Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

domingo, 24 de julho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

«Data ilustra amizade entre os dois povos»

O CLARIM conversou com o novo embaixador de Portugal na Tailândia, Jorge Torres Pereira. O diplomata abordou as relações diplomáticas entre Portugal e o reino de Bhumibol Adulyadej. Quinhentos anos de história pautados por acontecimentos de paz e sã convivência, sem relatos de qualquer tipo de conflitos.

FAZ 500 anos que os portugueses estabeleceram relações diplomáticas com o antigo Reino do Sião. Portugal e Tailândia partilham uma história, como poucas há no mundo: cinco centenas de anos de convivência pacífica e de mútuo entendimento. A prova disso mesmo é o local onde a «nossa» representação diplomática se encontra na capital tailandesa.

À beira do Rio dos Reis, a feitoria portuguesa realça a amizade existente entre estes dois povos. Os monarcas tailandeses, desde Ayuthaya, sempre manifestaram apreço pelo povo vindo da pequena nação a sul da Europa, razão pela qual lhe deram um local para se estabelecerem, depois de os terem incluído no grupo de cidadãos a serem evacuados da antiga capital, após a derradeira invasão birmanesa.

Desde então, Portugal tem presença garantida no bairro de Thonburi (Banguecoque). Anteriormente, na primeira capital do Reino, já havia (e ainda existe hoje em dia, se bem que em ruínas, um Ban Portuket) um bairro português completo, com igrejas e outras edificações de cariz luso.

É este feliz encadear de eventos que Portugal e a Tailândia comemoram em 2011. As iniciativas são mais do que muitas e seria de todo descabido aqui relatá-las. Isso ficará para outra oportunidade, visto que a Revista Cultura vai dedicar um número a esta efeméride. No entanto, como tivemos o prazer de conhecer recentemente o novo representante diplomático de Portugal na Tailândia, aproveitámos para fazer um ponto da situação e saber o que vai seguir-se.

Jorge Torres Pereira chegou à Tailândia em Dezembro de 2010, estando à frente dos destinos diplomáticos de Portugal no antigo Sião, abrangendo, na função, o Cambodja, a Birmânia, o Vietname, a Malásia e o Laos.

No âmbito das comemorações dos 500 anos das relações diplomáticas, teve lugar no dia 20 deste mês um evento que, por si só, é ilustrativo da amizade e do entendimento entre os dois povos: foi lançada, simultaneamente, em Portugal e na Tailândia, uma série comemorativa de selos.

O CLARIM Tendo este evento como mote, o que vai ser feito e o que destacaria?
JORGE TORRES PEREIRA – Até ao final de 2011, a Embaixada irá organizar um sem número de eventos: uma exposição do Legado da Arte, onde se inclui um «Menino Jesus reclinado», junto dos «Budas Reclinados», no «National Museum». Irão ser publicadas traduções em tailandês de autores portugueses e será organizada uma exposição no «Bangkok Art and Culture Centre» sobre máscaras asiáticas, onde irão estar em exibição dois belíssimos vestidos tradicionais tailandeses e peças da colecção do Museu do Oriente em Lisboa, que virão expressamente para serem aqui mostradas.

Durante este ano será também levada a cabo uma iniciativa única, em que se vai tentar mostrar a Tailândia pelos olhos de um artista português (fotógrafo) e Portugal pelos olhos de um tailandês (pintor) – uma exposição que vai, certamente, atrair muitos visitantes ao «Emporium», um dos maiores centros comerciais de Banguecoque. Ainda no campo da cultura, vai haver fado pela bem conhecida Katia Guerreiro, que irá representar Portugal no «International Bangkok Festival of Dance and Music». Vai realizar-se um seminário internacional de história, com a co-organização da Universidade Técnica de Lisboa, numa das universidades mais famosas da Tailândia, a «Chulalonkorn University», onde, paralelamente, vai decorrer a semana da língua portuguesa.

No campo económico, está programado um seminário sobre oportunidades de negócio e, no desportivo, está previsto, no «National Stadium», um encontro de futebol entre a equipa jovem da Academia do Sporting Club de Portugal e a selecção sub18 tailandesa.

A finalizar o ano, e de forma propositada como iniciativa de encerramento, será prestada homenagem aos descendentes portugueses (os Portuket), no bairro de Santa Cruz, aqui em Banguecoque.

CL Relativamente à emissão da série de selos comemorativos, em termos diplomáticos, que peso tem esta iniciativa?
J.T.P. – Uma iniciativa de emissão simultânea de selos em dois países, comemorativa dum determinado evento, é em si mesma significativa. Implica que as duas entidades se falem, coordenem e acertem todos os pormenores (com artistas a trabalhar de um lado e do outro), com um cuidado especial no dia do lançamento e no primeiro dia de circulação. Traduz o excelente relacionamento entre as duas partes e a vontade de não deixar de fora nenhuma das modalidades de comemoração.

Portugal assinala efeméride

Entretanto, também em Portugal se vão organizando eventos alusivos à efeméride. Soubemos, por exemplo, pelo antecessor de Torres Pereira, o embaixador António Faria e Maya, que, no âmbito das comemorações dos 500 anos, se realizaram no passado dia 12, na Academia de Marinha portuguesa, duas palestras. Ambas foram apresentadas pelo presidente da Academia, almirante Vieira Matias, na presença do presidente da Academia das Ciências. A primeira contou com a participação da historiadora Maria da Conceição Flores, que falou sobre «Os Portugueses e o Sião no século XVI»; a segunda foi proferida pelo antigo embaixador em Banguecoque, Sebastião Castelo Branco, que falou sobre a sua experiência na Tailândia, sobre o legado da «nossa» Embaixada e de outros locais da presença portuguesa naquele país, e sobre as perspectivas de oportunidades para o desenvolvimento futuro das relações luso-tailandesas.

CLA História de Portugal na Ásia e a História da Tailândia estão, irremediavelmente, ligadas em vários aspectos. Os próximos eventos comemorativos têm isso em mente?
J.T.P. – Os eventos tentam abordar todas as vertentes do relacionamento entre os dois países. São manifestações oficiais simbólicas da componente Estado-a-Estado, edição de livros, trabalhos de investigação histórica publicitados em seminários e congressos e vertidos em actas e livros; exposições a sublinhar o legado artístico, a dimensão do património arquitectónico, a importância de diferentes instituições portuguesas no panorama asiático (Fundação Gulbenkian e Fundação Oriente/Museu do Oriente); a divulgação de artistas portugueses (como o concerto da fadista Katia Guerreiro); o chamativo popular dum jogo de futebol (entre selecções de camadas jovens); o empenho em incrementar as visitas ao Bairro Português, em Ayuthaya; o aproveitamento do clima de maior conhecimento mútuo para lançar oportunidades de negócio; e a homenagem aos luso-descendentes (tailandeses das comunidades católicas de Santa Cruz, Rosário e Concepcion), que ainda conservam um sentido de pertença ao núcleo identitário português.

CL Foi enviada uma «Sala Thai» (pavilhão de estilo tailandês) para Portugal, como oferta simbólica. Pode-nos fazer o ponto da situação?
J.T.P. – Sobre as comemorações em Lisboa, dinamizadas pela Embaixada da Tailândia, seria melhor contactar directamente os meus colegas tailandeses. Ao que tudo indica, a «Sala Thai» já está quase pronta e será inaugurada no início do próximo ano, no âmbito duma visita de relevo a Portugal. Mais não posso dizer, por agora.

CL Visto que a diplomacia não é só comemorações, como descreve a situação de Portugal na Tailândia? E nos outros países onde tem jurisdição diplomática?
J.T.P. – Portugal tem, obviamente, um lugar «sui generis» devido ao pioneirismo do nosso relacionamento com o Sião/Tailândia, mas no plano do dia-a-dia da vida económica tailandesa tem uma posição relativamente modesta, particularmente no que se refere às trocas comerciais e aos fluxos de investimento. Participamos, naturalmente, no relacionamento entre a União Europeia e a Tailândia e temos uma posição de manifesto interesse no acompanhamento da construção da Comunidade ASEAN, em 2015, e na integração regional posterior a essa data. O nosso cartão-de-visita da presença portuguesa desde o século XVI pode também funcionar nos outros países em que me encontro acreditado ou prestes a apresentar credenciais (Camboja, Laos, Myanmar, Malásia, Vietname), por forma a sustentar um revigoramento na esfera económica e comercial.

A diplomacia portuguesa está apostada em contribuir para o essencial incremento das nossas exportações. Os mercados asiáticos já de há muito foram identificados como cruciais para esse esforço. Acabo de participar numa acção de promoção de vinhos portugueses em Banguecoque e continuo esperançado em poder organizar um seminário, ainda este ano, com «entrepreneurs» tailandeses interessados em Portugal, quer directamente, quer em geometrias variáveis que incluam países de expressão oficial portuguesa.

Em Setembro entrarão em funcionamento os consulados honorários em Hanói e Ho Chi Min, em que os seus titulares foram escolhidos precisamente para consolidarem a rede de apoio aos empresários portugueses (e vietnamitas), em articulação com a Embaixada em Banguecoque e a delegação regional da AICEP, sedeada em Singapura. Em Setembro ainda concretizar-se-á uma missão empresarial à Malásia, com o patrocínio da AICEP, em que aproveitarei, em Kuala Lumpur, para despertar a curiosidade dos empresários portugueses para outros mercados, nomeadamente o tailandês. Já temos empresas activas na Malásia e no Vietname (e também, bem entendido, em Singapura, mas esta está fora da minha «jurisdição»). Em Vienciana (capital do Laos) aprestamo-nos para contar com um cônsul-honorário.

CL Como pode Macau contribuir para o fortalecimento da presença portuguesa, tanto na Ásia, como, mais em concreto, na Tailândia? Os laços históricos são muitos, inclusivamente através de antigas famílias macaenses, das quais os Siqueira são, possivelmente, o expoente máximo.
J.T.P. – No plano cultural e de contributo para as comemorações dos 500 anos na Tailândia, Macau estará presente, não só pela contribuição do professor Jorge Morbey num simpósio sobre Ayuthaya, como pela edição dum número alusivo da Revista Cultura. Constatei, no meu «trabalho de casa» sobre a dimensão histórica da nossa presença na Ásia, que muitos investigadores tiveram ou têm um vínculo a Macau e que tal especificidade não se irá perder. Quanto ao aproveitamento das potencialidades de Macau em diversos projectos regionais na área económica, confesso que ainda terei que me inteirar melhor sobre o assunto.

CL A terminar, o que nos pode avançar acerca da língua portuguesa nesta área do mundo?
J.T.P. – Fazemos sempre todos os esforços para consolidar a promoção da língua portuguesa. Relembro que temos leitorados em Banguecoque (e igualmente um Centro Cultural), em Hanói e em Kuala Lumpur, todos bem activos nesta tarefa.

Programa até Dezembro

Para quem se desloque à Tailândia e queira aproveitar para participar nas comemorações, O CLARIM publica a lista dos eventos que vão ter lugar até ao final do ano. Alguns ainda não foram confirmados, mas estão já programados.

