Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Artigos no Registo

20 de Abril 2009
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Tempos difíceis para os migrantes

A liberalização que deu origem à abertura de mercados, de fronteiras e a um infindável fluxo de bens de consumo e serviços criou também inúmeras oportunidades de emprego nos países asiáticos. Trabalhadores migrantes, como nos anos sessenta havia em Portugal e ainda hoje se vêm por altura das colheitas de fruta e das vindimas principalmente, são uma constante nesta parte do mundo. A diferença aqui é que as distâncias percorridas são maiores, envolvendo muitas vezes vários países. Agora, face à crise que se instalou, muitos dos países emergentes que eram o destino de grande parte destes trabalhadores estão a fechar as portas para se protegerem dos efeitos nefastos dos problemas financeiros. Dois dos grandes “fornecedores”
de mão-de-obra barata nesta parte do mundo, as Filipinas e o Sri Lanka, têm milhões de cidadãos a trabalhar no estrangeiro que face aos problemas que os empregadores enfrentam poderão regressar a casa de um momento para o outro. Só nas Filipinas, até ao final de Janeiro deste ano, o departamento responsável pelo controlo dos trabalhadores migrantes (Department of Labor and Employment - DOLE) registou mais seis mil despedimentos entre os trabalhadores migrantes em diversos países asiáticos (Overseas Filipino Workers - OFW). Especialmente os que se encontravam
em Taiwan foram seriamente atingidos com a crise mundial. No entanto, de acordo com vários artigos publicados nesta zona do globo, os números oficiais, regra geral, são mais baixos do que os avançados pelas organizações não governamentais. ONGs que se dedicam ao apoio a estes trabalhadores, como a Hope Workers Center registou, só em Dezembro de 2008 mais de dois mil despedimentos em Taiwan, enquanto que o DOLE avançava com pouco mais de mil. Mas nem só Taiwan acolhe os OFW das Filipinas. Países como a Austrália, o reino do Brunei, a Coreia do Sul, Macau e os Emirados Árabes Unidos, assim como o Reino Unido na Europa, estão também seriamente afectados pelo arrefecimento da economia mundial, pelo que os postos de trabalho destes trabalhadores migrantes estarãotambém em perigo. Para estes casos não há estatísticas oficiais. Relativamente a Macau, só a título de exemplo, e apenas num empreendimento ligado ao Jogo, de uma só vez, foram despedidos mais de mil funcionários provenientes deste arquipélago asiático. Apesar de tudo, e sabendo-se que nesta zona do globo a crise tem afectados sectores como a indústria electrónica, o entretenimento, a construção e os serviços, os números ainda não são alarmantes de acordo com os especialistas. Relativamente ao mercado de mão-de-obra barata do Sri Lanka tem sido mais afectado nas áreas da construção, banca e financeiro. De acordo com dados publicados na imprensa e atribuídos ao departamento governamental que regista todos os cidadãos que trabalham fora do país (Sri Lanka Bureau of Foreign Employment) até Dezembro de 2008 tinham conhecimento de mais de vinte mil desempregados devido a despedimentos de empresas que enfrentavam problemas relacionados com a crise mundial. O Japão, um dos destinos principais dos trabalhadores do Sri Lanka desde meados do ano passado tem dificultado a atribuição de permissões de trabalho. Em Novembro do ano passado o governo japonês previa que cerca de 90 mil empregados migrantes iriam perder os seus postos de trabalho em seis meses (de Outubro a Março). Ao anunciar estes números Tóquio queria realmente dizer que as medidas que iria meter em prática eram para tentar salvaguardar os empregos dos seus cidadãos, em despesa dos trabalhadores migrantes. Enquanto que os países fornecedores de mão-de-obra barata reconhecem que estes despedimentos colectivos vão fazer engrossar a já extensa lista de desempregados no seus países, pouco ou nada podem fazer para o contrariar. No entanto, as Filipinas não ficam de braços cruzados, tendo já metido em prática um plano de contingência para ajudar estes OFWs que regressam de vários países depois de perderem o emprego. A primeira medida passa por ajuda-los a tentar encontrar trabalho noutro país ou, no caso de se revelar impossível, optam por os apoiar na criação de pequenos negócios nos seus locais de origem para que possam garantir a sua subsistência e a das suas famílias, ao mesmo tempo que contribuem para dinamizar a economia doméstica. Isto pode parecer irrisório e de pouca importância, mas até em Portugal recentemente se tem falado das remessas dos imigrantes. Só para que possamos ter uma ideia das remessas do OFWs nas Filipinas, em 2008, de acordo com o Banco Mundial, ascenderam ao equivalente a 18 mil milhões de Euros, cerca de dez por dento do Produto Interno Bruto de Portugal. Dá para perceber o peso destes trabalhadores nas economias dos seus países de origem e os problemas que os seus despedimentos podem causar. Em diversos países asiáticos o desemprego tem levado milhares de trabalhadores, sobretudo emigrantes, a protestar nas ruas.
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terça-feira, 7 de abril de 2009

