Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Inundações precisam de solução conjunta

ESTAMOS próximo da época dos tufões e Macau já sofreu duas tempestades que deixaram marcas severas nas últimas semanas.

É um problema recorrente que a RAEM enfrenta todos os anos e que sempre faz os responsáveis governativos virem com promessas para resolver o problema. E além das promessas, várias intervenções têm sido feitas e milhões gastos por diversos departamentos do Governo, pelo que as palavras dos responsáveis do Executivo nesta área não são apenas sons descabidos de qualquer substância. Várias obras têm sido feitas, mas os resultados pouco têm melhorado o problema das inundações.
Não sendo especialista na área, mas tendo contacto com a água e com o sistema fluvial que circunda Macau, considero que mesmo com todas as obras que possam ser feitas, seja no Porto Interior ou na zona da Taipa, a solução não pode estar apenas do lado de Macau. Por muitas infra-estruturas que sejam construídas, se não houver uma coordenação e uma intervenção concertada e semelhante do lado da China, a situação nunca irá ser resolvida na totalidade e milhões do erário público irão continuar a ser esbanjados.
Quando chove em demasia é normal as inundações nas zonas baixas de Macau, sendo o Porto Interior e a baixa da Taipa dois dos locais mais afectados. Mas, mais recentemente, temos assistido a problemas noutras áreas, como a das Portas do Cerco. No entanto, apenas temos acesso às notícias dessas inundações do «lado de cá». Porque não noticiam as inundações na zona da Lapa, a vila que fica do lado oposto ao Porto Interior, do lado da China, ou os estragos na zona de Gongbei?
A água não conhece fronteiras, e com tanta proximidade entre o território de Macau e a parte continental da China, a solução do escoamento das águas das chuvas tem de ser conjunta. De nada vale Macau gastar milhões a criar formas de tirar a água do nosso lado, ou tentar impedir que ela entre, se do outro lado nada é feito. A água pode ser retirada, mas se não tiver para onde ir terá de voltar para o local de onde saiu.
A falta de coordenação e a falta da criação das mesmas estruturas do «lado chinês», aliada ao grave problema do assoreamento do canal do Porto Interior e do canal entre a Taipa e a ilha da Montanha (que está fechado ao tráfego há vários anos, devido às obras do túnel da Campus da Universidade de Macau), são os maiores causadores das persistentes cheias nestas zonas do Sul da China.
O problema que agora se começa a sentir na zona das Portas do Cerco está ligado a todas as obras e mudanças hidrográficas relacionadas com as obras da mega-ponte Hong Kong/Macau/Zhuhai. Aliás, neste caso, as consequências, pelo que tenho presenciado nas saídas de barco na zona, irão ser muito maiores do que apenas inundações, mas este será tema de outro artigo no futuro.
O canal de navegação do Porto Interior, por exemplo, nos últimos dois anos, de acordo com sondagens das embarcações que ali navegam assiduamente, perdeu mais de meio metro de profundidade em maré alta. Isto na zona de navegação que são uns meros 15 metros de largura e que são dragados frequentemente. Anteriormente a profundidade era de cerca de oito metros e hoje em dia raramente chega aos sete e meio! Acredito que as outras zonas, nomeadamente as de ancoragem dos barcos de pesca e as zonas mais próximas da orla marítima, tenham sofrido ainda mais em termos de assoreamento do leito. Tudo isto graças, principalmente, à crescente poluição causada pelo indiscriminado abandono de lixo dos barcos de pesca e de carga, mas também dos inúmeros esgotos domésticos, que descarregam directamente para o Porto Interior a céu aberto.
Parece impossível, mas numa cidade como Macau, que se diz internacional e se apelida de evoluída, são descarregados esgotos directamente para as águas fluviais, sem qualquer tratamento e sem que as autoridades actuem. E, para quem não acredita, não é preciso andar de barco para verem dois exemplos desses esgotos. Basta irem à Marina do Lamau: ali há duas saídas de esgotos, uma de frente aos edifícios Golden Bay e Billows Bay, e outra junto das Oficinas Navais. Sim, não leram mal! Esgotos a serem despejados directamente nas águas da Marina e aos olhos de todos!
Esgotos não tratados, lixo lançado para a água, aliado aos detritos trazidos pelas correntes e marés, fazem com que o assoreamento do canal seja um dos grandes problemas das cheias em tempo de chuvas mais fortes.
Se do lado de Macau a situação é assim, mesmo apesar de toda a vigilância da população, imaginem do lado do continente...

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Macau, o que fizeram de ti?

SINCERAMENTE nunca pensei em dizer isto, mas estou feliz pela decisão que tomámos em família relativamente à nossa vida futura. Além de decidirmos ir realizar um meu sonho antigo e dar uma experiência de vida à nossa filha, iremos deixar para trás, momentaneamente, um local onde, de dia para dia, nos fazem sentir menos bem-vindos. Nunca esperei pensar isto desta terra, mas as condições de vida actuais, com a falta de qualidade de vida latente, fazem-nos sentir que esta não é a terra ideal para fazer crescer uma criança ou uma família. Insegurança, falta de espaço, custo de vida cada vez mais elevado, animosidade e falta de respeito pelas leis e pelo nosso semelhante são condimentos que para nós, como família, não fazem uma boa «caldeirada»! É, para que conste, um problema da sociedade feita de quem nos visita e não da terra em si, essa continua linda, apesar de tudo.

Macau passou, nos últimos anos, de um local aprazível e onde apetecia viver, para uma cidade descaracterizada, inóspita e sem qualquer carácter em termos sociais. Uma cidade que vive para satisfazer os caprichos de quem vem de fora e não para preencher as necessidade dos seus residentes.
Há uma dezena de anos que várias vozes vêm alertando para o facto de Macau estar a perder as suas características e a tornar-se numa cidade sem alma e sem qualquer tipo de referências. Os últimos anúncios oficiais que apontam para um ainda maior crescimento do número de visitantes e de novos residentes indicam que o futuro irá ser ainda pior do que o que presente que vivemos.
A cidade foi projectada para, no máximo, albergar meio milhão de pessoas. Neste momento estamos já longe desse limite e a tendência é para que o número continue a aumentar diariamente. Com estruturas que não estão preparadas para fazer face a este tipo de pressão, quem acaba por sofrer é o cidadão com a perca de qualidade de vida e a falta de espaço. Quem nos visita apenas nota que vivemos todos apertadinhos, que o serviço é mau e que estamos cada vez mais antipáticos para com os visitantes. Mas, compreensivelmente, não notam que são eles a causa desses problemas. Não individualmente, mas sim no todo dos visitantes que nos inundam as ruas, lojas, restaurantes e tudo quanto é jardim e até prédios residenciais que acabam transformados em albergarias ilegais para fazer face à falta de hotéis de baixo custo. No entanto, a culpa não é mesmo do turista, mas sim de quem os autoriza a vir e de quem os cativa de todas as formas para virem a Macau deixar o seu dinheiro.
Sem dúvida que a perda de qualidade de vida trouxe uma pujança económica nunca vista, mas será que vale a pena? Será que se pararmos para pesar os prós e contras realmente seja isto que queremos para os nossos filhos e netos?
Sinceramente, como simples cidadão, não é isto que quero para as nossas gerações vindouras. Quero que tenham uma terra onde possam sair à rua sem terem receio de serem assaltados ou assediados. Que possam ir ao jardim e correr e gritar e brincar com as outras crianças sem que os pais estejam constantemente alerta por causa de doenças, pandemias e possíveis raptos.
Os nossos líderes pouco se devem importar com isso, pois os seus filhos vivem e estudam fora da China. Poucos se devem lembrar porque a nossa memória é curta mas, no inicio do século, houve quem dissesse que Macau em 20 anos deveria ter cerca de um milhão de habitantes! Se era o plano inicial ou não pouco interessa. O que interessa é que se hoje em dia com cerca de seiscentos mil habitantes já não temos qualquer tipo e qualidade de vida, imaginemos com mais quatro centenas de milhar de almas neste espaço exíguo.
A falta de espaço em Macau sempre foi um problema mas, mesmo assim, durante a Administração Portuguesa houve coragem para meter na letra da Lei que Coloane seria zona verde com a construção largamente restringida. Chega-se à RAEM e, passados treze anos, vejam o que se passa e, se querem saber o que aí vem, tentem-se informar dos planos para o futuro do «pulmão de Macau».
Não será este o momento do Governo de Macau, ou mesmo de Pequim, meter a mão na consciência e tentar reverter a situação? É que se é para tornar Macau num subúrbio de Zhuhai, para quê andar com tantos paninhos quentes? Basta abrir a fronteira de uma vez por todas e deixar que todos entrem e se fixem. E, se for preciso mais espaço, podem sempre enviar os de Macau para a ilha da Montanha.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Mais um triste exemplo

É TRISTE quando não dão qualquer atenção ao que está previsto na Lei, especialmente ao que está determinado na Lei Básica. Macau, quer queiram quer não, até 2049, terá duas línguas oficiais e o Governo – infelizmente apenas o Governo... – terá de honrar o que foi acordado entre a China e Portugal e depositado sob os auspícios das Nações Unidas.