29 de Julho – Seminário académico – «Archaeology: Ayutthaya and Portugal», no «National Museum» em Banguecoque.
22 a 26 de Agosto – Semana da Língua e Cultura Portuguesa, na «Chulalongkorn University» (a confirmar).
31 de Agosto – Seminário académico – «Siamese-Portuguese Descendents: Language/Architecture/Way of life», na «Faculty of Liberal Arts, Thammasat University» (a confirmar).
14 de Setembro a 6 de Outubro – Exposição «Masks of Asia», no «Bangkok Art and Culture Centre».
15 de Setembro – Jogo de futebol entre a equipa jovem da Academia do Sporting Club de Portugal e a selecção sub18 da Tailândia, no «National Stadium» (a confirmar).
10 de Outubro – Noite musical – Katia Guerreiro no «Thailand Cultural Center», no âmbito do «XIII International Festival of Dance and Music».
27 de Outubro a 2 de Novembro – Exposição «Thailand/Portugal: Close Glances», no Centro Comercial «Emporium».
2 a 4 de Novembro – Seminário internacional de história – «500 Years of Thai-Portuguese relations» – organizado pelo Instituto do Oriente, Universidade Técnica de Lisboa e a «Chulalongkorn University».
21 de Novembro – Seminário de negócios – «Business Opportunities in Portugal, Gateway to EU and Portuguese speaking countries».
2 de Dezembro – Nossa Senhora da Conceição – Evento comemorativo na igreja da Imaculada Concepção, em Banguecoque.
10 de Dezembro – Rosário – Evento comemorativo na igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Banguecoque.
11 de Dezembro – «Honouring the Portuket» – Evento comemorativo na igreja de Santa Cruz, em Banguecoque.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Português da DSAT!? De bradar aos céus!

A DIRECÇÃO dos Serviços para os Assuntos de Tráfego brindou-nos recentemente com uma pérola de língua portuguesa e, de imediato, foi alvo de diversas reacções na Comunicação Social portuguesa. Uma reacção precedida de uma chuva de críticas e «insultos» nas redes sociais, nomeadamente no «Facebook», onde o assunto foi amplamente difundido e comentado entre falantes do idioma de Camões nos três cantos do mundo.

Aquele serviço público já veio, entretanto, tentar «deitar água na fervura» e desculpar-se com «erro técnico».

Apesar de ser analfabeto no que à tecnologia informática diz respeito, custa-me a acreditar que o computador tenha «cometido» tais erros, sem que ninguém lhe desse essa ordem. Afinal, o irracionalismo continua a ser um dos grandes óbices destas máquinas.

A polémica refere-se ao que foi publicado numa página da «Internet» recentemente lançada, onde se pode fazer a pesquisa sobre as carreiras de autocarros que estarão disponíveis a partir de 1 de Agosto, quando entrar em vigor o novo sistema de transportes públicos. Nesse «website» existia uma lista (www.dsat.gov.mo/bres/StopList.aspx) das carreiras e dos locais por elas servidas em Macau, na Taipa e em Coloane. Entretanto, e como seria de esperar perante tal patacoada, já foi retirada a obra-prima em Português, sendo apenas visível a versão em Chinês.

Tanto quanto consegui apurar e de acordo com o que me foi dito por tradutores oficiais, em Chinês não há qualquer problema com as denominações. No entanto, as versões portuguesas fizeram-me rir, não sei se de alegria ou desespero.

Para que percebam o que quero dizer, e para quem não teve oportunidade de acompanhar o caso, deixo alguns exemplos. Começando por Macau, ficamos a saber que existe uma paragem denominada «Colina da Guia (Matsuyama), e se a montanha constitucional» (sic), onde deveria estar «Colina da Guia, Centro Hospitalar Conde de São Januário», pelo que me explicaram. Na Taipa, temos a paragem da «Nossa Senhora da Bay Area» e a do «Cotai area de recuperacao» (de notar que a falta de acentos e cedilhas é do original). E, para concluir, as paragens em Coloane, onde ficamos a saber que temos uma nova praia, a da «Ordosica» (para quem não saiba é Hac Sá) e a paragem de «Bamboo Bay» que, em Português, como sabemos, é Cheok Van.

Coloane, apesar de ser a lista mais curta, é a que mais pérolas tem, dando para perceber que, além de um total desconhecimento do território e de um completo desrespeito pelas línguas oficiais, é evidente que as romanizações foram feitas a partir do Mandarim: Jiu’ao (povoação de Ká Hó) é disso exemplo. Nesta pequena lista acertaram, miraculosamente, no nome «Vila de Coloane».

Fica a pergunta, será que quem fez a tradução não tinha à mão um mapa de Macau ou uma lista dos arruamentos?

Contactei a DSAT, via correio electrónico, mas não tiveram a amabilidade de me enviar qualquer reacção ao insólito da tradução. Possivelmente ainda estão a fazer a tradução de Português para Chinês! Vamos esperar mais uns meses e, caso ela chegue, prometo que a publico literalmente.

É triste saber que, mesmo errando, quando vieram a público assumir a falta e mostrar empenho em fazer mais e melhor, decidiram atirar a culpa para a «técnica». Teria sido mais sensato assumirem o erro, pedirem desculpas e comprometerem-se em tentar melhorar. Dizer que foi um erro técnico acaba por ser mais ignóbil que o próprio erro que tentam desculpar. Aliás, o comunicado publicado pela DSAT, na página do GCS, no dia 7 pelas 19:29, começa logo mal pelo título: «A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego tem respeita pela cultura portuguesa». Mais valia terem ficado caladinhos e deixar a poeira acalmar!

Por curiosidade, voltei a visitar a página da DSAT e usei o tradutor do «Google» (que me pergunta sempre se quero traduzir quando abro uma página em língua estrangeira) para a traduzir na globalidade e, para minha surpresa, detectei o famoso «erro técnico» referido pelos Serviços. Afinal, trata-se de uma tradução feita pelo serviço daquele conhecido motor de busca ou outro similar.

Este pequeno exemplo do completo desleixo pela língua oficial portuguesa faz-me temer pelo que possa vir a acontecer relativamente a pontos do Caderno de Encargos, que as operadoras privadas de transportes públicos são obrigadas a cumprir, e que a partir de 1 de Agosto irá entrar em vigor.

Quando a própria entidade do Governo não cumpre o artigo 9º da Lei Básica, qual a autoridade moral que terá para exigir que as concessionárias privadas cumpram o estabelecido? Vou esperar por Agosto para me assegurar do que suspeito. Oxalá esteja enganado!

Tanto quanto sei, o contrato de exploração assinado entre as três empresas e a DSAT obriga-as a disponibilizar, no sistema sonoro e nas comunicações escritas, informações em Chinês (Cantonense e Mandarim), em Português e, facultativamente, em Inglês.

Apesar dos exemplos de atropelo da segunda língua oficial de Macau serem constantes, reconheço que o Governo tem feitos sinceros esforços para melhorar o produto final.

domingo, 10 de julho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Paraíso aqui ao lado

A ILHA de Hengqin (conhecida como ilha da Montanha, em Português, ou Wankam, em Cantonense), localizada mesmo ao lado de Macau, vai ser o novo pólo de desenvolvimento da região do Delta do Rio das Pérolas.

Desde que me lembro, na RAEM sempre se falou da necessidade de expandir para a ilha adjacente, devido à evidente falta de espaço. Aliás, a Ilha da Montanha era, de acordo com muitos registos históricos portugueses, parte integrante da jurisdição do território de Macau, pelo que, por este ponto de vista, seria um crescimento natural. No entanto, o Governo Central parece ter outros planos e quer desenvolver a ilha numa parceria bipartida entre Macau e Zhuhai.

O projecto de desenvolvimento de toda a ilha já está em marcha há algum tempo. O novo pólo da Universidade de Macau, o primeiro investimento do território a ser aprovado, está em avançada fase de construção do lado esquerdo da ponte Flor de Lótus, assim como estão a ser desenvolvidas outras infra-estruturas de apoio viárias e de logística por toda a ilha. Depois da Universidade de Macau seguiram-se pedidos de quase todas as outras instituições de ensino superior do território que, aparentemente, chegaram à conclusão, de um dia para o outro, que precisam de se expandir!

Do lado esquerdo da vila de Henqin, também do lado esquerdo da ponte que liga ao COTAI, está a ser construído o maior parque de diversões aquático da Ásia. Um investimento milionário que estará a contar, certamente, com os clientes atraídos pelos casinos de Macau. Para tal, será necessário permitir a livre circulação de pessoas entre os dois lados, algo que pode acontecer já este ano. Falta apenas o processo de reconhecimento recíproco das cartas de condução ser concluído.

Mas, no meio disto tudo, o que impressiona é a escala do que está a ser feito. O mesmo, apesar do Governo chinês não se mostrar muito aberto acerca dos detalhes, tem aparecido na internet. Recentemente surgiu no «Youtube» um vídeo promocional do projecto da ilha que impressiona até os mais cépticos pela sua abrangência e magnitude.

A apresentação, feita pela empresa Silkroad, onde se vê o real tamanho de Henqin (três vezes o de Macau e a maior ilha de toda a região de Zhuhai), refere o número de habitantes que, dos actuais cerca de três mil, passará, em 2020, para mais de 280 mil!

Na promoção do projecto mostram-se diversas zonas como a Universidade de Macau e o Chime-Long Internacional Ocean Resort – um arrojado projecto global que tem como objectivo final, de acordo com a unidade do Conselho de Estado responsável, o Henqin Overall Development Plan, tornar-se num espaço inteligente, aberto e amigo do ambiente de referência no Delta do Rio das Pérolas.

Dividida em três zonas específicas, Zona de Lazer e Turismo, Zona de Ensino Científico e R&D e Zona Comercial, a ilha tem vários projectos em andamento e, até 2012, irá ter, de acordo com o Município de Zhuhai, grande parte da estrutura rodoviária pronta, onde se incluirão vias principais e secundárias, uma via rápida, uma circular exterior, aterros e jardins. Nessa altura, estará também pronto o sistema de transporte sob terra e mar, incluindo o Metro Cantão-Zhuhai e a extensão da auto-estrada do Oeste Cantão-Zhuhai.

Sendo Henqin uma ilha, como não poderia deixar de ser, o lado marítimo não foi descurado. E, apesar de, no projecto, não se avançar nada em concreto no que diz respeito a marinas e estruturas de apoio à náutica de recreio, no vídeo promocional é dada um grande ênfase a esse aspecto, sendo possível distinguir, pelo menos, duas enormes marinas, uma ligada à zona residencial e outra ligada à zona de lazer, que irá abranger toda a área a sul e este da ilha, onde agora estão o Tianhu Natural Scenic Area, o Hengqincun Ecoligical Park e o Sea Paradise.

Além das marinas, parecer haver uma malha de canais de navegação, possivelmente baseado no que actualmente existe na ilha. Quem conhece a ilha sabe que a zona mais baixa é atravessada por milhares de canais e lagos de criação de peixes, caranguejos e ostras.

Como tudo o que diz respeito a projectos na China, os pormenores não são todos conhecidos e as alterações são constantes, pelo que relativamente à existência ou não de estruturas de náutica de recreio vamos ter de esperar, até que as autoridades se decidam em publicar mais informação e o projecto esteja concluído.

Na verdade, seria de todo positivo que a náutica de recreio fosse levada em consideração neste mega-projecto. A localização é ideal e serviria uma vasta zona, vindo colmatar uma das grandes lacunas de Macau e deste ponto do Delta do Rio das Pérolas.

Com a conclusão da construção da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau em 2016, a ilha de Hengqin passará a ser a demonstração dinâmica da estreita cooperação entre Guangdong, Hong Kong e Macau.

Henqin foi denominada, há três ou quatro anos, pelo Governo Central, como zona de demonstração da cooperação inovadora entre a província de Guangdong, Hong Kong e Macau, sob o princípio «Um país, dois sistemas».