Como a China olha para os EUA

A China e os Estado Unidos vão estar em foco no meu próximo artigo do Registo. A crise económica mundial e as alterações que pode gerar na estrutura financeira e na forma de funcionamento do FMI.
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De forma muito clara os chineses afirmam que os americanos não podem recorrer, sistematicamente, à impressão de mais moeda para equilibrar a balança monetária forçando os outros países a acumular dólares.
Apesar da América ainda ser a maior e mais forte economia, mas já não está sozinha defendem os chineses dizendo também que as regras devem ser universais e iguais para todos.
Por outro lado, o papel do dólar como unidade de transacção de bens a nível mundial, como por exemplo o petróleo, já não pode servir para os Estados Unidos se protegerem das flutuações do valor da sua moeda no mercado mundial.
Com o DSR como unidade contabilística, as flutuações do dólar irão afectar o preço que os americanos terão de pagar por esses bens, como qualquer outro país do mundo. Pela primeira vez em cinco décadas os Estados Unidos poderão ter de contar com as flutuações da sua moeda nas trocas comerciais com outros países.
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sexta-feira, 27 de março de 2009

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14 de Julho de 2008
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Potência militar japonesa

Uma das imposições dos Aliados quando ganharam a Segunda Guerra Mundial foi a não militarização do Japão, que então tinha saído derrotado no Pacífico. No entanto, a pouco e pouco, o Governo japonês tem vindo a alterar este status quo na sua Constituição. Com a conivência dos países vizinhos e grandes potências mundiais como o Estados Unidos, o Governo do país do sol nascente tem introduzido alterações que permitem a existência de um exército, a participação em missões humanitárias armadas, através das Nações Unidas, e mais recentemente, a militarização do espaço. A Lei que permite este uso do espaço aéreo japonês para fins militares foi aprovada em Maio pelo parlamento de Tóquio. Se por um lado isto são boas notícias, porque vai permitir uma maior cooperação internacional a nível de defesa e desenvolvimento do escudo de mísseis que os Estados Unidos querem instalar, por outro faz o Governo japonês confrontarse com escolhas difíceis no que diz respeito à sua estratégia política. A verdade é que, vivendo o Japão numa zona do Globo que é conhecida, especialmente, pela instabilidade da península coreana, a corrida à segurança nuclear é uma das estratégias defendidas por muitos dos especialistas em defesa. No entanto, e para manter o equilíbrio e a estabilidade da região, estes especialistas ocidentais e orientais defendem que tal nuclearização continue a ser feita sob a esfera de influência da aliança americana. Em detrimento de um plano solitário, que pode vir a levantar suspeitas e medos antigos dos vizinhos asiáticos, nomeadamente de potências nucleares como a Coreia do Norte e da China, que viveram experiências traumatizantes sob a influência japonesa na década de trinta e quarenta do século passado. Feridas que ainda hoje estão por sarar e que, de tempos a tempos, vão causando incidentes diplomáticos bem conhecidos de todos nós. Para já, oficialmente, o Japão não tem armas nucleares. No entanto, há quem acredite que já as possua com o apoio dos Estados Unidos. De uma forma ou de outra, armamento nuclear está disponível em território japonês, seja sob tropas japonesas ou americanas. Como é do conhecimento público, o Japão alberga dos maiores contingentes militares americanos no exterior, contingente esse que Tóquio debate estratégias de defesa. Para alguns, o recursos à tecnologia nuclear é encarado como uma forma de manter a estabilidade na região. Vivendo o Japão numa zona do Globo que é conhecida, especialmente, pela instabilidade da península coreana, a corrida à segurança nuclear é uma das estratégias defendidas por muitos dos especialistas em defesa militar japonesa inclui vários porta-aviões, submarinos e outras embarcações armadas de tecnologia nuclear. O dilema asiático A aprovação da nova Lei foi apoiada tanto pela coligação no poder como pela oposição vai permitir ao Japão utilizar a sua rede de satélites, que é das mais avançadas do mundo, para vigilância militar. Permitindo ainda que possa ser usada como sistema de aviso e como parte integrante do sistema de defesa de mísseis balísticos que está a ser construído pelos Estados Unidos. Este sistema de defesa no Japão está direccionado para a Coreia do Norte que, em 1998, testou um míssil que sobrevoou território japonês e, em 2006, testou uma arma nuclear. No entanto, as autoridades japonesas estão também preocupadas com a grande potência asiática, a China, e o seu programa espacial. As crescentes capacidades militares chinesas ficaram bem patentes quando em 2007 destruíram um dos seus satélites com um míssil. A possível interligação entre o sistema americano e japonês parece estar ainda longe de ser conseguido, muito pela indecisão japonesa. Por um lado, Tóquio quer um escudo que os proteja dos hipotéticos ataques nucleares da Coreia do Norte ou da China e sabem que não têm a capacidade técnica ou financeira para o elaborarem. Por outro lado, sabem que serem parte da engrenagem militar dos Estados Unidos os metem numa posição bastante delicada, fazendo com que os inimigos dos americanos se tornem também seus inimigos. Com os recentes rumores de incursões militares americanas em solo iraniano, os japoneses têm muito que ponderar antes de tomarem uma decisão tão importante como é a de se aliarem aos Estados Unidos na questão do escudo anti míssil. Desde a Guerra Fria que o Japão não se via numa posição tão delicada. Nos períodos mais decisivos da Guerra Fria o território nipónico servia de base estratégica aos Estados Unidos no confronto com os soviéticos, pelo que lhes era fácil rejeitarem as exigências de maior participação no combate global por parte dos americanos sem recearem perderem o apoio essencial de Washington. Agora, com o fim da Guerra Fria, e com os conflitos de interesse centrados noutras áreas do globo, a posição estratégica dos japoneses desvaneceu-se, desaparecendo também grande parte do seu poder negocial perante os americanos. Por outro lado a aproximação dos Estados Unidos e da China, principalmente a nível económico, está a tornar-se cada vez mais um trunfo contra os japoneses, visto que a América já não depende exclusivamente do mercado japonês na Ásia. Perante este cenário, a crescente ameaça nuclear da Coreia do Norte e o poderio económico/militar chinês, ao Japão só lhes resta apostar num cada vez maior envolvimento militar e estratégico com os americanos. Envolvimento esse que já viu alguns desenvolvimentos, quer seja com o apoio ao reabastecimento da frota americana do Índico ou o envio de tropas em ajuda humanitária para o Iraque em 2004. Actualmente, o maior envolvimento da parte japonesa vem do apoio na ponte aérea de transporte de forças americanas para o Iraque. A nova legislação está de acordo com os requisitos americanos no campo da cooperação da defesa antimíssil pelo que, apesar de não dar muitas garantias face aos chineses ou norte-coreanos, assegura, de certa forma, a defesa do país e das forças americanas aí estacionadas.
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7 de Julho de 2008
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Sabores portugueses em Pequim

