da direcção que regula as telecomunicações.

Como se sabe, a CTM já não tem como accionista qualquer empresa portuguesa. A Portugal Telecom vendeu a sua participação há já algum tempo, ficando assim de fora dos destinos da empresa. No entanto, o facto de não ter qualquer accionista luso não a isenta da obrigação do uso das duas línguas oficiais de Macau. Mas neste aspecto – reconheço – se há alguém a apontar o dedo, esse alguém é mesmo o Governo que não incluiu nas normas constantes no contrato de concessão tal obrigatoriedade. Afinal, que se pode pedir de uma firma privada quando é o próprio Governo o primeiro a «estar nas favas» para o cumprimento do acordado na Lei Básica e para a promoção do Português como uma das línguas oficiais e pilar do segundo sistema? Já para não falar no completo desinteresse pela cultura lusófona fora daquilo que tem sido feito e que parece mal deixar cair. Penso que para bem entendedor meias-palavras devem bastar, mas este assunto será alvo de outro artigo em breve.

Mas voltando à CTM e à experiência recente que me fez interromper o jejum de críticas ao rol de erros, falhas e falta de consideração pelos clientes:

A ida à loja da empresa deveu-se ao processo de encerramento de uma das contas de telemóvel que ainda tinha na dita operadora. E, como estou de saída de Macau, pedi para que as contas fossem saldadas no momento, ao invés de ter de esperar que fosse enviada a conta – a última suponho – para a morada de casa para posterior pagamento. Receando falhar esse pagamento e como sou cumpridor das minhas obrigações, achei por bem pagar tudo ali na hora: o montante em falta e a respectiva penalização pela quebra de contrato. Depois de todos os formulários preenchidos num dos balcões de atendimento personalizado, o funcionário, pouco satisfeito com o facto de eu estar a cancelar a conta, mandou-me dirigir ao balcão dos pagamentos. Assim fiz e quando ali cheguei a funcionária de serviço (que não verá aqui o nome retratado, mas que bem merecia!...) parecia estar a fazer um grande «frete». Olhou para os dois recibos que tinha comigo e, à «fina força», queria apenas receber o montante relativo ao saldo da conta, gritando, literalmente, que a «outra» conta, relativa à quebra de contrato, tinha de ser paga posteriormente, quando me fosse enviado o recibo.

Tentei, por diversas vezes e tentando não me alterar, apesar de me apetecer meter a mão pelo vidro adentro e apertar-lhe o «gargalo», explicar-lhe que se a CTM não recebesse o montante neste dia, possivelmente, não o iria receber, porque eu estaria de saída do território. Sinceramente, penso que quando falamos para o sistema automático do «hotline» temos mais interacção do que aquela que estava a ter com a dita funcionária.

Depois de muito insistir e de a ouvir vociferar em Chinês do outro lado do vidro, como se o estrangeiro depois de mais de uma década em Macau não percebesse a língua, lá se decidiu a receber o dinheiro. Algo que afirmava, a pés juntos no início, que não poderia ser feito. Pergunto: o que terá mudado ao fim de cinco minutos de gritos e insultos? Será que, entretanto, a CTM alterou os regulamentos internos e passou a aceitar aquilo que a funcionária insistia ser uma irregularidade? Má vontade, pura e simples! Falta de educação e arrogância de quem não sabe fazer mais nada do que aquilo que um par de horas de treino lhe ensinaram a fazer. A ignorância nesta terra anda sempre de mão dada com a arrogância e falta de educação, infelizmente!

Bem sei que a senhora está a seguir ordens e que os seus superiores devem estar muito contentes porque cumpre o que lhe dizem e não levanta ondas com ideias novas. Mas será esse o serviço que queremos de uma concessionária de serviço público que recebe milhões do Governo (indirectamente dos nossos impostos)? Fica muito mal à CTM, mas já estamos habituados, não é?

Nota final: se a CTM realmente quiser apurar o que aqui escrevo, estou na disponibilidade de facultar uma cópia do recibo da conta onde consta o nome da dita funcionária e o local e hora onde aconteceu, visto que deve ter ficado gravado no circuito interno e será fácil comprovar.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Cheias revelam problemas

DURANTE o tempo que estive de férias parece que Macau foi afectado, mais uma vez, por chuvas intensas que voltaram a causar estragos avultados em diversas zonas da cidade. Desta vez, supostamente, foi a Taipa mais afectada, assim como Coloane, nomeadamente as estradas e os terrenos onde decidiram construir a habitação social de Seac Pai Van.

Muitos já dizem que o erro, desde o início, foi mesmo a sua localização! Ao se ter decidido destruir a antiga pedreira, deitando abaixo grande parte da montanha para se erigir habitação social, o Governo voltou a meter o pé na argola. Primeiro, porque a sua localização nunca foi aceite pela maioria da população, particularmente pela população alvo da dita habitação. Segundo, porque todas as evidências apontam para que tenha sido um projecto feito e preparado à medida do agrado dos fortes lobbies da construção civil do território. Ninguém irá corroborar esta afirmação, mas não será muito difícil perceber que terá sido uma decisão tomada à revelia de todas as evidências. Ou será que o Governo pensa que pode estar certo sozinho e nunca erra nas decisões que toma? Acredito que assim possa pensar, se olharmos a muitas das decisões tomadas, mas há-de chegar o momento em que terá de parar e dar ouvidos às queixas.
Como não estou, de forma alguma, ligado à habitação social, económica ou de qualquer outra forma a ser privilegiado, ou prejudicado, pelo citado empreendimento, sinto-me na liberdade de continuar a insistir que a melhor solução teria sido, sem quaisquer dúvidas, a opção de recuperar prédios devolutos e, ao mesmo tempo, reabilitar zonas da cidade para se criar os necessários apartamentos. Ao que parece, e a ver pelas taxas de ocupação, a necessidade da habitação agora concluída não será assim tão premente visto que ninguém, ou quase ninguém, se quer para ali mudar, mesmo com todos os incentivos e toda a propaganda feita por quem decide.
As chuvas fortes de Agosto vieram colocar a descoberto, ao que os acontecimentos indicam, que tudo foi feito em cima do joelho. Apesar de virem dizer que se deveu a alterações morfológicas e outras que tais, a verdade é que as águas não têm para onde ir! Fica a pergunta: então quando se fazem ou planeiam projectos desta envergadura (de salientar que não é só a habitação social, mas sim todo um «bairro» habitacional que também inclui área residencial de luxo) não é normal haver estudos de impacto ambiental, de segurança altimétrica, sistemas de drenagem e de impermeabilidade de solos, etc.? Ou será que foi mesmo tudo feito em cima do joelho, para agradar aos patos-bravos da terra e à sua sede de lucro rápido?
A opção da recuperação de prédios devolutos teria tido um impacto positivo muito maior, revitalizando artérias menos nobres da cidade e oferecendo a possibilidade às pessoas que necessitam de habitação social de não terem de sair do perímetro onde vivem.
Como se sabe a maioria dessas pessoas são da zona Norte, exactamente uma das áreas com maior número de prédios devolutos e em risco de ruína, ou a precisarem de obras de recuperação. Era aqui que o Governo deveria ter investido os milhões que enterraram em Seac Pai Van. Possivelmente teria até gasto mais se optasse pela recuperação, mas o resultado seria, na minha opinião, muito mais positivo. Além de não obrigar a grandes alterações nos hábitos das pessoas necessitadas, também contribuiria para melhorar o ambiente de diversos locais do território.
Compreendo, no entanto, que este tipo de intervenção não agrade muito aos homens das construções porque as margens de lucro, versus o trabalho que tem de ser feito, é muito menor. Além de que envolve muito mais controlo de custos e escolha de materiais de melhor qualidade, enquanto que na construção de raiz vale de tudo um pouco. Aliás, basta ver para a qualidade da construção social e as condições que apresentam escassos meses após terem sido concluídas, sem que ainda tenham sido utilizadas...
As chuvas de Agosto apenas serviram para colocar a nu um problema que é do conhecimento de todos. As obras feitas sem grandes estudos, sérios, preliminares, apenas servem para agradar a alguns e não para resolver os problemas sociais. O resultado está à vista de todos: em vez de resolverem um problema que afecta Macau acabaram por meter a descoberto outro bem pior.

sábado, 7 de setembro de 2013

Quando é realmente importante



ESTAMOS de volta às bancas e é Setembro, mês de eleições em Macau para a Assembleia Legislativa, um período onde ouvimos de tudo. Das promessas mais disparatadas às afirmações mais polémicas que, depois das canas dos foguetes recolhidas no final da festa, acabam por cair no esquecimento, voltando a vida ao normal e ao normal andamento desta cidade que se diz internacional. No entanto, de certa forma, tudo o que envolve as eleições e as suas polémicas vai servindo para nos desviar a atenção do que é realmente importante e que o Governo não quer que as pessoas critiquem ou analisem.