O que se passou na semana passada é simplesmente vergonhoso. Decorreu um curso – obrigatório para efeitos de progressão na carreira, à luz dos novos estatutos – num dos serviços da Função Pública, onde o Português foi, simplesmente, metido de parte. Não houve sequer uma aula em Português, nem foi disponibilizado material nessa língua. Tudo o que havia era material em Chinês e algum, muito pouco, em Inglês, porque alguns dos formadores eram de Hong Kong.
Quando confrontada com a situação por um dos participantes que tem o Português como língua materna, a organização desculpou-se, dizendo que «não houve tempo» e que o material tinha «vindo apenas em Chinês dos Serviços de Administração e Função Pública». Ao que parece a Internet de fibra óptica do director não é rápida o suficiente para enviar o material a tempo e horas!
Sabe-se que os cursos estavam a ser preparados há vários meses mas, mesmo havendo pouco tempo, tal não pode ser desculpa para que a língua portuguesa seja ignorada e esquecida.
Não é apenas o completo desrespeito pela Lei Básica, mas também o premeditado prejuízo dos candidatos de língua portuguesa, porque se trata de um processo de progressão na carreira que obriga à apresentação de um relatório no final do curso. Como se pode fazer um relatório quando não se tem material em Português, nem se teve aulas nessa língua? O facto de dizerem que haveria «interpretação» (refira-se que para fazer tradução mais de oito horas por dia apenas foi disponibilizado um tradutor que, por sinal, participava também ele no curso) não pode ser visto como solução, dado que mesmo assim os candidatos falantes de Português estariam sempre em desvantagem perante os seus colegas chineses.
Até em Pequim, quando daqui foram funcionários para formação, havia interpretação simultânea e todo o material em Português.
Quanto à solução adiantada pela organização – a do tradutor que também estava a frequentar o curso – digo que foi «pior a emenda que o soneto». É que se tal fosse aceite, não só ficaria prejudicado o funcionário de língua portuguesa como o colega tradutor, que seria obrigado a traduzir o que se estava a passar, não conseguindo, assim, assimilar o mínimo de que iria necessitar para a sua própria avaliação e consequente progressão na carreira. Além de que seria impossível ao tradutor interpretar tudo sem qualquer preparação e sem qualquer suporte ou ajuda.
A situação é grave e não se pode deixar passar, sem que seja feita uma chamada de atenção e se registe o sucedido, mesmo que tal possa acarretar consequências mais graves a nível profissional. No entanto, devo dizer que será triste se tal acontecer porque, além do desrespeito pela Lei Básica, pode ser entendido como uma tentativa de tentar abafar o que realmente se passa e de calar os funcionários públicos.
Não se percebe como é que não foi possível, com tanto tempo de preparação, organizar material em Português, de acordo com o que a Lei exige e prevê. E, mesmo que a Lei não o dissesse, deveria ser feito por respeito à diversidade cultural de Macau e das pessoas que aqui trabalham.
Por outro lado, perante este facto, não se percebe como vão garantir a igualdade de tratamento. Haverá dois sistemas de avaliação dos funcionários?
Muitas vezes estes atropelos, que se registam diariamente, são abafados e ninguém fala deles, seja por receio de represálias a nível profissional, seja por falta de vontade de criar um «caso» relativamente à língua.
Sempre defendi, desde que ingressei na Função Pública, que se não formos nós, os falantes de Português, a defender o seu uso e difusão, ninguém o fará por nós. Se, no sector privado, não nos é possível fazê-lo, que o façamos no sector público. A desculpa da falta de recursos não pode servir para que o Português seja colocado de parte.
Numa terra como Macau, onde o dinheiro abunda, a falta de recursos é uma desculpa de mau pagador. Se não existem recursos em Macau, recrutem-nos ao exterior. A China, Taiwan e o Brasil têm bilingues de Chinês e Português, que chegam perfeitamente para fazer face às lacunas da RAEM e muitos deles não se importariam de vir trabalhar para cá.
Não acredito que a razão destes esquecimentos seja falta de recursos. O facto do referido curso estar previsto há diversos meses contraria essa teoria. É que mesmo com a dita falta de mão-de-obra, um período de meses seria perfeitamente suficiente para coordenar os «escassos» recursos e arranjar uma forma de respeitar as duas línguas oficiais.
Mais importante do que respeitar o previsto na Lei Básica, é respeitar as pessoas que diariamente contribuem para o bom funcionamento da máquina da Administração Pública de Macau nas duas línguas.
Este, infelizmente, foi mais um sinal de que algo de muito errado se passa com a língua portuguesa na RAEM.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mini-saias e falta de educação

ESTES últimos dias foram férteis em afirmações que roçaram o ridículo por alguns residentes de Macau que ocupam lugares de destaque na sociedade, nomeadamente professores. Começaram com as críticas à indumentária da professora que resolveu dar a voz nas manifestações do 1º de Maio. Colegas seus, alguns com um discurso que fazia lembrar a famosa caricatura de Herman José, o Diácono Remédios, a dizerem que a saia era curta de mais, que estava muito provocadora, que isto ou aquilo!

Afinal, a mulher não estava em dia de folga? Ou será que por ser professora tem que andar de gola alta e saia até aos tornozelos até mesmo para dormir? Santa paciência para tanta ignorância e interesse pela vida alheia. Se tivessem mais interessados no que se passa dentro das suas próprias vidas, certamente que seria mais produtivo e não diriam tantas baboseiras!
Sinceramente, quando ouço críticas deste tipo fico sempre com o pé atrás relativamente a quem as faz e com uma pulgazinha atrás da orelha. Faz-me lembrar o dito popular: «se tens telhados de vidro não atires pedras ao do vizinho!».
Numa sociedade como a de Macau, onde tudo se vê e tudo se permite, virem com moralismos descabidos para a praça pública não cabe na cabeça a ninguém. A senhora professora, se não estou em erro, não vai de mini-saia para a escola. E, mesmo se for, qual é o problema? Não há código de indumentária no ensino em Macau para os professores, apenas se lhes pede decoro. Aliás, ainda me lembro que quando andava no secundário, se uma professora viesse com roupas mais «ousadas» ninguém ficava ofendido e ninguém faltava às aulas!
Porventura, o que Macau precisa é de mais professoras de mini-saia e com opiniões sobre a sociedade e o sistema de ensino bem fundamentadas. Afinal, a dita professora estava a protestar contra os problemas dos jovens e contra a cultura de ensino em Macau que privilegia técnicas de ensino baseadas em decorar a matéria, em detrimento de incentivar os alunos a serem pró-activos e criativos e a usarem a cabeça para pensarem.
A jovem professora, além da mini-saia que não o era, deve ter calcado os calos a alguém no sistema de ensino de Macau, daí tanta celeuma….
Outro dos assuntos que tem sido alvo de vários comentários é a suposta gravidez de uma menina de 15 anos que teve um «caso amoroso», que ao que se saiba consentido, com um jovem de 21, depois de se terem conhecido numa das plataformas sociais da Internet. Todos apontam o dedo à Internet, como se fosse ela a causadora de tal problema. Ao que saiba, até hoje, pela Internet ninguém engravidou, por muito que apareçam estórias incríveis de tempos a tempos.
O caso é grave e trata-se de uma menor, mas daí até se atirarem as culpas de tudo ao acesso à Internet e aos vários conteúdos e plataformas que ela disponibiliza, vai um passo gigante.
O que se trata é de falta de informação e de consciência por parte dos intervenientes. O problema da sociedade, antes de ser a Internet, é o não haver regras, nem valores morais. A falta destes dois pilares da vida em sociedade, com ou sem Internet, salas de conversação e plataformas sociais, faz com que os jovens cresçam sem referências do que é socialmente aceitável e de como se devem comportar enquanto membros de uma sociedade equilibrada.
Estes dois casos ilustram bem a sociedade em que vivemos.
Qual cidade internacional qual quê!? Uma cidade que se quer internacional, mas que a qualquer chuvinha fica atascada até ao joelho, tem ainda muito que aprender. E, pelo que se vê pela reacção à mini-saia da professora manifestante ou pelo caso da rapariga de 15 anos que engravidou porque conheceu um jovem na Internet, é preciso mais do que infra-estruturas físicas.
O facto de termos líderes políticos no poder há mais de dez anos também não ajuda em nada ao processo de modernização da sociedade.
Como em qualquer bom edifício, temos de começar por ter boas fundações sociais para que a obra possa crescer sem que abane ao mais pequeno contratempo.
Provavelmente o que a professora pede para o ensino de Macau é um bom começo. Jovens críticos, com espírito reivindicativo e informados, não serão tão facilmente engodados pela Internet ou por amores juvenis que acabam em finais menos felizes, como o da jovem de 15 anos que se vê agora de caras com uma gravidez não planeada.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Change email - mudança de email

Dear friends

The domain @pubeditions.com will be cancelled soon due to life changes in the future.
From now on you can contact me on pubeditions@gmail.com
If you wish to contact me use that email.

Thank you
Joao Gomes

Caros amigos

O dominio @pubeditions.com será cancelado em breve devido a mudanças a anunciar no futuro.
Daqui em diante podem contactar-me pelo email pubeditions@gmail.com
Se quiserem contactar usem esse email.

Obrigado
Joao Gomes

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Hong Kong abafa manifestação

COM o passar dos anos habituámo-nos a olhar para Hong Kong como um local de referência, imitado especialmente pelo nosso Governo em tudo, mesmo nas coisas más! O último exemplo de «copismo» do nosso Executivo é a decisão de se legislar acerca da segurança dos elevadores, depois de Hong Kong ter registado um grave acidente há uns meses.