O nome nuvem, porventura, não dirá muito mais do que a possibilidade de chuva ou tempo taciturno para a maioria de nós, no entanto, Nuvem, para os que falam português ou que conseguem ler as letras ocidentais em Pequim, a capital da China, desde os finais do mês de Junho, passou a ser significado de restaurante de comida
portuguesa. O primeiro na cidade que vai acolher os Jogos Olímpicos no mês que vem, e dos poucos restaurantes de comida genuinamente portuguesa existentes na China continental. À frente dos destinos da cozinha está um chefe português que já passou por Macau, Tailândia e outros locais no sudoeste asiático. A sua última paragem foi no antigo território português, onde esteve a trabalhar durante algum tempo num empreendimento turístico propriedade de portugueses. Este novo restaurante em Pequim é uma aposta, na ordem das centenas de milhar de euros, feita por um empresário de Macau e outro de Pequim. Instalado na zona antiga da capital chinesa, na zona dos “hutongs”, bairros chineses que datam da Era dos primeiros imperadores chineses há milhares de anos, ocupa um edifício de madeira de cinco andares e com capacidade para centenas de pessoas. Actualmente só duas das salas estão operacionais mas, segundo nos confirmou o gerente e chefe de cozinha do Nuvem, Ricardo Eugénio, estará totalmente a funcionar antes do início dos Jogos Olímpicos no mês de Agosto. Várias vertentes À entrada encontramos um “hall” com uma garrafeira de vinhos portugueses, onde marcam presença todas as marcas mais conhecidas, uns passos mais à frente a primeira sala de jantar e a entrada para as cozinhas. No piso inferior está a ser instalada uma cave e, em breve, também uma pequena zona de bar “lounge”. Subindo as escadas de madeira ao primeiro andar encontramos outra sala ampla e com pequenas divisões onde serão instaladas mesas junto às janelas para que durante a refeição possam apreciar a magnífica vista para esta zona antiga da cidade de Pequim. Esta sala e a do rés-do-chão terão uma capacidade de 240 pessoas sentadas. No segundo andar está a ser criada mais uma sala de jantar ampla que poderá ser também usada para actividades culturais e onde irá também ser instalado um churrasco de sabores portugueses. O terceiro andar é constituído por um amplo terraço que, especialmente durante o tempo quente, servirá como zona de jantar e zona para saborear uma bebida antes ou depois da refeição, ou simplesmente para descansar enquanto olha em redor e ver os telhados desta zona antiga.