Nos últimos tempos temo-nos esquecido, completamente, dos problemas relacionados com a salubridade pública. A qualidade do ar, da água e da comida que ingerimos. Ninguém se lembra de tentar saber como as obras do metro irão afectar o nosso dia-a-dia e o que está a ser feito para minorar os seus efeitos. Poucos de nós ainda nos lembramos que há bem pouco tempo foi vendido óleo do esgoto na China e que, possivelmente, muito terá vindo para Macau. Ou que paira no ar a esquizofrénica possibilidade de um novo surto de H5N1, desta vez, segundo afiança o «lobby» da farmacêutica, pior do que o anterior e com características de pandemia!
Por outro lado, todos sabemos que alguns candidatos à AL não querem enfermeiros portugueses e que outros querem enfermeiros portugueses. Há para todos os gostos! E sabemos que todos prometem mundos e fundos e que depois nada fazem porque na Assembleia Legislativa, com a actual forma organizativa do Governo, nada ou quase nada se decide. Alguém se lembra de uma proposta de Lei do Governo que não tenha sido aprovada ou de um deputado que tenha visto uma proposta sua aprovada?
Tudo o que vai ao hemiciclo, com a actual constituição de deputados nomeados, eleitos indirectamente e directamente, tem a sua aprovação garantida visto que mesmo que os deputados eleitos directamente se unam e votem contra, nunca serão em número suficiente para bloquear a passagem de uma Lei.
O número total de deputados este ano aumentou para 33, os eleitos directamente passaram a ser 14, os indirectos 12, sendo que os nomeados continuam a ser os sete desde o início da RAEM. No entanto, sendo os eleitos indirectos defensores de interesses intrinsecamente ligados ao Governo, muito dificilmente iriam juntar forças com um hipotético voto massivo dos eleitos directamente contra uma qualquer proposta de Lei mais polémica. Tanto para mais que nos próprios eleitos directamente existem muitos que são, ostensivamente, alinhados com as políticas pró-Pequim.
Tudo o que se ouve e vê em torno das eleições é um autêntico atentado à inteligência dos residentes de Macau. Desde a publicidade/propaganda da Comissão eleitoral que nem sequer respeita as duas línguas oficiais em pé de igualdade, remetendo o Português para segundo nível, apenas com legendas da versão em Chinês (e se o telespectador for invisual?), aos tempos de antena que obrigam o canal português da televisão a passar sem qualquer legendagem ou versão na língua de Camões. É Macau no seu melhor e a tempo inteiro!
Depois do período de férias gostaria de ter regressado e ver a comunidade e o Governo mais preocupados com outras questões. Nomeadamente as questões sociais como a falta de apoios aos mais carenciados e a falta de habitação social condigna. Não aquela que engoliu milhões de patacas e que ninguém quer porque a construíram em Seac Pai Van sem perguntar se a sua localização seria a melhor.
Macau, com tantos prédios devolutos nas zonas antigas, teria tido melhores opções se tivesse optado por renovar esses edifícios, transformando-os em habitações condignas para os mais necessitados, como vem sendo feito em cidades internacionais como Londres, Nova Iorque ou mesmo em Singapura. Mas, claro, como se sabe, remodelar prédios não dá tanto lucro aos construtores civis como a sua construção de raiz...
E os problemas do acesso aos cuidados de saúde e as listas e filas de espera no hospital público que obrigam pessoas necessitadas a terem de optar por serviços particulares se quiserem ser tratados em tempo útil? O hospital da Taipa teima em não aparecer enquanto que o de Macau continua em obras indefinidamente. O número de médicos aumenta mas o problema mantém-se. A falta de qualidade dos clínicos vindos do continente (tirando algumas excepções) não consegue ser colmatada com o aumento do número de efectivos. E o mesmo se aplica aos enfermeiros, mesmo que alguns candidatos eleitorais se tenham insurgido contra a vinda de enfermeiros portugueses. Já agora, alguém me sabe dizer quando foi que chegou o último enfermeiro vindo de Portugal?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Rescaldo antes das férias

VAMOS também entrar de férias, como grande parte da Comunidade Portuguesa de Macau, e aproveitar estes dias de nada fazer para sair do território e encontrar locais mais aprazíveis, de preferência com praia, pouca gente, família e um ar mais limpo e seco! No entanto, antes de irmos, quero deixar-vos com alguns apontamentos do que me tem vindo a apoquentar nos últimos dias. Apesar de estarmos naquela estação a que a Comunicação Social decidiu chamar «silly season», por não haver muito em termos de notícias sérias, aqui em Macau temos tido sorte porque em breve temos eleições, pelo que o Verão tem sido preenchido com peripécias pré-eleitorais. Tem havido de tudo, desde acusações de campanha antes do tempo, a candidatos a oferecerem pacotes de comida com fotografias suas, mas alegando que são dados por associações a que pertencem e que nada têm a ver com campanha. Outros, menos perspicazes, mandam colocar cartazes e painéis publicitários com as suas caras e referências ao bom trabalho que têm feito. Vale de tudo! Mas existem também os que, por falta de meios financeiros, ou falta de jeito para mais algo, enveredam pela crítica e acusação sem grande cabimento, mas populista, sem dúvida. Uma candidata decidiu, sem grande espanto da minha parte, atacar os profissionais da Saúde de origem portuguesa. Ao que se viu parece ter-se saído mal, visto que os enfermeiros portugueses foram rapidamente apoiados pelo Governo. Mas, sendo ela membro de uma associação de peso em Macau, suspeito que haverá mais por detrás das suas afirmações, do que apenas populismo eleitoral. Há muito que desconfio de certos movimentos que vão surgindo de tempos a tempos, mesmo que o Governo venha logo a seguir meter «água na fervura». A verdade é que existe, desde alguns anos, um crescente mal-estar e uma cada vez maior falta de apoio à divulgação daquilo que tem origem portuguesa e os exemplos são cada vez mais e mais visíveis, apesar de secretamente ainda querer acreditar que estou errado, porque a Macau que conheci não é esta que deixo. Outros candidatos decidem apontar armas aos seus concorrentes mais directos e fazem manifestações à porta dos locais onde vivem, como que marcando a posição oposta, apenas não se apercebendo do ridículo da situação. Mas, sendo Macau tão evoluído a nível de consciência democrática, não fico muito admirado se tais manobras derem frutos nas urnas. Mas nem só de peripécias pré-eleitorais se tem vivido nestes últimos dias. O trânsito e os serviços que dele deveriam cuidar, como durante todo o ano, têm estado debaixo de fogo. Sinceramente não consigo ver nenhuma solução airosa para a DSAT. Os erros e enganos têm sido tantos que a única solução deve ser mesmo fechar portas, arrumar a casa, e surgir com outro nome e outras pessoas na liderança. Desde os incontáveis acidentes na Ponte da Amizade e na Ponte Sai Van (não são conhecidas as médias, mas pelo número de avisos que recebo no telemóvel, mais de uma dúzia por dia!), aos problemas com os autocarros de transportes públicos, tudo tem exaltado os ânimos da população. Recentemente escrevi nestas páginas sobre o «Macau Pass», fortemente subsidiado pelo Governo, mas que também pode ser utilizado livremente pelos turistas. Macau deve ser o único local no mundo que tem subsídios de transportes iguais para os residentes e para quem nos visita. Um estado socialista dos transportes onde todos somos iguais!!! Sem esquecermos o facto de que os turistas não pagam impostos, claro, enquanto que a nós, mesmo violando a Lei Básica, nos levam quase um salário por ano. Da DSAT ficou-se também a saber que o problema do trânsito de Macau tem que ser resolvido através dum elaborado sistema que passa por envolver todos os meios de transporte, a que chamam «duplo eixo, dupla via» ou algo parecido, mas que ninguém parece perceber. Nem mesmo eles, desconfio. Entre muitas medidas, preparam-se para investir milhões em equipamentos para convencer as pessoas a andarem mais a pé na cidade. Das duas uma, ou ainda não perceberam que em Macau transpiramos o ano inteiro e que andar a pé é mesmo só de ar condicionado para ar condicionado, ou quem tem criado estas medidas vive fora de Macau e nunca aqui andou a pé nem faz quaisquer planos de o fazer no futuro. Eu percorro cerca de um quilómetro (da Fortaleza do Monte até à Calçada do Tronco Velho) todos os dias e acabo sempre todo transpirado na maior parte do ano. Quem vive em Macau e gosta de andar a pé estaria contente com tais medidas, mas temos de encarar a realidade. Macau é um local quente, húmido e pouco dado a actividades ao ar livre para quem não gosta de andar malcheiroso. Portanto, para a maioria das pessoas que tem de trabalhar diariamente, a hipótese de andar debaixo de calor é muito pouco apelativa. Mas os senhores da DSAT, perante as críticas, parecem fazer ouvidos moucos para esta e todas as outras questões. Esperemos que depois das férias venham com ideias mais apropriadas para Macau…

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Vamos mudar o Património


 vontade de dizer que só mesmo em Macau é que se lembrariam de elaborar uma lei de salvaguarda do património que prevê a deslocação de locais ou estruturas de importância histórica!!!

Pelo que tenho lido ainda não consegui entender muito bem o que querem dizer com tal enormidade. O deputado Cheang Chi Keong, presidente da 3ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, diz que «por exemplo, um imóvel classificado que está num local pode estorvar o desenvolvimento. Trata-se de um imóvel com valor. Por isso é que foi aditada uma norma que prevê o deslocamento para outro local» (!?) Enquanto que o director do Instituto Cultural, Guilherme Ung Vai Meng, é mais cauteloso e afirma que «quando um monumento estiver em risco pode ser transportado para outro local. Mas o nosso conselho principal é que não se deve mexer no património». Valha-nos alguém com algum senso na cabeça porque os que fazem as leis já provaram não o ter.
Na prática, caso esta – repito – enormidade ande para a frente, está aberta a porta para se mudar tudo em Macau e se construir um parque de atracções ao estilo de Shenzhen. Visto ser possível mudar tudo de lugar, em prol do desenvolvimento, e sendo todos os locais onde se situam os edifícios históricos de grande importância em termos de desenvolvimento do território, podem mudar as Ruínas de São Paulo para um parque temático a criar no espaço ainda livre do COTAI. Afinal, na colina onde actualmente estão pode muito bem nascer mais um prédio de luxo e mais um ou dois casinos. E depois – já agora – mudem também o edifício da Santa Casa da Misericórdia porque, aos preços das rendas no Largo do Senado, fazem falta mais umas lojas de perfumes e ourivesarias. Isto claro, se não se lembrarem de remover o Largo do Senado, com Calçada à Portuguesa e tudo, para esse novo parque temático.
Aliás, bem vistas as coisas, a criação de um parque temático para ali meter todo o património classificado até teria as suas vantagens. Por um lado iria libertar espaços na zona antiga da cidade que, como sabemos, carece de locais onde se possa construir. Por outro lado, seria mais fácil para os turistas visitarem tudo ao mesmo tempo; bastava organizar um comboio turístico e faziam o percurso em cinco minutos (ainda ficavam com tempo, à saída, para comprarem os biscoitos de amêndoa antes de seguirem para os casinos).
Mas se vai ser possível mudar os edifícios históricos, caso o desenvolvimento do território a isso obrigue, por que não mudar o Templo de Á-Má, a Casa do Mandarim e todos os outros locais para uma zona que não atrapalhe o desenvolvimento. Para a Ilha da Montanha, por exemplo.
É pena que Macau, com tanto dinheiro e com tantos cérebros, apenas surja com ideias que não lembra a ninguém. Mesmo a posição de Guilherme Ung Vai Meng, que sendo mais cauteloso diz que apenas apoiam no caso da «coisa» de valor histórico estar em perigo, não deixa de ser caricata e descabida. Em qualquer parte do mundo com uns dedos de bom senso a solução seria modificar a situação para que o património deixasse de estar em perigo; não seria mudar o património para evitar a situação.
Há exemplos em todo o mundo: as pirâmides no Egipto foram alvo e continuam a ser alvo, quase anualmente, de trabalhos de manutenção para as proteger da erosão. A Torre Eiffel é reparada frequentemente para que a corrosão da estrutura não afecte a totalidade do monumento – está localizado em terreno instável, o que faz com que sofra mais em termos de danos estruturais. No entanto, Paris nunca pensou em mudar a torre de sítio. Assim como os Jerónimos em Portugal, que devido à sua proximidade com o rio e o mar sofre com os altos níveis de salinidade, sem que Lisboa pensasse em mudar o mosteiro para o interior. Ou, ainda, a Grande Muralha, já que se gosta tanto de olhar para o «continente», que tem problemas de erosão e de instabilidade em milhares de locais, mas que nunca foi sequer equacionada a sua mudança de local.
Entristece-me que, só em Macau, se pense assim. É uma pena que numa terra onde abundam verbas (para já...) não haja capacidade para fomentar uma massa criativa e pensadora que tenha ideias que realmente possam ser aplicadas e tragam valor acrescentado. Que consigam sentar-se a uma mesa e delinear uma estratégia de longo prazo, em vez de medidas avulsas que nada fazem e que apenas contribuem para sejamos chacota a nível internacional e para que continuem a olhar para Macau como um depositário de casinos onde hordas de chineses vêm esbanjar milhões ganhos por meios menos lícitos.
Mas prestem atenção aos próximos tempos, porque esta medida incluída na nova lei pode estar a preparar caminho para removerem as Portas do Cerco, devido às obras do Metro Ligeiro… Nada se confirma mas, como se costuma dizer, não há fumo sem fogo! Espero estar enganado, mas se se confirmarem os meus receios, é pena!

