Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Fragrant Harbour

UntitledParadise next door

Hengqin Dao, the island west of Taipa and Coloane, is being promoted by China’s central government as a mecca for leisure in the Pearl River Delta. Promotional material has been issued and Wam Kam, as it is known in Cantonese, Ilha da Montanha in Portuguese, looks set to become serious competition to its wealthy neighbour, Macau.
For years, the people of tiny Macau have talked about expanding into the adjacent islands to relieve their space shortage. Interestingly, some historical sources suggest Hengqin Dao was actually a part of Macau when it was under Portuguese rule in the very early years. So, for Macau to push westwards, and reap the rewards, would seem natural. But China has other ideas and wants a tripart development of the island, involving Macau, Hong Kong and Guangdong province.
Actually, infrastructural and building work on the island has been going on for some time. The first project was notably the new campus of the University of Macau, now well underway to the left side of the Lotus Bridge. Roads are being laid and utilities set up. Once the university got approval to begin construction, by the way, many of Macau’s other educational institutions submitted applications to Beijing for building permits.
But there are also those in Macau who fear that the housing projects on Hengqin Dao may end up like the previous development surge some years back. None of them was completed and the buildings just stand empty and unfinished — an eyesore just across the channel.
Here is another project underway on Hengqin Dao: on the left side of the bridge (above) connecting the Cotai area of Macau to Hengqin Dao, and to the left of Hengqinzhen (Hengqin village), the largest water amusement park in Asia is being built. This is a massive investment to attract customers from the Mainland as well as Macau. Of course, free movement between Macau and Hengqin is going to be necessary; word is that should be sorted out by the end of the year. Other details such as car insurance and driving licences are now being discussed.
The scale of what is being undertaken on Hengqin Dao is, of course, amazing but not unlike the headlong rush to modernise and develop elsewhere in China. Consider that Hengqin Dao is three times the size of Macau and is the largest island in the Zhuhai region. At present it has 3,000 or so residents. By 2020, the estimate is 280,000!
Divided into three specific zones — Leisure and Tourism, Education, Science and R&D, and Commercial — the island has a number of other projects underway (right). By 2012 most of the roads will be ready, including primary and secondary routes, a throughway, a ring road, landscaping and embankments. Not forgetting the MTR Guangzhou-Zhuhai and Guangzhou-Zhuhai extension of the West Expressway.
Let’s hope the construction (right) side of Hengqin’s development will not end up like the infamous housing projects in Hong Kong (for example, the one on Lamma). As for the marine side, the official promotional material does feature marinas and facilities for recreational boating. One is connected to a residential area and the other to the recreational zone covering the area south and east of the island (where the Tianhua Natural Scenic Area, San Diequan Scenic Area and Sea Paradise are now).
In addition, there appear to be navigation channels, possibly based on what currently exists on the island. The lower area of Hengqin Dao has a network of channels and waterways very well known to the people who like to go fishing there.
Planners would do well to factor in more marine recreation into Hengqin Dao’s development. Not only can this satisfy the needs of wealthy Mainlanders and Macanese, but it could also draw very lucrative custom from good old Hong Kong. It’s not too far and, if they get their clearance procedures right, it would be perfect for fleets of yachts (given Macau’s woeful record for paperwork).
Planners should also take a shrewd look at Hong Kong’s failure to develop its superyacht appeal. With marinas popping up almost monthly in places like Hainan, Nansha and elsewhere along the southern China coast, they could come up with incentives to draw floating visitors from outside Asia. Worth a thought.
In 2015, according to the data that was made public, the watercourse Maliuzhou Waterfront Landscape and Zhongzingou Belt Valley Waterfront Landscape will be equipped with all sorts of cultural and recreational services. Don’t dismiss this: consider the incredible Nanhai No.1 museum on Hailing Island (three hours’ drive southwest of Zhuhai, covered in our Number 255 issue).
The Hong Kong-Zhuhai-Macau bridge, scheduled for completion in 2016, may contribute to the popularity of Hengqin Dao, provided tolls are made attractive for private cars and coaches.
Other projects currently underway on Hengqin Dao include the Chime-Long International Ocean Resort, an industrial park for Guangdong-Macau cooperation, the headquarters building for the Hengqin Development Board, the Shizimen Central Business District (CBD), a multigas-engine generator and supplier and the first phase of Hengqin New Home Complex.
For the Macanese, Hengqin’s ascendancy is viewed as a good thing. There is little space in Macau to grow and there is no desire for more reclamation. Hengqin could provide liebensraum and help improve the quality of life in the former Portuguese enclave.
http://www.youtube.com/watch?v=fWIuUfUm2kQ&NR=1

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Lei pode resolver problemas do trânsito

MUITO se tem falado sobre a qualidade dos condutores de Macau e do trânsito que, a cada dia que passa, se torna cada vez mais caótico. No entanto, acredito que, se as leis do trânsito fossem seguidas à risca, muito mudaria e a circulação seria muito mais fluida.

Para quem conduz em Macau, percorrer as estradas diariamente é uma aventura que, não poucas vezes, acaba mal. Contudo, eventuais acidentes poderiam, muitas vezes, ser evitados, se todos seguissem as regras que aprenderam nos bancos das escolas de condução.

Daí que, se parte do problema é os condutores não seguirem as regras básicas da circulação rodoviária, faz todo o sentido que os responsáveis do sector comecem por ter isso em conta, ao procurarem solucionar o problema do trânsito.

Ainda me lembro que, no início dos anos 90, na Europa passou-se a criar uma mentalidade, instituída superiormente, que ficou conhecida como «tolerância zero». De um dia para o outro, as autoridades rodoviárias deixaram de ser complacentes para com os prevaricadores, aplicando a lei à letra e não havendo lugar a qualquer tipo de excepção.

Na altura, muitas vozes se levantaram, houve manifestações e mini-revoltas de pessoas que não se conformavam com o facto de, numa sociedade de Direito, terem de seguir regras tão restritivas.

Pergunto-me: afinal, quando se faz o exame de condução e de código não temos de saber a teoria e conduzir bem? Por que razão, depois de ter a carta, passamos a conduzir mal?

Em Macau, a exigência dos exames práticos e teóricos não é inferior à da Europa. Basta ir ao website da Direcção dos Serviços de Assuntos de Tráfego e tentar fazer os exames teóricos que ali estão disponíveis. Em nada ficam atrás do exame que fiz quando tirei a carta de condução, em Coimbra, há uns anos.

Ora, se o ensino e o exame são semelhantes, algo estará errado no sistema. Possivelmente, estamos perante um problema que tem a sua raiz na forma de aplicação da mesma lei…

Nunca vi em Macau um agente da autoridade mandar parar um condutor porque este não respeitou um peão na passadeira, ou porque pisou um risco contínuo. Portanto, se a lei não é aplicada, como se pode exigir que as pessoas conduzam bem e que o trânsito seja fluído?

Se a polícia e os outros agentes envolvidos na regulação do trânsito começarem a ter coragem para aplicar a lei, sem darem lugar a qualquer tipo de clientelismo ou excepções, as mentalidades rapidamente mudam. Excessos de velocidade, pisar o risco contínuo, mudar de direcção sem fazer sinal, desrespeitar sinais vermelhos, prioridades e sinais de STOP, são apenas alguns exemplos dos inúmeros atropelos que diariamente se vêm nas ruas de Macau.

Mas, como em tudo, o exemplo tem mesmo de vir de cima. E, neste caso, os senhores que conduzem carros e motorizadas da polícia terão de ser os primeiros a dar o exemplo. Não esquecendo todos os outros condutores que andam atrás do volante de carros do Governo.

Se assim for, penso que todos começarão a cumprir e o trânsito em Macau acabará por ser mais disciplinado.

Quanto às críticas, que com toda a certeza surgirão quando as autoridades começarem a aplicar a lei à letra, bastará dizer que a lei é igual para todos e para ser cumprida por todos os cidadãos.

Até lá, resta-nos sonhar com uma cidade onde todos se respeitem e saibam cumprir os mínimos de decência de vida em sociedade.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Feira de iates em Macau

ESTAMOS a pouco mais de um mês da realização da primeira feira de material náutico de Macau e, no entanto, o evento nem sequer é conhecido pela maioria da população!

Anunciada, com pompa e circunstância junto da Comunicação Social chinesa e especializada, num evento ocorrido no Rocks Hotel, na Doca dos Pescadores, esta iniciativa, a realizar entre os dias 27 e 30 de Outubro, promete transformar a marina do local numa montra do que melhor se faz na náutica de luxo no mundo inteiro e atrair à RAEM a fina nata do sector.

O contrato assinado entre a Fuzhou Auto China Yachts Management, o Governo e o promotor, David Chow, é válido para três edições da feira, pelo que se pode afirmar que, até 2014, Macau vai contar com uma feira especializada na náutica de lazer.

De acordo com a informação disponibilizada pelos organizadores, irão marcar presença no recinto cerca de três dezenas de fabricantes de barcos de luxo de todo o mundo. A par da mostra, serão organizadas outras actividades lúdicas e de diversão, de modo a ajudar a manter os visitantes naquele espaço.

O projecto, liderado pelas empresas Fuzhou Auto China Yachts Management, China Ocean Aviation Group, Nam Kwong (como parceiro local), China Automotive Industry International, Macau Expo Group, com o apoio do Governo, da China Machinery Industry Group e da Associação de Exibições e Convenções de Macau, promete trazer milhares de visitantes e compradores ao território.

Em conferência de Imprensa, que não mereceu tradução sequer em Inglês, foi salientado que esta mostra não será igual às que se organizam noutros locais do mundo, porque Macau oferece muitas vantagens que lhe são únicas e que o diferenciam do resto: desenvolvimento económico forte, abundantes recursos turísticos e culturais, condições de trânsito favoráveis e extensa oferta de serviços de exibições. Isto, para além de estar perto de Hong Kong, de Taiwan, virado para a China continental e aberto ao mercado do Sudoeste Asiático. Características que, de acordo com o comité organizador, criam um «banquete ideal para a importação e exportação de iates».

De acordo com a Fuzhou Auto China Yachts Management está confirmada a presença de mais de trinta marcas de topo, vindas da China, Itália, Reino Unido, América, Alemanha, Austrália, França, Japão, Taiwan e Nova Zelândia. Entre elas incluem-se as conhecidas Sunsekeer, ARS Monaco, Italyachts, Horizon, Azimut, Benetaeu, Lagoon, Meridian e a Pershing.

A mostra irá ocupar toda a zona da marina na Doca dos Pescadores, onde ficarão atracados os barcos para venda e exibição. Ao longo das avenidas do parque temático serão instaladas tendas das mais variadas marcas de produtos e serviços, relacionados com este sector de actividade.

Além do lado mercantil da feira, a organização promete ainda diversas actividades de diversão e outros eventos que, de acordo com o que foi avançado na conferência de Imprensa, irá cativar os visitantes e mantê-los entretidos durante todo o dia.

A questão da náutica de recreio na RAEM já foi abordada por várias vezes e eventos desta natureza serão sempre bem-vindos. Mas será que, em tão pouco tempo, haverá capacidade para meter de pé tão ambicioso projecto? Ou será mais um evento prometido que redundará num enorme fiasco para os visitantes e participantes? A organização confirma que tudo está a decorrer dentro do previsto e que todos os detalhes estão pensados.

Julgo que quem organiza tenta sempre fazer o melhor que pode e Macau certamente merece um evento deste tipo. Aliás, peca apenas por ser tardio, porque o mercado da náutica de recreio tem vindo a crescer em toda a zona do Delta do Rio das Pérolas e Macau tem ficado para trás.