Mas de Hong Kong não vêm apenas bons exemplos. Recentemente, mais precisamente no dia 30 de Abril, registou-se uma manifestação nas ruas da ex-colónia britânica, com a participação de milhares de pessoas ligadas ao sector da náutica, que nem sequer foi referida na Comunicação Social. Uma censura a todo a linha, tendo apenas sido excepção um jornal chinês de segunda linha que, passados dois dias, resolveu fazer uma pequena referência ao sucedido, mesmo que a dita manifestação tenha contado com figuras de renome de Hong Kong e tenha terminado com a entrega de um abaixo-assinado ao Executivo da RAEHK.
Este incidente ilustra o conhecido receio que os Governos de Hong Kong sempre tiveram relativamente a tudo o que se relaciona com água. Desde sempre que os Executivos da região vizinha temeram o sector ligado ao mar mas, ao contrário de Macau, ali o que mais temem é a classe baixa. Em Macau vemos o Governo a fazer tudo o que os patrões querem e a ignorar os pedidos dos que apenas recebem um salário.
Esta manifestação em Hong Kong foi «patrocinada» pelos patrões das marinas, empresas ligadas ao mar e outros sectores daqui dependentes, mas também por proprietários de barcos de recreio, membros de clubes náuticos e outros interessados que exigem que se resolva, de uma vez por todas, a questão da falta de locais para atracagem das suas embarcações, para que todos (ricos e pobres) possam usufruir da extensa orla marítima de Hong Kong em segurança. Um luxo aos olhos de muitos mas que, numa cidade como Hong Kong, é uma actividade que gera milhões para os cofres do Governo e emprega milhares de pessoas.
Paralelos foram feitos com a situação dos estivadores que, há meses, fazem barulho relativamente às suas condições de trabalho nos portos da região vizinha e que tem sido amplamente coberta pela Comunicação Social, com o Governo completamente desesperado sem saber como lidar com a situação porque não quer, de forma alguma, ferir as susceptibilidades dos trabalhadores das docas. Como se sabe, e é do conhecimento público ao longo dos séculos, as docas de Hong Kong sempre foram controladas pelas organizações criminosas que, como já aconteceu há várias décadas, se não virem as suas reivindicações atendidas, não têm qualquer repúdio em parar os portos e a cidade, criando um pandemónio a que Hong Kong não se pode arriscar. Algo que o Governo, especialmente o Governo chinês, não quer sequer ouvir falar, quanto mais ter que lidar com uma situação desse género. Daí todo o impasse e o longo período para resolver o problema.
Quanto à manifestação dos patrões e de outros interessados ligados à náutica de recreio, como não envolve os trabalhadores das docas e como são um sector, de certa forma, marginal e recente, não acolhem grande apoio ou simpatia junto da Comunicação Social e do Governo, vendo as suas reivindicações não serem atendidas. Facto que, na minha opinião, leva a que Hong Kong perca milhões tanto em ganhos directos como indirectos neste sector de actividade.
A dita manifestação foi liderada pelo deputado eleito Paul Zimmerman, que é também presidente da «Designing Hong Kong», uma organização não-governamental e sem fins lucrativos que tem como objectivo aconselhar o Executivo e fazer estudos sobre o futuro desenvolvimento físico de Hong Kong. Aliás, a iniciativa da manifestação foi do próprio Paul Zimmerman e de outras individualidades ligadas à náutica.
Felizmente, ou infelizmente, em Macau a situação ainda não chegou a esse ponto porque não temos um sector de náutica de recreio forte, nem existem grandes empresas que vendam barcos nem um sector que se dedique à sua manutenção. No entanto, ao abrigo da tão apregoada diversificação da economia, já aqui escrevi diversas vezes que esta pode ser uma das áreas que Macau pode e deve explorar.
Nos últimos tempos e a reboque da polémica com a famosa «club house» do Clube Náutico de Macau e da Marina do Lamau, falou-se do surgimento de, pelo menos, duas novas marinas e possivelmente uma terceira e mesmo uma quarta.
A marina na Doca dos Pescadores, que ao que parece já recebeu licença de operação, mas que ninguém quer falar; a Marina Pearl Harbour, que foi anunciada com pompa e circunstância, mas que nada mais se ouviu apesar de toda a fanfarra, e de uma terceira que ouvi dizer poderá nascer do lado da Taipa e que pode servir para albergar o que actualmente existe na Marina do Lamau, caso esta tenha de vir a ser encerrada se a direcção do Clube Náutico de Macau não resolver o novelo de problemas em que se envolveu. A quarta aponta a nova ilha onde termina a ponte Hong Kong – Zhuhai – Macau.
Tudo isto são apenas conjecturas e nada está definido mas, ao contrário de Hong Kong, espero que aqui não seja necessário as pessoas ligadas ao sector irem para a rua para fazer ouvir as suas reivindicações.
Relativamente à falta de atenção da Comunicação Social, em Macau não nos podemos queixar, visto que todos os assuntos ligados às marinas e à actividade a si relacionada tem merecido cobertura e atenção em formatos adequados. Será que é chegado o momento de Hong Kong nos copiar?

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Pataca: acaba ou é imposta

A MOEDA local mereceu, recentemente, do deputado José Pereira Coutinho, atenção especial no hemiciclo da Região Administrativa Especial de Macau. Este membro da Assembleia Legislativa entregou uma interpelação ao Governo relativamente à não aceitação de moeda local nos barcos que ligam a Hong Kong e em alguns estabelecimentos comerciais locais. Uma prática que viola claramente a lei que regula a nossa moeda e que, acima de tudo, é uma afronta à nossa dignidade como cidadãos de Macau. O facto de meterem a pataca fora do cabaz de moedas aceites é uma falta de respeito pela independência administrativa do território.

Mas posso afirmar que não é só nos barcos, o mesmo se passa em algumas companhias aéreas a operar no território. E, quando aceitam, logo informam que o troco não será feito na mesma moeda, acabando sempre o cliente a perder com os câmbios e a ver-se privado de um direito que tem ao viver em Macau, que é o de usar a moeda corrente do local onde se encontra.
Aliás, os exemplos abundam e convivemos com eles diariamente. Tão assiduamente que nem sequer nos surpreendemos. Basta andar pela cidade e olhar para os preços dos produtos à venda. Quantos deles têm MOP junto dos preços? O que mais se vê é HK$, ¥ e $. E quando perguntamos o preço é sempre dito o preço em dólares de Hong Kong. Se insistirmos nas patacas o valor muda para mais elevado, mas nem sempre usando o valor fixo da indexação de 1HK$=1.03MOP! Também raros são os exemplos em que as patacas vêm em primeiro lugar.
Até nem me importava que assim fosse, afinal já estamos tão habituados a ter moeda de três jurisdições na carteira que pouco mal faz termos os preços em algumas delas. No entanto, apesar de aceitar este procedimento de se usar moedas estrangeiras em Macau, defendo que tal não pode ser feito em detrimento da não aceitação da moeda local. Muito bem que se aceite os dólares de Hong Kong e os yuans da China, se ao mesmo tempo não deixarem de aceitar a única moeda legal local, a «nossa» pataca.
Há um exemplo fulcral para todo este processo e que demonstra a incapacidade do Governo (de todos eles, desde sempre) ou da sua falta de vontade de fazer vingar a moeda local. Nos casinos a moeda que se usa é a de Hong Kong, sendo impossível jogar ou fazer apostas com moeda local! Quanto assim é, o que se pode esperar?
Todos sabemos que a pataca não tem conversão internacional. Os únicos locais onde é aceite e trocada é na própria RAEM e em Portugal. Até mesmo na China não fazem o seu câmbio oficialmente, a não ser ali do outro lado da fronteira onde se aceita de tudo! Já me aconteceu, na capital, ter ido a um banco para trocar patacas e não as terem aceite, tendo eu de recorrer ao câmbio de dólares americanos na altura. Mas, desde não ter conversão ou valor internacional até ao facto das próprias autoridades de Macau não se importarem por impor a sua moeda localmente, é um passo muito grande e que denota, do meu ponto de vista, muita falta de respeito pela própria independência económica da RAEM.
Se prestarmos atenção a todos os negócios feitos em Macau, nomeadamente os que envolvem valores mais elevados, são todos feitos em dólares de Hong Kong, inclusivamente os próprios contratos que depois são validados pela máquina administrativa através do reconhecimento de assinaturas e outros procedimentos legais. Venda de casas, de carros, de negócios, são apenas alguns exemplos que precisam de assinaturas reconhecidas notarialmente e que apresentam, na sua maioria, valores em dólares de Hong Kong ou em yuans.
Felizmente, nos últimos anos, tem passado a ser regra nos próprios contratos que o Governo assina com fornecedores, o uso apenas de moeda local. O que, ao que parece, pode ser um passo no bom caminho. Mas, se ficarmos apenas por aqui, será um passo muito pequenino!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Também quero Internet de borla

MUITO se tem escrito e falado sobre a Internet em Macau. Há muito que se exige a liberalização do mercado, tendo recentemente a TV Cabo Macau visto o seu pedido de fornecimento do sinal de Internet, através da sua rede de fibra óptica, sido recusado pela entidade competente por ir contra os princípios do contrato que tem com o Governo. No entanto, isto para a população soou mais como uma defesa descarada do monopólio da CTM, no que diz respeito à Internet, do que propriamente um problema contratual. Estes podem ser sempre emendados, se houver vontade de todas as partes envolvidas e se isso trouxer benefícios para a população.

Sempre fui apologista de diferentes ofertas no mercado para que os clientes possam escolher o que mais lhes convém e lhes traga mais benefícios. Olhe-se para o exemplo das telecomunicações móveis e para a melhoria que registou após a sua liberalização. O processo trouxe valor acrescentado para todos e benefícios para o mercado, algo que não acontecia durante o período de monopólio. Preços mais baixos, mais serviços e melhor qualidade no geral.
O mesmo se regista com a Internet: enquanto o mercado não for aberto, continuaremos a ser obrigados a usar o único servidor da CTM e a ouvir as mais descaradas desculpas dos seus directores. A última, se bem se lembram, foi dizerem que a Internet era lenta porque nós a usamos muito e visitamos muitos «websites» de filmes!!! Dá vontade de rir, não é? Ainda para mais quando pagamos um dos preços mais altos do mundo para uma qualidade de terceiro mundo. Então de que serve a Internet, se o cliente não pode navegar por onde lhe apetece? Afinal, tanto quanto sei, ainda não estamos por detrás da «Great Wall» da China...
Infelizmente, nada se pode fazer, e enquanto o Governo não decidir mudar de posição e abrir o mercado à concorrência, somos obrigados a «comer e calar». A não ser que sejamos directores de serviços no Governo! Porque, pelo que veio a público recentemente, nesse caso podemos pedir Internet de fibra óptica para a nossa residência e mandar a conta para o Governo, sob a desculpa de que trazemos trabalho para fazer em casa.
Não sou director nem coisa que se pareça mas, certamente, faço mais trabalho em casa do que o meu próprio chefe. Será que também posso pedir ao Governo para me pagar Internet de fibra óptica, advogando que o trabalho tem que ser feito com celeridade e que para tal tenho de ter uma ligação rápida? É que tenho apenas «broadband» e gostava de ter a versão mais rápida lá em casa para conseguir enviar os trabalhos mais depressa. É que às vezes só para fazer o «upload» de um simples ficheiro de «Word» demoro quase 15 minutos. A velocidade, claro, vem a um preço que, infelizmente com o ordenado que me pagam e com os aumentos que apenas reduzem a capacidade de compra, não posso suportar. Mas como trago sempre trabalho para casa vou, sinceramente, pensar em expor a minha situação ao Governo apelando à igualdade de tratamento de todos os funcionários.
Mas além de se levantarem questões do foro legal, ligadas ao facto de o Governo estar a pagar por ligações à Internet em casas particulares, mesmo sendo estas para trabalhos do Governo, há outras questões por responder. Será que essas ligações à Internet são só usadas para trabalhos do Governo estando elas instaladas em casas privadas? Ou será como os carros de serviço, que servem para tudo, desde levar o miúdo à escola até à senhora à manicura?
O deputado José Pereira Coutinho comentou a problemática e insinuou que seria apenas a ponta do «iceberg», exaltando o Comissariado Contra a Corrupção a investigar a fundo o que foi tornado público. Isso é algo que eu também gostaria de ver esclarecido mas, pelo que sabemos de Macau, não me parece que vá acontecer. Se calhar até o Comissário tem Internet paga em casa e ainda ninguém sabe!
Mas, como disse, gostaria de ver o assunto resolvido porque, como disse no início do artigo, sou parte envolvida. Quero estar em posse de todos os argumentos para ser capaz de redigir bem a minha requisição de Internet de fibra óptica para casa. Tudo, claro, em prol da celeridade dos trabalhos do Governo.
Estamos mesmo em Macau, local onde o erário público dá para tudo, enquanto parte da população passa fome e outra parte não tem onde viver condignamente.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Genebra e tradições chinesas?