sábado, 3 de agosto de 2013

Macau Pass para turistas?

DURANTE estas últimas semanas da legislatura muito se tem falado dos transportes públicos, com os deputados a interpelarem a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego sobre todos os assuntos que tem sob a sua alçada, com grande incidência no trânsito caótico, na completa falta de regulação do licenciamento de autocarros de turismo e, o assunto mais focado, os transportes públicos e as suas concessões.

Desde a entrada em funcionamento da terceira operadora de transportes públicos os serviços nunca mais se endireitaram. Quem se lembra do concurso em si deve recordar-se do caricato episódio do atraso, de alguns minutos, na entrega dos documentos por uma das empresas concorrentes. Um episódio que há-de ficar para sempre nos anais da história de Macau como o concurso que nunca o foi. É que a empresa, neste caso a TCM, de acordo com os regulamentos, deveria ter sido expulsa. No entanto, e porque valores mais altos se devem ter levantado por detrás de portas fechadas, lá conseguiram arranjar forma para que a mesma empresa fosse admitida, partilhando uma das concessões com a Reolian, a nova operadora a entrar no mercado, que ficou, desde aí, «marcada».
Então eram para ser apenas duas licenças mas, à semelhança do que aconteceu com as licenças de jogo, houve o milagre da multiplicação, passando a três operadoras e outras tantas licenças. No jogo, segundo tinha sido anunciado, eram para ser três, hoje já lhes perdi a conta...
Como diz a sabedoria popular, o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Tarde já não parece que vá ser, só nos resta a certeza de que nunca se irá endireitar.
Desde então que os problemas se têm vindo a agravar com as críticas da população a serem cada vez maiores e com a DSAT a ter cada vez menos argumentos para explicar tantos problemas e tanta falta de comprimento do estipulado nos contratos.
Tem havido problemas com a segurança, certamente que se recordam dos acidentes; tem havido problemas com a manutenção, com diversos autocarros que deveriam ter sido abatidos a voltar a serem chamados à circulação, porque os novos comprados na China não aguentaram mais do que um ano de actividade; e tem havido problemas com as emissões de poluentes, visto que apenas se exigia o sistema EURO IV, quando aqui ao lado na China o mínimo é já o EURO V e em Hong Kong o EURO VI.
Bastava olhar para Hong Kong e copiar. É que ali não se aceitam outras marcas que não sejam europeias, americanas ou japonesas para os autocarros de passageiros.
Mas, na minha opinião, o maior problema de todos, não menosprezando todos os referidos claro (!), é o Macau Pass.
Recuando ao ano 2001, ano em que o Macau Pass foi lançado, substituindo o antigo passe da Transmac e da TCM, foi anunciado como o «Octopus» de Macau, tendo o Governo de imediato tomado a dianteira na sua promoção. Algo que, aos meus olhos, já na altura, me pareceu estranho, visto que o Governo nada ter a ver com o dito Macau Pass. O mesmo é detido por uma empresa privada controlada pela família, se não estou em erro, Ma Man Kei! O que por si só explica muita coisa…
A verdade é que o Macau Pass, na sua ideia original apoiada pelo Governo até seria algo de muito positivo, visto que facilitaria o apoio governamental ao subsídio dos transportes para os residentes de Macau, havendo mesmo cartões especiais para estudantes, pessoas da terceira idade e outros residentes. Ainda me lembro que quando adquiri o meu cartão tive de preencher um formulário com todas as minhas informações e número do bilhete de identidade, na loja da Rua Formosa.
Para surpresa minha, e porque recentemente tive de ir comprar um novo cartão por ter perdido o que tinha adquirido logo no início do programa, tal obrigatoriedade de identificação já não é necessária. Aliás, agora pode-se mesmo adquirir o cartão em qualquer loja de conveniência pelo preço de 130 patacas, sendo que trinta patacas são para pagar o próprio pedaço de plástico e o restante é crédito.
Até aqui não haveria problema nenhum, não fosse o facto de agora ser possível a todos os turistas também terem acesso aos transportes públicos subsidiados pelo Governo tal e qual um residente de Macau que pague os seus impostos e aqui trabalhe e viva!
Há mesmo quem aponte o dedo a esta lacuna como a grande responsável pelo facto dos autocarros andarem sempre a abarrotar, visto que os turistas, sabendo que podem andar pagando uma tarifa muito mais reduzida, aproveitam esta oferta do Governo de Macau, deslocando-se para todo o lado nos autocarros públicos, dificultando a movimentação dos residentes que contam com este meio de transporte para ir trabalhar.
Claro que para a empresa que detém o Macau Pass, tanto lhe faz que sejam turistas ou residentes a usar o cartão. Quantos mais venderem, e mais forem usados, mais ganham do Governo!
Cabe ao Governo, e neste caso à DSAT, exigir números oficiais e criar um mecanismo de identificação dos utilizadores do cartão Macau Pass, para que os subsídios acabem por ser canalizados para quem tem o direito de os utilizar.
Quando vamos a Hong Kong e usamos o «Octopus» não temos direito a qualquer subsídio do Governo da RAEHK!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Governo nada faz (nas obras ilegais privadas)

TEMOS ouvido falar nos últimos dias dos problemas no «Flower City» e na insatisfação dos seus moradores, devido a alegadas alterações estruturais feitas pelo «Park’n Shop» para instalar o seu supermercado, andando, há vários meses, as partes a atirar a culpa para o lado e a «sacudir a água do capote» sem que nada se resolva. Recentemente, o Governo veio a público dizer que iria realizar um estudo (mais um!) e que depois das conclusões a empresa responsável pelo supermercado teria dois meses para repor a legalidade e fazer as reparações necessárias. Entretanto, até lá, os moradores continuam à espera e a viver em condições perigosas, segundo dizem. Pouco satisfeitos por terem de esperar pelo estudo e mais dois meses para a sua implementação.

Estou a falar sem ter conhecimento de toda a situação e sem saber quais as condições no interior dos apartamentos do prédio em questão. No entanto, os moradores asseguram que até infiltrações apareceram depois das ditas obras que alteraram partes da estrutura do prédio.
Isto, pelo que se sabe, é usual em Macau e não me parece que o Governo faça alguma coisa para resolver o assunto. Esperem, pois, pelo relatório e estudo para ver as recomendações! O conselho que dou aos moradores é fazerem as reparações necessárias para assegurarem a segurança e integridade das habitações, pois se estiverem à espera do Governo, esperem sentados! Depois, avancem para tribunal, acusando também o próprio Governo.
Numa escala mais pequena o mesmo acontece no meu prédio, onde o terraço está cheio de construções ilegais (ainda há duas semanas vi ser carregada uma caleira para o terraço que nem sequer cabia nas escadas) e têm aparecido infiltrações nas paredes do edifício, danificando tudo quanto encontra pelo caminho. O dito terraço já foi inspeccionado várias vezes, mas quem ali vai diz nada de ilegal se passar. O prédio, de acordo com o registo predial, tem cinco pisos, mas se lá forem ver o terraço, contarão seis...
Num dos quartos do meu apartamento já perdi a conta das vezes que reparei a parede e o tecto para tentar mantê-los em condições aceitáveis. Já fiz queixa ao Instituto de Habitação, às Obras Públicas, etc. De nada valeu! Não quero dizer que nada fizeram, porque pelo menos deram-se ao trabalho de se deslocar para avaliar a situação, no entanto, nada fizeram para que o problema fosse resolvido.
Da última vez que ali se deslocaram os técnicos fizeram medições de humidade, integridade das paredes, etc., tendo concluído que grande parte do problema vinha de uma fissura entre os dois prédios por onde entrava água e se infiltrava para as paredes dos apartamentos. Quando lhes perguntei pela solução, encolheram os ombros, até hoje!
A solução que muitos têm encontrado no prédio é a de venderem enquanto os preços estão altos. Solução que não me agrada, visto que se vender (se bem que vale quase cinco vezes mais do que o preço que estou a pagar ao banco) nada poderei comprar da mesma qualidade e na mesma zona. É que eu, ao contrário de muitos dos outros proprietários, comprei para viver, não como investimento ou para arrendamento.
Mas o prédio onde vivo não é exemplo único. Olhando da minha varanda para o outro lado da rua vejo um prédio que tem, pelo menos, um andar ilegal. E é tão evidente o seu peso que entre o rés-do-chão e o primeiro andar (todos os andares têm uma face saliente em relação ao piso térreo) foram obrigados a colocar uma estrutura de ferro, tipo umas escoras (!) para evitar que se incline mais para a frente tal não é o peso que tem nos pisos superiores. Não se vê? Só quem não quer é que não vê o problema. A razão de assim continuar prende-se com o facto de ali não viver qualquer proprietário, todos os apartamentos, pelo que consegui apurar, ou estão devolutos ou são arrendados. E, sendo arrendados, quem paga a renda nada pode fazer se o proprietário não tomar a iniciativa, pelo que a situação se arrasta sem que ninguém ponha termo à ilegalidade. Infelizmente, esta é a realidade de Macau.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

É um orgulho

SÃO seis décadas e meia cheias de histórias, altos e baixos, que ficarão – para sempre – na memória colectiva de Macau. O jornal onde lêem estas linhas é um ponto incontornável na história da Imprensa e da própria história de Macau, tendo estado presente em acontecimentos em que nenhum outro, ainda no activo em língua portuguesa, tenha estado. Desde o famoso incidente do 1,2,3 à Guerra do Pacífico ou à Segunda Grande Guerra, O CLARIM passou por todos e informou sempre com isenção e imparcialidade.