A empresa que lidera o projecto, a Fuzhou Auto China Yachts Management, tem vasta experiência na organização de eventos de grande envergadura e, no seguimento do conselho deixado pelos líderes de Pequim, esta iniciativa encaixa perfeitamente na diversificação da economia local. Será mesmo por isso que o evento conta com o apoio explícito de Fernando Chui Sai On, o Chefe do Executivo, que fez questão de vincar esse apoio num certificado assinado por si, em que garante todo o apoio ao evento e aos seus organizadores.

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Crie-se uma empresa governamental única

O MÊS de Setembro marcou o regresso às aulas para a maioria dos estudantes do território e causou alguma apreensão junto da população por se temer uma maior confusão no trânsito.

Desde a entrada em funcionamento do novo modelo de exploração dos transportes públicos, agora com três empresas concessionárias, a entidade governamental responsável, a Direcção de Serviços dos Assuntos de Tráfego (DSAT) tem vindo a monitorizar e a tentar ajustar os trajectos e frequências dos autocarros, para fazer face à demanda dos utilizadores e às muito peculiares características de Macau.

Como se sabe, o espaço em Macau não abunda e, com o incessante aumento da população e das viaturas privadas, o recurso ao incremento do número de autocarros a circular diariamente não parece ser a solução mais indicada para o problema das deslocações dos cidadãos. Mais carros na estrada quando o problema é mesmo a falta de fluência do trânsito?

Anteriormente, quando só havia duas concessionárias, as críticas já recaíam no facto do trânsito ser lento e muito demorado, para além da falta de qualidade dos veículos e do serviço prestado. Pelo que, aumentar o número de autocarros para solucionar o problema me parece, no mínimo, contraproducente! Melhorou a qualidade dos veículos, mas aumentou a confusão e diminuiu a qualidade do serviço prestado.

Não sou especialista no assunto, mas utilizo os serviços dos autocarros com alguma assiduidade. Sinceramente, não consigo detectar nenhuma melhoria relativamente ao sistema antigo. Aliás, considero que actualmente a confusão é ainda maior e as demoras mais prolongadas.

Para uma cidade com as dimensões de Macau, e devido precisamente à escassez de espaço para vias de rodagem, a solução poderia passar mesmo, não pelo aumento do número de companhias fornecedoras, mas sim pela sua diminuição. Se o serviço estivesse adjudicado a uma só companhia (ou se fosse criada uma empresa estatal, à semelhança de muitas outras cidades do mundo), a sua organização seria muito mais fácil, assim como o controle por parte das autoridades governativas.

Há ainda outro aspecto no contrato de concessão que, em minha opinião, se torna desajustado perante a realidade de Macau. Sendo o Governo responsável pela injecção de capital nas companhias concessionárias, em troca do serviço por estas prestado, nada foi estipulado como incentivo para que estas companhias se vejam estimuladas a prestar um bom serviço e a aumentar a qualidade daquilo que oferecem.

O contrato baseia-se no pagamento por quilómetro percorrido. Daí que a empresa concessionária pouco se preocupa se os autocarros andarem vazios ou cheios, visto que recebe o mesmo no fim do mês!

De que vale ter 600 autocarros nas estradas de Macau, se continuamos à espera tempos «eternos» para apanhar um que nos leve ao destino? De que vale andarem a alterar rotas, se os utentes têm que adivinhar onde devem ir apanhar o autocarro que lhes serve para irem trabalhar?

Para um local como Macau, uma ou duas centenas, no máximo, de autocarros deve ser mais do que suficiente, desde que bem organizados e com um controlo apertado dos trajectos, paragens e horários: uma empresa controlada pelo Governo, de forma directa ou indirecta, e que não tenha de estar dependente de quilómetros feitos para receber o seu pagamento no final do mês; mas, por outro lado, que tenha um sistema de incentivos que a leve a tentar melhorar a oferta do serviço prestado, quer se trate de empresa pública ou de empresa prestadora de serviço público por concessão.

Como a autoridade que controla os serviços públicos de autocarros é também responsável por todos os outros assuntos relativos ao trânsito no território, porventura já devem ter concluído que usar medidas draconianas para limitar a circulação de veículos particulares não resulta e só causa insatisfação na população.

As pessoas devem ser, e tal está previsto em qualquer local do mundo civilizado e democrático, livres de utilizarem os meios de locomoção que bem entenderem (liberdade de opção). O recurso ao aumento desmesurado das taxas de utilização e impostos apenas reflecte a falta de capacidade dos governantes para resolver o problema e, por outro lado, reflecte também a falta de qualidade da oferta dos transportes públicos.

Macau não tem falta de serviços públicos de transportes; o que tem é falta de capacidade de os organizar de forma adequada e de os fiscalizar eficientemente. E quando falo de autocarros, aplico a mesma bitola para os táxis e para o futuro metro ligeiro.

Ainda um pequeno reparo para a DSAT: a língua portuguesa é língua oficial, a par com a chinesa; pelo que deve ser respeitada e surgir em todos os documentos e painéis. Ultimamente têm surgido alguns painéis informativos nas paragens de autocarro que parece terem sido comprados em Hong Kong, visto estarem escritos apenas em chinês e inglês

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Símbolos portugueses desaparecem

CIRCULA por mensagem electrónica, há já algum tempo, uma acusação sobre o Boletim Oficial da Região Administrativa Especial de Macau. Na mensagem chama-se à atenção para o que foi feito às versões digitais (em versão PDF) das publicações anteriores a 20 de Dezembro de 1999, ou seja, as publicadas sob Administração Portuguesa e que ostentavam o símbolo da República Portuguesa no topo da primeira página.

Pelo que consegui constatar antes de contactar a Imprensa Oficial, à semelhança do que aconteceu em muitos dos edifícios públicos do território, também as páginas do Boletim Oficial em versão digital se viram limpas dos símbolos portugueses.

A medida não é recente, mas só agora mereceu alguma atenção com a sua circulação na Internet. Em resposta a um pedido de esclarecimento enviado à Imprensa Oficial, foi-me respondido o que passo a citar na íntegra, para evitar diferentes entendimentos: «A página electrónica da Imprensa Oficial como sendo uma página electrónica do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, só apresenta em circunstâncias normais o Emblema Regional da RAEM.

Desde o ano de 2007, a Imprensa Oficial começou a disponibilizar gradualmente, na sua página electrónica, as legislações publicadas antes do estabelecimento da RAEM e os documentos correlacionados.

A respectiva versão em formato PDF só inclui parte do conteúdo constante dos Boletins Oficiais publicados durante aquele período. A versão em formato PDF destina-se apenas a facilitar a consulta da legislação e do respectivo conteúdo por parte dos cidadãos, não constituindo um arquivo integral ou histórico da sua versão impressa».

Portanto, pela explicação, percebe-se que apenas a partir de 2007 temos as versões da Administração Portuguesa disponíveis na Internet. E que as mesmas não estarão disponíveis na sua totalidade e na íntegra, porque não se trata de um repositório histórico, mas apenas de consulta fácil.

Compreende-se que tenha sido trabalhoso digitalizar todos os números do Boletim Oficial anteriores a 20 de Dezembro de 1999. E, pelo que se pode ver na imagem que publicamos, a trabalheira deve ter sido ainda mais complexa porque se deram ao trabalho de digitalizar as primeiras páginas, indo depois apagar o símbolo de Portugal. Ou será que a digitalização foi feita com um digitalizador especial que excluía, automaticamente, aquilo que não interessava a alguém? Porque as versões digitalizadas, posteriores a 1999, ostentam o símbolo da RAEM no local onde as anteriores a 20 de Dezembro do mesmo ano tinham o de Portugal.

Se fosse a inexistência das primeiras páginas, onde se encontra o símbolo de Portugal, ainda se percebia. No entanto, não é disso que se trata. A primeira página está disponível e, num acto deliberado e que deve ter demorado muito tempo, devido à imensidão de números que foram publicados, foi-lhe obliterada apenas a parte do símbolo.

A confirmar-se que foi uma acção concertada, é de lamentar e não consigo perceber como é que alguém tenha ordenado procedimento semelhante. Tanto mais que a acção tem mais de caricato do que de sério. Trata-se, realmente, de um «episódio que não lembraria nem ao diabo», como se costuma dizer na gíria popular.

Se a intervenção para remover os símbolos e nomes dos edifícios históricos roçou o ridículo, o ataque às páginas do Boletim Oficial nas versões PDF só pode ser brincadeira de quem tem algum ódio ressabiado e reprimido!

O Governo deveria tomar medidas e averiguar a fundo o que se passou, porque tentar apagar a história é algo muito grave. Foi maior o desperdício de meios e dinheiro para apagar o símbolo do que se o tivessem mantido, pelo que se torna importante saber quem ordenou tal trabalho e o uso de verbas públicas.

Macau, como se prova pela inclusão na lista do Património Mundial da UNESCO, só tem que se sentir orgulhoso do passado que tem. Não fosse a presença do poder lusitano nestas paragens durante quase cinco séculos e não existiria justificação para a distinção das Nações Unidas. Macau seria igual a qualquer local do outro lado da fronteira.

O facto de tentarem apagar a história faz lembrar alguns incidentes no interior da China, aquando da Revolução Cultural, altura em que tudo o que fosse estrangeiro era considerado burguês; logo, de acordo com os preceitos fundamentalistas da altura, condenável e alvo de destruição. Assim se perdeu muito do que havia de histórico na China, tanto de origem ocidental, como até dos períodos anteriores ao poder comunista. Hoje em dia, mentes mais esclarecidas do Governo Central consideram que foi um erro tremendo ter-se enveredado por essa via e tentam remendar o que ainda é possível recuperar.

Em Macau, passadas muitas décadas sobre os erros cometidos no interior da China, até parece haver quem queira continuar a fazer o mesmo, apagando os vestígios do passado.

Nos últimos anos, tem-se notado uma regressão e uma tentativa de remediar os excessos cometidos nos primeiros anos de Região Administrativa Especial, voltando-se a usar as denominações originais dos edifícios. Basta ver a lista oficial do Património Mundial da UNESCO para verificar que os nomes antes de 1999 são os que foram reconhecidos. O edifício do Leal Senado é disso exemplo.