 
A RECENTE visita de uma delegação de Macau ao Comité dos Direitos Humanos na Suíça deu-me vontade de rir. Não sei se por ter sido apenas a primeira vez desde a criação da Região Administrativa Especial, se pela ingenuidade dos membros do Comité, ou se pela completa falta de respeito da delegação da RAEM que não se dignou a responder a nada do que lhe tinha sido perguntado directamente. Respostas ocas, evasivas e cheias de nada, um estilo que há muito o Governo nos habituou. As respostas foram depois dadas, também algo vazias, por escrito.

As respostas de Macau às perguntas claras e directas do órgão internacional foram sempre cheias de rodeios e nada esclarecedoras. As que alguma coisa diziam apontavam o dedo para Pequim para mais detalhes e responsabilidades. Como quem diz, fugiam com o «rabo à seringa» e escapavam à obrigatoriedade de apresentarem justificações claras e concisas a um órgão a que Macau se obrigou a responder por ter subscrito determinadas convenções internacionais.
Mas, além da falta de respostas do Governo de Macau, gostei também de ver alguns ilustres do território a defenderem a sua «dama» passados alguns dias, quando a Imprensa começou a esmiuçar o que ia chegando da terra dos chocolates. Especialmente um destacado homem das leis, que muito do que tem deve à democracia e aos direitos e regalias que ela lhe trouxe durante a Administração Portuguesa e lhe continua ainda a trazer, que defendeu em afirmações transcritas em alguns jornais locais que, no que diz respeito aos reparos acerca do desleixo da necessidade de se legislar tendo em vista a eleição por sufrágio universal do Chefe do Executivo previsto na Lei Básica, Genebra tem uma visão «preconceituosa e ignorante». Acredito, mas não percebo porquê, pois são críticas proferidas por quem sempre foi um defensor acérrimo da democracia e do sufrágio universal.
Afirmações interessantes proferiu também outro destacado homem ligado às leis e com fortes ligações ao Executivo, defendendo que o facto de Macau assinar um pacto que prevê o sufrágio universal não quer dizer que tenha de o adoptar. Isto dá-nos margem de manobra para da próxima vez que assinarmos um contrato apenas respeitar e honrar as cláusulas que nos forem mais favoráveis, descartando as que não nos interessarem. Se a RAEM apenas faz aquilo que lhe convém no dito pacto internacional, também um simples cidadão pode escolher o que mais lhe interessa. Uma argumentação que gostaria de ver ser usada numa sala de tribunal de Macau mencionando a opinião desse homens das leis.
Mas há ainda outros temas focados pela Comité dos Direitos Humanos que nos enchem de vergonha. Ou talvez não, à luz da tradição chinesa, o argumento usado para tentar explicar a «magnitude dos casos de violência doméstica» que, segundo o Comité, «permanece pouco clara e é lamentável a falta de legislação sobre este caso, bem como os casos de assédio sexual».
Sinceramente, depois de quase duas décadas a viver no meio da cultura chinesa, não tinha conhecimento que é tradição deste povo encher as mulheres de pancada em casa e abusar do sexo oposto. É mesmo caso para dizer que andamos sempre a aprender. A cultura chinesa é mesmo cheia de meandros difíceis de explorar para uma simples mente ocidental. Vou tentar aprofundar este aspecto da cultura chinesa para saber que fundamentos a afirmação pode ter. É que nunca ouvi um colega chinês gabar-se de ter espancado a mulher por deveres tradicionais. Mas, quem sabe, com a timidez que os caracteriza apenas não querem que se saiba cá fora. Francamente, meus senhores!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Alerta para transacções bancárias

 
VOU contar-vos o que se passou comigo recentemente e que penso já ter acontecido a muitas outras pessoas, que nem sequer dão pelo sucedido, por não prestarem a devida atenção aos extractos bancários.

O exemplo recai no Banco Nacional Ultramarino, mas deve, sem que o possa confirmar, acontecer em todos os bancos de Macau.
Não sei quantas vezes isto sucedeu mas, tendo em conta os meus hábitos consumistas, presumo que inúmeras vezes. No entanto, relato apenas as que descobri e que me levaram a apresentar queixa formal.
Trata-se de um «buraco na lei» em relação aos bancos e à forma como cobram taxas abusivamente aos clientes, sem que estes tenham qualquer conhecimento que o mesmo está a ser feito.
Num fim-de-semana, não tendo dinheiro na conta à ordem, decidi levantar um depósito a prazo, para que tivesse dinheiro disponível para pagar o que fosse necessário. Acredito que não deva ter sido o primeiro cliente a levantar dinheiro de uma conta a prazo, num fim-de-semana ou em dias feriado, através da página electrónica do BNU. Tal é possível a qualquer hora do dia. A única nota na página onde são feitos os depósitos e levantamentos das contas a prazo é que «a constituição e o levantamento de Dep. A Prazo está disponível todos os dias. O serviço fica indisponível apenas no final do dia, quando o banco procede à actualização dos ficheiros (entre as 9h00 p.m. – 2h30 a.m.)». Não há qualquer aviso de que a verba só estará disponível no dia útil seguinte.
A transacção foi feita sem problemas, tendo a quantia transferida da conta a prazo para a conta à ordem ficado, de acordo com a página da Internet, disponível para uso, como era possível ver na secção onde se verifica o saldo disponível, sendo que o saldo contabilístico era igual ao saldo disponível, pelo que não havia qualquer verba retida.
No mesmo dia, ou no seguinte, fiz uns pagamentos também através da Internet e uns levantamentos na Caixa Automática.
Mais tarde, quando verificava a conta bancária e o extracto da conta, verifiquei que, em dois meses seguidos, me tinha sido descontado uma quantia de 50 patacas com a justificação «O/D Interest Overdraft Interest».
Tendo eu tido, há algum tempo, uma conta «overdraft», entretanto encerrada, pensei que ainda fosse algum engano do banco relativamente a esta conta e à cobrança de juros.
Depois de alguma insistência e de algumas idas ao banco propositadamente para tratar do assunto, fui informado que se trata de um «problema do sistema». Fiquei logo com a «pulga atrás da orelha».
Segundo explicaram, o sistema informático apenas disponibiliza o dinheiro, transferido de uma conta a prazo para a conta à ordem, no dia útil seguinte. No meu caso, seria na segunda-feira ou no dia após o feriado. Contudo, a quantia transferida ficou logo visível no montante, algo que não me conseguiram explicar, escudando-se o banco no «problema do sistema».
Um «problema do sistema» que, entretanto, o cliente tem que pagar, sem ter qualquer responsabilidade por isso e, pior ainda, tendo sido induzido em erro pelo banco quando na sua conta «online» lhe indicou que a verba estava disponível.
A reclamação foi feita pedindo que os montantes sejam restituídos, algo que, conhecendo o BNU, não acredito que vá acontecer.
Os bancos, à semelhança de todas as outras instituições financeiras, conseguem sempre arranjar forma de justificar estes erros e incutir ao cliente a responsabilidade. Já parece a CTM com a velocidade da Internet!
Peço aqui, publicamente, à Autoridade Monetária de Macau que se pronuncie sobre este caso. E, caso necessitem, podem aceder à minha informação no BNU para investigarem o problema.
Aceito que possa estar errado, porque nunca leio as letras pequeninas dos contratos que assino mas, se isto é legal, é algo muito injusto para os clientes que acreditam nos bancos a quem confiam o seu dinheiro.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Obras ilegais precisam de subsídios?



AS recentes notícias relativas a um programa do Governo para tentar acabar com as construções ilegais dão-me vontade de rir por diversas razões e nenhuma se pode dizer que seja abonatória.

Por parte do Governo, criar um programa especial para tentar acabar com um flagelo que apenas envergonha Macau é dar um tiro no próprio pé. Afinal não existem leis em Macau bem claras que definem que estas construções são ilegais? Se existem leis, qual a razão e a necessidade do Governo vir gastar dinheiro em subsídios para alguns fazerem o favor de repor a legalidade e cumprirem a Lei?
No meu caso pessoal, mas que é igual a tantos outros, quando comprei casa esta tinha uma gaiola e outras construções ilegais, à semelhança de outros milhares de apartamentos em Macau. A primeira ordem que dei foi mandar demolir tudo. Primeiro, para que ficasse sem a sensação de estar na prisão; segundo, para que estivesse legal e me sentisse mais seguro e de consciência tranquila.
Será que posso agora pedir o subsídio para cobrir as despesas que tive com a minha iniciativa há alguns anos? Se assim for, digam-me como devo proceder para ser ressarcido do prejuízo voluntário que tive. É que se vão agora dar dinheiro aos que infringem a Lei, quem a respeita de forma voluntária tem também direito a ser compensado. Ou estaremos num «Estado» que apenas compensa quem não segue as regras de sociedade?
Tem piada que tenha de ser o Governo a dar dinheiro para tudo e mais alguma coisa nesta terra. Se é ilegal, que se levem os responsáveis à Justiça. E, por outro lado, 10 mil patacas??? Eu gastei mais do triplo disso apenas para que me retirassem a estrutura de metal e me reconstruíssem a varanda há mais de cinco anos!
Mas relativamente a este assunto também alguns deputados e figuras públicas se têm pronunciado, ora dizendo que não irá resolver nada, ora dizendo que o problema tem raízes tão profundas e que é de muito difícil resolução. O «nosso» Pereira Coutinho, com quem concordo em muita coisa, deu um tropeção ao dizer que «é preciso olhar ao valor histórico e cultural destas construções», segundo declarações feitas ao Hoje Macau. Valor histórico e cultural, sinceramente não entendo!
O deputado disse ainda ao mesmo diário que «demolindo o topo do edifício ele (supõe-se quem lá viva) não vai consegui outra casa!». Assim sendo, primeiro preciso que me expliquem qual é o «valor cultural», ou outro qualquer, destas gaiolas que enfeitam as janelas da maioria dos prédios de Macau. Será o caso de fazermos uma nova candidatura a Património Mundial?
E relativamente à outra pérola, no caso de não terem onde viver, se demolirem os anexos ilegais no terraço, porque razão há-de o Governo deixar que se continue a viver numa situação de ilegalidade, apenas porque os «moradores» não podem, ou não querem, encontrar outro local para viver? A orientarmo-nos todos por este diapasão podemos chegar ao extremo de ter de começar a aceitar, e ter como normal, os casos de assaltos que se registam todos os dias. Porque se o ladrão não roubar, não tem dinheiro e não tem como sobreviver, coitadinho!...
Macau, tanto quanto sei, até está bem servido de leis. Apenas aqui e ali existem algumas lacunas que devem ser revistas e aperfeiçoadas. Mas, no que diz respeito aos prédios e à segurança urbana, penso haver suficientes regulamentos para que tudo seja feito dentro da legalidade. O que o Governo precisa, e o que as Obras Públicas têm tentado fazer nos últimos anos, é aplicar a Lei de forma eficaz e obrigar os prevaricadores a repor a legalidade.
Devido às peculiaridades de Macau tem que se adoptar a postura de estudar os casos um a um, mas tal não significa que, perante as adversidades, o Governo resolva – sempre – recorrer aos cofres e dar dinheiro em troca do cumprimento da Lei.
Imaginemos se não houvesse dinheiro em Macau. Cruzes sacrilégio, ouço já algumas vozes gritar. Como se iria implementar e fazer cumprir a Lei?
O que é necessário é equipar as Obras Públicas, e os outros departamentos responsáveis por estes aspectos, com mão-de-obra suficiente e recursos tecnológicos e financeiros, para que possam fazer o seu trabalho na plenitude e actuem de forma a obrigar todos a cumprir a Lei.