É com honra que colaboro a tempo parcial com este marco da história de Macau e com orgulho que guardo memórias de pessoas que por aqui passaram e que já nos deixaram, infelizmente. Lembro-me, invariavelmente, do Josué da Silva, um comunista convicto que trabalhava para um jornal católico!... Ou do tão conhecido e acarinhado professor Silveira Machado, que nos deixou mas que fez questão de legar uma vasta colecção de textos e manuscritos sobre a história e vivência de Macau. Muitos outros houve e haverá para continuar esta longa história do jornal católico que, certamente por mim e por outros, serão sempre lembrados e farão parte da história da Comunicação Social recente deste pequeno pedaço de terra tão distinto de tudo o resto que o rodeia.
É muito graças a’O CLARIM que a fé cristã vai tendo uma voz neste território, uma terra cada vez mais obcecada pela ostentação e valores materiais e que se vai esquecendo dos valores da fraternidade e de ajuda ao próximo.
Em alturas de despedidas, não quero deixar de lembrar o padre Albino, seu director desde os anos 80 do século passado, que agora deixa Macau devido a problemas de saúde. Senhor padre, espero que nos possamos vir a encontrar muitas vezes no futuro; ainda tem muito para dar a quem o conhece. Aproveite este descanso agora para escrever e deixar as suas memórias para as gerações vindouras, pois se não o fizer perde-se um valoroso espólio de vivências que – acredito – conhecendo-o, como conheço, não quererá que aconteça.
Padre Albino, sei que deixa Macau com um nó na garganta. Quem não o faria, depois de uma vida dedicada a esta terra e a ajudar quem nela mais necessita!? Não o censuro por isso e tento compreender a sua mágoa. Apenas me resta dizer que estarei sempre disponível para as suas conversas, seja sobre o que for. E foram muitas ao longo destes anos.
Dos 65 anos d’O CLARIM, e da sua respeitável idade, fica-me um rancor para com alguns poderes instituídos. Continuo sem perceber como é que os debates feitos na televisão do território, paga pelos nossos impostos, um canal que deve ser plural e aberto a todos os pontos de vista, continuam a ignorar O CLARIM, não chamando um seu representante para fazer parte do painel que semanalmente opina sobre o que acontece na região. Que mais não fosse pela sua maioridade, O CLARIM merece estar ali representado. Simplesmente não existe desculpa para tal!
Macau tem as suas peculiaridades e formas de actuar, no entanto, O CLARIM sempre foi capaz, ao longo das décadas, de fazer frente a esses ímpetos que tinham como intenção calar a sua voz. Os exemplos ao longo dos anos foram muitos e mesmo recentemente todos presenciamos algo desse género. No entanto, o jornal continua e irá continuar por muitos mais anos, assim o esperamos porque é necessário à pluralidade das vozes e pontos de vista no território.
São dez anos da minha colaboração nestas seis décadas e meia d’O CLARIM, um marco importante na minha colaboração que me deixa orgulho e que espero possa perpetuar por mais uma década.
A todos quantos nos lêem, apraz me dizer que é com prazer que escrevemos e que semanalmente levamos até si o nosso trabalho. Esperamos que, da mesma forma que nos dá prazer, seja do vosso agrado. E, caso não seja, que manifestem as vossas opiniões para que possamos evoluir e ir ao encontro daquilo que o nosso leitor realmente quer.
Muito obrigado!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O que fazer sem dinheiro?

SÃO sinais contraditórios, ou é apenas minha imaginação, quando ouvimos o Governo dizer que quer promover o uso do Português e dá milhões a associações, muitas delas lideradas por influentes pessoas na sociedade local e ligadas de uma forma, ou de outra, à promoção das lusofonias, e depois fecha escolas que ensinam nas duas línguas oficiais, sem dar grandes satisfações, desde a criação da Região Administrativa Especial.

Como foi feito público, recentemente o Governo decidiu fechar o Jardim de Infância Luso-Chinês, Peónia, um dos dois últimos ainda sob a alçada do Governo. No entanto, poucos dos leitores se devem lembrar que, desde 2003, mandaram encerrar os infantários luso-chineses, Narciso e Sir Robert Ho Tung, Lótus e Tamagni Barbosa. Isto pouca ou nenhuma cobertura recebeu da Comunicação Social do território. Sem que nenhum novo tenha aberto em nome do ensino público gratuito e sob a alçada do Governo.

Quando se fala na gritante falta de vagas no ensino dos mais novos, parece ser um contra-senso mandar encerrar instalações do Governo, quando este mesmo tem obrigação de providenciar lugares para os residentes matricularem os seus filhos em idade de frequentarem os primeiros anos de escola. Quem queira escolher ter os filhos no ensino luso-chinês acaba por não ter opções no público, sendo obrigado a optar pelo ensino privado, com ou sem apoios do Governo. Sendo, literalmente, obrigado pelo Governo a dar dinheiro a privados, quando o mesmo Governo tem obrigação de garantir ensino gratuito e universal aos seus residentes.

Certamente que esta coincidência de acasos é mais falta de coordenação do que concertação, para que o ensino passe todo para mãos de privados. Mas, para quem olha de fora sem ter acesso a muitos pormenores, a sensação que fica é que o Governo nada faz para promover o uso e ensino das línguas oficiais. Apenas se limita a entregar milhões a diversas escolas privadas e associações que foram criadas para o efeito. Isto apesar de andar constantemente a apregoar que há uma sincera aposta no desenvolvimento da divulgação do Português no seio da sociedade local, visto ser também língua oficial.

Não seria obrigação do Governo garantir, pelos seus próprios meios, o ensino gratuito e universal aos residentes nas duas línguas oficiais em todos os anos lectivos e de forma a que houvesse diversas opções e sem que os residentes se vissem obrigados a ter de optar pelo ensino privado, ou semi-privado, subsidiado pelos dinheiros públicos?

A solução de pagar às escolas privadas para fazer o trabalho que devia ser do Governo pode funcionar por agora, porque ainda há dinheiro. No entanto, já se pensou quando o dinheiro acabar? Qual será a formula então para garantir o ensino nas línguas oficiais de forma gratuita aos residentes? Não me parece que quando não houver dinheiro que as escolas privadas estejam interessadas em assegurar esse serviço!

Em Macau estamos a atravessar uma época de desafogo financeiro mas, como em todos os ciclos económicos que os especialistas de Economia têm vindo a explicar, há altos e baixos. Os anos dourados de Macau e da abundância, certamente, não irão durar para sempre. Aliás, convém não ter memória curta e olhar para o inicio do século, aquando do nascimento da RAEM. Nessa altura estávamos a atravessar uma crise que se foi agudizando até meados de 2005. Apenas a partir daqui o ciclo se inverteu e deu origem a esta pujança que agora estamos a viver.

Governar com dinheiro é fácil, o que define os bons governantes é a resposta que conseguem dar em tempos de falta de recursos. Quando em época de «vacas gordas» não conseguem fazer uma política educativa que se consiga sustentar, nem quero imaginar o que se irá passar quando as torneiras dos cofres estiverem secas e houver falta de recursos...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Presidente e consultor

 mesmo em Macau é que não nos admiramos que haja pessoas que se apresentam como presidentes de associações de protecção ambiental e que, ao mesmo tempo, são proprietárias de empresas de consultoria na mesma área de actividade e de interesses.

O caso de Ho Wai Tim, que todos conhecemos como «acérrimo» defensor das causas ambientais de Macau, desde mangais a garças, é disso um fiel espelho. É que o senhor, além de apologista de tudo quanto é verde e de cariz ambiental, parece que também dá pareceres a empresas envolvidas em projectos que necessitam de estudos de impacto ambiental, alguns deles polémicos. Assim como também se envolve em casos polémicos que nada têm a ver com ambiente, como foi o caso da iniciativa que apelava à demolição do Clube Militar.
O caso que veio a público no campo ambiental é o famoso empreendimento que envolve a Casamata Portuguesa, ali à entrada da Vila de Coloane. 
Segundo o estudo do «ambientalista» – encomendado pelo dono da obra, – afinal o impacto não é assim tão grande e até apontou, numa das últimas edições do programa de rádio «Fórum Macau», o dedo a empreendimentos do Governo (como o túnel de Ká-Hó) de atentarem mais contra o ambiente do que a obra do seu «cliente». Pudera! Os cifrões nesta terra contam muito e fazem-nos mudar de opinião rapidamente.
Quando foi confrontado com a incompatibilidade da presidência da Associação Ecológica de Macau e a propriedade de várias empresas de consultoria ligadas ao ramo da protecção ambiental e, mais em concreto, relativamente ao caso da obra em Coloane, Ho Wai Tim foi rápido a «sacudir a água do capote», dizendo que não fala de assuntos pessoais, muito menos de assuntos que envolvem as suas empresas. Deve ser um pouco difícil de explicar, não é?
Os seus pares na defesa da ecologia não estão pelos ajustes e não se coíbem de tecer largas críticas ao facto de ser ele o responsável pelas empresas que realizaram os estudos de impacto ambiental do caso em questão. Indo mesmo mais longe e tecendo críticas à absurda proposta que fez para contrabalançar a perda de património que a obra pode vir a representar. Segundo afirmações suas, no dito fórum da Rádio Macau, o projecto à entrada em Coloane, de acordo com o seu estudo de impacto ambiental, podem vir a causar danos na colina mas, no entanto, garante que os empresários responsáveis pelo investimento se comprometem a construir jardins suspensos – tal Babilónia em Macau, digo eu, – para compensar a perda do ambiente natural.
Ah, pois... acaba-se com aquilo que a natureza levou milhares de anos a construir para nos enfiarem com uns vasos e canteiros suspensos, vá-se lá saber com quê e para quê!? Uma solução Babilónica à Macau, é o que me apetece dizer, visto que, para o «especialista/presidente/consultor», até irá aumentar a percentagem da cobertura verde em Coloane.
Mas de nada nos surpreende, visto que tal é feito amiúde nesta terra. Veja-se o que se fez no COTAI, onde antes era água e habitat de tantas espécies animais. Aterrou-se tudo, fizeram-se grandes obras babilónicas, criaram-se jardins interiores e até canais com gôndolas. Metro por metro, possivelmente até temos agora mais área verde mas, com tanto artificialismo, será que é mesmo igual? Será que temos de nos contentar com «natureza» artificial, quando ainda temos alguma natural que deve ser preservada a todo o custo?
Ou será que o dinheiro em Macau vai continuar a falar mais alto e a ditar as regras de todo o jogo, sem que a restante população seja tida ou achada?
Devemos olhar um pouco para fora, e com as devidas distâncias, tirar alguns ensinamentos das manifestações que vão ocorrendo um pouco por todo o mundo. Em Macau vivemos uma época de abastança, em contraponto à economia mundial, mas tal não deve servir de desculpa para que deixemos os senhores do dinheiro fazer tudo o que querem.
Macau precisa de uma sociedade crítica e participativa. Que venha para a rua, que faça barulho e que exija que os seus direitos e qualidade de vida sejam mantidos. Vir para a rua pedir demissões ou mais apartamentos pode ser um passo, mas não pode ficar por aí. É preciso ter consciência que a qualidade de vida passa, e tem sempre de passar, por haver natureza e locais onde as nossas crianças possam respirar ar puro.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O que conta é a independência