O Boletim Oficial não faz parte da distinta lista, mas, como qualquer outro documento, é parte integrante da história do território e fonte importante para quem queira estudar o passado. Ali são publicados todos os acontecimentos políticos da vivência desta terra, que mais tarde podem servir para ajudar a compreender o dia-a-dia da vida em Macau.

sábado, 13 de agosto de 2011

Fragrant Harbour

Macau gets bigger

UntitledThe Macau waterfront is soon to be transformed by a number of reclamation and development projects. Draft consultations are underway yet, despite local coverage, very little has been reported outside the Macau Special Administrative Region. More surprising is that few of the former Portuguese enclave’s half a million inhabitants really understand the extent of their government’s plans.
The coloured zones marked as B, C and D on the accompanying graphic (opposite page) will affect what
is known as the ‘riverside area’ among the three bridges. Work on these is progressing. The two zones on Taipa, marked as E1 and E2, are for the new and temporary ferry terminals . . . if the government can make a decision to relocate the old ferry terminal (more on that later).
But, certainly the area which will create the most impact is Zone A. This stretches along the east side of the Friendship Bridge to Gongbei in China and, when completed, will effectively increase the size of the Macau peninsula by 25%. It will also be where the Macau link to the Hong Kong–Zhuhai-Macau Bridge is located, and is likely to be the first of all the zones to be completed.
These projects, together with other waterfront developments, were presented to the public in November 2010. Consultation is open until the 8th of August but, like so many other important issues in Macau, there has been little or no concern shown for the loss of existing waterfront, sea area or, indeed, why there is a need for more land.
One thing is for sure, there are major changes afoot . . . starting on the starboard side of the ferry as you
arrive. Macau currently has a total land area of 29.2 square kilometers.
The reclamation will increase that by 12.3 percent to 32.81 square kilometers. Land created will amount to approximately 350 hectares. The projects, naturally, are given a positive spin and show little of what will be lost and, of course, say nothing about what could go wrong. There are all sorts of promises such as green corridors, links between new and old areas, preservation of historical sites, and so on.
The truth is (well, certainly with this writer) that few people really believe what the government says and are rightly suspicious of grand plans and glossy presentations.
More urgent than reclamation and construction projects would be a sensible and cohesive policy on the preservation and promotion of Macau for its maritime heritage. Sadly, the examples of mistreatment of historical buildings and structures are too many. Who can remember seeing the Guia Lighthouse (right) — an endearing icon of Macau — from all angles?
Over the past five years, infrastructural works and housing projects have all but obliterated its reassuring presence. In fact, Tap Seac and Golden Lotus Square are about the only two place where you can get a clear view of the 146-year-old structure. (Word is Macau has received another stern letter from UNESCO drawing attention to the city’s responsibilities in retaining World Heritage Site status for the lighthouse.)
Let’s not forget, Macau has always been a maritime city and has existed ‘facing the water’.
However, developments and unchecked progress in recent years have seen Macanese turn their backs on their history. And, as mentioned before, there is no real policy to recognize the city’s historical importance, or its potential.
Take commercial fishing, once an important sector of the economy. It is now virtually nonexistent.
And what about recreational boating? Another sorry story, and a mere shadow of what it was before 1999. There is only one marina, despite constant calls for more to be built. With more berthing facilities, Macau would be able to attract more boats, provide jobs, and attract visitors from around the region. There is much talk of an Asian superyacht circuit but for this there need to be destinations and facilities — Macau,
like Hong Kong, is missing a golden opportunity.
Macau Fisherman’s Wharf is a sad case of where a private venture has turned out to be a white elephant. Largely, because of dithering and a lack of support and understanding from the government. Furthermore, until such time as a decision is made on the old ferry terminal, pleasure craft simply can’t be allowed to navigate in and out of busy ferry lanes. The plan was to move the terminal to Taipa, and the developer went ahead with the basin for the marina. But since no decision has been made on a new terminal for the ferries, the developer has put further work in the marina basin on hold. A prime ‘riverside’ location abandoned because government won’t make a decision on the ferry terminal and has been distracted by questionable reclamation and development projects. Moreover, this indecision by the authorities has seen other missed opportunities. Whoever follows Macau affairs will remember that Stanley Ho prepared and presented, some years ago, a huge project called Oceanus. It was of a hotel that would occupy part of the area where the former New Yaohan mall was situated, crossing Friendship Avenue to the place where the old Palace floating casino was moored and even included part of the ferry terminal itself. This project was shelved, and the shopping centre turned into another casino.
Although the government has sponsored several public forums to discuss good use of the SAR’s waterfront and sea area, a higher level of debate is now needed. A multi-disciplinary team needs to address the many technical aspects of an ‘expanding’ Macau. The general population may know what it
wants but it is unlikely to know whether it is possible or feasible — this is where civil engineers, architects and town planners are useful.
Macau’s authorities do not pay enough attention to criticism, or even measured advice.
They doesn’t even listen to business and tend to act unilaterally. The results are plain to see in the shambolic planning of areas and general deterioration of the city. Artificial islands (Zone A) are not going to solve these problems. In fact, Macau could well end up with its own ‘West Kowloon Reclamation’ fiasco.
Let us all hope that needless reclamation and specious construction projects, together with the impact of the Hong Kong-Zhuhai-Macau Bridge, do not bring any more problems to a Macau that should not be allowed to end up as just another Chinese coastal city. There is nothing wrong with reclamation, construction or bridges but there has to be a need for them. Will they make the air pollution worse, and what about the quality of seawater?
Macau has existed because of the sea, but its waterfront now faces an uncertain future. Attention is being paid to apartment blocks, casinos and new buildings but is this really necessary, especially when it is at the expense of a rich and important maritime heritage?

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Censos descriminam

VAI hoje para a rua mais um recenseamento dos residentes de Macau. Uma actividade de grande envergadura que tem em vista recolher informação acerca da composição da população do território e de que se esperam dados importantes para os próximos anos de governação.

Sem querer entrar em detalhes técnicos, aproveito para deixar um reparo quanto ao uso das línguas oficiais por parte do organismo que coordena esta tarefa.

Por esta altura todas as residências de Macau já devem ter recebido, na caixa do correio, um envelope da Direcção dos Serviços de Estatísticas e Censos. Só que, se os moradores não lerem Chinês, têm que ligar para a «linha azul dos Censos» para requererem a versão em Português!

Então, onde está o tratamento em pé de igualdade das línguas oficiais? No dito envelope constam um folheto explicativo e uma circular bilingues, mas o folheto de instruções de preenchimento e o formulário apenas aparecem em Chinês, com uma nota em rodapé (em Português e Inglês) para informar que «Se necessitar do questionário em Português, ligue para a linha azul dos Censos 88098809». O mesmo procedimento deverá ter quem apenas dominar o Inglês.

O meu reparo baseia-se apenas no seguinte: se fazem dois documentos bilingues, porque não fizeram o restante nas duas línguas oficiais? Deixando, claro, a versão inglesa para ser pedida por quem dela necessitar, porque não faz parte do Artigo 9 da Lei Básica.

Deixo uma sugestão, para repor a igualdade de tratamento das duas línguas oficiais: no próximo censo, enviem a informação toda em Português e escrevam uma nota de rodapé a informar os que precisam da versão chinesa, para ligarem para a linha azul!

Lixo mais limpo mas nem sempre

É verdade que nos últimos anos a situação da limpeza da cidade tem melhorado muito e, com isso, também a qualidade de vida da população. Torna-se ainda mais evidente, se tivermos em conta o que acontecia há duas ou três décadas, quando o lixo era pouco tratado e se amontoava nas ruas da cidade à espera de ser recolhido.

Nos últimos anos têm sido introduzidas «salas» de depósito de lixo, que vieram contribuir para a melhoria da salubridade ambiental e que ajudaram a retirar grande parte dos inestéticos e insalubres contentores das ruas de Macau. A solução do recurso a estações de recolha de lixo, longe de ser do agrado de todos, mostra-se como viável e adequada ao território. Há, no entanto, aspectos que a empresa concessionária não pode descurar, quando processam a limpeza dessas estruturas.

Apesar de terem um sistema «automático» de desinfecção por raios ultravioleta (que ainda não percebi como funciona), tem de haver outros cuidados como a lavagem diária e a limpeza interna da estrutura, para que os cheiros não se tornem insuportáveis.

A verdade é que muitas vezes, principalmente em dias de mais calor, o que emana de algumas destas estruturas é de tal forma intenso, que se torna complicado abrir as escotilhas para depositar os sacos do lixo ou mesmo passar nas suas imediações.

A empresa responsável pela recolha do lixo tem procurado manter os locais limpos, mas as intervenções que são feitas para lavar os recintos em nada ajudam a resolver o problema. A lavagem é feita com mangueira e utilizando um produto químico desinfectante. Mas se o interior fica lavado e desinfectado, o mesmo já não se pode dizer da área envolvente, que fica inundada de águas residuais resultantes da mesma limpeza, porque as sarjetas não têm capacidade de captar toda a água suja. Os cheiros e gorduras do interior das estações de recolha ficam no exterior, poluindo e deixando um odor insuportável em dias de calor.

Ao cheiro junta-se ainda o perigo do pavimento escorregadio poder originar quedas aos mais incautos.

Recorrer a estações de recolha é mais eficiente, sem dúvida e, de certa forma, mais higiénico. Contudo, há quem defenda que a sua construção deveria ser feita abaixo do nível da via pública, para evitar os problemas da lavagem e para ser mais agradável à vista de quem passa. Especialistas na área afirmam que seria preferível terem sido construídas estruturas subterrâneas, pois não interfeririam no ambiente visual e passariam despercebidas, tornando a área envolvente mais aprazível e com a possibilidade de ser usada para outros fins, nomeadamente de recreio e descanso da população.

Macau, aliás, tem alguns bons exemplos de aproveitamento de áreas outrora usadas para depósito de lixo. O kartódromo, uma das grandes atracções turísticas do território, é disso um claro exemplo, pois no seu subsolo encontra-se o antigo aterro sanitário.

Relativamente ao processo usado para limpar as estações do lixo, o uso de mangueira e produtos químicos causa problemas acrescidos e deve ser revisto.

Sendo as estações construídas de raiz, seria sensato que contassem com um sistema de drenagem de águas residuais de grande capacidade, para que os funcionários da empresa concessionária, quando procedem à sua lavagem, possam evitar que as águas inundem o exterior. Se o sistema for eficiente, a lavagem pode mesmo ser feita de portas fechadas.

Além disso, seria de todo importante que os mesmos funcionários recebessem formação e ordens claras, tendo em vista uma adequada forma de procedimento na tarefa de limpeza e desinfecção.

domingo, 24 de julho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Farol e a língua francesa

NA semana passada foi curioso ler o mesmo assunto com duas abordagens diferentes na imprensa portuguesa de Macau. Num jornal lia-se «UNESCO “satisfeita” com “defesa” do Farol», enquanto que, no mesmo dia, outro dizia «UNESCO garante que incumprimentos de Macau podem tirá-lo da lista».

Como comum leitor, fiquei um pouco confundido. Então, como podemos fazer duas interpretações tão distintas de uma mesma informação? As Nações Unidas, afinal, gostam ou não do que tem sido feito para proteger o nosso farol?

Já por várias vezes escrevi sobre o Farol da Guia nestas páginas e em publicações fora do território e julgo que o que tem sido feito para proteger o património é, manifestamente, muito pouco. O facto de existir na RAEM um «lobby» forte da construção civil, aliado à escassez de terrenos, tem levado à necessidade, cada vez maior, de construir em altura. No entanto, o mal nem está em construir para os céus, é sim o escolherem os piores locais!

Também julgo que, na falta de espaço, se tem de construir em altura. Numa terra singular como Macau, que tem de proteger as suas peculiaridades, as autoridades têm de ser extra cautelosas na emissão de autorizações de construção. A nível arquitectónico e ambiental, há um sem número de aspectos que devem ser levados em conta.

As críticas da UNESCO incidem, principalmente, na falta de um plano de urbanização adequado e na escassez de medidas preventivas para evitar atropelos aos critérios pelos quais Macau foi classificado. Esta entidade chega mesmo a avançar com a possibilidade do título ser retirado, como já foi feito anteriormente a outros locais.

Por cá, os responsáveis afirmam que tudo está a ser cumprido. Contudo, as críticas dos sectores mais preocupados com o património e as da própria organização com sede em Nova Iorque não param de surgir. E o mais preocupante é que estas continuam a versar sobre os mesmos pontos, pelo que se depreende que pouco ou nada tem sido modificado.

Não se duvida que o Governo tenha implementado várias medidas, mas, perante a reincidência das críticas, sou levado a acreditar que o que tem sido feito não atingiu o alvo pretendido.