As obras de construção avançam a um ritmo avassalador, como em todos os projectos na China.

Em Macau, como não temos mais para onde crescer e não queremos mais aterros, esperamos que este projecto da Ilha da Montanha venha restituir a qualidade de vida que tínhamos há bem pouco tempo. Só falta que nos deixem ali residir como se fosse parte do nosso território.

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Cônsul veta exposição

ESPERO que não me considerem tendencioso depois de lerem estas linhas, mas não posso deixar de vir a público repudiar algo que se ficou a saber recentemente.

Sou amigo do principal visado há mais de uma década e, por acaso, ambos colaboramos com O CLARIM. No entanto, não foram estas afinidades que me fizeram escrever este artigo.

Fiquei indignado quando soube que a exposição de fotografias do Joaquim Magalhães de Castro, sobre a sua viagem de 40 dias a bordo do Navio Escola Sagres (entre Goa e Lisboa), fora cancelada pelo nosso mui excelentíssimo cônsul de Portugal na Região Administrativa Especial de Macau. Indignado, mas não surpreendido, visto que não é a primeira vez que decisões pouco claras partem do nosso consulado neste torrão de terra, a que muitos portugueses «expatriados» chamam casa.

Durante a minha vida em Macau acompanhei todos os cônsules que por aqui passaram e, sinceramente, este tem sido rico em surpresas amargas. O serviço do consulado é o que é, com queixas de todos os quadrantes. Mas, mais grave do que isso, a arrogância toma contornos pouco dignos de um representante do Governo de Portugal, que está em Macau para servir os portugueses, quando afirma que não tem de dar justificações sobre os gastos feitos pelo Consulado.

Na entrevista acerca do cancelamento da exposição, publicada na edição do Hoje Macau do passado dia 27 de Junho, o digníssimo cônsul alega que não tem de «dar explicações sobre como gasta o dinheiro do Estado!».

Como residente de Macau, mas, acima de tudo, enquanto cidadão português, custa-me a acreditar que assim seja. Aliás, como cidadão português tenho o direito de perguntar ao meu Governo sobre os destinos dos impostos que pagamos. Se há direito que temos é o de saber onde o Consulado «mete» o dinheiro que vem de Portugal. Afinal, trata-se do erário público. Ou será que os consulados portugueses têm carta-branca para fazerem o que quiserem sem darem contas a ninguém? Não me parece!

Dos cônsules que por aqui passaram sempre houve queixas, no entanto, nunca o mal-estar foi tão grande como agora. Possivelmente chegou o momento de Portugal pensar numa ronda de rotatividade extraordinária.

Não sou eu apenas que me queixo. A indignação chega mesmo aos portugueses de etnia chinesa. Basta, por exemplo, escutar de manhã o canal chinês da Rádio Macau, para se ouvirem queixas sobre o serviço do consulado e sobre a forma como as pessoas são tratados. Queixas que, como sabemos, já chegaram à Assembleia Legislativa, pela voz de um dos deputados da RAEM (aqui o Cônsul fez o que devia, isto é, não respondeu porque nada tem a ver com o que se passa na AL).

Sobre o serviço prestado no consulado, já uma vez citei uma queixa apresentada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em Portugal, por falta de educação e arrogância de um funcionário consular. Pelo que sei, dessa queixa ficou a intenção e a resposta das instâncias responsáveis, dizendo apenas que iriam acompanhar o caso. Até hoje a situação mantém-se aos olhos de todos.

Não me digam que sou apenas eu a queixar-me, porque as vozes ouvem-se de vários quadrantes e cada vez mais pessoas evitam, a todo o custo, usar os serviços do consulado.

Acredito que o corpo de funcionários, tirando um ou outro colaborador, é de boa qualidade e feito de pessoas dedicadas e com boa vontade. Contudo, a liderança nada parece fazer para passar uma imagem de dinâmica e de empenho em melhorar o serviço.

Este incidente, que ainda há-de fazer correr muita tinta, pois há muitos detalhes por explicar, foi ainda mais agudizado pela falta da presença do cônsul no lançamento oficial do livro de Joaquim Magalhães de Castro, em Julho, na Livraria Portuguesa, intitulado «No Mundo das Maravilhas».

Há muito que perdi as esperanças relativamente à nossa representação diplomática em Macau. Se anteriormente nos queixávamos que a presença era pouco sentida, hoje penso que nem isso se nota. Basta-nos esperar que quem vier na próxima rodada seja mais sensível a estes problemas e que ouça toda a população e não apenas uma parte.

Quanto ao Joaquim, espero que a sua iniciativa vá avante com o Instituto Internacional de Macau (IIM) e, à laia de sugestão, aconselho-o a contactar a Embaixada de Portugal em Banguecoque. Pode ser que ainda seja incluída nas comemorações dos 500 Anos da Presença Diplomática Portuguesa na Tailândia.

Estou certo que tanto o anterior embaixador e querido amigo, António de Faria e Maya, como o actual representante de Portugal, o embaixador Jorge Torres Pereira, irão gostar da iniciativa e serão sensíveis ao projecto.

Espero que os contactos que entretanto foram feitos para o Ministério dos Negócios Estrangeiros e para a Marinha Portuguesa surtam os efeitos necessários, porque em Macau precisamos que nos representem e que apoiem as iniciativas que possam trazer prestígio à imagem de Portugal. Afinal temos uma história de vários séculos marcada por relações de amizade e de boa convivência.

Sinceramente não consigo compreender como é que uma exposição pode ser encarada como acendalha para uma crise diplomática. Principalmente quando a sua não vinda a Macau em nada prejudicou as relações entre Portugal e a China.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Taxistas sem vergonha!

Hoje escrevo uma carta aberta ao senhor director da Associação Geral dos Comerciantes de Trânsito e de Transporte de Macau.

PELO nome da associação que Vossa Excelência dirige percebemos porque é que os serviços que nos obrigam a pagar são de tão baixa qualidade. Afinal de contas, trata-se de uma colectividade dedicada ao comércio! Ora eu que pensava serem os táxis um serviço de transporte público!

Por outro lado, estou completamente de acordo e apoio as vossas reivindicações. De facto, com o desenvolvimento social de Macau e o aumento do custo de vida, considero sensato e compreensível o aumento de 8,6 por cento das tarifas. Afinal, os membros da Associação prestam um serviço que prima, essencialmente, pela qualidade e primazia do direito do utente!

Concordo, e assino por baixo, na reivindicação do aumento da bandeirada de 13 para 14 patacas. Afinal, os primeiros 1500 metros são os que mais custam a percorrer, tendo em conta a qualidade de comunicação que os associados apresentam, especialmente na língua inglesa! Isto para já não falar na segunda língua oficial de Macau que, se bem se lembram, é o Português! É que os associados parece nem sequer saberem de tal existência, pois nem os nomes dos locais turísticos sabem na segunda língua oficial (nem na inglesa, já que falamos de línguas «estrangeiras», como lhe chamava um dia destes um dirigente governativo).

Como não poderia deixar de ser, concordo e apoio também a vossa reivindicação para reduzir a distância da bandeirada para 1500 metros (além do aumento de 1 pataca). Afinal, acaba por ser um número mais redondo, facilitando os acertos no final da corrida porque, por incrível que pareça, há uma grande falta de moedas de 50 avos no mercado e os taxistas parece nunca terem troco. Como compreendo essa vossa dificuldade!

Justificam esta proposta de aumentos com o preço galopante dos combustíveis e dos seguros dos veículos e da manutenção.

Sinceramente não percebo o lapso. Eu teria optado por justificar de forma a que não fosse possível contrapor.

É verdade que os combustíveis têm aumentado de preço ultimamente; mas não se trata de uma aumento para toda a população? Ou será apenas para os taxistas! É verdade que os seguros também aumentaram (mas não em 40 por cento) e também admito que o preço dos mecânicos esteja mais elevado. No entanto, não consigo perceber onde gastam dinheiro com a manutenção, se os táxis andam sempre a cair aos bocados e o seu estado de conservação é lastimável!

Considerando-me eu um cidadão responsável e sensível aos problemas sociais, nomeadamente aos dos seus associados, não poderia deixar de apoiar esta nobre causa. Tenho, no entanto, algumas condições a impor, para o meu total apoio:

– Primeiro, gostaria que os seus associados frequentassem cursos de etiqueta e boa educação, visto que na sua maioria andam sempre mal dispostos, um pouco à semelhança de quem é obrigado a trabalhar à segunda-feira!

– Segundo, gostaria que os seus associados, cada vez que obrigam o utente a pagar as sobretaxas de bagagem, se dignassem a sair do veículo para a colocar e retirar do porta-bagagem. Afinal, se o cliente paga, tem direito ao serviço…

– Terceiro, gostaria que explicasse aos seus colegas que o pagamento de taxa extra só se aplica nos trajectos com partida no aeroporto. Os que têm como destino o mesmo local não são taxados…

– Quarto, gostaria que, para a aprovação das benesses que Vossa Excelência propõe, os seus associados fossem obrigados a fazer um novo exame de condução para renovação das licenças.

E visto que Macau gosta de pedir conselhos ao exterior, aconselhava os senhores da Direcção dos Serviços dos Assuntos de Tráfego a irem contratar dois examinadores da congénere da sua associação, em Londres. Assim, visto que os taxistas de Londres são considerados os mais profissionais de todo o mundo, ficaria mais descansado quanto à qualidade de quem se senta atrás do volante de um táxi em Macau.

Sabe Vossa Excelência que o exame para taxista em Londres é quase considerado como diploma de ensino superior, devido à sua complexidade e exigência?

– Quinto, gostaria que os seus associados, de uma vez por todas, fossem obrigados a falar, no mínimo, Inglês básico. É que uma boa parte dos turistas que nos visitam não falam chinês. E, além do Inglês básico, que aprendam o nome dos locais também em Português, porque, como referi e Vossa Excelência deve saber, Macau tem os nomes dos locais nas duas línguas oficiais.

– Sexto, renovem a frota automóvel e obriguem os condutores a apresentarem-se limpos e a cheirar bem. Proíbam-nos de fumar nas horas de serviço e obriguem-nos a ter uma postura profissional, nem que para isso tenham de os despedir e contratar outros que passem num exame de boas maneiras e de boa educação. Além do de condução, claro!

Se a sua Associação e associados forem capazes de satisfazer estas minhas condições, prometo que, antes de Setembro, ou seja, quando forem aprovadas as vossas reivindicações, voltarei a escrever, tecendo largos elogios à vossa classe e aos serviços que prestam diariamente!

Os taxistas têm todas as razões para estarem insatisfeitos e pedirem revisões das tarifas. Mas quem vos paga o serviço tem mais razões para se queixar daquilo que recebe em troca. É que, como é do conhecimento público, o serviço prestado pelos taxistas de Macau é uma vergonha (para não usar um palavrão que poderá ferir algumas susceptibilidades!) e nem merecem aquilo que hoje em dia cobram.

Pedir ao Governo que permita um aumento da bandeirada e da tarifa em quase 40 por cento é uma afronta a todos os residentes de Macau e aos turistas que nos visitam ao longo do ano. É preciso não ter qualquer escrúpulo ou vergonha na cara!!!