VAMOS hoje falar de um tema para o qual nunca dei muito do meu tempo, mas que deve merecer toda a nossa atenção como cidadãos de pleno direito. Vamos falar de eleições, da não candidatura do meu amigo Carlos Morais José e de toda a celeuma à volta da sua afirmação, antes de se ver obrigado a desistir, de não abandonar o cargo de director do jornal de que também é proprietário. Como o próprio disse, em resposta às críticas vindas da Associação de Imprensa Portuguesa e Inglesa – que o próprio também ajudou a criar, – seria um absurdo deixar de ser director se é proprietário. No entanto, para que a lista que o acolhera como número três não fosse prejudicada, achou por bem recuar e sair da corrida. Sabe-se agora que para o seu lugar entrou o arquitecto Rui Leão, um digno substituto, diga-se!

Concordando-se, ou não, com a posição de Carlos Morais José tomada inicialmente, a verdade é que tinha toda a razão naquilo que dizia. De que serviria suspender a posição de director, se continuaria a ser proprietário?
Pessoalmente e tendo como linha de orientação o Código Deontológico que deve reger os jornalistas, Carlos Morais José deveria suspender as funções de director. No entanto, para tal teria também de passar a administração do jornal para uma pessoa independente. Caso não fizesse as duas mudanças, não fazia sentido deixar de ser director do jornal, como é óbvio!
Mais: conhecendo-se o meio jornalístico de Macau, de que valia deixar de ser director e administrador do jornal? As influências são mais do que conhecidas, assim como os interesses que cada um dos órgãos defende.
Mais importante do que suspender a função de director, seria saber quantos jornalistas de Macau recebem avenças de publicidade e de outros trabalhos que vão contra o Código Deontológico. Quantos dão voz a campanhas na rádio e na televisão e continuam a ostentar a carteira de jornalista. Isto é algo que sempre se fez, mesmo tendo sido várias vezes exposto ao Sindicato dos Jornalistas em Portugal. É algo que apenas mudará com a consciência das pessoas. Vai de cada um entregar, ou suspender, a carteira profissional sempre que tenha de fazer uma tarefa que vá contra o Código Deontológico.
Num meio como o de Macau pedir a Carlos Morais José que suspenda as funções de director do jornal, apenas porque se candidata às eleições legislativas, é algo que não faz muito sentido, principalmente quando há exemplos de outros candidatos com posições mais influentes que a dele – e com poder de fazer mais danos sociais que um simples jornal – e que nada lhes é apontado.
É verdade que, como jornalista, a sua consciência deveria apontar para a suspensão das funções, mas sendo Macau o meio que é e tendo em atenção as especificidades do território, penso que não se justifica que Carlos Morais José tivesse de optar por essa via. Como se costuma dizer, não será por aí que «o gato irá às filhoses». Sendo uma pessoa ponderada e que segue as regras, optou por desistir para não prejudicar a «sua» lista, para muita pena minha.
Aliás, ao optar por permanecer como director e dono do jornal, apenas o iria expor mais ainda ao escrutínio da opinião pública, pelo que, em certos aspectos, até poderia prejudicar a candidatura. Quanto às acusações, ou insinuações que foram feitas de que podia usar o jornal como meio de promover a candidatura em detrimento de outras, não acredito que tal viesse a fazer. Conhecendo a pessoa há muitos anos não penso que colocasse em causa a independência do jornal e da sua pessoa só por causa da candidatura ao hemiciclo dos Lagos Nan Van. Carlos Morais José é maior do que isso e sabe muito bem em que águas se move. Razão pela qual deve ter desistido.
Quando os seus pares lhe pediram, em carta pública, que deixasse as funções de director foi o mesmo que pedirem a Melinda Chan que largue, momentaneamente, as posições que possui nas empresas do marido, ou que Pereira Coutinho deixe de ser presidente da ATFPM, ou que Angela Leong deixe os seus cargos no império de Stanley Ho.
Tudo o que se pede a todos os candidatos é que sejam íntegros e que respeitem as leis do jogo eleitoral. Quanto ao director do Hoje Macau, tiro-lhe o chapéu por ter tido coragem e rectidão de voltar atrás com a candidatura. No entanto, fico desapontado, pois acredito que saberia manter a independência e que obrigaria o jornal e os seus jornalistas a manterem o rigoroso respeito da deontologia da profissão durante todo o processo eleitoral.
Quem ficou a perder fomos todos nós!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Insegurança latente

APENAS tive conhecimento pelos jornais, cinco ou seis dias depois do sucedido, por culpa minha, que em dias feriado e fins-de-semana abstenho-me de ler jornais ou ver televisão.

Já se registou há algum tempo, mas não deixa de ser actual. A agressão a um advogado português, em plena luz do dia, numa das zonas mais movimentadas de Macau, como é o cruzamento entre a Avenida Infante D. Henrique e a Avenida D. João IV, junto da Escola Portuguesa, faz temer o pior. Apesar da vítima se ter apressado a vir a público dizer que se tratou, possivelmente, de um aviso relativo a um dos casos que tem em mãos, não faz com que o ocorrido passe a ser um caso de menor importância.
Pelo que li, o advogado ia acompanhado do filho menor a caminho da escola, logo pela manhã e numa altura em que, tanto na estrada, como nos passeios, deveriam circular dezenas de pessoas. Nesse momento foi atacado brutalmente por dois indivíduos que circulavam em direcções opostas, o que denuncia uma acção premeditada que... ninguém viu...
Não nos podemos esquecer que aquela zona, nas imediações do hotel Lisboa e do Grand Lisboa, é um dos cruzamentos mais movimentados de Macau, pelo que devem existir, pelo menos, uma dúzia de câmaras de videovigilância de trânsito (que também captam os transeuntes nos passeios e junto das passadeiras, devido à amplitude das lentes e à sua finalidade), além de que também devem existir as famosas câmaras que o Executivo aprovou, há uns anos, para combater a criminalidade em artérias movimentadas e que tanta celeuma levantou. Pelo que me consigo lembrar, o Governo justificou a necessidade de aumentar a vigilância com o crescente número de visitantes.
Não tenho a certeza se, no cruzamento em questão, há das ditas câmaras mas, seguindo o critério do Governo quando as justificou perante a opinião pública, este teria de ser um dos locais a ser vigiado devido ao avolumado número de turistas que ali passa diariamente. Pode-se mesmo dizer que, na sua maioria, os turistas passam todos por ali, pelo menos, uma vez durante as suas visitas a Macau, visto que fica no trajecto entre duas das maiores atracções, o Largo do Senado e o hotel Lisboa!
De acordo com a Comunicação Social, as forças de segurança pediram ajuda à população, para que enviassem informações na tentativa de encontrarem os criminosos, visto que nada conseguiram apurar e nada foi registado em todo este aparato de videovigilância!
O ataque, além do evidente acto cobarde e de violência, vem trazer a público, mais uma vez, a completa falta de valores e de segurança que se vive em Macau.

Apesar de, regra geral, nos sentirmos seguros em qualquer local do território, seja de dia ou de noite, a verdade é que a criminalidade está de volta. Muito em especial a criminalidade violenta. Se bem que a chamada pequena criminalidade também tenha aumentado drasticamente, apesar dos números da polícia apontarem, de ano para ano, consistentemente, uma diminuição! Com tanta diminuição já quase não deve haver crime!
A verdade é que a realidade é muito diferente e quem aqui vive sente isso na pele diariamente. Seja o carteirista no autocarro, ou o ladrão de carros na noite em áreas menos movimentadas, ou o assaltante de casa que entra enquanto o morador dorme descansado, a insegurança tem tomado conta do nosso dia-a-dia.

Claro que não chegamos a níveis de grandes metrópoles como Nova Iorque ou o Rio de Janeiro. Mas ali, ao contrário de Macau, todos sabem com o que podem contar e os números não são dissimulados.
Também é verdade que o ataque violente ao advogado português não é a norma da situação que se vive. Mas, sinceramente, começa a ser preocupante porque os crimes raramente são solucionados. Vamos esperar para ver o que as autoridades vão fazer.
Sempre que se registam casos destes lembro-me do jovem português assassinado a tiro na zona das Docas, ainda durante a Administração Portuguesa. Esse caso ainda não foi resolvido, assim como o do jovem que «caiu» da ponte Nobre de Carvalho e, mais recentemente, no ano passado, o caso do ataque com ácido também a um advogado português, igualmente em pleno centro da cidade. Isto só para referir os casos ligados à Comunidade Portuguesa, porque se formos ver a parte chinesa, a realidade é ainda mais preocupante.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Inundações precisam de solução conjunta

ESTAMOS próximo da época dos tufões e Macau já sofreu duas tempestades que deixaram marcas severas nas últimas semanas.