Aqui critica-se a falta de eficiência. Não basta fazer; tem de se fazer bem.

Em relação ao Farol da Guia, a UNESCO é clara: não pode ter a sua vista obstruída de nenhum dos ângulos. A verdade é que o mesmo só está totalmente visível, actualmente, de dois locais: do Tap Seac e da Praça Flor de Lótus.

Vários edifícios foram construídos recentemente que impedem a vista do farol. E se tais foram autorizados, a única solução para o problema agora seria demoli-los: uma decisão polémica e custosa para os cofres do Governo. Claro que é necessário ter coragem para tomar tal decisão. Afinal, o património é a única mais-valia que Macau tem actualmente e, se for destruído, começaremos por ser excluídos da Lista de Património Mundial e a ficar cada vez mais parecidos com um bairro de Zhuhai. Ora, não me parece que seja do interesse de Pequim. Nosso não é certamente!

Alliance Française também quer

Depois da recente febre das instituições de ensino em mudar de instalações, a «coisa» parecia ter acalmado. No entanto, veio agora a saber-se que a Alliance Française também tem esperanças de, em breve, ter casa nova. E não o fazem por menos! Pretendem um edifício histórico ou um construído de raiz, segundo afirmaram os seus responsáveis.

A instituição, que marca presença em Macau desde os anos oitenta do século passado, tem contribuído para a disseminação da língua do marechal Jacques de la Palice (o das verdades de La Palice, aquelas que se tornam ridículas de tão evidentes) junto da população da RAEM e tem, de acordo com os seus responsáveis, crescido de ano para ano. E, ainda de acordo com números da instituição, este ano têm mais de sete centenas de estudantes.

A língua francesa foi a minha segunda língua durante mais de duas décadas. Falava-se em casa assiduamente, visto o meu pai ser fluente naquele idioma, depois de ter vivido vários anos na zona de Paris, assim como muitos outros elementos da minha família. Tenho, por isso, uma afinidade muito grande com a língua e com o País. No entanto, não posso deixar de me insurgir quando vejo responsáveis pela divulgação do idioma em Macau virem a público dizer que está tudo bem e que o número de estudantes exige maiores instalações.

Gostaria de saber como me explicam o facto de haver pessoas que fizeram exames de aferição do nível de conhecimentos da língua e cultura francófonas e que ainda hoje esperam pelos resultados. Algumas fizeram-no há mais de um ano! Pessoas que manifestaram interesse em voltar a estudar a língua, que se deslocaram às instalações para pedir informações e só foram atendidas depois de terem de esperar mais de uma hora, ou porque os funcionários não chegavam a horas ao local de serviço ou se mostravam indisponíveis para o atendimento. Mesmo assim, impelidos pelo desejo de voltar a estudar francês, essas pessoas ignoraram o facto de serem atendidas com maus modos e decidiram fazer o exame que deveria ter o resultado comunicado via telefone nos dias seguintes. Nunca sucedeu e, mesmo depois de alguns telefonemas a perguntar pelo mesmo, nunca o conseguiram saber! Claro, o resultado foi desistirem da ideia!

A Alliance Française teve momentos altos em Macau em anos precedentes. Hoje, porém, reduz-se a uma simples e medíocre escola que ensina um idioma, para além de algumas esporádicas iniciativas, de que aproveitam para trazer uns filmes que aqui chegam emprestados de Hong Kong, ou de concertos como o da DJ belga, no passado sábado, possível porque a artista estava na China, sendo deste modo fácil trazê-la a Macau.

As iniciativas de cariz cultural são de pequena envergadura: umas sessões de cinema, umas pequenas exposições e pouco mais. Regra geral, na altura do Dia da Tomada da Bastilha, o dia nacional de França.

De resto, não me lembro de nada que tenha sido organizado pela AF, de raiz, para Macau nos últimos anos.

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

«Data ilustra amizade entre os dois povos»

O CLARIM conversou com o novo embaixador de Portugal na Tailândia, Jorge Torres Pereira. O diplomata abordou as relações diplomáticas entre Portugal e o reino de Bhumibol Adulyadej. Quinhentos anos de história pautados por acontecimentos de paz e sã convivência, sem relatos de qualquer tipo de conflitos.

FAZ 500 anos que os portugueses estabeleceram relações diplomáticas com o antigo Reino do Sião. Portugal e Tailândia partilham uma história, como poucas há no mundo: cinco centenas de anos de convivência pacífica e de mútuo entendimento. A prova disso mesmo é o local onde a «nossa» representação diplomática se encontra na capital tailandesa.

À beira do Rio dos Reis, a feitoria portuguesa realça a amizade existente entre estes dois povos. Os monarcas tailandeses, desde Ayuthaya, sempre manifestaram apreço pelo povo vindo da pequena nação a sul da Europa, razão pela qual lhe deram um local para se estabelecerem, depois de os terem incluído no grupo de cidadãos a serem evacuados da antiga capital, após a derradeira invasão birmanesa.

Desde então, Portugal tem presença garantida no bairro de Thonburi (Banguecoque). Anteriormente, na primeira capital do Reino, já havia (e ainda existe hoje em dia, se bem que em ruínas, um Ban Portuket) um bairro português completo, com igrejas e outras edificações de cariz luso.

É este feliz encadear de eventos que Portugal e a Tailândia comemoram em 2011. As iniciativas são mais do que muitas e seria de todo descabido aqui relatá-las. Isso ficará para outra oportunidade, visto que a Revista Cultura vai dedicar um número a esta efeméride. No entanto, como tivemos o prazer de conhecer recentemente o novo representante diplomático de Portugal na Tailândia, aproveitámos para fazer um ponto da situação e saber o que vai seguir-se.

Jorge Torres Pereira chegou à Tailândia em Dezembro de 2010, estando à frente dos destinos diplomáticos de Portugal no antigo Sião, abrangendo, na função, o Cambodja, a Birmânia, o Vietname, a Malásia e o Laos.

No âmbito das comemorações dos 500 anos das relações diplomáticas, teve lugar no dia 20 deste mês um evento que, por si só, é ilustrativo da amizade e do entendimento entre os dois povos: foi lançada, simultaneamente, em Portugal e na Tailândia, uma série comemorativa de selos.

O CLARIM Tendo este evento como mote, o que vai ser feito e o que destacaria?
JORGE TORRES PEREIRA – Até ao final de 2011, a Embaixada irá organizar um sem número de eventos: uma exposição do Legado da Arte, onde se inclui um «Menino Jesus reclinado», junto dos «Budas Reclinados», no «National Museum». Irão ser publicadas traduções em tailandês de autores portugueses e será organizada uma exposição no «Bangkok Art and Culture Centre» sobre máscaras asiáticas, onde irão estar em exibição dois belíssimos vestidos tradicionais tailandeses e peças da colecção do Museu do Oriente em Lisboa, que virão expressamente para serem aqui mostradas.

Durante este ano será também levada a cabo uma iniciativa única, em que se vai tentar mostrar a Tailândia pelos olhos de um artista português (fotógrafo) e Portugal pelos olhos de um tailandês (pintor) – uma exposição que vai, certamente, atrair muitos visitantes ao «Emporium», um dos maiores centros comerciais de Banguecoque. Ainda no campo da cultura, vai haver fado pela bem conhecida Katia Guerreiro, que irá representar Portugal no «International Bangkok Festival of Dance and Music». Vai realizar-se um seminário internacional de história, com a co-organização da Universidade Técnica de Lisboa, numa das universidades mais famosas da Tailândia, a «Chulalonkorn University», onde, paralelamente, vai decorrer a semana da língua portuguesa.

No campo económico, está programado um seminário sobre oportunidades de negócio e, no desportivo, está previsto, no «National Stadium», um encontro de futebol entre a equipa jovem da Academia do Sporting Club de Portugal e a selecção sub18 tailandesa.

A finalizar o ano, e de forma propositada como iniciativa de encerramento, será prestada homenagem aos descendentes portugueses (os Portuket), no bairro de Santa Cruz, aqui em Banguecoque.

CL Relativamente à emissão da série de selos comemorativos, em termos diplomáticos, que peso tem esta iniciativa?
J.T.P. – Uma iniciativa de emissão simultânea de selos em dois países, comemorativa dum determinado evento, é em si mesma significativa. Implica que as duas entidades se falem, coordenem e acertem todos os pormenores (com artistas a trabalhar de um lado e do outro), com um cuidado especial no dia do lançamento e no primeiro dia de circulação. Traduz o excelente relacionamento entre as duas partes e a vontade de não deixar de fora nenhuma das modalidades de comemoração.

Portugal assinala efeméride

Entretanto, também em Portugal se vão organizando eventos alusivos à efeméride. Soubemos, por exemplo, pelo antecessor de Torres Pereira, o embaixador António Faria e Maya, que, no âmbito das comemorações dos 500 anos, se realizaram no passado dia 12, na Academia de Marinha portuguesa, duas palestras. Ambas foram apresentadas pelo presidente da Academia, almirante Vieira Matias, na presença do presidente da Academia das Ciências. A primeira contou com a participação da historiadora Maria da Conceição Flores, que falou sobre «Os Portugueses e o Sião no século XVI»; a segunda foi proferida pelo antigo embaixador em Banguecoque, Sebastião Castelo Branco, que falou sobre a sua experiência na Tailândia, sobre o legado da «nossa» Embaixada e de outros locais da presença portuguesa naquele país, e sobre as perspectivas de oportunidades para o desenvolvimento futuro das relações luso-tailandesas.

CLA História de Portugal na Ásia e a História da Tailândia estão, irremediavelmente, ligadas em vários aspectos. Os próximos eventos comemorativos têm isso em mente?
J.T.P. – Os eventos tentam abordar todas as vertentes do relacionamento entre os dois países. São manifestações oficiais simbólicas da componente Estado-a-Estado, edição de livros, trabalhos de investigação histórica publicitados em seminários e congressos e vertidos em actas e livros; exposições a sublinhar o legado artístico, a dimensão do património arquitectónico, a importância de diferentes instituições portuguesas no panorama asiático (Fundação Gulbenkian e Fundação Oriente/Museu do Oriente); a divulgação de artistas portugueses (como o concerto da fadista Katia Guerreiro); o chamativo popular dum jogo de futebol (entre selecções de camadas jovens); o empenho em incrementar as visitas ao Bairro Português, em Ayuthaya; o aproveitamento do clima de maior conhecimento mútuo para lançar oportunidades de negócio; e a homenagem aos luso-descendentes (tailandeses das comunidades católicas de Santa Cruz, Rosário e Concepcion), que ainda conservam um sentido de pertença ao núcleo identitário português.

CL Foi enviada uma «Sala Thai» (pavilhão de estilo tailandês) para Portugal, como oferta simbólica. Pode-nos fazer o ponto da situação?
J.T.P. – Sobre as comemorações em Lisboa, dinamizadas pela Embaixada da Tailândia, seria melhor contactar directamente os meus colegas tailandeses. Ao que tudo indica, a «Sala Thai» já está quase pronta e será inaugurada no início do próximo ano, no âmbito duma visita de relevo a Portugal. Mais não posso dizer, por agora.