Boa receptividade
O Nuvem está aberto há pouco mais de uma semana e, segundo o seu cozinheiro e gerente, está a ser bem aceite pela população de Pequim, nomeadamente os locais e os residentes estrangeiros que ali vivem há já algum tempo e que gostam de comer comida ocidental. Segundo o gerente português os planos iniciais são para, nos primeiros seis meses, meter toda a máquina a trabalhar e a servir genuína comida de Portugal. Os produtos, bacalhau, azeite, etc, são importados de Macau mas existem planos para os importar directamente de Portugal. Para o efeito o próprio gerente está a planear uma vinda a Portugal para contactos e procurar fornecedores que possam garantir a qualidade dos produtos e a fiabilidade dos fornecimentos. Um dos grandes problemas, segundo o gerente, é a falta de uma estrutura de importadores de produtos portugueses e a falta de uma estrutura de exportadores em Portugal especializados e vocacionados para o mercado asiático. Do menu fazem parte o tradicional caldo verde, bacalhau com natas e o bacalhau à lagareiro, arroz de pato, presuntos de carne de porco preto e chouriço, assim como uma extensa lista de vinhos brancos, tintos e rosés. Com o objectivo de ter casa cheia todos os dias em mente, o gerente do restaurante, Ricardo Eugénio, mostra-se orgulhoso do trabalho feito até agora e é peremptório a
afirmar que não se trata de um restaurante para turistas. Animação cultural Com uma vista privilegiada para o lago de Houhai, já na zona dos antigos bairros, os “hutongs”, e ruas comerciais pejadas de lojas, bares e casas de chá, o restaurante português é um símbolo perfeito da mistura entre o antigo e o moderno. De acordo com o gerente, entre os chineses, o prato mais requisitado á a sapateira e o bacalhau, nomeadamente o bacalhau à lagareiro, um dos pratos mais emblemáticos do Nuvem. Para breve estão a ser preparados alguns espectáculos culturais, especialmente com grupos folclóricos vindos de Macau. No entanto, segundo Ricardo Eugénio, estão a ser desenvolvidos esforços e contactos para que possam vir cantores, nomeadamente de fado, directamente de Portugal para actuarem durante algum tempo na capital chinesa completando assim os sabores portugueses com sonoridades também do nosso país. Pois só assim se pode dar uma experiência completa da cultura portuguesa. Para tal contam com o apoio incondicional da nossa Embaixada na capital chinesa, segundo nos afirmou o gerente do restaurante. Apesar de ainda não haver nada confirmado, é certo que o restaurante irá apostas em animação cultural portuguesa.
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30 de Junho de 2008

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O destino das monarquias asiáticas

Um dos factores mais importantes para qualquer monarquia, e mesmo qualquer democracia, é o nível económico do país. No caso do Nepal e do Butão, são duas economias fracas, com rendimentos per capita abaixo dos 1500 dólares americanos. O fim da dinastia Shab do Nepal, uma dinastia que contava já 239 anos, e a sua substituição por uma democracia é um momento histórico para o Sudoeste asiático. Um momento em que se vê o fim de uma Era que há muito desapareceu noutras zonas do globo e que nesta área teimosamente se mantém. O dramatismo que levou à queda do Rei Gyanendra da liderança dos destinos do Nepal foi tal que o monarca do reino vizinho, o Butão, decidiu dar por fim o seu reino absoluto e marcou eleições livres. Acto que se realizou em Março deste ano, pela primeira vez neste reino feudal. O resultado do poder do povo e dos militantes maoístas no Nepal, que ajudaram à queda do Rei Gyanendra, foram um factor importante na decisão do jovem Rei do Butão. Tentar evitar os erros dos seus pares foi desde sempre uma das tendências dos monarcas. Ao longo dos tempos os reis sempre tiveram tendência para olhar para os outros monarcas no mundo e aprender com os seus erros e as suas experiências. Os contactos entre os monarcas são constantes e estes mantêm uma consciência de classe que os leva a tentar evitar os erros que os outros cometem. No caso do