domingo, 24 de março de 2013

Também posso destruir o Ambiente

 
MUITO se tem falado da polémica em volta do projecto de construção, em Coloane, de várias torres de uma das empresas de um dos grandes manda-chuvas de Macau. Tudo – segundo consta – porque se descobriu que a dita obra iria meter em perigo, ou mesmo destruir, uma casamata que, possivelmente, pode ter algum valor histórico. Mas, sendo quem é o responsável pela obra – homem de dinheiro e influências, – tudo se admite. Aliás, tudo e mais alguma coisa, a entender pela sua reacção às criticas na Imprensa.

Nas suas palavras, feitas públicas em vários jornais e na rádio, afirmou: «Não sou o único a destruir o Ambiente [...] é inevitável destruir o Ambiente» em detrimento do desenvolvimento....
Pessoalmente fiquei apenas surpreendido porque, sendo esta pessoa um destacado político a nível nacional, delegado da RAEM à Conferência Consultiva Política do Povo Chinês e figura de proa do mundo dos negócios em Macau, deveria ter mais tento na língua. Ou, pelo que ficámos agora a saber, talvez não! Por cá, o quero posso e mando já faz escola há muitos anos.
Pelo que fiquei a perceber, tendo o «rei na barriga», tanto em Macau como em Pequim, parece estar autorizado a fazer tudo, até mesmo a afirmar que destrói o Ambiente, porque afinal não é o único e até lhe é conveniente para poder meter no ar mais não sei quantos apartamentos.
É precisamente aqui que reside a grande diferença de mentalidades. Enquanto que os ocidentais são ensinados, na sua maioria, a fazer tudo para proteger o Ambiente – mesmo que o vizinho do lado nada faça e enriqueça com isso, – aqui quem devia dar o exemplo aponta os erros do vizinho como justificação, para que possa fazer o mesmo ou ainda pior.
Então, se o Governo decidiu destruir Seac Pai Van, algo que sempre aqui critiquei e que continuo a considerar como um dos maiores ataques ao equilíbrio ecológico jamais feito em Macau, logo após a destruição do mangal que existia no istmo onde agora cresce o COTAI, porque não deveria Sio Tak Hong construir uma série de torres de habitação em Coloane, mesmo que para isso tenha que destruir património histórico e ambiental?
Triste sina e futuro deste país, em que os seus líderes nada querem saber relativamente à protecção ambiental.
Quando apenas se olha ao lucro, sem que se tenha qualquer cuidado com o que se destrói para atingir patamares mais altos de riqueza, algo de muito errado deve estar a acontecer na sociedade e nos valores que a regem.
Infelizmente em Macau, e um pouco por toda a Ásia, funciona muito este tipo de mentalidade. Basta olhar para as obras ilegais nos prédios que são sempre justificadas com o facto do vizinho também as ter feito. Ou o lixo atirado para o chão porque o outro que vai à frente também atirou e ninguém lhe disse nada, ou o vizinho de cima com música aos altos berros porque na semana passada o do lado também o incomodou.
É algo enraizado na cultura que vai até aos mais altos patamares de decisão e que acaba por minar uma sociedade por inteiro.
Enquanto estas mentalidades não mudarem e as pessoas não forem educadas para respeitarem o próximo, o foco no próprio umbigo nunca irá deixar de existir.
No que diz respeito a Macau, preocupa-me seriamente a educação que dão às crianças, porque desde pequenos que lhes incutem este modo de ver as coisas. Sendo as crianças assim educadas, muito dificilmente se irá mudar a sua mentalidade quando forem adultos.

sábado, 16 de março de 2013

DST discrimina turistas


OS Serviços de Turismo de Macau têm, há já algum tempo, um sistema de guia electrónico para os turistas. É uma espécie de telefone portátil que debita informação sobre os mais variados locais e que pode ser usado livremente por quem nos visita. Tanto quanto tenho conhecimento, os ditos aparelhos podem ser levantados nas instalações do Turismo no Largo do Senado pelos turistas interessados e usados durante o passeio pelos locais da rota do Património Mundial. Durante três dias e mediante um depósito para assegurar o seu bom uso e restituição.
O serviço de «áudio-guia» portátil foi lançado, com pompa e circunstância, pelo ido director Costa Antunes e tinha como objectivo responder às necessidades dos turistas que inundam as nossas ruas diariamente. Não são conhecidos números da sua utilização, mas deduzo que se não os fizeram públicos é porque não devem famosos! Desde 27 de Julho do ano passado que os tais guias estão disponíveis, pelo que já passaram seis meses, altura para se fazer uma avaliação do impacto da medida e dos milhões investidos.
Nunca experimentei o dito aparelho mas tive acesso aos textos que são fornecidos pela DST à instituição responsável por criar as versões sonoras nas variadas línguas e estes deixam algo a desejar no que diz respeito à exactidão dos dados e da informação prestada, mas, como se costuma dizer, mais vale isto do que nada! Aliás, em Macau a falta de rigor na informação histórica é algo que não nos deixa surpreendidos nos serviços públicos.
Este novo serviço tem a pretensão de tornar os visitantes mais independentes, enquanto percorrem a cidade de atracção em atracção, tendo acesso a vários tipos de informação. No entanto, os turistas estão longe de estar satisfeitos, nomeadamente aqueles que não viram o seu idioma contemplado no aparelho, apesar de serem dos que mais visitam a RAEM para ver a sua história. Porque, como sabemos, a grande maioria dos visitantes que vem da China, vem a Macau pelos casinos, pelo que os «áudio-guia» de nada servem apesarem de lhes estarem reservadas duas das línguas nos mesmos!
Neste momento há informação em seis idiomas, Mandarim, Cantonense, Português, Inglês, Japonês e Coreano, tendo sido deixado de parte duas das mais importantes línguas em termos de número de turistas, o Tailandês – um dos mercados mais importantes fora do Jogo – e o Tagalog das Filipinas, de onde o número de turistas tem vindo a crescer de ano para ano, a bom ritmo e com grande poder de compra.
Quem mais se queixa de discriminação são os tailandeses que visitam Macau e não conseguem ter acesso à informação histórica que tanto procuram. Muitos deles dominam Inglês mas não o suficiente para conseguir seguir a narrativa na língua de Shakespeare. Sendo a Tailândia um dos mercados mais importantes para Macau no Sudeste Asiático, não se percebe como é que a DST faz uma omissão destas.
Muitos dos turistas tailandeses com quem falei mostraram-se bastante desapontados com a falta de sensibilidade do turismo de Macau e uma grande parte pondera não regressar a Macau, apenas devido a esta falta de consideração.
O turista tailandês, regra geral, não viaja em grupo, pelo que os guias electrónicos assumem uma grande importância para a sua autonomia na visita a Macau. Já outros dos grupos cujas línguas estão incluídas, apenas visitam os locais turísticos de Macau em grupos organizados, não havendo necessidade da utilização destes aparelhos porque estão sempre acompanhados de um guia profissional que, bem ou mal, tem obrigação de lhes explicar o património.
Ainda assim, resta salientar que nem tudo é negativo: Este serviço está disponível diariamente para levantamento entre as 9:00 e as 17:00 horas e, apesar de ser um serviço gratuito, os interessados têm de fazer um depósito de 200 patacas para garantir a boa utilização do aparelho e a sua entrega em boas condições, o que, na minha opinião, é uma medida apropriada e que salvaguarda a integridade da propriedade do Governo de Macau. É que os ditos aparelhos, apesar de serem uns simples rádios, não devem ter sido muito baratos. A devolução do aparelho tem de ser feita no prazo de três dias no balcão de informações no Largo do Senado.
Também o Museu do Grande Prémio e o Museu do Vinho contam com visitas áudio-guiadas. Os aparelhos podem ser levantados pelos turistas nos respectivos museus, mediante um depósito simbólico, e têm que ser entregues no local no mesmo dia.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Podia ser o nosso mangal


 
A NOSSA Macau tem muito que aprender com o exterior e precisa de deixar de continuar a olhar apenas para o seu umbigo. E, quando digo exterior, não me refiro à China (continental como lhe chamam, como se houvesse um novo continente que não tenhamos descoberto), a Hong Kong ou à Formosa.