CL Visto que a diplomacia não é só comemorações, como descreve a situação de Portugal na Tailândia? E nos outros países onde tem jurisdição diplomática?
J.T.P. – Portugal tem, obviamente, um lugar «sui generis» devido ao pioneirismo do nosso relacionamento com o Sião/Tailândia, mas no plano do dia-a-dia da vida económica tailandesa tem uma posição relativamente modesta, particularmente no que se refere às trocas comerciais e aos fluxos de investimento. Participamos, naturalmente, no relacionamento entre a União Europeia e a Tailândia e temos uma posição de manifesto interesse no acompanhamento da construção da Comunidade ASEAN, em 2015, e na integração regional posterior a essa data. O nosso cartão-de-visita da presença portuguesa desde o século XVI pode também funcionar nos outros países em que me encontro acreditado ou prestes a apresentar credenciais (Camboja, Laos, Myanmar, Malásia, Vietname), por forma a sustentar um revigoramento na esfera económica e comercial.

A diplomacia portuguesa está apostada em contribuir para o essencial incremento das nossas exportações. Os mercados asiáticos já de há muito foram identificados como cruciais para esse esforço. Acabo de participar numa acção de promoção de vinhos portugueses em Banguecoque e continuo esperançado em poder organizar um seminário, ainda este ano, com «entrepreneurs» tailandeses interessados em Portugal, quer directamente, quer em geometrias variáveis que incluam países de expressão oficial portuguesa.

Em Setembro entrarão em funcionamento os consulados honorários em Hanói e Ho Chi Min, em que os seus titulares foram escolhidos precisamente para consolidarem a rede de apoio aos empresários portugueses (e vietnamitas), em articulação com a Embaixada em Banguecoque e a delegação regional da AICEP, sedeada em Singapura. Em Setembro ainda concretizar-se-á uma missão empresarial à Malásia, com o patrocínio da AICEP, em que aproveitarei, em Kuala Lumpur, para despertar a curiosidade dos empresários portugueses para outros mercados, nomeadamente o tailandês. Já temos empresas activas na Malásia e no Vietname (e também, bem entendido, em Singapura, mas esta está fora da minha «jurisdição»). Em Vienciana (capital do Laos) aprestamo-nos para contar com um cônsul-honorário.

CL Como pode Macau contribuir para o fortalecimento da presença portuguesa, tanto na Ásia, como, mais em concreto, na Tailândia? Os laços históricos são muitos, inclusivamente através de antigas famílias macaenses, das quais os Siqueira são, possivelmente, o expoente máximo.
J.T.P. – No plano cultural e de contributo para as comemorações dos 500 anos na Tailândia, Macau estará presente, não só pela contribuição do professor Jorge Morbey num simpósio sobre Ayuthaya, como pela edição dum número alusivo da Revista Cultura. Constatei, no meu «trabalho de casa» sobre a dimensão histórica da nossa presença na Ásia, que muitos investigadores tiveram ou têm um vínculo a Macau e que tal especificidade não se irá perder. Quanto ao aproveitamento das potencialidades de Macau em diversos projectos regionais na área económica, confesso que ainda terei que me inteirar melhor sobre o assunto.

CL A terminar, o que nos pode avançar acerca da língua portuguesa nesta área do mundo?
J.T.P. – Fazemos sempre todos os esforços para consolidar a promoção da língua portuguesa. Relembro que temos leitorados em Banguecoque (e igualmente um Centro Cultural), em Hanói e em Kuala Lumpur, todos bem activos nesta tarefa.

Programa até Dezembro

Para quem se desloque à Tailândia e queira aproveitar para participar nas comemorações, O CLARIM publica a lista dos eventos que vão ter lugar até ao final do ano. Alguns ainda não foram confirmados, mas estão já programados.

29 de Julho – Seminário académico – «Archaeology: Ayutthaya and Portugal», no «National Museum» em Banguecoque.
22 a 26 de Agosto – Semana da Língua e Cultura Portuguesa, na «Chulalongkorn University» (a confirmar).
31 de Agosto – Seminário académico – «Siamese-Portuguese Descendents: Language/Architecture/Way of life», na «Faculty of Liberal Arts, Thammasat University» (a confirmar).
14 de Setembro a 6 de Outubro – Exposição «Masks of Asia», no «Bangkok Art and Culture Centre».
15 de Setembro – Jogo de futebol entre a equipa jovem da Academia do Sporting Club de Portugal e a selecção sub18 da Tailândia, no «National Stadium» (a confirmar).
10 de Outubro – Noite musical – Katia Guerreiro no «Thailand Cultural Center», no âmbito do «XIII International Festival of Dance and Music».
27 de Outubro a 2 de Novembro – Exposição «Thailand/Portugal: Close Glances», no Centro Comercial «Emporium».
2 a 4 de Novembro – Seminário internacional de história – «500 Years of Thai-Portuguese relations» – organizado pelo Instituto do Oriente, Universidade Técnica de Lisboa e a «Chulalongkorn University».
21 de Novembro – Seminário de negócios – «Business Opportunities in Portugal, Gateway to EU and Portuguese speaking countries».
2 de Dezembro – Nossa Senhora da Conceição – Evento comemorativo na igreja da Imaculada Concepção, em Banguecoque.
10 de Dezembro – Rosário – Evento comemorativo na igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Banguecoque.
11 de Dezembro – «Honouring the Portuket» – Evento comemorativo na igreja de Santa Cruz, em Banguecoque.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Português da DSAT!? De bradar aos céus!

A DIRECÇÃO dos Serviços para os Assuntos de Tráfego brindou-nos recentemente com uma pérola de língua portuguesa e, de imediato, foi alvo de diversas reacções na Comunicação Social portuguesa. Uma reacção precedida de uma chuva de críticas e «insultos» nas redes sociais, nomeadamente no «Facebook», onde o assunto foi amplamente difundido e comentado entre falantes do idioma de Camões nos três cantos do mundo.

Aquele serviço público já veio, entretanto, tentar «deitar água na fervura» e desculpar-se com «erro técnico».

Apesar de ser analfabeto no que à tecnologia informática diz respeito, custa-me a acreditar que o computador tenha «cometido» tais erros, sem que ninguém lhe desse essa ordem. Afinal, o irracionalismo continua a ser um dos grandes óbices destas máquinas.

A polémica refere-se ao que foi publicado numa página da «Internet» recentemente lançada, onde se pode fazer a pesquisa sobre as carreiras de autocarros que estarão disponíveis a partir de 1 de Agosto, quando entrar em vigor o novo sistema de transportes públicos. Nesse «website» existia uma lista (www.dsat.gov.mo/bres/StopList.aspx) das carreiras e dos locais por elas servidas em Macau, na Taipa e em Coloane. Entretanto, e como seria de esperar perante tal patacoada, já foi retirada a obra-prima em Português, sendo apenas visível a versão em Chinês.

Tanto quanto consegui apurar e de acordo com o que me foi dito por tradutores oficiais, em Chinês não há qualquer problema com as denominações. No entanto, as versões portuguesas fizeram-me rir, não sei se de alegria ou desespero.

Para que percebam o que quero dizer, e para quem não teve oportunidade de acompanhar o caso, deixo alguns exemplos. Começando por Macau, ficamos a saber que existe uma paragem denominada «Colina da Guia (Matsuyama), e se a montanha constitucional» (sic), onde deveria estar «Colina da Guia, Centro Hospitalar Conde de São Januário», pelo que me explicaram. Na Taipa, temos a paragem da «Nossa Senhora da Bay Area» e a do «Cotai area de recuperacao» (de notar que a falta de acentos e cedilhas é do original). E, para concluir, as paragens em Coloane, onde ficamos a saber que temos uma nova praia, a da «Ordosica» (para quem não saiba é Hac Sá) e a paragem de «Bamboo Bay» que, em Português, como sabemos, é Cheok Van.

Coloane, apesar de ser a lista mais curta, é a que mais pérolas tem, dando para perceber que, além de um total desconhecimento do território e de um completo desrespeito pelas línguas oficiais, é evidente que as romanizações foram feitas a partir do Mandarim: Jiu’ao (povoação de Ká Hó) é disso exemplo. Nesta pequena lista acertaram, miraculosamente, no nome «Vila de Coloane».

Fica a pergunta, será que quem fez a tradução não tinha à mão um mapa de Macau ou uma lista dos arruamentos?

Contactei a DSAT, via correio electrónico, mas não tiveram a amabilidade de me enviar qualquer reacção ao insólito da tradução. Possivelmente ainda estão a fazer a tradução de Português para Chinês! Vamos esperar mais uns meses e, caso ela chegue, prometo que a publico literalmente.

É triste saber que, mesmo errando, quando vieram a público assumir a falta e mostrar empenho em fazer mais e melhor, decidiram atirar a culpa para a «técnica». Teria sido mais sensato assumirem o erro, pedirem desculpas e comprometerem-se em tentar melhorar. Dizer que foi um erro técnico acaba por ser mais ignóbil que o próprio erro que tentam desculpar. Aliás, o comunicado publicado pela DSAT, na página do GCS, no dia 7 pelas 19:29, começa logo mal pelo título: «A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego tem respeita pela cultura portuguesa». Mais valia terem ficado caladinhos e deixar a poeira acalmar!

Por curiosidade, voltei a visitar a página da DSAT e usei o tradutor do «Google» (que me pergunta sempre se quero traduzir quando abro uma página em língua estrangeira) para a traduzir na globalidade e, para minha surpresa, detectei o famoso «erro técnico» referido pelos Serviços. Afinal, trata-se de uma tradução feita pelo serviço daquele conhecido motor de busca ou outro similar.

Este pequeno exemplo do completo desleixo pela língua oficial portuguesa faz-me temer pelo que possa vir a acontecer relativamente a pontos do Caderno de Encargos, que as operadoras privadas de transportes públicos são obrigadas a cumprir, e que a partir de 1 de Agosto irá entrar em vigor.

Quando a própria entidade do Governo não cumpre o artigo 9º da Lei Básica, qual a autoridade moral que terá para exigir que as concessionárias privadas cumpram o estabelecido? Vou esperar por Agosto para me assegurar do que suspeito. Oxalá esteja enganado!

Tanto quanto sei, o contrato de exploração assinado entre as três empresas e a DSAT obriga-as a disponibilizar, no sistema sonoro e nas comunicações escritas, informações em Chinês (Cantonense e Mandarim), em Português e, facultativamente, em Inglês.

Apesar dos exemplos de atropelo da segunda língua oficial de Macau serem constantes, reconheço que o Governo tem feitos sinceros esforços para melhorar o produto final.

domingo, 10 de julho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Paraíso aqui ao lado

A ILHA de Hengqin (conhecida como ilha da Montanha, em Português, ou Wankam, em Cantonense), localizada mesmo ao lado de Macau, vai ser o novo pólo de desenvolvimento da região do Delta do Rio das Pérolas.

Desde que me lembro, na RAEM sempre se falou da necessidade de expandir para a ilha adjacente, devido à evidente falta de espaço. Aliás, a Ilha da Montanha era, de acordo com muitos registos históricos portugueses, parte integrante da jurisdição do território de Macau, pelo que, por este ponto de vista, seria um crescimento natural. No entanto, o Governo Central parece ter outros planos e quer desenvolver a ilha numa parceria bipartida entre Macau e Zhuhai.

O projecto de desenvolvimento de toda a ilha já está em marcha há algum tempo. O novo pólo da Universidade de Macau, o primeiro investimento do território a ser aprovado, está em avançada fase de construção do lado esquerdo da ponte Flor de Lótus, assim como estão a ser desenvolvidas outras infra-estruturas de apoio viárias e de logística por toda a ilha. Depois da Universidade de Macau seguiram-se pedidos de quase todas as outras instituições de ensino superior do território que, aparentemente, chegaram à conclusão, de um dia para o outro, que precisam de se expandir!