Será que nós poderíamos também exigir, a quem nos paga o salário, um aumento, para fazer face ao aumento dos táxis?

sábado, 11 de junho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Macao Water abandona o Português

NÃO sei há quanto tempo a entrevista foi publicada, – penso que em 2007, – mas ainda me lembro do nome Philippe Wind, visto que falava Português na perfeição. Recordo que tinha afirmado que a companhia que dirigia estava empenhada em manter a língua portuguesa, porque era uma das línguas oficiais de Macau e porque havia razões históricas para tal; além de que ele próprio a falava e considerava que era de primordial importância a sua manutenção, tanto para a Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau, como para a própria Região Administrativa Especial de Macau, servindo, além de outros fins, de factor diferenciador. Daí que todos os esforços estariam a ser feitos para que a língua se mantivesse em todos os aspectos organizacionais e nos contactos com os clientes. Referiu-me que seriam afectados novos fundos para contratação de pessoas que dominassem as duas línguas oficiais e estariam a ser feitos contactos para resolver o problema das traduções. Apesar das dificuldades de recrutamento de mão-de-obra especializada, que já nessa altura se sentia, garantiu-me que o objectivo era para cumprir.

Foram palavras que na altura caíram bem no seio da comunidade portuguesa, num período em que se notava um cada vez maior desleixo na preservação da segunda língua oficial do território por parte de várias entidades, incluindo o Governo.

Nessa entrevista, o então director executivo da Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau, explicava a mudança de nome para Macao Water, dizendo que se tratava apenas de uma questão de «marketing» e que tudo o resto se mantinha em Português, nomeadamente toda a documentação institucional, apoio ao cliente, etc. «Como disse, temos toda a documentação necessária em Português».

Crente como era, acreditei nas suas boas intenções e dei grande destaque a essa promessa. A verdade é que, passados alguns anos, a Macao Water parece ter esquecido, por completo, a língua portuguesa e as promessas do francês Philippe Wind.

Num recente incidente no prédio onde vivo, houve necessidade de deslocação de uma equipa da companhia para verificar o estado dos contadores e tubagens. Após a dita inspecção, o funcionário, que não falava uma palavra de Português e quase nada de Inglês, deixou dois formulários afixados na parede. Quanto à descrição feita no documento, sobre a situação, fora feita apenas em Chinês, pelo facto do funcionário não dominar suficientemente a língua inglesa para o escrever.

Estes documentos datam de Março de 2011. Quando os vi pela primeira vez, apenas me lembrei das palavras do então director executivo da SAAM (Philippe Wind), visto que deparei com um documento da empresa em Chinês e Inglês. O que teria acontecido ao Português e às promessas do antigo director executivo? Será que a nova equipa se esqueceu de respeitar algo que um antecessor tinha defendido?

Como não consegui entender o que se estava redigido (à mão, e em Chinês) resolvi contactar a empresa, aproveitando também para pedir explicações acerca do desaparecimento do Português. A indignação foi enviada por correio electrónico, em Português e Inglês, tendo recebido uma resposta, apenas em Inglês, no dia 20 de Maio, prometendo que iriam ter em atenção a minha chamada e que o caso estava a ser acompanhado! Numa tradução livre: «Vamos tratar deste assunto seriamente e estamos já a acompanhar o problema, sendo que a emissão do aviso em Português será feita assim que possível». De Março a Maio não foi possível encontrar quem fizesse uma tradução! E terminavam a reposta com um enigmático «esperamos conseguir providenciar o serviço que você espera receber da nossa empresa».

Este artigo é publicado hoje, 10 de Junho, um dia simbólico para a língua portuguesa, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas e, até à data, ainda não recebi qualquer reparo da Macao Water, nem os avisos afixados foram modificados.

É uma completa falta de respeito pela comunidade e pela língua portuguesa. Tal como a promessa de Phillipe Wind,também a da Macao Water, pelo seu departamento de Relações Públicas, ficou por cumprir. «Vamos tratar deste assunto seriamente e estamos já a acompanhar o problema, sendo que a emissão do aviso em Português será feita assim que possível», diziam então. Parece que ainda não foi possível…

terça-feira, 7 de junho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Elevador insalubre

AGORA que o tempo quente parece ter chegado para ficar em Macau, gostaria de chamar a atenção do leitor para uma falha que se arrasta, há alguns anos, sem que ninguém faça nada para a rectificar e que afecta grande número de pessoas. E para piorar ainda mais a situação, muitas delas são debilitadas e doentes. Por isso, as queixas conhecidas têm sido poucas.

Esta resignação pode muito bem ser um sinal de que os cidadãos deixaram de ter esperança de ver o Governo resolver os problemas. Por mim, espero estar enganado e que quem nos dirige ouça os apelos de quem precisa e leve em conta as críticas construtivas que vão sendo feitas na Imprensa.

Quem se desloca ao hospital público para consultas e não tem a sorte de ter condutor que o deixe à porta das instalações, certamente já terá usado o acesso pelo elevador existente na Rua Nova à Guia. Se bem que esse equipamento para levar as pessoas para a zona das urgências e para o piso principal do Centro Hospitalar Conde de São Januário tenha trazido grandes benefícios, não se pode deixar de apontar o que está mal.

Quem por ali passa já se terá deparado com a falta de civismo, tanto de quem sai do elevador, como de quem espera pela sua vez para entrar. O espaço é exíguo, dificultando a circulação das pessoas, quando estas não têm o mínimo de respeito pelo seu semelhante. Se a fila de espera não for feita ordeiramente e junto à parede (mesmo encostada), quem sai do elevador não tem outra opção que não seja ir de encontro a quem espera pela sua vez para entrar, originando-se uma confusão tremenda entre quem sai e quem entra num corredor onde não cabem mais que duas pessoas lado a lado. A situação piora quando se trata de pessoas em cadeiras de rodas.

Quanto à educação cívica, o Governo pouco mais poderá fazer do que esperar que a mentalidade das pessoas em Macau mude, tornando-se mais civilizadas, visto que não será muito provável aumentar a largura do corredor, por contingências físicas do local. No entanto, existem outros pontos que podem e devem ser melhorados.

Quem ali se desloca, infelizmente, não o faz por gosto. O simples facto de ter de ir ao hospital é suficiente para deixar uma pessoa insatisfeita e de humor pouco propício a sorrisos. E, se a juntar à realidade de ter de se deslocar à consulta ainda for obrigada a ter de enfrentar a falta de edução dos outros e a falta de condições das instalações, é natural que tenha pouca paciência para aturar abusos.

De Verão esse conjunto de factores conta ainda com mais uma agravante que pode deitar por terra o utente mais bem-disposto: o calor. Em todo o corredor não existe um único ar condicionado a funcionar, de modo a atenuar a temperatura. Apesar de existir uma ventoinha (apenas uma no final do corredor) e uma cortina de ar (que nunca vi funcionar e que pelo pó acumulado deixa adivinhar que está inactiva há muito tempo), isto de pouco vale quando a temperatura ultrapassa os 25 graus e se juntam dezenas de pessoas num espaço exíguo que apenas tem uma saída/entrada de ar fresco.

É comum ver pessoas a transpirar imenso e usar todos os meios ao seu alcance para fazerem face ao extremo desconforto que sentem.

O Governo deve ter este aspecto em atenção e tentar encontrar uma solução para o problema. A simples instalação de um sistema de ventilação e de ar condicionado no local pode ser suficiente para melhorar, substancialmente, as condições.

Outro dos aspectos a melhorar é o da ordem das filas de entrada e saída. Sei que aqui conta muito a educação e civismo de cada um; no entanto, as autoridades podem colocar fitas separadoras e mesmo funcionários, durante alguns meses, para indicar às pessoas para que mantenham a ordem da fila.

Paralelamente a estas iniciativas, podem também colocar, nas duas línguas oficiais, e também em Inglês, painéis educativos sobre a forma correcta de se comportarem enquanto esperam pelo elevador.

A falta de Português

Estando a falar de um acesso ao hospital, não quero deixar passar a oportunidade para referir que o desrespeito pelo artigo 9 da Lei Básica continua a ser regra no Centro Hospitalar Conde de São Januário, já que o uso de Português continua a ser desrespeitado diariamente, sem que ninguém faça nada para mudar a situação.

A informação disponibilizada pelos corredores do hospital está, maioritariamente, em Chinês e Inglês. Há diversos cartazes relativos a doenças e seminários que apenas apresentam informação em Chinês, esquecendo completamente a segunda língua oficial de Macau. No elevador citado anteriormente a informação sonora é apenas em Chinês (cantonense) e Inglês.

Nas urgências a informação disponibilizada ao público está, na sua grande parte, em Chinês e Inglês, sendo o Português tratado como língua marginal. E no tratamento com os doentes a situação repete-se, não havendo qualquer clínico no serviço de urgências que faça o atendimento em Português.

Esta situação não se irá resolver com a contratação de duas dezenas de médicos a Portugal. É um problema que merece outro tipo de abordagem mais profunda.

Antigamente existia um ponto nos requisitos para entrar na Função Pública, sendo exigido ao candidato um mínimo de conhecimento das duas línguas oficiais. Penso, por isso, que actualmente, para certas posições nos Serviços de Saúde, tal deveria ser ainda exigido. Julgo até que do facto deveria ser dado conhecimento a Pequim e talvez assim se resolvesse o impasse.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Macau desfigurado

A FRENTE marítima de Macau vai mudar radicalmente nos próximos anos. O projecto de consulta está em andamento e, apesar de ter sido divulgado, tanto localmente como no exterior, parece ser completamente desconhecido. Em Macau poucas pessoas estão a par dos planos do Governo nesta área e as acções de divulgação têm sido pouco esclarecedoras.

Dividido em zonas A, B, C e D, o plano engloba intervenções tanto na frente de Macau, como na da ilha da Taipa, alterando toda a zona ribeirinha entre as três pontes.

Dos pontos referidos, o que certamente terá mais impacto é o da zona A, aquela que já está a ser construída, de raiz, junto à zona da Rotunda da Pérola, perto da fronteira das Portas do Cerco. É também nessa zona que vai ficar localizada a entrada em Macau da Mega-ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai.

Para proceder a tais aterros, o Executivo da Praia Grande pediu autorização ao Governo Central para construir entre a Ponte da Amizade e Gongbei. Só estas duas «ilhas» vão fazer o território crescer exponencialmente (cerca de 25%).

Estes projectos, em conjunto com outras intervenções de carácter paisagístico urbano, foram apresentados em Novembro de 2010 durante uma sessão aberta ao público e, de tempos a tempos, vão sendo anunciados mais avanços. No entanto, como em muitos outros assuntos que se registam em Macau, pouca ou nenhuma atenção suscitou na população ou nas regiões vizinhas.

Nos documentos públicos é claro que a face marítima de Macau irá sofrer enormes alterações, logo a começar pelo lado direito do território, para quem chega por via marítima. Os aterros nessa zona chegam quase à zona do canal de navegação dos barcos vindos de Hong Kong.

Como todos os projectos apresentados pelos Governos, este também foi elaborado para que dê a imagem de que traz imenso valor acrescentado. Prometem corredores verdes, interligações entre zonas novas e velhas, valorização do património histórico, etc.

Começamos a ficar pouco crédulos naquilo que nos prometem. Os exemplos de maus tratos do património são mais que muitos. Quem não se lembra, por exemplo, de ver o Farol da Guia de todos os ângulos de Macau? Nos últimos cinco anos foram capazes de reduzir a sua visibilidade a apenas dois locais: o Tap Seac e a Praça Flor de Lótus.

Macau sempre foi uma cidade marítima e que sempre viveu virada para a água; contudo, as intervenções e políticas dos últimos anos viraram as costas por completo a esta herança. Actualmente, a RAEM não tem qualquer tipo de estratégia que privilegie o seu passado histórico-marítimo nem o seu potencial neste sector.