Principalmente a classe dirigente deve deixar de pensar e agir com mentalidade de «quero, posso e mando!». A humildade nos líderes é algo de muito importante e só um que seja humilde, mas competente, pode almejar bons resultados e a aceitação da população e dos seus pares, sem ter que se impor pela arrogância.
Os bons exemplos existem em toda a parte, mesmo na nossa equipa governativa há alguns exemplos. No entanto, e como regra geral são estes os mais humildes e descomprometidos, não se impõe aqui citar nomes nem ficaria bem. Aliás, quem faz um bom trabalho não o faz com o objectivo de ser enaltecido, fá-lo por ser profissional e comprometido com os cidadãos. Os que aparecem diariamente na luz da ribalta, dizendo mundos e fundos do que fazem a favor da comunidade, não querem mais que publicidade e promoção pessoal. Querem aparecer na fotografia, como se diz de muitos nossos conhecidos.
O trabalho dessas pessoas que se esforçam diariamente, sem procurar colher louros, será reconhecido mais tarde pelas gerações vindouras. Essas sim, como sempre acontece, irão fazer jus ao nome de quem, diariamente, trabalhou para que tivessem um futuro digno.
Recentemente estive num país dito de terceiro mundo, mas onde a pobreza urbana não existe e onde não há pessoas a dormir na rua ou a pedir esmola a cada esquina. Os próprios vendedores de rua quando recusamos as suas ofertas não insistem e continuam o seu trabalho sem incomodar quem não lhes quer comprar produtos ou serviços. E, para surpresa minha, não é uma ditadura, mas sim uma democracia onde todos os cidadãos conhecem os seus direitos e obrigações.
Apesar da crítica social e política, que sempre se impõe numa democracia, a afluência às urnas em altura de eleições é sempre altíssima, sem haver necessidade dos candidatos andarem a oferecer almoços ou outros favores. E, como tive oportunidade de ouvir várias vezes, apesar de haver diferentes partidos, o sistema eleitoral funciona com votos nas pessoas e não nos partidos, o que dá origem a Governos constituídos, na maior parte das vezes, por candidatos de todos os partidos. Desse grupo de pessoas eleitas, é eleito o Presidente e o Primeiro-Ministro. A escolha é feita no Plenário, mas também é dada a oportunidade aos cidadãos de se pronunciarem.
Este país tem um dos projectos de protecção de mangais dos mais avançados de que tenho conhecimento. Aquelas plantinhas que se vai destruindo aos poucos em Coloane e que, outrora, cobriam toda a zona do antigo istmo.
No local onde passei mais tempo há um mangal de dimensões invejáveis, algo comparável ao que havia entre a Taipa e Coloane antes de nascer o COTAI. Ao contrário de Macau, onde tudo se destrói para «bem da população», naquele país as pessoas, ricas e pobres, vieram à rua quando tiveram conhecimento da existência de planos para construírem um empreendimento turístico no local.
Mesmo com a promessa de milhares de empregos e desenvolvimento para a região, e mesmo com casos de políticos comprados com dinheiro dos investidores, fincaram pé e obrigaram o Governo Central e local a mudar de posição, cancelando todas as licenças entretanto já emitidas, e a desistir da construção e da destruição do habitat natural de milhares de espécies. Em resultado deste movimento nasceu um novo departamento a nível regional e nacional dedicado à preservação do mangal, porque as populações acharam por bem que para «bem da população», preferiam preservar o ambiente em detrimento do desenvolvimento desenfreado. Uma boa forma de afirmar «pobres mas saudáveis», como me explicaram.
Quem me explicou todo o processo foi um jovem polícia. Ouvi a história, em Espanhol, deste homem de 27 anos, que na altura do movimento tinha pouco mais de 20 e era aluno da Academia Militar. Agora é, além de delegado da Interpol, o responsável máximo na sua província do projecto de protecção do mangal.
A conversa com este jovem fez-me lembrar o que se passa em Macau e tudo o que se tem feito para destruir o pouco que ainda existe. Ali não foram feitos quaisquer obras para preservar a natureza. Foi tudo deixando «ao natural» porque, como me explicou, assim tem sido há milhões de anos. Quando são necessárias intervenções humanas para proteger a natureza é porque algo de muito mau já foi feito anteriormente e essas intervenções não fazem mais que adiar um problema sem solução.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Macau, o que é isso?


 
QUE tal chegarmos a um local para comer e apreciar a vista junto a um dos mais idílicos locais nas Caraíbas e nos dizerem, com um sorriso na cara, que somos o primeiro português a visitar o estabelecimento?
Faz-nos sempre sentir especiais ser distinguidos com a honra de sermos os primeiros seja no que for. Deve ser dos nossos genes que vêm do tempo dos nossos antepassados das Descobertas. Especialmente quando se trata de um local onde milhares de turistas passam anualmente, um local que visitei não por ser um destino turístico, nem por ser recomendado no «TripAdvisor» (a bíblia de quem viaja por esse mundo fora). De salientar que também em Macau há muitos estabelecimentos recomendados por este mesmo sítio da Internet que classifica os locais através dos votos dos seus clientes, e não através de um qualquer painel de especialistas, dando-lhe, portanto, mais legitimidade e veracidade aos resultados.
«Big Lee beach bar» foi destino sem qualquer razão aparente, pois nem sequer sabia da sua fama. Mas, logo à chegada, o «grande» Lee acolheu-me com um sorriso no rosto, perguntando-me de que país vinha. A parte de ser português entendeu muito bem e confessou logo que, tanto quanto se lembrava dos três anos de actividade, eu era o primeiro. Mesmo considerando estranho, porque muitos portugueses visitam o País de férias. Já a parte de ser proveniente de Macau foi algo mais complicado de explicar a este americano de Chicago, metendo a nu as debilidades da qualidade da promoção feita pelo Turismo de Macau no exterior.
Comparações feitas com Hong Kong e Las Vegas, lá ficou a saber onde fica Macau e assegurou que, definitivamente, era também o primeiro oriundo de Macau! Portanto, algo orgulhosamente, posso afirmar que me senti um «descobridor» e assim levei o nome de Macau ao outro lado do Mundo, sem que o Turismo gastasse uma pataca.
É triste verificar que o Turismo de Macau gaste milhões em promoções e, num país onde os casinos são também uma forte fonte de receitas e atraem milhões de turistas anualmente, ninguém tenha ideia de onde fica Macau, ou tenham alguma vez ouvido falar da «Las Vegas do Oriente». Nem mesmo pessoas ligadas ao sector dos jogos de fortuna e azar!... As Caraíbas são um mercado potencial, onde abundam jogadores ávidos de outras apostas mais exóticas, mas que é totalmente posto de parte pelas autoridades de Macau.
A história repete-se nas Ilhas Virgens Britânicas, em Curaçao, em Trindade e Tobago, etc. «Macau, o que é isso e onde fica?», ouvi vezes sem conta.
Provavelmente fiz mais para promover Macau em duas semanas, do que o Turismo e os seus milhões em campanhas direccionadas a quem, por natureza, já tem Macau como destino final. De que vale gastar milhões da RAEM a promover Macau em mercados como a China e Hong Kong, Tailândia e Malásia? Todos sabem o que é Macau e aqui vêm com intenção de jogar. O que é preciso para estes mercados tradicionais são operações de charme para cativar e manter clientes.
Em locais como as Caraíbas, onde o jogo também atrai milhões e ninguém cospe ou defeca no chão, são precisas campanhas para tentar convencer alguns dos muitos apostadores a viajar até à Ásia. Começando, claro, por promover o que é Macau: onde fica e o que pode oferecer.
Essa divulgação não se faz com delegações e festinhas. Há que usar métodos mais subtis para ir chamando a atenção, como campanhas em aviões, em veleiros e em barcos de cruzeiro, como vi o Turismo das Filipinas fazer, ou o de Singapura, que tinham publicidade em vários veleiros a navegar por aquelas águas.
Tive oportunidade de conhecer um casal de Singapura que decidiu fazer uma pausa de dois anos na sua vida profissional para navegar pelas Caraíbas e que era apoiado, quase na totalidade das suas despesas, pelo Governo da cidade-Estado, algo que Macau poderia fazer mas não tem visão para tal.
Sendo o Mar das Caraíbas o paraíso da vela e o local de eleição de todos os apaixonados por este modo de vida, tem como suporte publicitário de excelência os veleiros e as suas tripulações. Ninguém fica indiferente a um veleiro quando entra num porto ou quando passa com as velas cheias de vento. Ou mesmo quando vêem as tripulações a passar com os uniformes, ostentando logótipos de certas marcas. Um método simples e eficiente!
Quem está por dentro do mercado da publicidade sabe que nos Estados Unidos a publicidade em veleiros movimenta milhões e gera resultados mais eficientes do que os média tradicionais.
Infelizmente, Macau e o organismo responsável pela sua promoção nem tem qualquer visão neste sentido. Mesmo tendo sido contactados por diversas vezes, continuam a ignorar algo que é cristalino como a água.
O leitor sabe-me explicar como se pode recusar apoios a projectos para levar o nome de Macau aos quatro cantos do mundo, quando – ainda por cima – apenas se pede apoio institucional para levar o nome desta terra? Eu não consigo perceber tanta falta de visão e de vontade!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Vão acabar as gaiolas?

FAZ já vários anos que diversas forças vivas de Macau tentam «convencer» o Governo para a necessidade de haver legislação relativa às obras ilegais e às inspecções obrigatórias dos prédios habitacionais. Agora, segundo consta no novo «Regime Geral da Construção Urbana», que se encontra em fase final legislativa, as inspecções vão ser obrigatórias, pelo que a Associação dos Arquitectos apela para que, de uma vez por todas, se aplique a Lei.

Como sabemos, o problema de Macau não é não existirem leis. Elas existem e o enredo legislativo do território até é, de certa forma, bastante completo. O problema, na realidade, é que ninguém quer saber das leis e quem devia fiscalizar não as sabe ou assobia para o lado, passando maior parte dos atropelos sem serem sancionados como deve ser. Apenas, de quando a quando, lá temos conhecimento de uma ou outra obra ilegal que veio abaixo e aparecem os seus responsáveis nas capas dos jornais.

Não é só nas obras e construções! É em tudo. Olhe-se para a Polícia e vejamos quantas vezes vimos um agente a fazer o trabalho como deve ser? Salvo raras excepções, o que salta à vista é a falta de profissionalismo e uma atitude de deixa andar. Um pouco à semelhança do famoso dito «mo man tai»! Quantas vezes vi agentes da autoridade a passarem, a pé ou motorizados, por flagrantes incumprimentos da Lei sem nada fazerem. Mas o mesmo se pode aplicar ao cidadão comum que tem obrigação denunciar também o que vê de errado. Por exemplo, quantos de nós já chamámos alguém à razão no autocarro quando não se levanta para dar o lugar a um idoso ou a uma grávida?