Do lado esquerdo da vila de Henqin, também do lado esquerdo da ponte que liga ao COTAI, está a ser construído o maior parque de diversões aquático da Ásia. Um investimento milionário que estará a contar, certamente, com os clientes atraídos pelos casinos de Macau. Para tal, será necessário permitir a livre circulação de pessoas entre os dois lados, algo que pode acontecer já este ano. Falta apenas o processo de reconhecimento recíproco das cartas de condução ser concluído.

Mas, no meio disto tudo, o que impressiona é a escala do que está a ser feito. O mesmo, apesar do Governo chinês não se mostrar muito aberto acerca dos detalhes, tem aparecido na internet. Recentemente surgiu no «Youtube» um vídeo promocional do projecto da ilha que impressiona até os mais cépticos pela sua abrangência e magnitude.

A apresentação, feita pela empresa Silkroad, onde se vê o real tamanho de Henqin (três vezes o de Macau e a maior ilha de toda a região de Zhuhai), refere o número de habitantes que, dos actuais cerca de três mil, passará, em 2020, para mais de 280 mil!

Na promoção do projecto mostram-se diversas zonas como a Universidade de Macau e o Chime-Long Internacional Ocean Resort – um arrojado projecto global que tem como objectivo final, de acordo com a unidade do Conselho de Estado responsável, o Henqin Overall Development Plan, tornar-se num espaço inteligente, aberto e amigo do ambiente de referência no Delta do Rio das Pérolas.

Dividida em três zonas específicas, Zona de Lazer e Turismo, Zona de Ensino Científico e R&D e Zona Comercial, a ilha tem vários projectos em andamento e, até 2012, irá ter, de acordo com o Município de Zhuhai, grande parte da estrutura rodoviária pronta, onde se incluirão vias principais e secundárias, uma via rápida, uma circular exterior, aterros e jardins. Nessa altura, estará também pronto o sistema de transporte sob terra e mar, incluindo o Metro Cantão-Zhuhai e a extensão da auto-estrada do Oeste Cantão-Zhuhai.

Sendo Henqin uma ilha, como não poderia deixar de ser, o lado marítimo não foi descurado. E, apesar de, no projecto, não se avançar nada em concreto no que diz respeito a marinas e estruturas de apoio à náutica de recreio, no vídeo promocional é dada um grande ênfase a esse aspecto, sendo possível distinguir, pelo menos, duas enormes marinas, uma ligada à zona residencial e outra ligada à zona de lazer, que irá abranger toda a área a sul e este da ilha, onde agora estão o Tianhu Natural Scenic Area, o Hengqincun Ecoligical Park e o Sea Paradise.

Além das marinas, parecer haver uma malha de canais de navegação, possivelmente baseado no que actualmente existe na ilha. Quem conhece a ilha sabe que a zona mais baixa é atravessada por milhares de canais e lagos de criação de peixes, caranguejos e ostras.

Como tudo o que diz respeito a projectos na China, os pormenores não são todos conhecidos e as alterações são constantes, pelo que relativamente à existência ou não de estruturas de náutica de recreio vamos ter de esperar, até que as autoridades se decidam em publicar mais informação e o projecto esteja concluído.

Na verdade, seria de todo positivo que a náutica de recreio fosse levada em consideração neste mega-projecto. A localização é ideal e serviria uma vasta zona, vindo colmatar uma das grandes lacunas de Macau e deste ponto do Delta do Rio das Pérolas.

Com a conclusão da construção da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau em 2016, a ilha de Hengqin passará a ser a demonstração dinâmica da estreita cooperação entre Guangdong, Hong Kong e Macau.

Henqin foi denominada, há três ou quatro anos, pelo Governo Central, como zona de demonstração da cooperação inovadora entre a província de Guangdong, Hong Kong e Macau, sob o princípio «Um país, dois sistemas».

As obras de construção avançam a um ritmo avassalador, como em todos os projectos na China.

Em Macau, como não temos mais para onde crescer e não queremos mais aterros, esperamos que este projecto da Ilha da Montanha venha restituir a qualidade de vida que tínhamos há bem pouco tempo. Só falta que nos deixem ali residir como se fosse parte do nosso território.

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Cônsul veta exposição

ESPERO que não me considerem tendencioso depois de lerem estas linhas, mas não posso deixar de vir a público repudiar algo que se ficou a saber recentemente.

Sou amigo do principal visado há mais de uma década e, por acaso, ambos colaboramos com O CLARIM. No entanto, não foram estas afinidades que me fizeram escrever este artigo.

Fiquei indignado quando soube que a exposição de fotografias do Joaquim Magalhães de Castro, sobre a sua viagem de 40 dias a bordo do Navio Escola Sagres (entre Goa e Lisboa), fora cancelada pelo nosso mui excelentíssimo cônsul de Portugal na Região Administrativa Especial de Macau. Indignado, mas não surpreendido, visto que não é a primeira vez que decisões pouco claras partem do nosso consulado neste torrão de terra, a que muitos portugueses «expatriados» chamam casa.

Durante a minha vida em Macau acompanhei todos os cônsules que por aqui passaram e, sinceramente, este tem sido rico em surpresas amargas. O serviço do consulado é o que é, com queixas de todos os quadrantes. Mas, mais grave do que isso, a arrogância toma contornos pouco dignos de um representante do Governo de Portugal, que está em Macau para servir os portugueses, quando afirma que não tem de dar justificações sobre os gastos feitos pelo Consulado.

Na entrevista acerca do cancelamento da exposição, publicada na edição do Hoje Macau do passado dia 27 de Junho, o digníssimo cônsul alega que não tem de «dar explicações sobre como gasta o dinheiro do Estado!».

Como residente de Macau, mas, acima de tudo, enquanto cidadão português, custa-me a acreditar que assim seja. Aliás, como cidadão português tenho o direito de perguntar ao meu Governo sobre os destinos dos impostos que pagamos. Se há direito que temos é o de saber onde o Consulado «mete» o dinheiro que vem de Portugal. Afinal, trata-se do erário público. Ou será que os consulados portugueses têm carta-branca para fazerem o que quiserem sem darem contas a ninguém? Não me parece!

Dos cônsules que por aqui passaram sempre houve queixas, no entanto, nunca o mal-estar foi tão grande como agora. Possivelmente chegou o momento de Portugal pensar numa ronda de rotatividade extraordinária.

Não sou eu apenas que me queixo. A indignação chega mesmo aos portugueses de etnia chinesa. Basta, por exemplo, escutar de manhã o canal chinês da Rádio Macau, para se ouvirem queixas sobre o serviço do consulado e sobre a forma como as pessoas são tratados. Queixas que, como sabemos, já chegaram à Assembleia Legislativa, pela voz de um dos deputados da RAEM (aqui o Cônsul fez o que devia, isto é, não respondeu porque nada tem a ver com o que se passa na AL).

Sobre o serviço prestado no consulado, já uma vez citei uma queixa apresentada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em Portugal, por falta de educação e arrogância de um funcionário consular. Pelo que sei, dessa queixa ficou a intenção e a resposta das instâncias responsáveis, dizendo apenas que iriam acompanhar o caso. Até hoje a situação mantém-se aos olhos de todos.

Não me digam que sou apenas eu a queixar-me, porque as vozes ouvem-se de vários quadrantes e cada vez mais pessoas evitam, a todo o custo, usar os serviços do consulado.

Acredito que o corpo de funcionários, tirando um ou outro colaborador, é de boa qualidade e feito de pessoas dedicadas e com boa vontade. Contudo, a liderança nada parece fazer para passar uma imagem de dinâmica e de empenho em melhorar o serviço.

Este incidente, que ainda há-de fazer correr muita tinta, pois há muitos detalhes por explicar, foi ainda mais agudizado pela falta da presença do cônsul no lançamento oficial do livro de Joaquim Magalhães de Castro, em Julho, na Livraria Portuguesa, intitulado «No Mundo das Maravilhas».

Há muito que perdi as esperanças relativamente à nossa representação diplomática em Macau. Se anteriormente nos queixávamos que a presença era pouco sentida, hoje penso que nem isso se nota. Basta-nos esperar que quem vier na próxima rodada seja mais sensível a estes problemas e que ouça toda a população e não apenas uma parte.

Quanto ao Joaquim, espero que a sua iniciativa vá avante com o Instituto Internacional de Macau (IIM) e, à laia de sugestão, aconselho-o a contactar a Embaixada de Portugal em Banguecoque. Pode ser que ainda seja incluída nas comemorações dos 500 Anos da Presença Diplomática Portuguesa na Tailândia.

Estou certo que tanto o anterior embaixador e querido amigo, António de Faria e Maya, como o actual representante de Portugal, o embaixador Jorge Torres Pereira, irão gostar da iniciativa e serão sensíveis ao projecto.

Espero que os contactos que entretanto foram feitos para o Ministério dos Negócios Estrangeiros e para a Marinha Portuguesa surtam os efeitos necessários, porque em Macau precisamos que nos representem e que apoiem as iniciativas que possam trazer prestígio à imagem de Portugal. Afinal temos uma história de vários séculos marcada por relações de amizade e de boa convivência.

Sinceramente não consigo compreender como é que uma exposição pode ser encarada como acendalha para uma crise diplomática. Principalmente quando a sua não vinda a Macau em nada prejudicou as relações entre Portugal e a China.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Taxistas sem vergonha!

Hoje escrevo uma carta aberta ao senhor director da Associação Geral dos Comerciantes de Trânsito e de Transporte de Macau.

PELO nome da associação que Vossa Excelência dirige percebemos porque é que os serviços que nos obrigam a pagar são de tão baixa qualidade. Afinal de contas, trata-se de uma colectividade dedicada ao comércio! Ora eu que pensava serem os táxis um serviço de transporte público!

Por outro lado, estou completamente de acordo e apoio as vossas reivindicações. De facto, com o desenvolvimento social de Macau e o aumento do custo de vida, considero sensato e compreensível o aumento de 8,6 por cento das tarifas. Afinal, os membros da Associação prestam um serviço que prima, essencialmente, pela qualidade e primazia do direito do utente!

Concordo, e assino por baixo, na reivindicação do aumento da bandeirada de 13 para 14 patacas. Afinal, os primeiros 1500 metros são os que mais custam a percorrer, tendo em conta a qualidade de comunicação que os associados apresentam, especialmente na língua inglesa! Isto para já não falar na segunda língua oficial de Macau que, se bem se lembram, é o Português! É que os associados parece nem sequer saberem de tal existência, pois nem os nomes dos locais turísticos sabem na segunda língua oficial (nem na inglesa, já que falamos de línguas «estrangeiras», como lhe chamava um dia destes um dirigente governativo).

Como não poderia deixar de ser, concordo e apoio também a vossa reivindicação para reduzir a distância da bandeirada para 1500 metros (além do aumento de 1 pataca). Afinal, acaba por ser um número mais redondo, facilitando os acertos no final da corrida porque, por incrível que pareça, há uma grande falta de moedas de 50 avos no mercado e os taxistas parece nunca terem troco. Como compreendo essa vossa dificuldade!

Justificam esta proposta de aumentos com o preço galopante dos combustíveis e dos seguros dos veículos e da manutenção.

Sinceramente não percebo o lapso. Eu teria optado por justificar de forma a que não fosse possível contrapor.