As pescas são quase inexistentes e o sector da náutica de lazer é apenas uma sombra daquilo que era antes de 1999. Basta olhar para o Porto Interior e ver em que estado está. Admiro-me como é que ainda por ali se navega e como é que as taínhas ainda sobrevivem!

Em Macau há apenas uma marina, apesar dos constantes apelos do sector para que outras possam ser construídas, pois só assim podem apostar no desenvolvimento de um mercado de valor acrescentado que pode trazer mais turistas de qualidade ao território.

Há um exemplo flagrante de investimento privado que acabou por ser um elefante branco. A Doca dos Pescadores, com efeito, tem também uma «marina»; no entanto, o empresário promotor do empreendimento, sabendo da impossibilidade de obter a licença de utilização da mesma, devido a situar-se dentro da área de navegação dos «jetfoils», decidiu deixá-la por terminar. Um local nobre ribeirinho deixado ao abandono, apenas porque o Governo não clarifica o que vai fazer, de uma vez por todas, com o Terminal Marítimo do Porto Exterior.

Quem ande mais atento lembra-se certamente de que o grupo de Stanley Ho tinha apresentado, há alguns anos, um enorme projecto chamado «Oceanus», constituído por um hotel que iria ocupar parte da zona onde se encontrava o antigo centro comercial «New Yaohan», cruzando a Avenida da Amizade para o local onde se encontrava o antigo casino «Palace» e mesmo a zona do terminal dos «jetfoils». Tal projecto teve de ser metido na gaveta, já que não houve clarificação acerca da posição do Governo relativamente ao Terminal Marítimo do Porto Exterior. O «Oceanus» nasceu mas com outra fisionomia…

Com as intervenções anunciadas na orla marítima de Macau teme-se que venha a alterar-se por completo a linha de visão do território. Apesar do Governo ter promovido vários encontros para discutir este assunto, os especialistas do território defendem que uma intervenção desta envergadura não pode ser feita de ânimo leve e que deve ser criada uma equipa multidisciplinar para abordar, no plano técnico, todos os pontos.

De acordo com engenheiros e arquitectos, perguntar à população em geral o que pensa e deseja para os novos aterros não é a solução ideal, porque o comum dos cidadãos muito dificilmente estará preparado para analisar este tipo de informação.

Como em muitos outros assuntos, o Governo não deu qualquer atenção às críticas do sector e avançou como sempre tinha planeado.

Esperamos, pois, que uma intervenção humana desta envergadura na fisionomia marítima de Macau, em conjunto com o impacto da mega-ponte, não traga mais influências negativas para a qualidade de vida das pessoas da RAEM.

sábado, 21 de maio de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Cultura e identidade que se perde

O QUE se pode esperar do futuro de uma terra que deixa morrer as suas tradições, em detrimento de um comercialismo desenfreado?

Ao longo dos anos, nos mais variados locais, vamos assistindo a um completo desrespeito pelos usos e costumes e um completo desleixo na sua preservação. Por exemplo, quem se lembra ainda da tradicional apanha do sargaço que sustentava imensas famílias no norte litoral português e que era base de uma economia de subsistência? Ou quem se lembra de uma outra tradição de cariz mais popular, em que, no Dia das Bruxas (agora chamam-lhe «Halloween») se andava de porta em porta a pedir o «Pão por Deus»? Actualmente, as crianças, por influência americana, dizem «Doçura ou Travessura» e nada sabem da tradição secular desse dia na Europa.

Macau, infelizmente, não foge à regra. Nos últimos dez anos, com o acelerado desenvolvimento da indústria do jogo e tudo o que a ele ficou associado, a sociedade tem evoluído num sentido que nem sempre é o mais indicado. Ainda me lembro que na década de noventa não precisávamos de fechar os carros à chave ou de estar receosos de que nos assaltassem na rua. Essas alterações de hábitos levam a que hoje não possamos deixar de estar preocupados com a cidade que deixamos para as gerações vindouras.

As tradições nesta terra desaparecem pouco a pouco, sem que ninguém se mostre muito interessado em mantê-las. Quem fazia por as registar e lutava para que não caíssem no esquecimento vai, a pouco e pouco, também desaparecendo. O exemplo do macaense Leonel Barros, falecido recentemente, é disso ilustrativo. Restam-nos os registos escritos, que agora urge preservar, pois se tal não acontecer, perderemos até a memória colectiva.

Na comunidade chinesa local há também pessoas que se dedicam à recolha e preservação das tradições. Pessoas que, anonimamente, vão tentando fazer com que as suas vivências não morram e não caiam no esquecimento desta sociedade cada vez mais «pseudo-desenvolvida». Esses trabalhos merecem e devem ser publicados nas duas línguas oficiais para conhecimento de todos. Um trabalho que cabe, por inerência de funções, ao Instituto Cultural. Conhecendo Guilherme Ung Vai Meng e sabendo do seu apreço por estas tradições, penso que muito será feito durante o seu mandato.

Só uma comunidade informada acerca de tudo, mas mesmo tudo o que a caracteriza, pode manter o seu traço original e diferenciar-se de outras que a rodeiam. Não consigo perceber como pode um povo desenvolver-se, quando não procura preservar as suas tradições. Uma terra sem passado não pode ser uma terra com um futuro brilhante.

As modernidades podem trazer, no imediato, benesses e bem-estar, mas daqui a uma ou duas gerações vamos perder valores, sem ter qualquer forma de os recuperar. Valores que, como qualquer outra forma enraizada de definição do traço característico de uma sociedade, estão intrinsecamente relacionados com as tradições, os viveres e o que de mais popular uma sociedade pode ter.

Não preservar essas características únicas é o primeiro passo para ser assimilado por completo, perdendo-se a identidade. Macau, se não houver uma protecção deste traço que liga a cultura chinesa (oriental) e a portuguesa (ocidental), passará a ser apenas um subúrbio de Zhuhai, sem qualquer característica própria, com excepção dos casinos e das apostas legais.

Actualmente, onde quer que nos desloquemos no território, vemos novos empreendimentos turísticos e habitacionais, que apenas trazem características importadas. O exemplo mais flagrante, embora não o pior, é o «Venetian», que nada tem a ver com Macau. O casino-hotel da «Wynn» afina pelo mesmo diapasão, nada introduzindo no campo da preservação ou inovação no conceito de encontro de culturas, próprio de Macau.

As modernices, no entanto, não são todas negativas e mesmo o «Venetian» e o «Wynn» têm os seus pontos positivos. Trouxeram algo de novo ao território, é verdade, mas poderiam ter evitado trazer cópias e ter optado por criar algo que honrasse a história cultural deste pequeno espaço.

O próprio Governo pouco tem feito nesse sentido. Os últimos grandes empreendimentos levados a cabo nada trouxeram de novo. A ponte Sai Van e o «Dome» em pouco (para não dizer nada) vieram enaltecer o encontro de culturas!

Ao referir-me a construções físicas, não posso esquecer também outros sectores da cultura. É de todos sabido que não existe, oficialmente, um manual de História de Macau que seja aceite por todos os sectores da sociedade e seja «imposto» pelos Serviços de Educação às escolas locais. Sem este pilar básico, como se pode ensinar às crianças que devem preservar a cultura dos seus antepassados?

Fico perplexo, quando falo com jovens profissionais nascidos em Macau e estes não me conseguem explicar a razão de ser de Macau, as suas origens e história. Muitos nem sequer sabem qual a razão da língua portuguesa ser uma das línguas oficiais e de 20 de Dezembro comemorar o retorno de Macau à soberania chinesa!

Numa terra assim, algo vai mal no âmbito de preservação cultural e de ensino da história local.

sábado, 14 de maio de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

200 médicos… só se anunciam 22?

PARECE piada de Primeiro de Abril mas, infelizmente, não o é! Ao que parece, o sector da Saúde de Macau precisa, para o novo hospital a construir na Taipa, de 200 novos médicos!

Com a conhecida qualidade dos serviços que nos prestam actualmente, e com as dificuldades que têm enfrentado para recrutar profissionais capazes ao exterior, prevejo que iremos ter mais uma fornada de médicos vindos do interior da China, com toda a carga negativa que isso acarreta! Falta de qualidade, mau domínio de inglês e nenhum de português ou mesmo cantonense, arrogância e pouco profissionalismo.

A área da Saúde em Macau está mal e precisa de mudar radicalmente, na opinião de especialistas locais e do exterior.

Há já vários anos que não se consegue convencer clínicos de qualidade de Portugal para exercerem em Macau (tirando alguns casos esporádicos). As condições oferecidas não são atractivas, como eram anteriormente.

Com a necessidade de recrutar mais duas centenas de médicos e sem opções viáveis, temo sinceramente pela nossa saúde. Recrutar no continente não é solução que nos sirva, visto que a qualidade, tanto em termos técnicos como linguísticos, é muito má.

Sempre que me desloco aos Serviços de Urgência, a primeira pergunta que faço ao médico que me atende é sobre a sua origem! Quando me indicam um vindo do continente, educadamente, peço para me encontrarem algum médico que fale português, desculpando-me com o facto de não saber inglês! Muitas vezes a opção que me dão é o ter como intermediário uma enfermeira/intérprete, mas que recuso, insistindo na necessidade de ter um clínico que me atenda na minha língua. Afinal, o Português também é língua oficial de Macau. Esta insistência gera, regra geral, muito desconforto. No entanto, insisto em não mudar de posição, porque a Lei assim o diz. Depois de muita insistência a situação é resolvida.

Agora, perante a necessidade de virem mais 200 médicos, e com a conhecida dificuldade de «importar» clínicos de Portugal e o deficiente domínio da língua inglesa por parte dos profissionais de Saúde do continente, prevejo um futuro ainda mais negro para quem precisa de se dirigir aos hospitais locais.

Já por diversas vezes sugeri que, na impossibilidade de oferecerem melhores condições aos médicos a recrutar em Portugal, tentem outros mercados. Afinal, a língua portuguesa é falada noutros países. Ao que se sabe, pelo menos o Brasil tem excedente de médicos que poderiam, eventualmente, prestar serviço em Macau. E, na falta de falantes da língua portuguesa, seria caso de optar pelos de língua castelhana (Cuba poderia ser uma opção, visto que em Portugal os contratam também) ou de língua inglesa (com as Filipinas aqui tão perto e muitos profissionais de qualidade disponíveis).

A par dos 200 médicos para o novo hospital a surgir em 2014 no COTAI serão precisos, – de acordo com os números dos Serviços de Saúde, – cerca de quatro centenas de enfermeiros e outros profissionais especializados.

Perante a escassez, em Macau, de trabalhadores com esta formação, como irá o Governo solucionar o problema?

Pelo que me é dado a saber, de acordo com dados divulgados anteriormente, há no território cerca de quatro centenas de pessoas habilitadas a exercer funções nesta área, mas as suas qualificações não são reconhecidas localmente, devido a problemas meramente burocráticos. Possivelmente, a abordagem deste problema de forma sistemática e séria seria um primeiro passo para resolver a escassez que o sistema enfrenta. Solução esta que poderia, pelo menos, atenuar o grande problema que é contratar mão-de-obra de qualidade ao exterior.

Recruta-se em Portugal

Em Portugal foram já publicados, entretanto, anúncios com intenção de recrutar especialistas. Para esse efeito, de acordo com um aviso publicado pela Ordem dos Médicos do País, os candidatos precisam de ter cinco anos de experiência. Oferecem a «Médico Especialista»: remuneração mensal de 68,820 a 83,700 patacas (equivalente a cerca de 6.000–7.300 euros), dependendo das habilitações literárias e experiência profissional; 22 dias úteis de férias anuais; subsídio de Natal e de férias; bilhete de avião de classe económica de ida e regresso ao local de origem; alojamento. Entre o dia 17 e 22 deste mês estará em Portugal o «subdirector dos Serviços de Saúde, Chan Wai Sin, a fim de realizar entrevistas aos médicos especialistas que forem selecionados».