Butão, e do Rei Jigme Namgyel Wangchuck, um processo de democratização bem pensado e planeado ao mais ínfimo pormenor pela casa real, resultou numas eleições onde os dois partidos mais votados são manifestamente monarcas. Esta estratégia resultou num processo de tornar o país numa Monarquia Parlamentar sem que a população tivesse necessidade de vir para as ruas exigir mais liberdade e representatividade. Pelo contrário, no Nepal, o Rei optou por uma postura rígida e os resultados foram os conhecidos, com o monarca a ser deposto, perdendo todas as regalias que tinha e todo o poder. Agora, com o Nepal uma República e o Butão uma Monarquia Constitucional, a Ásia passa a ter apenas uma mão-cheia de países onde a monarquia dita as regras do poder. Tirando as casas reais do Médio-Oriente (Jordânia, Arábia Saudita, Kuwait, Bahrain, Qatar e Omã) na Ásia existem apenas dois países onde os Reis, de forma mais visível ou mais dissimulada, vão regendo os destinos dos seus países. A Tailândia e o Brunei. As restantes monarquias, Camboja, Malásia e Japão, não são mais do que meras figuras emblemáticas, algumas delas nem consenso nacional conseguem gerar. Agora, resta saber quais vão ser os efeitos dos acontecimentos do Nepal e do Butão no sultanato do Brunei e no antigo reino do Sião. Será que o tão amado Rei Bhumibol Adulyadej da Tailândia irá acabar por ter um fim humilhante como o do Rei Gyanendra? Será que o Sultão do Brunei irá enveredar por uma estratégia similar à do Rei do Butão, abrindo mão do poder que detém? Um dos factores mais importantes para qualquer monarquia, e mesmo qualquer democracia, é o nível económico do país. No caso do Nepal e do Butão, são duas economias fracas, com rendimentos per capita abaixo dos 1500 dólares americanos. Baixos rendimentos e grandes diferenças na sociedade são elementos essenciais para o florescer de ideologias de esquerda radicais e, neste caso, o Nepal é um exemplo perfeito. No caso do Brunei e da Tailândia, os altos rendimentos per capita, 33 mil e os oito mil dólares americanos respectivamente, fazem com que as ideologias de esquerda radicais tenham algumas dificuldades em se implementar e dão origem a classes médias e altas com muita influência na vida social e política do país. Os monarcas sabem disso e usam a prosperidade económica a seu favor, fazendo com que, não poucas vezes, os seus súbditos os vejam como os responsáveis pelo bom desempenho económico do país. Outro importante requisito para que os monarcas continuem a ser populares e contem com a aceitação geral é terem capacidade de convencer aliados estrangeiros poderosos da necessidade de se manterem no trono para a estabilidade dos respectivos países. Se o soberano tiver apoio de uma grande potência, que tenha interesses na sua região de influência, tem garantido o apoio necessário no caso de instabilidade interna. O maior erro do ex-Rei do Nepal foi ter afrontado a Índia, seu vizinho e uma potência emergente na Ásia, quando se manifestou mais próximo da China, outra grande potência asiática e rival da Índia. Desde sempre que Nova Deli olhava para o Nepal e prestava-se a ajudar a dinastia Shah no caso de necessidade. A partir do momento em que Gyanendra manifestou o seu apreço pela China, o charme de que gozava na capital indiana deixou de existir, favorecendo assim o florescer da oposição, que até então era controlada com o apoio indiano. O monarca tailandês, Bhumibol Adulyadej, ficou conhecido por ser um exímio diplomata durante a crise da Segunda Guerra Mundial, tecendo alianças com os países da ASEAN e com os Estados Unidos da América. Quanto ao sultão do Brunei, tem conseguido convencer o Reino Unido e os países da ASEAN da importância estratégica e económica do seu país para a estabilidade do Sudeste Asiático. Estas estratégias garantem mais estabilidade aos reinados destes dois monarcas. Para já o futuro para estas duas últimas monarquias da Ásia não parece estar ameaçado com os acontecimentos, seja dos negativos do Nepal, seja dos positivos do Butão. No entanto, podemos esperar mudanças no campo da democracia em ambos."