Fico algo apreensivo agora com esta nova lei que vai, dizem, acabar com as construções ilegais e obrigar que prédios antigos sejam, forçosamente, inspeccionados para se assegurar que são seguros e que tudo está dentro da normalidade. Pessoalmente já ando a fazer queixas de construções ilegais no meu prédio e nos das imediações desde que cheguei a Macau e... nada aconteceu! Agora, com tanto empenho, se não me cuido até o meu apartamento vai de atacado mesmo depois de, por iniciativa própria, ter tirado todos os apêndices ilegais (gaiolas na sua maioria). A ver vamos quando essa febre de fiscalização chegar.

Não sei quem irá ficar com tal ventura, mas desconfio que devem ser as Obras Públicas. Se assim for, temo que nada mude porque a equipa de Jaime Carion já não dá para as encomendas com todos os trabalhos que tem de fazer. E, como se costuma dizer, sem ovos não se fazem omeletas. Portanto, se até agora não conseguiram fazer mais com os efectivos que têm, e que parece já não dão conta do recado, se vêem as competências alargadas, pouco mais poderão fazer. Jaime Carion, apesar dos poucos recursos à disposição, tem feito um trabalho notório e que merece ser realçado por todos nós. Falta de determinação não lhe podemos apontar, assim como não se lhe pode dizer que não mostra dedicação.

Como em tudo em Macau, vamos esperar para ver se a montanha não pare um rato! Desconfio que será um pouco à semelhança da legislação anti-tabaco que nos primeiros dias deu azo a uma corrida às inspecções com direito a cobertura noticiosa em directo! Algo que também contribuiu para muitos abusos e fez com que uma legislação que tinha tudo para ser bem acolhida, acabou por causar mau estar e muita incompreensão por parte de todos. Aliás, a autoridade responsável pela sua aplicação é muitas vezes acusada de querer fazer mais do que o estipulado na mesma lei. Portanto, no que diz respeito à lei que vai regular as inspecções obrigatórias, espero que não se caia no mesmo erro. Se for bem elaborada e melhor aplicada, poderemos estar perante uma oportunidade de luxo para o território meter de lado alguns dos cancros que nos afectam em termos urbanísticos. Para, de uma vez por todas, lavar a cara dos horríveis prédios do território que ostentam feios gradeamentos de ferro nas janelas e varandas. Mas, acima de tudo, uma oportunidade para obrigar os proprietários, como eu e o leitor, a manter os prédios em boas condições.

Falo por mim, por diversas vezes tentei congregar as vontades no prédio onde vivo para procedermos à sua manutenção, mas sempre me deparei com a falta de interesse da maior parte dos proprietários. Quando recorri ao apoio do Governo, neste caso do Instituto de Habitação, tudo fizeram mas em nada resultou porque não podem obrigar, baseados na lei vigente, os proprietários a manter em boas condições os seus prédios.

Espero que este novo articulado venha trazer melhores mecanismos e formas mais fáceis de obrigar todos os prédios, novos e velhos, a terem associações de condóminos, seguranças e portas fechadas, assim como estruturas seguras e bem mantidas para a segurança de todos.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Largo do Senado de volta

 
UM dia destes, apesar de ter acordado um tanto ou quanto maldisposto, algo me fez mudar de disposição e meter um sorriso na cara. Uma constatação, durante o meu percurso matinal de casa para o trabalho, de algo que já deveria ter notado há muito tempo e que, aliás, o Governo deveria ter tido o cuidado de anunciar.

Se fazem alarido de tudo e mais alguma coisa, porque não salientar aquilo que a população há muito ansiava e que fizeram de bem?
Afinal vale a pena andarmos nas páginas do jornais, nas ondas da rádio e nas imagens da televisão a criticar e a apontar o que se faz de menos bem em Macau. Os esforços da Comunicação Social e de quem nela colabora, lentamente vão sendo recompensados com os erros corrigidos e as sugestões acatadas. Aliás, os comentários que foram sido feitos não foram mais do que o espelho do real sentir da grande maioria da população.
Já tinha perdido a contas às vezes que, desde os anos noventa do século passado, abordámos a problemática do uso do Largo do Senado para todo o tipo de eventos, advogando sempre que esta praça nobre do território e nosso postal ilustrado que enche a medidas de milhões, com a sua carismática imagem do ondulado da calçada à portuguesa, deveria ser usada apenas para ser praça. Limpa, bonita e acessível. Para ser a cara de Macau e a sala de visitas para quem aqui nos vem visitar – e deixar o dinheiro que vai aguentando a nossa economia.
Antigamente, não há muito tempo, ali se organizava todo o tipo de eventos, desde barraquinhas de jogos das mais variadas associações a feiras das mais enigmáticas onde de tudo se vendia, atafulhando a já estreita praça. Alturas havia que não nos conseguíamos movimentar devido a instalarem barracas dos lados, não deixando espaço para que moradores e turistas conseguissem passar sem ter que se atropelar e acotovelar constantemente.
Felizmente, há mais de um ano se não estou em erro, nada se organiza no Largo do Senado. Tirando a esporádica actividade inaugural na zona de entrada, onde ainda continuam a colocar um palco. Isto ainda é um dos aspectos a rever, porque até mesmo estas actividades podem, e devem, ser feitas noutro local. Felizmente as barracas que enchiam a restante praça desapareceram, devolvendo o espaço aos turistas e aos residentes.
Um outro aspecto que ainda falta solucionar é o da constante autorização do direito à manifestação por parte de um cidadão que já se tornou presença – incómoda e barulhenta – na praça, incomodando tudo e todos com o seu circo diário. Há que não ter medo em considerar a Praça do Leal Senado, assim como outros locais turísticos e Património classificado da UNESCO, como área interdita a todo o tipo de actividades que possam incomodar o normal funcionamento do local. Sejam elas barracas, feiras ou mesmo manifestações. Que fique claro que ao vedar o acesso ao local a manifestações não significa que não se reconheça o direito à manifestação, apenas se resguarda certas zonas desse tipo de actividades. Assim como não se pode buzinar na zona dos hospitais, de acordo com o Código da Estrada, não quer dizer que seja proibido buzinar em todo o lado!
A situação no Largo do Senado estava a tornar-se cada vez mais complicada e difícil de gerir devido ao contínuo aumento de turistas que ali se aglomeram diariamente. Em dias normais já é difícil circular por aquele local, imaginem como era quando ainda se lembravam de ladear a praça com barraquinhas e afins...
Finalmente levaram a sério as sugestões veiculadas pela Comunicação Social para que essas «feiras» fossem descentralizadas para outros locais, nomeadamente a renovada Praça do Tap Seac e para o Espaço Sintra. Aliás, nestes locais ultimamente têm surgido um sem número de eventos e actividades, possivelmente reflectindo aquilo que se tem vindo a advogar. E, contrariamente ao que o Governo anteriormente dizia, justificando o contínuo uso do Largo do Senado, a população parece não se importar que tais actividades sejam feitas nos novos locais. As mentalidades mudam-se...
Tanto quanto sei, não me parece que a população tenha reclamado pela deslocação das feiras e eventos para outros locais da cidade. Antes pelo contrário, as pessoas a quem perguntei sobre o assunto mostraram-se mais satisfeitas com esta mudança do que com a situação que se vivia anteriormente. Estes locais que agora acolhem os eventos que, tradicionalmente caíam no Largo do Senado, têm mais condições, são mais espaçosos e oferecem melhores infra-estruturas, tanto a quem ali vai ver as actividades como a quem tem de participar nas mesmas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Algo vai mal

O ASSUNTO arrisca-se a tornar tabu em Macau, se não se continuar a falar e a fazer frente a quem o impulsiona. Este território sempre viveu de liberdade de expressão e de Imprensa, estando este direito consagrado na mini-constituição que regula os nossos direitos e obrigações. Mas, na verdade, e principalmente nos últimos anos, são cada vez mais as pressões sobre os jornalistas e sobre quem escreve e fala na Comunicação Social.

Certamente que devem estar ao corrente da polémica com a decisão da TDM, canal de rádio, em cancelar o programa Fórum Macau, que se realizava aos Domingos no parque da Areia Preta e era transmitido ao vivo. Um programa, extensão da versão diária em estúdio, que tanto contribuiu para o desenvolvimento do sentido crítico da população chinesa, normalmente pouco dada a pronunciar a sua opinião em público. No entanto, talvez por tocar em assuntos muito sensíveis e dizer muitas verdades, foi encontrada uma forma de, primeiro, reduzir o seu impacto e, agora, de extingui-lo na totalidade. Deixando-se assim a população sem local público para ventilar as suas opiniões de forma livre e sem censura. Felizmente, mas também sob muitas pressões, continua a edição diária a partir dos estúdios da rádio. Aliás, esta versão original fora também alvo de manobras pouco claras há um ou dois anos, tendo alguns dos seus elementos sido «convidados» a deixar a antena.
Não sei o que está por detrás da decisão da TDM, que veio a público dizer que tal se deve à falta de pessoal! Desculpa que, sinceramente, custa a acreditar, porque se há falta de pessoal, tal resolve-se contratando mais ou afectando pessoal de outras secções para o programa. Mais não seja de forma temporária até se conseguir contratar mais profissionais para colmatar as lacunas. Privar a população do programa em espaço ao ar-livre, que segundo me dizem todos os chineses que conheço é o mais bem recebido por ser aberto a todo o tipo de opiniões, parece-me pouco sensato e uma completa falta de visão. Para não dizer que existe por detrás uma mão manipuladora de «lápis azul» em riste.
Apetece-me dizer que da TDM já não me admiro de nada porque, depois de lá ter trabalhado, habituei-me a saber como funcionam os meandros e como se manobram interesses instalados. Neste caso, e sabendo-se que o programa esteve envolto em diversas polémicas com figuras do Governo da RAEM que levaram mesmo ao afastamento de alguns colaboradores, a decisão da TDM, por muito verdadeira e sincera que seja, cheira a esturro.
Tanto mais que não é apenas o exemplo a TDM e do Fórum Macau. Recentemente tivemos também a interferência de um órgão de soberania num dos sítios da Internet de um jornal local de língua portuguesa. Assunto que até hoje continua sem grandes explicações e sobre o qual não tem havido grandes desenvolvimentos. E fala-se à boca pequena que nos jornais chineses essas pressões são ainda mais evidentes e diárias.
Temo, sinceramente, pela liberdade de expressão em Macau. Se nos tempos da administração portuguesa, nomeadamente durante a vigência de Rocha Vieira, as tentativas de manipulação eram evidentes e bem visíveis, no mandato de Edmund Ho a situação pareceu melhorar, reinando uma liberdade nunca antes sentida em Macau onde todos podiam abordar tudo o que queriam sem haver qualquer tipo de censura ou tentativa de influenciar o que se falava ou escrevia. Pelo menos que se tenha conhecimento e que tenha sido público.
Eu próprio nesta coluna abordei alguns temas mais polémicos e nunca fui chamado à atenção. No entanto, ultimamente, tenho recebido recados de vária ordem, sempre sub-repticiamente, de forma dissimulada. Ora através de interpostas pessoas, ora directamente mas sem ir tocar expressamente no assunto em questão.
Aliás, o recado mais caricato veio de um camarada de profissão que, a coberto da sua suposta preocupação para com o bem-estar da minha pessoa, mandou dizer para eu ter mais tento na língua quando escrevo sobre assuntos do Governo.
Ainda quero acreditar que em Macau existe liberdade de expressão e que todos, independentemente dos nossos deveres e obrigações profissionais, crenças e preferências, temos direito de nos expressar. Desde que não se insulte ninguém directamente nem se revelem informações que possam estar sob sigilo profissional, todos devemos ser livres para expressar a nossa opinião, seja ela contra o Governo e as suas políticas, seja contra empresas privadas ou qualquer outro assunto.
Pessoalmente escrevo tanto contra como a favor e tento sempre, nas minhas crónicas como na minha vida, pautar-me pela independência e objectividade. Gosto de apontar o que considero estar errado mas, ao mesmo tempo, tento apresentar possíveis soluções porque criticar por criticar não serve de muito. E, quando vejo algo que penso ser merecedor de ser elogiado, também não me coíbo de o fazer. Aliás, gostava de ter mais razões para o fazer…