De acordo com os detalhes sobre as especialidades, há duas vagas para Anatomia Patológica, Cardiologia e Gastroenterologia e uma vaga para Anestesiologia, Neurologia, Patologia Clínica e Pediatria, Cirurgia Toráxica e Vascular, Obstetrícia/Ginecologia, Imagiologia, Oncologia, Psiquiatria e Urologia, Otorrinolaringologia e Ortopedia, Medicina Física e Reabilitação e Medicina Legal.

No total são 22 as vagas, muito aquém dos 200 necessários para todo o corpo clínico!

Sabendo o que se tem passado com alguns dos médicos recrutados mais recentemente, sinto-me na obrigação de deixar um pequeno aviso a quem se candidate. No que se refere a condições de alojamento, aconselho a que deixem tudo preto no branco e por escrito. Caso contrário, quando aqui chegarem, acabam enfiados num «buraco», porque, em Macau, «alojamento» pode ter diversas interpretações e todas elas muito distantes daquilo a que em Portugal chamam casa! Os critérios são «um pouco» diferentes dos de Portugal!

Entretanto, ficamos sem saber de onde virão os outros 178 médicos!

sábado, 7 de maio de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Galaxy não cumpre

MUITO se tem dito e escrito sobre os trabalhadores que são necessários em Macau e a importação de mão-de-obra do exterior. Nos últimos tempos a Galaxy Resort tem andado nas bocas do mundo, muito por ser, neste momento, o maior investimento ainda em curso no território.

A falta de trabalhadores levou esta empresa a tentar um acordo com as autoridades governamentais, tendo conseguido ver aprovado o rácio de um trabalhador do exterior por cada quatro da RAEM. Por seu lado, o Executivo, através do departamento responsável pela área do trabalho e emprego, assegurou que, caso a empresa não respeitasse estes números, a suas quotas seriam drasticamente reduzidas e aplicada uma multa pelo incumprimento.

Pelo que se deduz dos números, por cada quatro mil residentes contratados, a Galaxy teria carta-branca para recrutar mil ao exterior. Mas – pergunto-me – será que alguém se preocupou em fiscalizar tal medida? Julgo que não! Tanto quanto sei, nunca foi nem está a ser cumprida.

Tomo como exemplo um caso que conheço: um dos investimentos de maior envergadura incluídos no complexo do COTAI. Trata-se de um clube de luxo, propriedade de um famoso «designer» de Hong Kong. Só ali, onde a força laboral é de cerca de meia centena de pessoas, apenas uma mão-cheia são de Macau (residentes permanentes e não permanentes). Toda a equipa gerente é do exterior, nomeadamente de Hong Kong e da Europa. Os restantes membros são do interior da China (a grande maioria) e alguns recrutados nas Filipinas e Taiwan. Além de não cumprirem o rácio de 4 para 1, há até pressões, por parte da equipa gerente e dos membros do interior da China, para o uso do mandarim, em detrimento do cantonense e do inglês.

No seio da equipa há até cidadãos locais que, apesar de experientes na área em que trabalham, quando se trata de escolher nomes para lugares de chefia, acabam sempre por ser preteridos por outros, vindos do continente e sem qualquer tipo de experiência. Situações dessas já levaram a que alguns trabalhadores anunciassem que irão abandonar o projecto, antes de o mesmo abrir as portas ao público em Junho.

Segundo me é dado a saber, a preferência por trabalhadores do interior da China tem mais a ver com o salário que lhes pagam, do que propriamente com a experiência. É que para a mesma posição, se for local, terá de receber quase o dobro. Os que vêm de fora aceitam muito menos e não se importam com a carga horária, visto estarem em Macau sozinhos e sem família, explicaram-nos.

Este é apenas um exemplo da regra que reina neste projecto. A situação não é exclusiva deste departamento, pelo que não se percebe por qual motivo as autoridades continuam a fechar os olhos ou a olhar para o lado, não investigando e apurando a verdade dos números.

Se neste clube, em que a equipa não é das maiores, nem 10% são locais, será fácil perceber que a percentagem de 75% de residentes de Macau, a que todo o «resort» está obrigado, anda muito longe do seu cumprimento.

Aliado ao facto de não cumprirem as directivas de quatro locais para um não local, impera ainda a regra de dar aos de fora os lugares de chefia, causando mal-estar entre a mão-de-obra de Macau, havendo trabalhadores locais com capacidade e experiência suficiente para ocupar essas posições. Aliás, isto era também algo que as autoridades tinham anunciado como sendo uma das medidas a cumprir.

Compreendo que não seja fácil controlar e que o Governo tenha dificuldade em andar a pedir os Bilhetes de Identidade de Residente (BIR) à porta do estaleiro da Galaxy. Porém, a entidade governamental de fiscalização pode exigir que a empresa lhe envie, detalhadamente, os dados de identificação de todos os trabalhadores. Bastaria pedir os dados por sector, para ficarem com uma ideia mais concreta da realidade.

O problema não é exclusivo

Esta situação não se regista apenas na Galaxy. Se nesta empresa os locais perdem os lugares de liderança para pessoas vindas do continente e se o próprio dialecto local é posto em terceiro lugar, é muito provável que o mesmo aconteça noutros empreendimentos.

No «vizinho» Venetian há muito que os trabalhadores se queixam do mesmo. Pelo que sei, aí resignaram-se à realidade porque, segundo afirmam, o Governo não lhes dá qualquer importância e nada faz para resolver o problema. Os casos aqui referidos mostram isso mesmo, ou seja, que os direitos dos locais estão a ser completamente atropelados e se continua a «tapar o sol com uma peneira». Só não vê quem não quer!

É altura de o Governo, através da Direcção dos Assuntos Laborais, ou de qualquer outro departamento, de uma vez por todas, fazer algo de positivo para proteger quem é de Macau e o direito ao emprego condigno.

domingo, 1 de maio de 2011

Libertem o Largo do Senado!

 

O «SEGUNDO sistema», através da Lei Básica, garante aos residentes um direito há muito enraizado nas culturas ocidentais. Refiro-me, mais em concreto, ao Artigo 27º da pequena constituição (de Macau), que foi acordada entre Portugal e a China e que estará em vigor até 2049.

A referência ao «direito à manifestação» tem em vista alertar para uma situação que se vem registando num local nobre da cidade. Trata-se do Largo do Senado, que sempre defendi como devendo ser livre de todo e qualquer tipo de manifestação de carácter privado, comercial ou de qualquer outra natureza.

Nas últimas semanas e meses tem sido palco de um sem número de iniciativas reivindicativas por parte de dois grupos distintos. Para além das costumeiras promoções institucionais.

O grupo mais pequeno critica injustiças relacionadas com uma seguradora. Sem querer correr o risco de ser simplista e insensível, considero que, se têm alguma queixa a fazer a uma instituição privada, usem os tribunais e não a praça pública. Afinal, não é costume dizer que a nossa liberdade acaba quando começa a interferir com a dos outros?

Os tribunais do território aí estão para dirimir este tipo de problemas e, se não resultar em primeira instância, há sempre a possibilidade de recorrer a instâncias superiores e, até, internacionais.

É comummente aceite pelos residentes que «carnavais» em pleno coração da cidade apenas servem para que os turistas façam chacota de nós e daqui levem uma péssima ideia, ao voltarem aos seus países de origem.

O segundo grupo, bem mais numeroso e de maior visibilidade, é o dos familiares que querem «a toda a força» que o Governo lhes permita a entrada e permanência dos seus filhos que ainda vivem do outro lado da fronteira. Pelo que sei, trata-se de um grupo de pessoas, muitas delas idosas, que ainda não perceberam que o Governo de Macau já nada mais pode fazer. Se Pequim não autorizar a entrada e permanência dessas pessoas, o Executivo não terá jurisdição sobre cidadãos do interior da China.

Voltando ao já referido Artigo 27º, este, além de garantir o «direito à manifestação», diz também que deveria ter sido publicada uma lista de locais onde tal seria permitido.

Depois de consultar alguns juristas locais, acabei por concluir que nada fora feito, ficando então aberta a possibilidade de manifestação em qualquer local da RAEM. Para organizar um qualquer evento – note-se – basta informar as autoridades com a devida antecedência.

Nascido e criado num Estado de direito democrático, prezo e concordo com o princípio de todo o cidadão ter direito a manifestar-se. Em muitos casos apoio todo o tipo de iniciativa reivindicativa, especialmente se estas denunciam a usurpação de direitos ou injustiças. Aliás, estas páginas vão fazendo eco de algumas dessas situações.

Neste texto não ponho em causa a justeza ou veracidade dos exemplos que cito. Critico, sim, onde tal acontece. O Largo do Senado não deve ser palco para este tipo de actividade. Empobrece a nossa imagem e denigre a reputação de um destino turístico que se quer de qualidade.

Se no Dia do Trabalhador de 2009 as autoridades impediram os manifestantes de passarem pelo Largo do Senado (mais propriamente pela Avenida Almeida Ribeiro), como se pode permitir a outros instalarem-se de «armas e bagagens» no mesmo local? A perturbação da ordem pública, que foi invocada em 2009, já não serve para actuar em 2011?

Apesar de concordar em pleno com a lei n.º 2/93/M, continuo sem perceber o seu Artigo 16º, exactamente aquele que obriga a que se elabore a dita lista dos locais proibidos. Ao que tudo indica, ela parece não existir. Se não for verdade, não é do conhecimento público.

Para a salvaguarda dos interesses de todos os cidadãos, mas principalmente da boa imagem de Macau, é urgente elaborar a relação dos locais onde não devem ser permitidas manifestações. O Largo do Senado, assim como a Praça Flor de Lótus e o Largo do Pagode da Barra, devem também, evidentemente, fazer parte da listagem, entre muitos outros sítios do território.

Em vez dos locais referidos, podem as autoridades, por exemplo, autorizar a Praça da Amizade (junto ao Hotel Sintra) ou o Jardim do Iao Hon, visto terem todas as condições para tais actividades.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Vela: ID deve apoiar

MAIS de três dezenas de crianças praticam gratuitamente desporto todas as semanas, graças a uma organização fundada por três residentes de Macau, sem qualquer apoio do Governo. Apesar de terem sido obrigados a constituir uma empresa de responsabilidade limitada e não uma associação, – idiossincrasias da Lei local, – optaram por criar a «academia» sem fins lucrativos, apenas pelo amor ao que fazem e para desenvolverem um desporto que já teve muitas tradições em Macau. Investiram algumas centenas de milhares de patacas do seu próprio bolso, recebem alguns apoios de entidades privadas e tentam, a todo o custo, convencer o Instituto do Desporto (ID) para a necessidade que têm de (pelo menos) serem reconhecidos oficialmente. Pois, se tal acontecer, mais apoios poderão chegar pela via privada, nomeadamente da concessionária do Jogo Galaxy, que está na disposição de avançar com um donativo superior a trezentas mil patacas, o que seria suficiente para fazer face às necessidades mais urgentes.