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16 de Junho de 2008
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A lesa-majestade e a política tailandesa


Militares imiscuídos no sistema político não é nada de estranho, ou de novo, na monarquia constitucional tailandesa. Aos olhos ocidentais isto pode parecer um assunto a evitar, no entanto, a convivência do sistema democrático com os militares
sempre foi uma realidade na Tailândia. Basta olhar para trás na história para ver que os homens de farda verde sempre estiveram muito perto dos corredores do poder em Banguecoque, quando não poucas vezes, mesmo nas rédeas desse poder com a bênção da própria monarquia. Nas passadas semanas, e com mais incidência nos últimos dias, circulam rumores de mais um golpe de estado. Os tailandeses, que se orgulham em serem um povo democrático, mas ao mesmo tempo não têm qualquer pudor em especular acerca de uma tomada do poder por vias violentas, ou não democráticas, como são os golpes de estado. Aliás, a situação tem acontecido tão frequentemente que muitos, mesmo do meio político, a vêm como algo natural e nada de excepcional para restaurar a ordem. Os últimos tempos têm sido prósperos em acontecimentos que têm alimentado as linhas de pensamento de vários articulistas tailandeses que, criativamente, vão surgindo com vários cenários para a crise. No entanto, todos acabam com o mesmo final, os tanques na rua para tomar o Palácio do Governo. Possivelmente ainda com a memória fresca do golpe de estado de 2006, que depôs o antigo Primeiro-Ministro Thaksin Shinawatra, acreditam que o golpe de estado e mudança de poder possa acontecer sem que se derrame sangue ou mesmo sem que um tanque saia à rua. Na realidade, basta olhar para os mais recentes acontecimentos para
reparar-mos que os militares têm já exercido uma grande influência mesmo sem terem que retirar o Primeiro-Ministro, Samak Sundaravej, da cadeira do poder. Toda a controvérsia em volta da polémica das declarações do ministro Jakrapob Penkair, que numa intervenção perante jornalistas estrangeiros fez declarações consideradas “crime de lesa-majestade”, ilustram perfeitamente o poder que os militares têm e as suas manobras de bastidores para fazerem prevalecer os seus próprios interesses. O ministro Jakrapob fez as declarações da controvérsia já em Agosto do ano passado, tendo, entretanto, um membro das autoridades policiais apresentado queixa acusando-o de insultar a monarquia (o que na Tailândia é “crime de lesamajestade”). Desde então o Governo tem mantido o assunto em segredo, até que a oposição começou a pressionar para que se resolvesse. O próprio ministro só começou a mostrar sinais de inquietação depois dos militares entrarem em cena no início de Maio, tendo ir procurar ajuda em dois ex-primeiros-ministros, Chavalit e Thaksin, tendo regressado de mãos vazias. Do último Primeiro-Ministro ouviu conselhos de reflexão, tendo ficado no ar a ideia de que se devia demitir. Algo que os militares pediram no passado dia 20 de Maio depois de uma reunião das mais altas patentes, e cujo resultado foi transmitido ao primeiro-ministro Samak, pelo Chefe do Exército, General Anupon Paochinda. A sugestão dos militares foi seguida à risca, tendo primeiro-ministro removido o ministro da comitiva que estava de saída para uma visita às Filipinas. Dez dias depois do início das manobras de bastidores dos militares, o ministro anunciou a sua demissão. Esta demissão forçada abriu um precedente no governo, tendo sido ele próprio que deu origem a esse mesmo precedente, quando decidiu tentar encobrir por tanto tempo a polémica envolvendo um seu ministro. Foi este acto que trouxe os militares a terreiro. Samak não é conhecido como bom político, nem sequer é bem visto por grande parte da população, no entanto, o seu aspecto bondoso e a sua forma de falar simplória, a par da sua capacidade para convencer e as suas capacidades comunicativas, têm sido armas poderosas que tem usado para balancear contactos com o mundo militar e civil. Aliás, uma das suas primeiras observações depois de subir ao poder foi de que, se os militares não interferirem no seu mandato, os deixará gerir os seus “negócios”, ressalvando que estes não se envolvam directamente em assuntos políticos. É sabido que nenhum governo pode sobreviver na Tailândia sem ter o apoio dos militares e, nos últimos anos, de uma forma ou de outra, todos eles contaram com o apoio dos homens das armas. No entanto, e para que esse namoro de interesses não acabe por ser um entrave à boa governação, é necessária muita habilidade política e apoio democrático. Algo que, aparentemente, falta a este executivo que vai manobrando nas águas agitadas da política tailandesa. A juntar a esta polémica estão as manifestações que há várias semanas têm vindo a ser feitas na capital. Supostamente apoiadas pela oposição mas sem objectivo específico, se bem que a oposição fala que estão a protestar pela decisão do Governo em alterar a Constituição. Alterações que, segundo a oposição, só irão servir para proteger algumas pessoas que estão a enfrentar acusações na justiça. Entenda-se, o antigo Primeiro-Ministro, Thaksin Shinawatra, que regressou ao país logo após os militares (que o depuseram) terem deixado o poder.
Sabendo da pouca fundamentação das manifestações, agora viram-se para o pedido de demissão do Governo, baseado no facto da economia não estar a recuperar como esperariam quatro meses depois do executivo ter tomado posse. A tensão, por motivos políticos e económicos está a escalar de tal forma que até já os jornais fazem apelos ao bom senso dos políticos e das autoridades envolvidas. “Se a sociedade não quer cair na armadilha da violência deve tentar encontrar uma solução”, lia-se à dias no Khao Sod, um dos jornais de língua tailandesa de maior circulação, enquanto que no Thai Rath se apelava a que ambas as partes fizessem ouvir os seus pontos de vista de forma ordeira, defendendo que “a democracia deve ser alcançada de forma pacífica”. Num ponto todos concordam, os manifestantes têm o direito de fazerem ouvir os seus protestos, enquanto que às autoridades cabe a missão de manter a ordem pública. É neste sensível cenário que se vive a actual política da Tailândia, sem que sua Majestade, o Rei Bhumibol Adulyadej, se tenha ainda sequer pronunciado.
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9 de Junho de 2008
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Os novos desafios de Portugal no Sudoeste asiático

O Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas será assinalado na Tailândia com uma recepção do embaixador Português em Banguecoque a representantes de todos os quadrantes sociais do antigo Reino do Sião, no hotel
Shangri-La, perto da zona onde se localiza a embaixada junto ao rio Chaopraya. Igualmente convidada está toda a comunidade portuguesa e famílias luso-descendentes (em especial das antigas “paróquias” portuguesas de Santa Cruz, Rosário e Conceição).
As nossas relações com a Tailândia remontam há quase 500 anos. Sendo os portugueses os primeiros ocidentais a manterem uma base permanente nesta parte do mundo, da qual ainda hoje restam indícios e que estão agora a ser recuperados.
Brevemente irá ter início a segunda fase do projecto de recuperação do património português da antiga capital do reino do Sião, Ayuthaya. Segundo adianta o embaixador Faria e Maya, em entrevista exclusiva ao REGISTO, em paralelo à recepção será exibido, em ecrã gigante, “uma montagem de video-clips sobre Portugal” e uma exposição de fotografias e cartazes de promoção turística e cultural. A todos os presentes serão distribuídos folhetos de informação sobre a realidade portuguesa no sector das exportações e das novas tecnologias, iniciativas que vão contar com apoio do recentemente aberto Centro de Negócios da AICEP em Singapura. Ainda segundo embaixador, e em data ainda a confirmar, “mas enquadrada também nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, está prevista a abertura de uma exposição sobre a mensagem universalista da vida e obra do Padre António Vieira, no ano em que se celebra o 4º centenário do seu nascimento, promovida pela Embaixada e pelo Centro Cultural Português do Instituto Camões e cujo acervo será oportunamente também exibido pelo Leitorado Português na Universidade de Kuala Lumpur (Malásia)”.“A integração deste evento no período das comemorações do Dia de Portugal depende, porém, do respectivo material ser aqui recebido com a necessária antecedência”, acrescenta. Os aspectos económicos A Tailândia está atenta ao que se vai fazendo em Portugal e está ciente dos avanços tecnológicos que se registam no nosso país, tanto no campo da Biotecnologia, como das Ciências da Comunicação ou da Biologia Marinha, só para referir alguns. Para tal, e no âmbito das boas relações e da cooperação entre os dois Estados, entende-se que devem ser criadas as condições ideais para que os agentes destes campos possam desenvolver os seus contactos. Sendo Portugal e a Tailândia dois países com Governos democráticos, não lhes cabe obrigar os agentes económicos a desenvolverem contactos. Têm, sim, a obrigação de criarem as condições para que essa cooperação aconteça e é isso que tem estado a ser feito, segundo explicou o embaixador. Quando confrontado com a falta de ligações directas entre Portugal e o Sudeste Asiático, algo que será essencial para que a cooperação económica seja uma realidade, Faria e Maya fez questão de relembrar que o Acordo de Transportes Aéreos entre Portugal e a Tailândia, assim como o Acordo Comercial entre a TAP e a Thai Airways continuam em vigor. Contudo, os Governos apenas criam as condições ideais para que a cooperação possa existir, devendo o passo seguinte ser dado pelas instituições envolvidas. O embaixador faz questão de referir que, mesmo sem que o acordo aéreo esteja a ser utilizado, o volume de turistas de Portugal para a Tailândia tem vindo a aumentar incessantemente nos últimos anos. No entanto, a cooperação entre os dois países é, e deve ser, mais do que económica. Para lá das questões políticas e económicas, a nossa participação e afirmação cultural passa também por trazer à Tailândia testemunhos da nossa cultura contemporânea, como a música ou o cinema e teatro, referiu o embaixador. No último Festival de Dança e Música de Banguecoque esteve a Marisa, que deixou recordações tão agradáveis em quem a viu e ouviu que se tudo correr como planeado, deve voltar aqui a actuar em breve. Mas nem só de fado vive a cultura portuguesa. Em Banguecoque esteve também a Companhia Nacional de Bailado, com o Lago dos Cisnes. A par disto, estão a decorrer negociações para que a vinda da Ópera Nacional de São Carlos seja uma realidade no decorrer deste ano. Também para este ano estão a ser desenvolvidos esforços no sentido de fazer algo de original: uma composição musical, da autoria de um membro de uma família portuguesa originária de Macau, os Siqueira, - os quais, pelo facto de alguns dos seus membros terem ocupado altos cargos no Governo tailandês, são muito próximos da família real, - deverá ser editada em «cd». Um dos membros dessa família decidiu, sendo músico, escrever uma cantata para orquestra baseada nos Lusíadas. A partitura dessa cantata foi a prenda de Portugal ao Rei Bhumidol nas comemorações dos 60 anos do seu reinado. Parte dessa peça musical fora apresentada a 10 de Junho de 2007, tendo sido interpretada por uma orquestra e
um coro tailandês.
O Embaixador Faria e Maya, representa Portugal na Tailândia, Birmânia, Vietname, Singapura, Laos, Cambodja e Malásia. Em Banguecoque recebeu o REGISTO para uma entrevista EXCLUSIVA, na qual aponta o caminho para a cooperação portuguesa.

A situação da Birmânia
Apesar de ainda não ter apresentado credenciais em Rangoom, capital da Birmânia, a Embaixada portuguesa ”fez o acompanhamento diário, informando o Ministério dos Negócios Estrangeiros das sequelas da tragédia que se abateu sobre uma grande parte da população daquele país, em especial na região do Delta do Irrawaddy, com a passagem do Ciclone Nargis, que terá causado cerca de 150 mil vítimas mortais, para
além dos desalojados e sem abrigo, da escassez alimentar (acentuado défice nas reservas de arroz), da destruição de culturas de subsistência, do desemprego e do risco iminente da eclosão de doenças epidémicas”. Estes factores levam as Nações Unidas e outras organizações a temerem que mais de um milhão e meio de pessoas possam estar em risco. Paralelamente, de acordo com Faria e Maya, a Embaixada procedeu a
constantes averiguações a possibilidade de eventuais turistas ou outros viajantes portugueses se encontrarem em território birmanês na ocasião. Felizmente “não se tendo apurado qualquer situação que reclamasse a nossa protecção ou cuidado”. Relativamente ao único agregado familiar português residente na Birmânia, e registado junto da Embaixada em Banguecoque, um casal luso-birmanês e três crianças menores, ”encontravam-se em segurança e de boa saúde em Rangoon, apesar dos problemas iniciais de abastecimento de água potável e cortes de energia eléctrica”.
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Artigos no Registo

Como se sabe colaboro semanalmente com um jornal local, O Clarim. No entanto, não sendo numa base periódica fixa, colaboro também com um jornal diário de Portugal, o Registo.
À semelhança do que faço com os artigos publicados em Macau, vou passar a disponibilizar aqui os textos publicados em Portugal na secção Artigos no Registo.
Para já vou disponibilizar os artigos publicados no ano passado e que abordam questões asiáticas.