É um problema recorrente que a RAEM enfrenta todos os anos e que sempre faz os responsáveis governativos virem com promessas para resolver o problema. E além das promessas, várias intervenções têm sido feitas e milhões gastos por diversos departamentos do Governo, pelo que as palavras dos responsáveis do Executivo nesta área não são apenas sons descabidos de qualquer substância. Várias obras têm sido feitas, mas os resultados pouco têm melhorado o problema das inundações.
Não sendo especialista na área, mas tendo contacto com a água e com o sistema fluvial que circunda Macau, considero que mesmo com todas as obras que possam ser feitas, seja no Porto Interior ou na zona da Taipa, a solução não pode estar apenas do lado de Macau. Por muitas infra-estruturas que sejam construídas, se não houver uma coordenação e uma intervenção concertada e semelhante do lado da China, a situação nunca irá ser resolvida na totalidade e milhões do erário público irão continuar a ser esbanjados.
Quando chove em demasia é normal as inundações nas zonas baixas de Macau, sendo o Porto Interior e a baixa da Taipa dois dos locais mais afectados. Mas, mais recentemente, temos assistido a problemas noutras áreas, como a das Portas do Cerco. No entanto, apenas temos acesso às notícias dessas inundações do «lado de cá». Porque não noticiam as inundações na zona da Lapa, a vila que fica do lado oposto ao Porto Interior, do lado da China, ou os estragos na zona de Gongbei?
A água não conhece fronteiras, e com tanta proximidade entre o território de Macau e a parte continental da China, a solução do escoamento das águas das chuvas tem de ser conjunta. De nada vale Macau gastar milhões a criar formas de tirar a água do nosso lado, ou tentar impedir que ela entre, se do outro lado nada é feito. A água pode ser retirada, mas se não tiver para onde ir terá de voltar para o local de onde saiu.
A falta de coordenação e a falta da criação das mesmas estruturas do «lado chinês», aliada ao grave problema do assoreamento do canal do Porto Interior e do canal entre a Taipa e a ilha da Montanha (que está fechado ao tráfego há vários anos, devido às obras do túnel da Campus da Universidade de Macau), são os maiores causadores das persistentes cheias nestas zonas do Sul da China.
O problema que agora se começa a sentir na zona das Portas do Cerco está ligado a todas as obras e mudanças hidrográficas relacionadas com as obras da mega-ponte Hong Kong/Macau/Zhuhai. Aliás, neste caso, as consequências, pelo que tenho presenciado nas saídas de barco na zona, irão ser muito maiores do que apenas inundações, mas este será tema de outro artigo no futuro.
O canal de navegação do Porto Interior, por exemplo, nos últimos dois anos, de acordo com sondagens das embarcações que ali navegam assiduamente, perdeu mais de meio metro de profundidade em maré alta. Isto na zona de navegação que são uns meros 15 metros de largura e que são dragados frequentemente. Anteriormente a profundidade era de cerca de oito metros e hoje em dia raramente chega aos sete e meio! Acredito que as outras zonas, nomeadamente as de ancoragem dos barcos de pesca e as zonas mais próximas da orla marítima, tenham sofrido ainda mais em termos de assoreamento do leito. Tudo isto graças, principalmente, à crescente poluição causada pelo indiscriminado abandono de lixo dos barcos de pesca e de carga, mas também dos inúmeros esgotos domésticos, que descarregam directamente para o Porto Interior a céu aberto.
Parece impossível, mas numa cidade como Macau, que se diz internacional e se apelida de evoluída, são descarregados esgotos directamente para as águas fluviais, sem qualquer tratamento e sem que as autoridades actuem. E, para quem não acredita, não é preciso andar de barco para verem dois exemplos desses esgotos. Basta irem à Marina do Lamau: ali há duas saídas de esgotos, uma de frente aos edifícios Golden Bay e Billows Bay, e outra junto das Oficinas Navais. Sim, não leram mal! Esgotos a serem despejados directamente nas águas da Marina e aos olhos de todos!
Esgotos não tratados, lixo lançado para a água, aliado aos detritos trazidos pelas correntes e marés, fazem com que o assoreamento do canal seja um dos grandes problemas das cheias em tempo de chuvas mais fortes.
Se do lado de Macau a situação é assim, mesmo apesar de toda a vigilância da população, imaginem do lado do continente...

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Macau, o que fizeram de ti?

SINCERAMENTE nunca pensei em dizer isto, mas estou feliz pela decisão que tomámos em família relativamente à nossa vida futura. Além de decidirmos ir realizar um meu sonho antigo e dar uma experiência de vida à nossa filha, iremos deixar para trás, momentaneamente, um local onde, de dia para dia, nos fazem sentir menos bem-vindos. Nunca esperei pensar isto desta terra, mas as condições de vida actuais, com a falta de qualidade de vida latente, fazem-nos sentir que esta não é a terra ideal para fazer crescer uma criança ou uma família. Insegurança, falta de espaço, custo de vida cada vez mais elevado, animosidade e falta de respeito pelas leis e pelo nosso semelhante são condimentos que para nós, como família, não fazem uma boa «caldeirada»! É, para que conste, um problema da sociedade feita de quem nos visita e não da terra em si, essa continua linda, apesar de tudo.

Macau passou, nos últimos anos, de um local aprazível e onde apetecia viver, para uma cidade descaracterizada, inóspita e sem qualquer carácter em termos sociais. Uma cidade que vive para satisfazer os caprichos de quem vem de fora e não para preencher as necessidade dos seus residentes.
Há uma dezena de anos que várias vozes vêm alertando para o facto de Macau estar a perder as suas características e a tornar-se numa cidade sem alma e sem qualquer tipo de referências. Os últimos anúncios oficiais que apontam para um ainda maior crescimento do número de visitantes e de novos residentes indicam que o futuro irá ser ainda pior do que o que presente que vivemos.
A cidade foi projectada para, no máximo, albergar meio milhão de pessoas. Neste momento estamos já longe desse limite e a tendência é para que o número continue a aumentar diariamente. Com estruturas que não estão preparadas para fazer face a este tipo de pressão, quem acaba por sofrer é o cidadão com a perca de qualidade de vida e a falta de espaço. Quem nos visita apenas nota que vivemos todos apertadinhos, que o serviço é mau e que estamos cada vez mais antipáticos para com os visitantes. Mas, compreensivelmente, não notam que são eles a causa desses problemas. Não individualmente, mas sim no todo dos visitantes que nos inundam as ruas, lojas, restaurantes e tudo quanto é jardim e até prédios residenciais que acabam transformados em albergarias ilegais para fazer face à falta de hotéis de baixo custo. No entanto, a culpa não é mesmo do turista, mas sim de quem os autoriza a vir e de quem os cativa de todas as formas para virem a Macau deixar o seu dinheiro.
Sem dúvida que a perda de qualidade de vida trouxe uma pujança económica nunca vista, mas será que vale a pena? Será que se pararmos para pesar os prós e contras realmente seja isto que queremos para os nossos filhos e netos?
Sinceramente, como simples cidadão, não é isto que quero para as nossas gerações vindouras. Quero que tenham uma terra onde possam sair à rua sem terem receio de serem assaltados ou assediados. Que possam ir ao jardim e correr e gritar e brincar com as outras crianças sem que os pais estejam constantemente alerta por causa de doenças, pandemias e possíveis raptos.
Os nossos líderes pouco se devem importar com isso, pois os seus filhos vivem e estudam fora da China. Poucos se devem lembrar porque a nossa memória é curta mas, no inicio do século, houve quem dissesse que Macau em 20 anos deveria ter cerca de um milhão de habitantes! Se era o plano inicial ou não pouco interessa. O que interessa é que se hoje em dia com cerca de seiscentos mil habitantes já não temos qualquer tipo e qualidade de vida, imaginemos com mais quatro centenas de milhar de almas neste espaço exíguo.
A falta de espaço em Macau sempre foi um problema mas, mesmo assim, durante a Administração Portuguesa houve coragem para meter na letra da Lei que Coloane seria zona verde com a construção largamente restringida. Chega-se à RAEM e, passados treze anos, vejam o que se passa e, se querem saber o que aí vem, tentem-se informar dos planos para o futuro do «pulmão de Macau».
Não será este o momento do Governo de Macau, ou mesmo de Pequim, meter a mão na consciência e tentar reverter a situação? É que se é para tornar Macau num subúrbio de Zhuhai, para quê andar com tantos paninhos quentes? Basta abrir a fronteira de uma vez por todas e deixar que todos entrem e se fixem. E, se for preciso mais espaço, podem sempre enviar os de Macau para a ilha da Montanha.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Mais um triste exemplo

É TRISTE quando não dão qualquer atenção ao que está previsto na Lei, especialmente ao que está determinado na Lei Básica. Macau, quer queiram quer não, até 2049, terá duas línguas oficiais e o Governo – infelizmente apenas o Governo... – terá de honrar o que foi acordado entre a China e Portugal e depositado sob os auspícios das Nações Unidas.