É verdade que os combustíveis têm aumentado de preço ultimamente; mas não se trata de uma aumento para toda a população? Ou será apenas para os taxistas! É verdade que os seguros também aumentaram (mas não em 40 por cento) e também admito que o preço dos mecânicos esteja mais elevado. No entanto, não consigo perceber onde gastam dinheiro com a manutenção, se os táxis andam sempre a cair aos bocados e o seu estado de conservação é lastimável!

Considerando-me eu um cidadão responsável e sensível aos problemas sociais, nomeadamente aos dos seus associados, não poderia deixar de apoiar esta nobre causa. Tenho, no entanto, algumas condições a impor, para o meu total apoio:

– Primeiro, gostaria que os seus associados frequentassem cursos de etiqueta e boa educação, visto que na sua maioria andam sempre mal dispostos, um pouco à semelhança de quem é obrigado a trabalhar à segunda-feira!

– Segundo, gostaria que os seus associados, cada vez que obrigam o utente a pagar as sobretaxas de bagagem, se dignassem a sair do veículo para a colocar e retirar do porta-bagagem. Afinal, se o cliente paga, tem direito ao serviço…

– Terceiro, gostaria que explicasse aos seus colegas que o pagamento de taxa extra só se aplica nos trajectos com partida no aeroporto. Os que têm como destino o mesmo local não são taxados…

– Quarto, gostaria que, para a aprovação das benesses que Vossa Excelência propõe, os seus associados fossem obrigados a fazer um novo exame de condução para renovação das licenças.

E visto que Macau gosta de pedir conselhos ao exterior, aconselhava os senhores da Direcção dos Serviços dos Assuntos de Tráfego a irem contratar dois examinadores da congénere da sua associação, em Londres. Assim, visto que os taxistas de Londres são considerados os mais profissionais de todo o mundo, ficaria mais descansado quanto à qualidade de quem se senta atrás do volante de um táxi em Macau.

Sabe Vossa Excelência que o exame para taxista em Londres é quase considerado como diploma de ensino superior, devido à sua complexidade e exigência?

– Quinto, gostaria que os seus associados, de uma vez por todas, fossem obrigados a falar, no mínimo, Inglês básico. É que uma boa parte dos turistas que nos visitam não falam chinês. E, além do Inglês básico, que aprendam o nome dos locais também em Português, porque, como referi e Vossa Excelência deve saber, Macau tem os nomes dos locais nas duas línguas oficiais.

– Sexto, renovem a frota automóvel e obriguem os condutores a apresentarem-se limpos e a cheirar bem. Proíbam-nos de fumar nas horas de serviço e obriguem-nos a ter uma postura profissional, nem que para isso tenham de os despedir e contratar outros que passem num exame de boas maneiras e de boa educação. Além do de condução, claro!

Se a sua Associação e associados forem capazes de satisfazer estas minhas condições, prometo que, antes de Setembro, ou seja, quando forem aprovadas as vossas reivindicações, voltarei a escrever, tecendo largos elogios à vossa classe e aos serviços que prestam diariamente!

Os taxistas têm todas as razões para estarem insatisfeitos e pedirem revisões das tarifas. Mas quem vos paga o serviço tem mais razões para se queixar daquilo que recebe em troca. É que, como é do conhecimento público, o serviço prestado pelos taxistas de Macau é uma vergonha (para não usar um palavrão que poderá ferir algumas susceptibilidades!) e nem merecem aquilo que hoje em dia cobram.

Pedir ao Governo que permita um aumento da bandeirada e da tarifa em quase 40 por cento é uma afronta a todos os residentes de Macau e aos turistas que nos visitam ao longo do ano. É preciso não ter qualquer escrúpulo ou vergonha na cara!!!

Será que nós poderíamos também exigir, a quem nos paga o salário, um aumento, para fazer face ao aumento dos táxis?

sábado, 11 de junho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Macao Water abandona o Português

NÃO sei há quanto tempo a entrevista foi publicada, – penso que em 2007, – mas ainda me lembro do nome Philippe Wind, visto que falava Português na perfeição. Recordo que tinha afirmado que a companhia que dirigia estava empenhada em manter a língua portuguesa, porque era uma das línguas oficiais de Macau e porque havia razões históricas para tal; além de que ele próprio a falava e considerava que era de primordial importância a sua manutenção, tanto para a Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau, como para a própria Região Administrativa Especial de Macau, servindo, além de outros fins, de factor diferenciador. Daí que todos os esforços estariam a ser feitos para que a língua se mantivesse em todos os aspectos organizacionais e nos contactos com os clientes. Referiu-me que seriam afectados novos fundos para contratação de pessoas que dominassem as duas línguas oficiais e estariam a ser feitos contactos para resolver o problema das traduções. Apesar das dificuldades de recrutamento de mão-de-obra especializada, que já nessa altura se sentia, garantiu-me que o objectivo era para cumprir.

Foram palavras que na altura caíram bem no seio da comunidade portuguesa, num período em que se notava um cada vez maior desleixo na preservação da segunda língua oficial do território por parte de várias entidades, incluindo o Governo.

Nessa entrevista, o então director executivo da Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau, explicava a mudança de nome para Macao Water, dizendo que se tratava apenas de uma questão de «marketing» e que tudo o resto se mantinha em Português, nomeadamente toda a documentação institucional, apoio ao cliente, etc. «Como disse, temos toda a documentação necessária em Português».

Crente como era, acreditei nas suas boas intenções e dei grande destaque a essa promessa. A verdade é que, passados alguns anos, a Macao Water parece ter esquecido, por completo, a língua portuguesa e as promessas do francês Philippe Wind.

Num recente incidente no prédio onde vivo, houve necessidade de deslocação de uma equipa da companhia para verificar o estado dos contadores e tubagens. Após a dita inspecção, o funcionário, que não falava uma palavra de Português e quase nada de Inglês, deixou dois formulários afixados na parede. Quanto à descrição feita no documento, sobre a situação, fora feita apenas em Chinês, pelo facto do funcionário não dominar suficientemente a língua inglesa para o escrever.

Estes documentos datam de Março de 2011. Quando os vi pela primeira vez, apenas me lembrei das palavras do então director executivo da SAAM (Philippe Wind), visto que deparei com um documento da empresa em Chinês e Inglês. O que teria acontecido ao Português e às promessas do antigo director executivo? Será que a nova equipa se esqueceu de respeitar algo que um antecessor tinha defendido?

Como não consegui entender o que se estava redigido (à mão, e em Chinês) resolvi contactar a empresa, aproveitando também para pedir explicações acerca do desaparecimento do Português. A indignação foi enviada por correio electrónico, em Português e Inglês, tendo recebido uma resposta, apenas em Inglês, no dia 20 de Maio, prometendo que iriam ter em atenção a minha chamada e que o caso estava a ser acompanhado! Numa tradução livre: «Vamos tratar deste assunto seriamente e estamos já a acompanhar o problema, sendo que a emissão do aviso em Português será feita assim que possível». De Março a Maio não foi possível encontrar quem fizesse uma tradução! E terminavam a reposta com um enigmático «esperamos conseguir providenciar o serviço que você espera receber da nossa empresa».

Este artigo é publicado hoje, 10 de Junho, um dia simbólico para a língua portuguesa, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas e, até à data, ainda não recebi qualquer reparo da Macao Water, nem os avisos afixados foram modificados.

É uma completa falta de respeito pela comunidade e pela língua portuguesa. Tal como a promessa de Phillipe Wind,também a da Macao Water, pelo seu departamento de Relações Públicas, ficou por cumprir. «Vamos tratar deste assunto seriamente e estamos já a acompanhar o problema, sendo que a emissão do aviso em Português será feita assim que possível», diziam então. Parece que ainda não foi possível…

terça-feira, 7 de junho de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Elevador insalubre

AGORA que o tempo quente parece ter chegado para ficar em Macau, gostaria de chamar a atenção do leitor para uma falha que se arrasta, há alguns anos, sem que ninguém faça nada para a rectificar e que afecta grande número de pessoas. E para piorar ainda mais a situação, muitas delas são debilitadas e doentes. Por isso, as queixas conhecidas têm sido poucas.

Esta resignação pode muito bem ser um sinal de que os cidadãos deixaram de ter esperança de ver o Governo resolver os problemas. Por mim, espero estar enganado e que quem nos dirige ouça os apelos de quem precisa e leve em conta as críticas construtivas que vão sendo feitas na Imprensa.

Quem se desloca ao hospital público para consultas e não tem a sorte de ter condutor que o deixe à porta das instalações, certamente já terá usado o acesso pelo elevador existente na Rua Nova à Guia. Se bem que esse equipamento para levar as pessoas para a zona das urgências e para o piso principal do Centro Hospitalar Conde de São Januário tenha trazido grandes benefícios, não se pode deixar de apontar o que está mal.

Quem por ali passa já se terá deparado com a falta de civismo, tanto de quem sai do elevador, como de quem espera pela sua vez para entrar. O espaço é exíguo, dificultando a circulação das pessoas, quando estas não têm o mínimo de respeito pelo seu semelhante. Se a fila de espera não for feita ordeiramente e junto à parede (mesmo encostada), quem sai do elevador não tem outra opção que não seja ir de encontro a quem espera pela sua vez para entrar, originando-se uma confusão tremenda entre quem sai e quem entra num corredor onde não cabem mais que duas pessoas lado a lado. A situação piora quando se trata de pessoas em cadeiras de rodas.

Quanto à educação cívica, o Governo pouco mais poderá fazer do que esperar que a mentalidade das pessoas em Macau mude, tornando-se mais civilizadas, visto que não será muito provável aumentar a largura do corredor, por contingências físicas do local. No entanto, existem outros pontos que podem e devem ser melhorados.

Quem ali se desloca, infelizmente, não o faz por gosto. O simples facto de ter de ir ao hospital é suficiente para deixar uma pessoa insatisfeita e de humor pouco propício a sorrisos. E, se a juntar à realidade de ter de se deslocar à consulta ainda for obrigada a ter de enfrentar a falta de edução dos outros e a falta de condições das instalações, é natural que tenha pouca paciência para aturar abusos.

De Verão esse conjunto de factores conta ainda com mais uma agravante que pode deitar por terra o utente mais bem-disposto: o calor. Em todo o corredor não existe um único ar condicionado a funcionar, de modo a atenuar a temperatura. Apesar de existir uma ventoinha (apenas uma no final do corredor) e uma cortina de ar (que nunca vi funcionar e que pelo pó acumulado deixa adivinhar que está inactiva há muito tempo), isto de pouco vale quando a temperatura ultrapassa os 25 graus e se juntam dezenas de pessoas num espaço exíguo que apenas tem uma saída/entrada de ar fresco.

É comum ver pessoas a transpirar imenso e usar todos os meios ao seu alcance para fazerem face ao extremo desconforto que sentem.

O Governo deve ter este aspecto em atenção e tentar encontrar uma solução para o problema. A simples instalação de um sistema de ventilação e de ar condicionado no local pode ser suficiente para melhorar, substancialmente, as condições.

Outro dos aspectos a melhorar é o da ordem das filas de entrada e saída. Sei que aqui conta muito a educação e civismo de cada um; no entanto, as autoridades podem colocar fitas separadoras e mesmo funcionários, durante alguns meses, para indicar às pessoas para que mantenham a ordem da fila.

Paralelamente a estas iniciativas, podem também colocar, nas duas línguas oficiais, e também em Inglês, painéis educativos sobre a forma correcta de se comportarem enquanto esperam pelo elevador.