sábado, 26 de janeiro de 2013

Bom exemplo

PARECE mentira mas, afinal, em Macau, há quem saiba o que faz, no que respeita ao trânsito e suas sinalizações. Deve ser por causa do Ano Novo Chinês que se aproxima e desta euforia de coisas positivas que o final de um ciclo sempre traz!

O dito bom exemplo, que vem contradizer tudo o que se tem dito sobre a falta de conhecimentos e de capacidade técnica dos senhores do trânsito de Macau, está na estrada que liga a Ponte da Amizade ao cemitério da Taipa. Na zona está a ser construída uma passagem superior para peões. A sinalização está tão bem feita que, para espanto pessoal, me verguei e decidi dedicar esta coluna a elogiar algo que, regra geral, anda sempre muito mal.

No caso específico, os sinais estão distribuídos a distâncias aceitáveis e dão amplo espaço ao condutor para se aperceber das limitações e fazer os devidos ajustes na condução. Como se pode constatar nas fotografias, até a sinalização é clara, sem inequívocos, não deixando qualquer margem de erro, mesmo para quem tem carta de condução mas que, aparentemente, não deveria ser autorizado a conduzir. É que há muitos destes em Macau, estando a sua maioria a conduzir transportes públicos!

A verdade é que Macau é signatário da Convenção de Genebra e este tipo de obras nas rodovias são reguladas por aspectos do documento, paralelamente aos aspectos do trânsito e das regras da estrada. Aliás, por alguma razão tem sido tão complicado coordenar o trânsito de Macau com a circulação de veículos do interior da China. É que Pequim não é signatária da convenção, regendo os seus problemas relacionados com o trânsito automóvel por regras criadas internamente. Mais: pelo que me parece, em Macau, apesar do segundo sistema, tem-se vindo, cada vez mais, a impor o primeiro sistema, e por essa via as anómalas regras da China, causando caos e desordem, sem que ninguém saiba muito bem o que fazer.

Passivamente, aos olhos de todos, o que acabei de referir é tido como um dado adquirido, sem que nada se faça para se mudar a situação. Se não formos nós, residentes de Macau de plenos direitos, a exigir que neste território se cumpra a Lei e o que foi acordado a partir de 20 de Dezembro de 1999, ninguém o fará. O desrespeito do «regulamento de sinalização de obras e emergências em rodovias» é apenas um dos muitos exemplos que se vêem diariamente e ninguém se dá ao trabalho de apontar para que sejam corrigidos. A começar pela Polícia!

O trânsito de Macau, com o crescente número de carros e outros veículos motorizados, começa a ser impossível de regular. Primeiro foi o desenfreado crescer de autocarros de turismo relacionados com os novos hotéis e casinos, depois os autocarros das agências de turismo para transportar as hordas que aqui aportam diariamente. Agora é um não parar de registos de novos carros e veículos de duas rodas. Macau há muito que atingiu o limite de veículos em circulação, para tal basta ver que a direcção responsável pela gestão do trânsito se viu obrigada a projectar um novo centro de inspecção, para fazer face ao crescente número de veículos em circulação. Ao que parece, por detrás dessa necessidade não está o crescente número de inspecções a veículos existentes, mas sim o facto de não conseguirem fazer face ao número de veículos novos obrigados a submeterem-se à primeira inspecção, o que torna tudo isto ainda mais preocupante.

É urgente encontrar uma solução para o problema do trânsito de Macau. As opções são todas pouco consensuais e todas elas têm prós e contras. Pessoalmente preferia que o Governo subsidiasse a substituição de carros antigos por novos, mais amigos do ambiente e, de uma vez por todas, implementasse inspecções anuais para TODOS os veículos em circulação. E, ao mesmo tempo, que tornasse obrigatório apresentar o comprovativo de local de estacionamento (em parque particular ou público) para quem quiser comprar veículo novo. Um parque para cada carro. E, para quem decidisse, – e bem, a meu ver – não ter carro, a concessão de benefícios fiscais.

Não são medidas populares, eu sei, mas viriam ajudar a resolver o problema da falta de estacionamento e o aumento desmesurado do número de veículos em circulação. Por outro lado, ajudava a reconverter a actual frota circulante por uma menos poluente.

Ainda voltando ao tema inicial: os sinais nas zonas de obras. É tempo da DSAT meter mãos à obra e obrigar os empreiteiros a seguir as directrizes internacionais para que se evite alguma tragédia.

Afinal, se há quem saiba como fazer bem as coisas, porque não se exige a todos que sigam o exemplo?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Capitania desrespeita Lei Básica

Capitania desrespeita Lei Básica

 
COMEÇA a ser um bocado desencorajador e cansativo andar sempre a escrever sobre o mesmo assunto e não ver quaisquer mudanças; apenas palavras ocas e sem qualquer significado mas que, quando proferidas, metem todos os que se interessam pela língua portuguesa em Macau a saltar de contentes. Dizem que vão apostar mais na língua portuguesa e os deputados da Assembleia Legislativa regurgitam com excitação e tentam puxar os louros para si. Enquanto a comunidade continua a acreditar que a intenção dos governantes é mesmo de fazer a língua portuguesa valer, como foi acordado entre Lisboa e Pequim: ser língua oficial, a par da língua chinesa, até 20 de Dezembro de 2049.

Incluo-me no grupo dos eternos sonhadores que acreditam que, em Macau, o Governo irá tudo fazer para que a língua portuguesa seja respeitada e tratada em pé de igualdade com a chinesa. Mas a realidade que se constata diariamente faz-me pensar noutro sentido, apesar de secretamente querer acreditar que estou redondamente enganado.
Existem sinais, agora que estamos no terceiro mandato do Chefe do Executivo, que não deixam sinais para dúvidas. Vejam quantos sítios na Internet foram criados desde 20 de Dezembro de 1999 e quantos deles têm o seu endereço em Português. Na sua maioria são denominados em Inglês e, se nada for feito, acredito que irão começar a ser denominados em Chinês visto que, passadas quase três décadas da invenção da Internet, os caracteres chineses já são aceites para escrever na barra de endereços nos navegadores do ciberespaço. Em Macau, no sector privado, existe pelo menos um já denominado em Chinês, o do empreendimento La Scala (www.御海南灣.com). Portanto, não se admirem que comecem a surgir os do Governo também em Chinês em detrimento do Português.
Outro dos sinais que me deixam apreensivo diz respeito à correspondência que, insensatamente, vamos recebendo como lixo nas caixas do correio, sem que tenha sido requisitada aos departamentos do Governo. Urge existir em Macau um sistema, à semelhança da Europa, que permita aos residentes recusar receber correspondência não solicitada nas suas caixas do correio.
Recentemente recebi, desta vez da Capitania dos Portos, o bonito panfleto relativo à poupança de água, um assunto que me é querido mas que, por imposição do Governo, não posso aprofundar porque, segundo consegui perceber nas únicas palavras na língua oficial que é a portuguesa «para adquirir a versão portuguesa deste folheto, por favor, consultem a seguinte página electrónica do Grupo de Trabalho:www.marine.gov.mo/waterconservation».
Só depois de seguir o «link» é que fiquei exactamente a saber o que era o conteúdo do panfleto mas, como podem ver pela imagem da página principal do dito «grupo», até aqui se torna complicado encontrar aquilo que for. A coluna da esquerda que, supostamente, deveria servir para navegação está de tal forma confusa em Português que tive de clicar um a um até encontrar o que procurava:www.marine.gov.mo/waterconservation/pdfs/recycledWaterPlan_p.pdf.
Para espanto meu e defraudado com tanta falta de consideração para com quem não lê Chinês, fiquei a saber que é o texto da consulta pública referente ao Plano de Desenvolvimento de Água Reciclada em Macau (2013-2022). Uma pesquisa que deve interessar a todos quantos vivem em Macau e não apenas à comunidade chinesa, mas que a Capitania (ou o dito grupo de trabalho) devem considerar que não vale a pena tratar as duas línguas oficias em igualdade, relegando os que apenas lêem Português para uma posição subalterna relativamente a quem lê Chinês.
Pergunto: Se o texto tivesse sido enviado em Português e tivesse escrito que se quisessem a versão chinesa tinham de ir à Internet e descarregá-la, será que os leitores de Chinês iriam gostar desta forma de tratamento? Afinal, sendo residente permanente de pleno direito, e obrigações, de Macau, não descarto nem desisto do direito que tenho a ser tratado em pé de igualdade.
A Lei Básica é clara: tanto o Chinês como o Português são línguas oficias, podendo ambas ser usadas nos serviços públicos. Portanto, porque insistem alguns em não respeitar a regra, tratando uma das línguas como sendo de somenos importância?
Gostaria de saber se a Capitania dos Portos prevê reparar o erro e dar ordens para que, a partir de agora, tudo seja enviado nas duas línguas, pelo menos até 2049!

NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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