O que se passou na semana passada é simplesmente vergonhoso. Decorreu um curso – obrigatório para efeitos de progressão na carreira, à luz dos novos estatutos – num dos serviços da Função Pública, onde o Português foi, simplesmente, metido de parte. Não houve sequer uma aula em Português, nem foi disponibilizado material nessa língua. Tudo o que havia era material em Chinês e algum, muito pouco, em Inglês, porque alguns dos formadores eram de Hong Kong.
Quando confrontada com a situação por um dos participantes que tem o Português como língua materna, a organização desculpou-se, dizendo que «não houve tempo» e que o material tinha «vindo apenas em Chinês dos Serviços de Administração e Função Pública». Ao que parece a Internet de fibra óptica do director não é rápida o suficiente para enviar o material a tempo e horas!
Sabe-se que os cursos estavam a ser preparados há vários meses mas, mesmo havendo pouco tempo, tal não pode ser desculpa para que a língua portuguesa seja ignorada e esquecida.
Não é apenas o completo desrespeito pela Lei Básica, mas também o premeditado prejuízo dos candidatos de língua portuguesa, porque se trata de um processo de progressão na carreira que obriga à apresentação de um relatório no final do curso. Como se pode fazer um relatório quando não se tem material em Português, nem se teve aulas nessa língua? O facto de dizerem que haveria «interpretação» (refira-se que para fazer tradução mais de oito horas por dia apenas foi disponibilizado um tradutor que, por sinal, participava também ele no curso) não pode ser visto como solução, dado que mesmo assim os candidatos falantes de Português estariam sempre em desvantagem perante os seus colegas chineses.
Até em Pequim, quando daqui foram funcionários para formação, havia interpretação simultânea e todo o material em Português.
Quanto à solução adiantada pela organização – a do tradutor que também estava a frequentar o curso – digo que foi «pior a emenda que o soneto». É que se tal fosse aceite, não só ficaria prejudicado o funcionário de língua portuguesa como o colega tradutor, que seria obrigado a traduzir o que se estava a passar, não conseguindo, assim, assimilar o mínimo de que iria necessitar para a sua própria avaliação e consequente progressão na carreira. Além de que seria impossível ao tradutor interpretar tudo sem qualquer preparação e sem qualquer suporte ou ajuda.
A situação é grave e não se pode deixar passar, sem que seja feita uma chamada de atenção e se registe o sucedido, mesmo que tal possa acarretar consequências mais graves a nível profissional. No entanto, devo dizer que será triste se tal acontecer porque, além do desrespeito pela Lei Básica, pode ser entendido como uma tentativa de tentar abafar o que realmente se passa e de calar os funcionários públicos.
Não se percebe como é que não foi possível, com tanto tempo de preparação, organizar material em Português, de acordo com o que a Lei exige e prevê. E, mesmo que a Lei não o dissesse, deveria ser feito por respeito à diversidade cultural de Macau e das pessoas que aqui trabalham.
Por outro lado, perante este facto, não se percebe como vão garantir a igualdade de tratamento. Haverá dois sistemas de avaliação dos funcionários?
Muitas vezes estes atropelos, que se registam diariamente, são abafados e ninguém fala deles, seja por receio de represálias a nível profissional, seja por falta de vontade de criar um «caso» relativamente à língua.
Sempre defendi, desde que ingressei na Função Pública, que se não formos nós, os falantes de Português, a defender o seu uso e difusão, ninguém o fará por nós. Se, no sector privado, não nos é possível fazê-lo, que o façamos no sector público. A desculpa da falta de recursos não pode servir para que o Português seja colocado de parte.
Numa terra como Macau, onde o dinheiro abunda, a falta de recursos é uma desculpa de mau pagador. Se não existem recursos em Macau, recrutem-nos ao exterior. A China, Taiwan e o Brasil têm bilingues de Chinês e Português, que chegam perfeitamente para fazer face às lacunas da RAEM e muitos deles não se importariam de vir trabalhar para cá.
Não acredito que a razão destes esquecimentos seja falta de recursos. O facto do referido curso estar previsto há diversos meses contraria essa teoria. É que mesmo com a dita falta de mão-de-obra, um período de meses seria perfeitamente suficiente para coordenar os «escassos» recursos e arranjar uma forma de respeitar as duas línguas oficiais.
Mais importante do que respeitar o previsto na Lei Básica, é respeitar as pessoas que diariamente contribuem para o bom funcionamento da máquina da Administração Pública de Macau nas duas línguas.
Este, infelizmente, foi mais um sinal de que algo de muito errado se passa com a língua portuguesa na RAEM.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mini-saias e falta de educação

ESTES últimos dias foram férteis em afirmações que roçaram o ridículo por alguns residentes de Macau que ocupam lugares de destaque na sociedade, nomeadamente professores. Começaram com as críticas à indumentária da professora que resolveu dar a voz nas manifestações do 1º de Maio. Colegas seus, alguns com um discurso que fazia lembrar a famosa caricatura de Herman José, o Diácono Remédios, a dizerem que a saia era curta de mais, que estava muito provocadora, que isto ou aquilo!

Afinal, a mulher não estava em dia de folga? Ou será que por ser professora tem que andar de gola alta e saia até aos tornozelos até mesmo para dormir? Santa paciência para tanta ignorância e interesse pela vida alheia. Se tivessem mais interessados no que se passa dentro das suas próprias vidas, certamente que seria mais produtivo e não diriam tantas baboseiras!
Sinceramente, quando ouço críticas deste tipo fico sempre com o pé atrás relativamente a quem as faz e com uma pulgazinha atrás da orelha. Faz-me lembrar o dito popular: «se tens telhados de vidro não atires pedras ao do vizinho!».
Numa sociedade como a de Macau, onde tudo se vê e tudo se permite, virem com moralismos descabidos para a praça pública não cabe na cabeça a ninguém. A senhora professora, se não estou em erro, não vai de mini-saia para a escola. E, mesmo se for, qual é o problema? Não há código de indumentária no ensino em Macau para os professores, apenas se lhes pede decoro. Aliás, ainda me lembro que quando andava no secundário, se uma professora viesse com roupas mais «ousadas» ninguém ficava ofendido e ninguém faltava às aulas!
Porventura, o que Macau precisa é de mais professoras de mini-saia e com opiniões sobre a sociedade e o sistema de ensino bem fundamentadas. Afinal, a dita professora estava a protestar contra os problemas dos jovens e contra a cultura de ensino em Macau que privilegia técnicas de ensino baseadas em decorar a matéria, em detrimento de incentivar os alunos a serem pró-activos e criativos e a usarem a cabeça para pensarem.
A jovem professora, além da mini-saia que não o era, deve ter calcado os calos a alguém no sistema de ensino de Macau, daí tanta celeuma….
Outro dos assuntos que tem sido alvo de vários comentários é a suposta gravidez de uma menina de 15 anos que teve um «caso amoroso», que ao que se saiba consentido, com um jovem de 21, depois de se terem conhecido numa das plataformas sociais da Internet. Todos apontam o dedo à Internet, como se fosse ela a causadora de tal problema. Ao que saiba, até hoje, pela Internet ninguém engravidou, por muito que apareçam estórias incríveis de tempos a tempos.
O caso é grave e trata-se de uma menor, mas daí até se atirarem as culpas de tudo ao acesso à Internet e aos vários conteúdos e plataformas que ela disponibiliza, vai um passo gigante.
O que se trata é de falta de informação e de consciência por parte dos intervenientes. O problema da sociedade, antes de ser a Internet, é o não haver regras, nem valores morais. A falta destes dois pilares da vida em sociedade, com ou sem Internet, salas de conversação e plataformas sociais, faz com que os jovens cresçam sem referências do que é socialmente aceitável e de como se devem comportar enquanto membros de uma sociedade equilibrada.
Estes dois casos ilustram bem a sociedade em que vivemos.
Qual cidade internacional qual quê!? Uma cidade que se quer internacional, mas que a qualquer chuvinha fica atascada até ao joelho, tem ainda muito que aprender. E, pelo que se vê pela reacção à mini-saia da professora manifestante ou pelo caso da rapariga de 15 anos que engravidou porque conheceu um jovem na Internet, é preciso mais do que infra-estruturas físicas.
O facto de termos líderes políticos no poder há mais de dez anos também não ajuda em nada ao processo de modernização da sociedade.
Como em qualquer bom edifício, temos de começar por ter boas fundações sociais para que a obra possa crescer sem que abane ao mais pequeno contratempo.
Provavelmente o que a professora pede para o ensino de Macau é um bom começo. Jovens críticos, com espírito reivindicativo e informados, não serão tão facilmente engodados pela Internet ou por amores juvenis que acabam em finais menos felizes, como o da jovem de 15 anos que se vê agora de caras com uma gravidez não planeada.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Change email - mudança de email

Dear friends

The domain @pubeditions.com will be cancelled soon due to life changes in the future.
From now on you can contact me on pubeditions@gmail.com
If you wish to contact me use that email.

Thank you
Joao Gomes

Caros amigos

O dominio @pubeditions.com será cancelado em breve devido a mudanças a anunciar no futuro.
Daqui em diante podem contactar-me pelo email pubeditions@gmail.com
Se quiserem contactar usem esse email.

Obrigado
Joao Gomes

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Hong Kong abafa manifestação

COM o passar dos anos habituámo-nos a olhar para Hong Kong como um local de referência, imitado especialmente pelo nosso Governo em tudo, mesmo nas coisas más! O último exemplo de «copismo» do nosso Executivo é a decisão de se legislar acerca da segurança dos elevadores, depois de Hong Kong ter registado um grave acidente há uns meses.

Mas de Hong Kong não vêm apenas bons exemplos. Recentemente, mais precisamente no dia 30 de Abril, registou-se uma manifestação nas ruas da ex-colónia britânica, com a participação de milhares de pessoas ligadas ao sector da náutica, que nem sequer foi referida na Comunicação Social. Uma censura a todo a linha, tendo apenas sido excepção um jornal chinês de segunda linha que, passados dois dias, resolveu fazer uma pequena referência ao sucedido, mesmo que a dita manifestação tenha contado com figuras de renome de Hong Kong e tenha terminado com a entrega de um abaixo-assinado ao Executivo da RAEHK.
Este incidente ilustra o conhecido receio que os Governos de Hong Kong sempre tiveram relativamente a tudo o que se relaciona com água. Desde sempre que os Executivos da região vizinha temeram o sector ligado ao mar mas, ao contrário de Macau, ali o que mais temem é a classe baixa. Em Macau vemos o Governo a fazer tudo o que os patrões querem e a ignorar os pedidos dos que apenas recebem um salário.
Esta manifestação em Hong Kong foi «patrocinada» pelos patrões das marinas, empresas ligadas ao mar e outros sectores daqui dependentes, mas também por proprietários de barcos de recreio, membros de clubes náuticos e outros interessados que exigem que se resolva, de uma vez por todas, a questão da falta de locais para atracagem das suas embarcações, para que todos (ricos e pobres) possam usufruir da extensa orla marítima de Hong Kong em segurança. Um luxo aos olhos de muitos mas que, numa cidade como Hong Kong, é uma actividade que gera milhões para os cofres do Governo e emprega milhares de pessoas.
Paralelos foram feitos com a situação dos estivadores que, há meses, fazem barulho relativamente às suas condições de trabalho nos portos da região vizinha e que tem sido amplamente coberta pela Comunicação Social, com o Governo completamente desesperado sem saber como lidar com a situação porque não quer, de forma alguma, ferir as susceptibilidades dos trabalhadores das docas. Como se sabe, e é do conhecimento público ao longo dos séculos, as docas de Hong Kong sempre foram controladas pelas organizações criminosas que, como já aconteceu há várias décadas, se não virem as suas reivindicações atendidas, não têm qualquer repúdio em parar os portos e a cidade, criando um pandemónio a que Hong Kong não se pode arriscar. Algo que o Governo, especialmente o Governo chinês, não quer sequer ouvir falar, quanto mais ter que lidar com uma situação desse género. Daí todo o impasse e o longo período para resolver o problema.
Quanto à manifestação dos patrões e de outros interessados ligados à náutica de recreio, como não envolve os trabalhadores das docas e como são um sector, de certa forma, marginal e recente, não acolhem grande apoio ou simpatia junto da Comunicação Social e do Governo, vendo as suas reivindicações não serem atendidas. Facto que, na minha opinião, leva a que Hong Kong perca milhões tanto em ganhos directos como indirectos neste sector de actividade.
A dita manifestação foi liderada pelo deputado eleito Paul Zimmerman, que é também presidente da «Designing Hong Kong», uma organização não-governamental e sem fins lucrativos que tem como objectivo aconselhar o Executivo e fazer estudos sobre o futuro desenvolvimento físico de Hong Kong. Aliás, a iniciativa da manifestação foi do próprio Paul Zimmerman e de outras individualidades ligadas à náutica.
Felizmente, ou infelizmente, em Macau a situação ainda não chegou a esse ponto porque não temos um sector de náutica de recreio forte, nem existem grandes empresas que vendam barcos nem um sector que se dedique à sua manutenção. No entanto, ao abrigo da tão apregoada diversificação da economia, já aqui escrevi diversas vezes que esta pode ser uma das áreas que Macau pode e deve explorar.
Nos últimos tempos e a reboque da polémica com a famosa «club house» do Clube Náutico de Macau e da Marina do Lamau, falou-se do surgimento de, pelo menos, duas novas marinas e possivelmente uma terceira e mesmo uma quarta.
A marina na Doca dos Pescadores, que ao que parece já recebeu licença de operação, mas que ninguém quer falar; a Marina Pearl Harbour, que foi anunciada com pompa e circunstância, mas que nada mais se ouviu apesar de toda a fanfarra, e de uma terceira que ouvi dizer poderá nascer do lado da Taipa e que pode servir para albergar o que actualmente existe na Marina do Lamau, caso esta tenha de vir a ser encerrada se a direcção do Clube Náutico de Macau não resolver o novelo de problemas em que se envolveu. A quarta aponta a nova ilha onde termina a ponte Hong Kong – Zhuhai – Macau.
Tudo isto são apenas conjecturas e nada está definido mas, ao contrário de Hong Kong, espero que aqui não seja necessário as pessoas ligadas ao sector irem para a rua para fazer ouvir as suas reivindicações.
Relativamente à falta de atenção da Comunicação Social, em Macau não nos podemos queixar, visto que todos os assuntos ligados às marinas e à actividade a si relacionada tem merecido cobertura e atenção em formatos adequados. Será que é chegado o momento de Hong Kong nos copiar?