2 de Junho de 2008
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Nepal: O rei perdeu o trono

Parece um título de romance de cordel mas não é. É a triste história da vida de um país mais conhecido pela sua proximidade com a Índia e por ser o “lar” de milhares de tibetanos no exílio, do que pela sua própria existência. No entanto, em 2001 este país encalhado nos Himalaias, viveu um dos seus mais trágicos incidentes quando parte da família real foi assassinada dentro do palácio, alegadamente, pelo próprio príncipe herdeiro. Algo que nunca fora esclarecido porque, após o massacre o príncipe, segundo se lê no relatório oficial, cometeu suicídio. A explicação oficial deste regicídio fora de que o príncipe herdeiro queria casar com uma pessoa, pela qual estava apaixonado, mas essa relação não recebeu a bênção da família real. A história recente do Nepal podese dizer que começou em 2001. Após o massacre, e após alguns anos de altos e baixos a nível político e social, o monarca no trono de uma monarquia parlamentar decidiu, o Rei Gyanendra, decidiu fazer um “golpe de estado real”, tomando todo o poder em mãos. Isto, como já se esperava, fez exasperar os sentimentos dos partidos da oposição. Até aí distanciados por ideologias e outras diferenças, viram nesta acção do monarca uma força convergente que lhes deu motivos de unirem forças e lutarem por uma causa comum. Após vários anos de revoltas, manifestações, negociações, promessas não cumpridas, entre outros incidentes, no dia 10 de Abril deste ano realizaram-se as tão prometidas eleições livres. Os resultados foram conhecidos quase um mês depois, a 8 de Maio e, como se esperava, os resultados não surpreenderam, uma maioria para os partidos de ideologia maoísta. O Nepal celebra agora uma “nova era” como a mais nova República no mundo, depois da nova Assembleia Constituinte ter dissolvido a monarquia que reinava há mais de um século. Juntamente com esta dissolução veio uma ordem, vexatória para quem já tinha sido considerado como o “rei-deus”, de despejo do Palácio Real no prazo de duas semanas. Num passo sem precedentes na história deste povo, que até há bem poucos anos adorava os seus monarcas ao ponto de os ver como a reincarnação de Vishnu, o Deus Hindu da Protecção, a nova Assembleia Constituinte resolveu acabar com a dinastia Sha, que já reinava no Nepal há 240 anos, sendo a última monarquia hindu ainda existente. Este passo marca a vitória dos maoístas, que lutavam há mais de uma década para depor o poder que viam como retrógrada e estratificado, estritamente ligado ao sistema de castas e que manteve a maior parte dos 29 milhões de nepaleses no limiar da pobreza. As primeiras palavras dos líderes maoístas, após a vitória, foram de que “o povo tinha sido libertado de séculos de tradições feudais e que novas portas se abriam para mudanças sociais radicais e desenvolvimento económico. O ex-rei Gyanendra nunca fora um Rei democrático, era pelo contrário um “one man-show” como o acusavam aqueles que
sempre se lhe opuseram. A sua postura autoritária e arrogante foi um dos aspectos mais importantes no processo de desacreditação da autoridade e respeito que a família
real tinha no seio da população nepalesa. A posição que Gyanendra assumiu em 2005, ao assumir todo o poder, acabou em 2006 mas só depois de 13 mil pessoas terem perdido a vida numa das mais sangrentas revoltas dos últimos anos em todo o mundo. No entanto, e apesar da voz do povo ter falado num processo eleitoral que, de acordo com as instituições internacionais decorreu sem percalços e de forma ordeira, nem tudo está a decorrer como pretendido. As manifestações continuam, agora contra as posições dos maoístas. As forças políticas ainda não conseguiram encontrar uma forma de implementar o sistema republicano num país governado, desde há séculos, por um regime monárquico. A demora na elaboração dos diversos articulados da nova constituição, prevendo o fim da monarquia e do fim das regalias da família real. Um episódio caricato, mas que retrata o quanto imatura é toda esta situação de democracia, aconteceu há dias quando tudo estava preparado para se realizar uma cerimónia de juramento de novos membros de alguns gabinetes do Governo. A cerimónia teve de ser adiada porque o Primeiro-Ministro estava a dormir. Estes incidentes, a par com muitos outros, têm manchado a imagem que os novos lideres querem transmitir para o
exterior, demonstrando apenas a falta de cultura democrática e de sentido de responsabilidade reinante na nova classe política nepalesa. Mais grave ainda é o facto dos partidos que derrubaram a monarquia só estarem unidos por um inimigo comum. Antes desta causa unitária lutavam pelo poder entre si, algo que alguns agora vêm como o maior problema para o futuro democrático do Nepal. Agora que já não existe uma monarquia que queriam ver deposta, vão acabar virando-se uns contra os outros, obrigando o país a mergulhar numa crise ainda pior do que aquela que viveu até agora, acreditam alguns dos mais destacados analistas políticos asiáticos que acompanham o desenrolar deste processo com muita atenção.

João Santos Gomes

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NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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