Desenvolvem a sua actividade lúdica há cerca de três anos e trabalham, gratuitamente, com crianças e com adultos, mediante um pequeno pagamento simbólico, que ajuda a suportar algumas das despesas correntes inerentes à gestão de uma organização ligada ao desporto. Quanto às instalações, apesar de terem já tentado, através da Capitania dos Portos, ter acesso a um barracão que não é utilizado há vários anos, continuam a depender da boa vontade de um empresário da restauração local que lhes disponibiliza dois locais onde armazenam os seus materiais e lhes deixa utilizar água canalizada e electricidade sem exigir nada em troca. Quanto à resposta da Capitania foi a de que não dariam autorização para utilizar algo que abandonaram há muitos anos e que apenas acumula lixo e bicharada!

Por esta altura já muitos leitores devem estar a perguntar de que organização se trata, Pois bem, refiro-me à única instituição que em Macau faz e promove activamente a vela desportiva. Apesar de haver uma associação de vela, – aparentemente, tanto quanto sei, pouco mais faz do que ter um barracão em Hác-Sá, cheio de motas de água e de barcos a motor para salvamentos, que os seguranças do recinto usam para pescar ilegalmente, – este grupo de pessoas tem dinamizado a saudável prática da vela, lutando contra todos os contratempos que lhes vão aparecendo, sempre com um sorriso nos lábios e com a resposta pronta de que para se praticar vela há que ter paixão e encarar a actividade como um divertimento.

A barreira mais recente, que impede a Galaxy em avançar com o chorudo donativo, que poderia resolver muitas das questões imediatas, é a falta de reconhecimento por parte do Instituto do Desporto. Pelo que entendi, «a bola» está agora no campo liderado por José Tavares. Apesar de não conhecer o «número dois» do ID, – tem fama de pessoa competente, atenta e sempre pronta a ajudar, além de um vastíssimo currículo profissional, que atesta o seu grande profissionalismo, – acredito que esteja para breve esse reconhecimento, visto que a Academia Jovem de Vela de Macau exerce um trabalho meritório, que merece ser apoiado por todos. Acredito que José Tavares e o seu colega do «leme», Alex Vong, irão dar «luz verde» em breve, visto que em Junho realiza-se o grande cartaz da academia: a regata internacional de Macau, que na sua primeira edição, realizada no ano passado, reuniu centenas de crianças provenientes de vários locais da região. A edição deste ano irá contar com equipas da África do Sul, das Filipinas, de Hong Kong, da China continental, da Malásia, da Austrália, etc. Um verdadeiro festival internacional que só poderá enaltecer o nome de Macau e contribuir para que a nossa juventude alargue os seus horizontes. Claro está que nunca colocando de lado o cariz desportivo e competitivo do evento.

Quem dúvidas tiver daquilo que escrevo, ou queria que os seus filhos e netos aprendam a velejar, basta deslocar-se a um sábado ou Domingo de manhã para junto do restaurante Miramar, – ao lado do hotel Westin, em Coloane, – para ver que em nada estou a exagerar. O entusiasmo das crianças é contagiante, o ambiente é muito saudável e, acima de tudo, é multicultural, o que em Macau apenas faz jus à terra e ao convívio de culturas que o território representa.

Eu próprio fui conhecer esta realidade a conselho de um amigo de Hong Kong. Depois de ler um artigo na revista náutica Fragrant Harbour, o seu director e meu amigo de longa data, David Robinson, aconselhou-me a conhecer o trabalho deste grupo de pessoas dedicadas. Fui – confesso – um pouco céptico, mas voltei convencido e rendido aos sorrisos e empenho dos mais novos.

Acredito que o Governo e outras entidades comecem a apoiar estas iniciativas, pois elas merecem todo o nosso apoio e carinho. Afinal, trata-se de desporto e do bem-estar dos nossos futuros líderes.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Jornal russo "Pravda.ru" escreve 4 páginas sobre Portugal

17 March 2011

Foram tomadas medidas draconianas esta semana em Portugal pelo Governo liberal de José Sócrates, um caso de um outro governo de centro-direita pedindo ao povo português a fazer sacrifícios, um apelo repetido vezes sem fim a esta nação trabalhadora, sofredora, historicamente deslizando cada vez mais no atoleiro da miséria.

 
E não é porque eles serem portugueses.
 
Vá ao Luxemburgo, que lidera todos os indicadores socioeconómicos e
você vai descobrir que doze por cento da população é portuguesa, o povo
que construiu um império que se estendia por quatro continentes e que
controlava o litoral desde Ceuta, na costa atlântica, tornando a costa
africana até ao Cabo da Boa Esperança, a costa oriental da África, no
Oceano Índico, o Mar Arábico, o Golfo da Pérsia, a costa ocidental da
Índia e Sri Lanka. E foi o primeiro povo europeu a chegar ao
Japão... e Austrália.

Esta semana, o Primeiro Ministro José Sócrates lançou uma nova onda
dos seus pacotes de austeridade, corte de salários e aumento do IVA,
mais medidas cosméticas tomadas num clima de política de laboratório
por académicos arrogantes e altivos desprovidos de qualquer contacto
com o mundo real, um esteio na classe política elitista Português no
Partido Social Democrata e Partido Socialista, gangorras de má gestão
política que têm assolado o país desde anos 80.

O objectivo? Para reduzir o défice. Por quê?
Porque a União Europeia assim o diz. Mas é só a UE?
Não, não é. O maravilhoso sistema em que a União Europeia deixou-se a
ser sugado é aquele em que a agências de Ratings, Fitch, Moody's e
Standard and Poor's, baseadas nos estados unidos da América (onde
havia de ser?) virtual fisicamente controlam as políticas fiscais,
económicas e sociais dos Estados-Membros da União Europeia através da
atribuição das notações de crédito.

Com amigos como estes organismos, e Bruxelas, quem precisa de
inimigos? Sejamos honestos. A União Europeia é o resultado de um pacto
forjado por uma França tremente e com medo, apavorada com a Alemanha
depois que suas tropas invadiram seu território três vezes em setenta
anos, tomando Paris com facilidade, não só uma vez mas duas vezes, e
por uma astuta Alemanha ansiosa para se reinventar após os anos de
pesadelo de Hitler. França tem a agricultura, a Alemanha ficou com os
mercados para sua indústria.

E Portugal? Olhem para as marcas de automóveis novos conduzidos por
motoristas particulares para transportar exércitos de "assessores"
(estes parecem ser imunes a cortes de gastos) e adivinhem de qual país
eles vêm? Não, eles não são Peugeot e Citroen ou Renault. Eles são
Mercedes e BMWs. Topo-de-gama, é claro.

Os sucessivos governos formados pelos dois principais partidos, PSD
(Partido Social Democrata, direita) e PS (Socialista, de centro), têm
sistematicamente jogado os interesses de Portugal e dos portugueses
pelo esgoto abaixo, destruindo sua agricultura (agricultores
portugueses são pagos para não produzir) e sua indústria (desapareceu)
e sua pesca (arrastões espanhóis em águas lusas), a troco de quê?
O quê é que as contra-partidas renderam, a não ser a aniquilação total
de qualquer possibilidade de criar emprego e riqueza em uma base
sustentável?

Aníbal  Cavaco da Silva, agora presidente, mas primeiro-ministro durante
uma década, entre 1985 e 1995, anos em que estavam despejando bilhões
através das suas mãos a partir dos fundos estruturais e do
desenvolvimento da UE, é um excelente exemplo de um dos melhores
políticos de Portugal. Eleito fundamentalmente porque ele éconsiderado
"sério" e "honesto" (em terra de cegos, quem vê é rei), como se isso
fosse um motivo para eleger um líder (que só em Portugal, é) e como se
a maioria dos restantes políticos (PSD/PS) fossem um bando de
sanguessugas e parasitas inúteis (que são), ele é o pai do défice
público em Portugal e o campeão de gastos públicos.
 
A sua "política de betão" foi bem concebida, mas como sempre, mal
planeada, o resultado de uma inepta, descoordenada e, às vezes
inexistente localização no modelo governativo do departamento do
Ordenamento do Território, vergado, como habitualmente, a interesses
investidos que sugam o país e seu povo.
 
Uma grande parte dos fundos da UE foram canalizadas para a construção
de pontes e auto-estradas para abrir o país a Lisboa, facilitando o
transporte interno e fomentando a construção de parques industriais
nas cidades do interior para atrair a grande parte da população que
assentava no litoral.

O resultado concreto, foi que as pessoas agora tinham os meios para
fugirem do interior e chegar ao litoral ainda mais rápido. Os parques
industriais nunca ficaram repletos e as indústrias que foram criadas,
em muitos casos já fecharam.

Uma grande percentagem do dinheiro dos contribuintes da UE vaporizou
em empresas e esquemas fantasmas. Foram comprados Ferraris. Foram
encomendados Lamborghini. Maserati. Foram organizadas caçadas de
javali em Espanha. Foram remodeladas casas particulares. O Governo e
Aníbal Silva ficou a observar, no seu primeiro mandato, enquanto o
dinheiro foi desperdiçado. No seu segundo mandato, Aníbal Silva ficou
a observar os membros do seu governo a perderem o controle e a
participarem. Então, ele tentou desesperadamente distanciar-se do seu
próprio partido político. E ele é um dos melhores.

Depois de Aníbal Cavaco da Silva veio o bem-intencionado e humanitário,
António Guterres (PS), um excelente Alto Comissário para os Refugiados
e um candidato perfeito para Secretário-Geral da ONU, mas um buraco negro
em termos de (má) gestão financeira. Ele foi seguido pelo diplomata
excelente, mas abominável primeiro-ministro José Barroso (PSD) (agora
Presidente da Comissão da EU, "Eu vou ser primeiro-ministro, só que
não sei quando") que criou mais problemas com seu discurso do que ele
resolveu, passou a batata quente para Pedro Lopes (PSD), que não tinha
qualquer hipótese ou capacidade para governar e não viu a armadilha.
Resultando em dois mandatos de José Sócrates; um Ministro do Ambiente
competente, que até formou um bom governo de maioria e tentou
corajosamente corrigir erros anteriores. Mas foi rapidamente asfixiado
por interesses instalados.

Agora, as medidas de austeridade apresentadas por este
primeiro-ministro, são o resultado da sua própria inépcia para
enfrentar esses interesses, no período que antecedeu a última crise
mundial do capitalismo (aquela em que os líderes financeiros do mundo
foram buscar três triliões de dólares de um dia para o outro para
salvar uma mão cheia de banqueiros irresponsáveis, enquanto nada foi
produzido para pagar pensões dignas, programas de saúde ou projectos
de educação).

E, assim como seus antecessores, José Sócrates, agora com minoria,
demonstra falta de inteligência emocional, permitindo que os seus
ministros pratiquem e implementem políticas de laboratório, que
obviamente serão contra-producentes. Pravda.Ru entrevistou 100
funcionários, cujos salários vão ser reduzidos. Aqui estão os
resultados:

Eles vão cortar o meu salário em 5%, por isso vou trabalhar menos
(94%). Eles vão cortar o meu salário em 5%, por isso vou fazer o meu
melhor para me aposentar cedo, mudar de emprego ou abandonar o país
(5%) Concordo com o sacrifício (1%) Um por cento. Quanto ao aumento
dos impostos, a reacção imediata será que a economia encolhe ainda
mais enquanto as pessoas começam a fazer reduções simbólicas, que
multiplicado pela população de Portugal, 10 milhões, afectará a
criação de postos de trabalho, implicando a obrigatoriedade do Estado
a intervir e evidentemente enviará a economia para uma segunda (e no
caso de Portugal, contínua) recessão. Não é preciso ser cientista de
física quântica para perceber isso. O idiota e avançado mental que
sonhou com esses esquemas, tem resultados num pedaço de papel, onde
eles vão ficar. É verdade, as medidas são um sinal claro para as
agências de ratings que o Governo de Portugal está disposto a tomar
medidas fortes, mas à custa, como sempre, do povo português. Quanto ao
futuro, as pesquisas de opinião providenciam uma previsão de um
retorno para o PSD, enquanto os partidos de esquerda (Bloco de
Esquerda e Partido Comunista Português) não conseguem convencer o
eleitorado de suas ideias e propostas.