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Pataca: acaba ou é imposta

A MOEDA local mereceu, recentemente, do deputado José Pereira Coutinho, atenção especial no hemiciclo da Região Administrativa Especial de Macau. Este membro da Assembleia Legislativa entregou uma interpelação ao Governo relativamente à não aceitação de moeda local nos barcos que ligam a Hong Kong e em alguns estabelecimentos comerciais locais. Uma prática que viola claramente a lei que regula a nossa moeda e que, acima de tudo, é uma afronta à nossa dignidade como cidadãos de Macau. O facto de meterem a pataca fora do cabaz de moedas aceites é uma falta de respeito pela independência administrativa do território.

Mas posso afirmar que não é só nos barcos, o mesmo se passa em algumas companhias aéreas a operar no território. E, quando aceitam, logo informam que o troco não será feito na mesma moeda, acabando sempre o cliente a perder com os câmbios e a ver-se privado de um direito que tem ao viver em Macau, que é o de usar a moeda corrente do local onde se encontra.
Aliás, os exemplos abundam e convivemos com eles diariamente. Tão assiduamente que nem sequer nos surpreendemos. Basta andar pela cidade e olhar para os preços dos produtos à venda. Quantos deles têm MOP junto dos preços? O que mais se vê é HK$, ¥ e $. E quando perguntamos o preço é sempre dito o preço em dólares de Hong Kong. Se insistirmos nas patacas o valor muda para mais elevado, mas nem sempre usando o valor fixo da indexação de 1HK$=1.03MOP! Também raros são os exemplos em que as patacas vêm em primeiro lugar.
Até nem me importava que assim fosse, afinal já estamos tão habituados a ter moeda de três jurisdições na carteira que pouco mal faz termos os preços em algumas delas. No entanto, apesar de aceitar este procedimento de se usar moedas estrangeiras em Macau, defendo que tal não pode ser feito em detrimento da não aceitação da moeda local. Muito bem que se aceite os dólares de Hong Kong e os yuans da China, se ao mesmo tempo não deixarem de aceitar a única moeda legal local, a «nossa» pataca.
Há um exemplo fulcral para todo este processo e que demonstra a incapacidade do Governo (de todos eles, desde sempre) ou da sua falta de vontade de fazer vingar a moeda local. Nos casinos a moeda que se usa é a de Hong Kong, sendo impossível jogar ou fazer apostas com moeda local! Quanto assim é, o que se pode esperar?
Todos sabemos que a pataca não tem conversão internacional. Os únicos locais onde é aceite e trocada é na própria RAEM e em Portugal. Até mesmo na China não fazem o seu câmbio oficialmente, a não ser ali do outro lado da fronteira onde se aceita de tudo! Já me aconteceu, na capital, ter ido a um banco para trocar patacas e não as terem aceite, tendo eu de recorrer ao câmbio de dólares americanos na altura. Mas, desde não ter conversão ou valor internacional até ao facto das próprias autoridades de Macau não se importarem por impor a sua moeda localmente, é um passo muito grande e que denota, do meu ponto de vista, muita falta de respeito pela própria independência económica da RAEM.
Se prestarmos atenção a todos os negócios feitos em Macau, nomeadamente os que envolvem valores mais elevados, são todos feitos em dólares de Hong Kong, inclusivamente os próprios contratos que depois são validados pela máquina administrativa através do reconhecimento de assinaturas e outros procedimentos legais. Venda de casas, de carros, de negócios, são apenas alguns exemplos que precisam de assinaturas reconhecidas notarialmente e que apresentam, na sua maioria, valores em dólares de Hong Kong ou em yuans.
Felizmente, nos últimos anos, tem passado a ser regra nos próprios contratos que o Governo assina com fornecedores, o uso apenas de moeda local. O que, ao que parece, pode ser um passo no bom caminho. Mas, se ficarmos apenas por aqui, será um passo muito pequenino!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Também quero Internet de borla

MUITO se tem escrito e falado sobre a Internet em Macau. Há muito que se exige a liberalização do mercado, tendo recentemente a TV Cabo Macau visto o seu pedido de fornecimento do sinal de Internet, através da sua rede de fibra óptica, sido recusado pela entidade competente por ir contra os princípios do contrato que tem com o Governo. No entanto, isto para a população soou mais como uma defesa descarada do monopólio da CTM, no que diz respeito à Internet, do que propriamente um problema contratual. Estes podem ser sempre emendados, se houver vontade de todas as partes envolvidas e se isso trouxer benefícios para a população.

Sempre fui apologista de diferentes ofertas no mercado para que os clientes possam escolher o que mais lhes convém e lhes traga mais benefícios. Olhe-se para o exemplo das telecomunicações móveis e para a melhoria que registou após a sua liberalização. O processo trouxe valor acrescentado para todos e benefícios para o mercado, algo que não acontecia durante o período de monopólio. Preços mais baixos, mais serviços e melhor qualidade no geral.
O mesmo se regista com a Internet: enquanto o mercado não for aberto, continuaremos a ser obrigados a usar o único servidor da CTM e a ouvir as mais descaradas desculpas dos seus directores. A última, se bem se lembram, foi dizerem que a Internet era lenta porque nós a usamos muito e visitamos muitos «websites» de filmes!!! Dá vontade de rir, não é? Ainda para mais quando pagamos um dos preços mais altos do mundo para uma qualidade de terceiro mundo. Então de que serve a Internet, se o cliente não pode navegar por onde lhe apetece? Afinal, tanto quanto sei, ainda não estamos por detrás da «Great Wall» da China...
Infelizmente, nada se pode fazer, e enquanto o Governo não decidir mudar de posição e abrir o mercado à concorrência, somos obrigados a «comer e calar». A não ser que sejamos directores de serviços no Governo! Porque, pelo que veio a público recentemente, nesse caso podemos pedir Internet de fibra óptica para a nossa residência e mandar a conta para o Governo, sob a desculpa de que trazemos trabalho para fazer em casa.
Não sou director nem coisa que se pareça mas, certamente, faço mais trabalho em casa do que o meu próprio chefe. Será que também posso pedir ao Governo para me pagar Internet de fibra óptica, advogando que o trabalho tem que ser feito com celeridade e que para tal tenho de ter uma ligação rápida? É que tenho apenas «broadband» e gostava de ter a versão mais rápida lá em casa para conseguir enviar os trabalhos mais depressa. É que às vezes só para fazer o «upload» de um simples ficheiro de «Word» demoro quase 15 minutos. A velocidade, claro, vem a um preço que, infelizmente com o ordenado que me pagam e com os aumentos que apenas reduzem a capacidade de compra, não posso suportar. Mas como trago sempre trabalho para casa vou, sinceramente, pensar em expor a minha situação ao Governo apelando à igualdade de tratamento de todos os funcionários.
Mas além de se levantarem questões do foro legal, ligadas ao facto de o Governo estar a pagar por ligações à Internet em casas particulares, mesmo sendo estas para trabalhos do Governo, há outras questões por responder. Será que essas ligações à Internet são só usadas para trabalhos do Governo estando elas instaladas em casas privadas? Ou será como os carros de serviço, que servem para tudo, desde levar o miúdo à escola até à senhora à manicura?
O deputado José Pereira Coutinho comentou a problemática e insinuou que seria apenas a ponta do «iceberg», exaltando o Comissariado Contra a Corrupção a investigar a fundo o que foi tornado público. Isso é algo que eu também gostaria de ver esclarecido mas, pelo que sabemos de Macau, não me parece que vá acontecer. Se calhar até o Comissário tem Internet paga em casa e ainda ninguém sabe!
Mas, como disse, gostaria de ver o assunto resolvido porque, como disse no início do artigo, sou parte envolvida. Quero estar em posse de todos os argumentos para ser capaz de redigir bem a minha requisição de Internet de fibra óptica para casa. Tudo, claro, em prol da celeridade dos trabalhos do Governo.
Estamos mesmo em Macau, local onde o erário público dá para tudo, enquanto parte da população passa fome e outra parte não tem onde viver condignamente.

NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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