A falta de Português

Estando a falar de um acesso ao hospital, não quero deixar passar a oportunidade para referir que o desrespeito pelo artigo 9 da Lei Básica continua a ser regra no Centro Hospitalar Conde de São Januário, já que o uso de Português continua a ser desrespeitado diariamente, sem que ninguém faça nada para mudar a situação.

A informação disponibilizada pelos corredores do hospital está, maioritariamente, em Chinês e Inglês. Há diversos cartazes relativos a doenças e seminários que apenas apresentam informação em Chinês, esquecendo completamente a segunda língua oficial de Macau. No elevador citado anteriormente a informação sonora é apenas em Chinês (cantonense) e Inglês.

Nas urgências a informação disponibilizada ao público está, na sua grande parte, em Chinês e Inglês, sendo o Português tratado como língua marginal. E no tratamento com os doentes a situação repete-se, não havendo qualquer clínico no serviço de urgências que faça o atendimento em Português.

Esta situação não se irá resolver com a contratação de duas dezenas de médicos a Portugal. É um problema que merece outro tipo de abordagem mais profunda.

Antigamente existia um ponto nos requisitos para entrar na Função Pública, sendo exigido ao candidato um mínimo de conhecimento das duas línguas oficiais. Penso, por isso, que actualmente, para certas posições nos Serviços de Saúde, tal deveria ser ainda exigido. Julgo até que do facto deveria ser dado conhecimento a Pequim e talvez assim se resolvesse o impasse.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Macau desfigurado

A FRENTE marítima de Macau vai mudar radicalmente nos próximos anos. O projecto de consulta está em andamento e, apesar de ter sido divulgado, tanto localmente como no exterior, parece ser completamente desconhecido. Em Macau poucas pessoas estão a par dos planos do Governo nesta área e as acções de divulgação têm sido pouco esclarecedoras.

Dividido em zonas A, B, C e D, o plano engloba intervenções tanto na frente de Macau, como na da ilha da Taipa, alterando toda a zona ribeirinha entre as três pontes.

Dos pontos referidos, o que certamente terá mais impacto é o da zona A, aquela que já está a ser construída, de raiz, junto à zona da Rotunda da Pérola, perto da fronteira das Portas do Cerco. É também nessa zona que vai ficar localizada a entrada em Macau da Mega-ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai.

Para proceder a tais aterros, o Executivo da Praia Grande pediu autorização ao Governo Central para construir entre a Ponte da Amizade e Gongbei. Só estas duas «ilhas» vão fazer o território crescer exponencialmente (cerca de 25%).

Estes projectos, em conjunto com outras intervenções de carácter paisagístico urbano, foram apresentados em Novembro de 2010 durante uma sessão aberta ao público e, de tempos a tempos, vão sendo anunciados mais avanços. No entanto, como em muitos outros assuntos que se registam em Macau, pouca ou nenhuma atenção suscitou na população ou nas regiões vizinhas.

Nos documentos públicos é claro que a face marítima de Macau irá sofrer enormes alterações, logo a começar pelo lado direito do território, para quem chega por via marítima. Os aterros nessa zona chegam quase à zona do canal de navegação dos barcos vindos de Hong Kong.

Como todos os projectos apresentados pelos Governos, este também foi elaborado para que dê a imagem de que traz imenso valor acrescentado. Prometem corredores verdes, interligações entre zonas novas e velhas, valorização do património histórico, etc.

Começamos a ficar pouco crédulos naquilo que nos prometem. Os exemplos de maus tratos do património são mais que muitos. Quem não se lembra, por exemplo, de ver o Farol da Guia de todos os ângulos de Macau? Nos últimos cinco anos foram capazes de reduzir a sua visibilidade a apenas dois locais: o Tap Seac e a Praça Flor de Lótus.

Macau sempre foi uma cidade marítima e que sempre viveu virada para a água; contudo, as intervenções e políticas dos últimos anos viraram as costas por completo a esta herança. Actualmente, a RAEM não tem qualquer tipo de estratégia que privilegie o seu passado histórico-marítimo nem o seu potencial neste sector.

As pescas são quase inexistentes e o sector da náutica de lazer é apenas uma sombra daquilo que era antes de 1999. Basta olhar para o Porto Interior e ver em que estado está. Admiro-me como é que ainda por ali se navega e como é que as taínhas ainda sobrevivem!

Em Macau há apenas uma marina, apesar dos constantes apelos do sector para que outras possam ser construídas, pois só assim podem apostar no desenvolvimento de um mercado de valor acrescentado que pode trazer mais turistas de qualidade ao território.

Há um exemplo flagrante de investimento privado que acabou por ser um elefante branco. A Doca dos Pescadores, com efeito, tem também uma «marina»; no entanto, o empresário promotor do empreendimento, sabendo da impossibilidade de obter a licença de utilização da mesma, devido a situar-se dentro da área de navegação dos «jetfoils», decidiu deixá-la por terminar. Um local nobre ribeirinho deixado ao abandono, apenas porque o Governo não clarifica o que vai fazer, de uma vez por todas, com o Terminal Marítimo do Porto Exterior.

Quem ande mais atento lembra-se certamente de que o grupo de Stanley Ho tinha apresentado, há alguns anos, um enorme projecto chamado «Oceanus», constituído por um hotel que iria ocupar parte da zona onde se encontrava o antigo centro comercial «New Yaohan», cruzando a Avenida da Amizade para o local onde se encontrava o antigo casino «Palace» e mesmo a zona do terminal dos «jetfoils». Tal projecto teve de ser metido na gaveta, já que não houve clarificação acerca da posição do Governo relativamente ao Terminal Marítimo do Porto Exterior. O «Oceanus» nasceu mas com outra fisionomia…

Com as intervenções anunciadas na orla marítima de Macau teme-se que venha a alterar-se por completo a linha de visão do território. Apesar do Governo ter promovido vários encontros para discutir este assunto, os especialistas do território defendem que uma intervenção desta envergadura não pode ser feita de ânimo leve e que deve ser criada uma equipa multidisciplinar para abordar, no plano técnico, todos os pontos.

De acordo com engenheiros e arquitectos, perguntar à população em geral o que pensa e deseja para os novos aterros não é a solução ideal, porque o comum dos cidadãos muito dificilmente estará preparado para analisar este tipo de informação.

Como em muitos outros assuntos, o Governo não deu qualquer atenção às críticas do sector e avançou como sempre tinha planeado.

Esperamos, pois, que uma intervenção humana desta envergadura na fisionomia marítima de Macau, em conjunto com o impacto da mega-ponte, não traga mais influências negativas para a qualidade de vida das pessoas da RAEM.

sábado, 21 de maio de 2011

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Cultura e identidade que se perde

O QUE se pode esperar do futuro de uma terra que deixa morrer as suas tradições, em detrimento de um comercialismo desenfreado?

Ao longo dos anos, nos mais variados locais, vamos assistindo a um completo desrespeito pelos usos e costumes e um completo desleixo na sua preservação. Por exemplo, quem se lembra ainda da tradicional apanha do sargaço que sustentava imensas famílias no norte litoral português e que era base de uma economia de subsistência? Ou quem se lembra de uma outra tradição de cariz mais popular, em que, no Dia das Bruxas (agora chamam-lhe «Halloween») se andava de porta em porta a pedir o «Pão por Deus»? Actualmente, as crianças, por influência americana, dizem «Doçura ou Travessura» e nada sabem da tradição secular desse dia na Europa.

Macau, infelizmente, não foge à regra. Nos últimos dez anos, com o acelerado desenvolvimento da indústria do jogo e tudo o que a ele ficou associado, a sociedade tem evoluído num sentido que nem sempre é o mais indicado. Ainda me lembro que na década de noventa não precisávamos de fechar os carros à chave ou de estar receosos de que nos assaltassem na rua. Essas alterações de hábitos levam a que hoje não possamos deixar de estar preocupados com a cidade que deixamos para as gerações vindouras.

As tradições nesta terra desaparecem pouco a pouco, sem que ninguém se mostre muito interessado em mantê-las. Quem fazia por as registar e lutava para que não caíssem no esquecimento vai, a pouco e pouco, também desaparecendo. O exemplo do macaense Leonel Barros, falecido recentemente, é disso ilustrativo. Restam-nos os registos escritos, que agora urge preservar, pois se tal não acontecer, perderemos até a memória colectiva.

Na comunidade chinesa local há também pessoas que se dedicam à recolha e preservação das tradições. Pessoas que, anonimamente, vão tentando fazer com que as suas vivências não morram e não caiam no esquecimento desta sociedade cada vez mais «pseudo-desenvolvida». Esses trabalhos merecem e devem ser publicados nas duas línguas oficiais para conhecimento de todos. Um trabalho que cabe, por inerência de funções, ao Instituto Cultural. Conhecendo Guilherme Ung Vai Meng e sabendo do seu apreço por estas tradições, penso que muito será feito durante o seu mandato.

Só uma comunidade informada acerca de tudo, mas mesmo tudo o que a caracteriza, pode manter o seu traço original e diferenciar-se de outras que a rodeiam. Não consigo perceber como pode um povo desenvolver-se, quando não procura preservar as suas tradições. Uma terra sem passado não pode ser uma terra com um futuro brilhante.

As modernidades podem trazer, no imediato, benesses e bem-estar, mas daqui a uma ou duas gerações vamos perder valores, sem ter qualquer forma de os recuperar. Valores que, como qualquer outra forma enraizada de definição do traço característico de uma sociedade, estão intrinsecamente relacionados com as tradições, os viveres e o que de mais popular uma sociedade pode ter.

Não preservar essas características únicas é o primeiro passo para ser assimilado por completo, perdendo-se a identidade. Macau, se não houver uma protecção deste traço que liga a cultura chinesa (oriental) e a portuguesa (ocidental), passará a ser apenas um subúrbio de Zhuhai, sem qualquer característica própria, com excepção dos casinos e das apostas legais.

Actualmente, onde quer que nos desloquemos no território, vemos novos empreendimentos turísticos e habitacionais, que apenas trazem características importadas. O exemplo mais flagrante, embora não o pior, é o «Venetian», que nada tem a ver com Macau. O casino-hotel da «Wynn» afina pelo mesmo diapasão, nada introduzindo no campo da preservação ou inovação no conceito de encontro de culturas, próprio de Macau.

As modernices, no entanto, não são todas negativas e mesmo o «Venetian» e o «Wynn» têm os seus pontos positivos. Trouxeram algo de novo ao território, é verdade, mas poderiam ter evitado trazer cópias e ter optado por criar algo que honrasse a história cultural deste pequeno espaço.

O próprio Governo pouco tem feito nesse sentido. Os últimos grandes empreendimentos levados a cabo nada trouxeram de novo. A ponte Sai Van e o «Dome» em pouco (para não dizer nada) vieram enaltecer o encontro de culturas!

Ao referir-me a construções físicas, não posso esquecer também outros sectores da cultura. É de todos sabido que não existe, oficialmente, um manual de História de Macau que seja aceite por todos os sectores da sociedade e seja «imposto» pelos Serviços de Educação às escolas locais. Sem este pilar básico, como se pode ensinar às crianças que devem preservar a cultura dos seus antepassados?

Fico perplexo, quando falo com jovens profissionais nascidos em Macau e estes não me conseguem explicar a razão de ser de Macau, as suas origens e história. Muitos nem sequer sabem qual a razão da língua portuguesa ser uma das línguas oficiais e de 20 de Dezembro comemorar o retorno de Macau à soberania chinesa!

Numa terra assim, algo vai mal no âmbito de preservação cultural e de ensino da história local.

NaE's kitchen A Cozinha da NaE

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