Só em Portugal, a classe elitista dos políticos PSD/PS seria capaz de
punir o povo por se atrever a ser independente. Essa classe, enviou os
interesses de Portugal no esgoto, pediu sacrifícios ao longo de décadas,
não produziu nada e continuou a massacrar o povo com mais castigos.
Esses traidores estão levando cada vez mais portugueses a questionarem
se deveriam ter sido assimilados há séculos, pela Espanha. Que
convidativo, o ditado português "Quem não está bem, que se mude".
Certo, bem longe de Portugal, como todos os que possam, estão fazendo.
Bons estudantes a jorrarem pelas fronteiras fora. Que comentário
lamentável para um país maravilhoso, um povo fantástico, e uma classe
política abominável.
 
 
Timothy Bancroft-Hinc

sábado, 9 de abril de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Espaços mal geridos

EM Macau somos mais de meio milhão e a quantidade de residentes permanentes e não permanentes cresce de dia para dia. Mesmo sem os incentivos de compra de casa para aquisição de residência permanente, a verdade é que, mensalmente, o número de pessoas autorizadas a permanecer no território tem vindo a aumentar.

Cresce o número de pessoas num espaço que não alarga a sua área desde há muitos anos. Mesmo com os anunciados aterros, temo que o problema se mantenha, visto que quem aqui vive não poderá ser transferido, de armas e bagagens, para as ilhas artificiais que por aí andam a ser construídas.

A agravar esta situação estão os milhões de turistas que nos visitam e inundam tudo quanto é rua, ruela, praça ou qualquer outro espaço disponível. Acreditem que se encontram turistas nos locais mais inesperados!

Sabemos que este problema é um mal que temos de suportar, visto a nossa Economia depender, estrategicamente, de quem debanda aos casinos de Macau para aqui deixar as patacas (melhor dizendo, os dólares de Hong Kong porque, incrivelmente, nos casinos de Macau não se aceitam patacas! Deve ser dos únicos locais do mundo com moeda local, em que o seu próprio dinheiro não é aceite...). O número de jogadores que se sentam nas mesas de jogo é quase proporcional ao número de turistas, pelo que, se queremos jogadores para manter a Economia do território, temos de receber visitantes num número ainda maior ao actual.

Quando falamos em mais de meio milhão de residentes, e dos milhares de turistas que diariamente se acotovelam nas ruas de Macau, falamos na necessidade de políticas de gestão dos espaços públicos, que façam frente a este problema.

Macau tem uma praça principal (o Largo do Senado), que rivaliza em popularidade com as Ruínas de São Paulo. Aliás, ambas estão incluídas nas rotas do Património Mundial e são pontos obrigatórios de passagem para quem passe por Macau. São muitos os turistas que aqui se deslocam, no intervalo entre a mesa do bacará e a máquina de caça-níqueis, apenas para «bater» umas fotografias, servindo a famosa calçada à portuguesa de tapete e o casario típico de pano de fundo.

Locais como o Largo do Senado, as Ruínas de São Paulo, o Largo do Pagode da Barra e outros similares não se coadunam com a sua utilização para outros fins, que não seja o de serem locais de visita para quem procura algo que não encontra em mais nenhum local da Ásia: a mistura de culturas, a miscigenação de raças, os costumes e a arquitectura, gerados por vários séculos de convívio.

A recorrente utilização do Largo do Senado, para tudo quanto é evento, começa a assumir dimensões preocupantes. Diariamente são ali realizadas manifestações, exposições e outras actividades que deveriam, há muito, ser direccionadas para outros locais.

Havendo, felizmente, o Direito da livre manifestação em Macau, devia ser o Governo o primeiro a dar o exemplo, deixando de organizar eventos na praça. Pois só assim terá hombridade moral para exigir que as iniciativas de cariz particular sejam canalizadas para outras zonas.

Não fica bem na fotografia de quem nos visita ver um grupo de idosos a gritar e a empenhar bandeiras, reivindicando qualquer direito que considerem estar a ser violado. Também não nos é favorável haver painéis e palcos para festas ou outras iniciativas patrocinadas por tudo quanto é departamento do Governo, ou ainda indivíduos vestidos com trajes tradicionais – mais apropriados para peças de ópera chinesa – a queixarem-se de uma qualquer entidade privada. Tenham paciência! Há regras para tudo, incluindo o direito de manifestação, desde que utilizado com bom senso.

Recentemente foi organizado um evento (salvo erro de promoção de locais turísticos da China continental), que só não decorreu mesmo em cima da passadeira da Avenida Almeida Ribeiro porque o Departamento de Trânsito da PSP não terá dado autorização e porque os organizadores nem devem ter conseguido contratar uma seguradora que se responsabilizasse pelos danos que daí poderiam advir!

À hora de almoço e ao final do dia realizou-se um espectáculo gratuito no local. Os peões tentavam entrar na praça, depois de atravessarem a passadeira, mas o local de passagem era tão exíguo que as pessoas atropelavam-se para chegar ao Largo do Senado. A juntar à «festa», dezenas de prestáveis promotores do evento distribuíam panfletos, posicionando-se de forma estratégica. Resultado: o cenário mais parecia o de uma cerca de ovelhas, daquelas que se usam para fazer os animais passar ordeiramente, uns atrás dos outros, para mais facilmente poderem ser contados.

Este cenário repete-se ao longo de todo o ano. No Leal Senado, são exposições, palcos e manifestações; no Largo do Pagode da Barra, são espectáculos de ópera que ocupam toda a zona livre; junto das Ruínas, são painéis promocionais que em nada abonam para o bom nome da terra, nem do que intencionalmente promovem e, ainda, vendedores de carnes secas e biscoitos que, se não tivermos cuidado, nos enfiam, literalmente, os seus produtos goela abaixo.

Com tudo isto, sai a perder Macau e a sua imagem, porque quem nos visita (já para não falar nos cidadãos que deveriam estar sempre no primeiro lugar das preocupações do Governo) não consegue entender a razão de vários departamentos estatais autorizarem tamanhos atentados ao bom senso.

Espero que, de uma vez por todas, alguém com dois dedos de testa decida meter cobro a estas situações e devolva, pelo menos estes três locais às suas finalidades originais.

As outras iniciativas podem, e devem, ser canalizadas para outras áreas.

domingo, 27 de março de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Ancoradouros para barcos privados

certos aspectos em que Macau está uns passos à frente de Hong Kong. Nos últimos anos, o nosso território tem dado alguns exemplos à região vizinha, embora ainda tenhamos muito que aprender com ela.

Com o desenvolvimento da sociedade, e sendo a RAEM um local primordialmente virado para o mar, é natural que quem aqui vive se sinta, cada vez mais, atraído pela água. Apesar de ser uma cidade ribeirinha, de tradições afincadamente enraizadas no espírito da faina, Macau não faz jus ao nome de ser o porto e porta de entrada na China que, em séculos passados, fez os portugueses aqui permanecerem.

Quem pretender fazer da ligação ao mar um modo de vida, ou um modo de passar momentos agradáveis, defronta-se com inúmeros obstáculos legais, burocráticos e outros de pura casmurrice de quem decide.

Colocando de lado o facto das embarcações serem, mais ou menos dispendiosas, a verdade é que, apesar de não ser impossível comprá-las, será quase impraticável mantê-las em Macau.

De acordo com a legislação (draconiana) vigente, quem pretender adquirir barco (seja ele a motor ou à vela) tem de o guardar na Marina do Lamau ou no Clube Naútico, em Coloane. Enquanto este só aceita embarcações de pequeno porte, por se tratar de doca seca, a primeira só aceita quem tiver uma conta bancária a rondar os milhões, visto que os pontões estão todos vendidos e as rendas custam mais do que algumas casas e a quota do clube outro tanto.

Olhando para Hong Kong, onde possuir um barco não é luxo, vemos que a realidade é bem diferente. Se for residente na antiga colónia britânica, ou tendo ali uma empresa registada, pode optar por requerer um local de ancoramento, – devidamente controlado pelas autoridades marítimas, – numa das zonas para tal autorizadas (há dezenas de locais por todo o território com espaço para milhares de fundeadouros), sendo o preço de pouco mais de dois mil e 600 dólares de Hong Kong (para um barco até 60 metros quadrados de área), podendo alcançar os 17 mil dólares, se se tratar de um barco maior.

Nas várias vezes que abordei os serviços competentes em Macau – porque, como muitos residentes com menos posses para pagar as verbas exorbitantes da Marina e do Clube Náutico, também tenho direito de usufruir de uma embarcação na terra onde vivo, trabalho e pago impostos – a resposta da Capitania dos Portos foi sempre a mesma, num tom ríspido e algumas vezes a rondar o arrogante. As escolhas são as que conhecemos, ou se paga a quem explora os locais existentes ou não se pode comprar barco. Esta situação deixa muitos dos potenciais interessados numa embarcação de recreio, ou mesmo em viver a bordo, sem qualquer hipótese de recurso.

No entanto, sabemos que há no Porto Interior locais para ancorar barcos de pesca, que ali ficam aquando de tufões, durante a época do defeso, no Ano Novo Chinês e em outras ocasiões. Sobre a hipótese de um particular ali também poder ter, com todas as condições, um local para a sua embarcação, a Capitania nada diz, deixando antever que tal não será possível, visto que não há qualquer tipo de regulamentação que o preveja.

Não será tempo de, em Macau, se olhar para estes pormenores? Há na RAEM, além do Porto Interior, outros locais que podem servir para ancorar as embarcações de recreio (nomeadamente em Hác Sá e em Cheoc Van, na zona do porto de águas profundas, ou ao lado do aeroporto perto da central térmica) e que deveriam ser geridos pela Capitania, para que quem estivesse interessado pudesse requerer um ancoradouro para a sua embarcação, sem ser obrigado a enveredar por clubes ou instituições de cariz particular que apenas visam o lucro.

Não querendo estar a levantar qualquer falso juízo, o facto de se mostrarem irredutíveis e pouco interessados em estudar a questão dá a entender que estão a defender os interesses de quem explora as únicas duas opções privadas, obrigando, indirectamente, os interessados a ter que pactuar com situações de completa exploração.

Um barco para recreio ou mesmo para se viver nele, numa localidade à beira mar como é Macau, não é um luxo. Para quem pense que é capricho de rico, basta ver que os barcos são mais baratos do que as casas e oferecem as mesmas condições de habitabilidade.

Em Hong Kong compram-se juncos chineses, completamente adaptados para uma vida a bordo, com tudo o que se possa imaginar a nível do equipamento que se encontra numa habitação, por menos de um milhão de dólares de Hong Kong.

Quanto aos preços de manutenção, acreditem que gasto mais por ano com a minha casa! Portanto, para quem vive em Macau e aqui compra um apartamento, não acredito que ter barco seja uma questão de luxo.

Depende, claro está, do ponto de vista. Eu, se me fosse proporcionado pelas autoridades competentes, ponderaria sinceramente entre viver na água ou num prédio cheio de vizinhos mal-educados.

NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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